a gente tem quase sempre um medo sobrenatural do fim, do abandono, do corte, do rompimento. eu sei, eu sei. é difícil mesmo. por isso, a gente é capaz de fazer cada coisa e na maioria das vezes não vale tão a pena assim, mas a gente continua, se espreme aqui, cala acolá, sorrir nervosa, engole triste, deseja dormir por três meses e morrer no próximo final de semana. a gente tem tanto medo do fim que nem pensa direito, que nem raciocina. a gente tem tanto medo do fim às vezes que age que nem bicho para defender a cria. vale a pena? quase sempre não. mas é só mais tarde que a gente percebe, aceita ou concorda com isso. e o mais tarde chega em momentos diferentes para cada um, tem gente que leva dias, outros semanas, eu precisei de uns dois anos. e para quê, né? a gente não vai ocupar o mesmo espaço na vida de alguém para sempre, não vai, não vai. semana passada uma menina que não via há tempos mandou mensagem e a gente deixou de se falar ainda antes do isolamento, da pandemia, das minhas mechas coloridas. uma deixou de falar com a outra por motivos diferentes, pensei depois que conversamos. meu melhor amigo voltou a falar comigo no mesmo passo em que voltei a falar com ele, mas não é mais como foi um dia, é diferente. a gente tá diferente, e desejo do fundo do coração que estejamos melhores.
a gente se mata para caber num espaço, para ter um status, para dizer que na vida de fulano a gente foi tal, que na de ciclano ocupou tal espaço, que com a menina de cabelo curto cê dormiu e por aquele cara de barba você prometeu o mundo. e fica nisso, girando nessa roda que não vela a lugar nenhum, que gira e faz barulho, porque além de tudo ela é velha e barulhenta.
as coisas findam. o sol se põe bonito muitas vezes, a lua é linda cheia, mas ela também míngua. é natural irem embora. é bom quando se descobre um caminho mais curto para casa, né? é legal ouvir um novo disco de uma nova banda, é divertido sorrir para estranhos, conversar com desconhecidos, beijar na boca de quem nem deu tempo de perguntar o nome mas mesmo assim, gostou do jeito. permita a si e ao outro de partirem. permita a si viver em paz após fins de relacionamentos, amizades, parceiras. permita que o outro viva em paz com o que escolheu ser, seguir, tornar-se. permita-se viver em paz com as partidas, os cortes, os rompimentos. quase nunca é abandono, mas se chegar a ser, permita-se também viver em paz com e apesar disso.
se há dois anos eu soubesse tudo que sei agora, eu seria muito melhor e além do que sou hoje. não teve quem me avisasse, mas hoje eu sei, tá tudo bem as coisas findarem. às vezes o melhor a gente só vai descobrir mais tarde, mais velha, menos ranzinza e mais aberta.