Ao olhá-lo, sinto-me como Basil frente à mais perfeita criação de Deus. O conjunto que o forma é algo esplendoroso, nenhum detalhe lhe cai mal.
Seus olhos, sempre atentos, perspicazes, carregados de tristeza e pesar. Havia neles uma culpa irreal, injusta de ser sentida.
Traziam, eles, um mistério indecifrável e, essa dor, dava àquela cor a beleza de serem contemplados por horas a fio, mesmo que por uma imagem estática do outro lado de uma tela.
Seu nariz adequa-se a todo o restante, num quadro maravilhoso, nem pequeno e nem grande, na medida certa, na proporção exata.
Seus cabelos de um loiro escuro, trazem um cinza de fim de tarde nublado e chuvoso. Seu brilho remete ao dos raios sol quando tocam as pedras do mais límpido riacho. Lisos de forma que pedem para serem tocados. Ah... Adoraria poder tocá-los.
Seu maxilar não é quadrado e tão pouco afunilado, possui ele, uma falha de nascença, que dá todo o charme ao seu queixo encimado por seus lábios carnudos e convidativos, delineados, perfeitamente esculpidos: parte superior levemente mais fina que a inferior. Nunca os vi sorrir, talvez esse belo espécime não tenha, ultimamente, motivos para tal feito.
Olho-o, admiro-o e me sinto presa a ele numa espiral infinita, dando voltas e voltas e sempre parando no mesmo lugar: ELE!
Se Basil existisse, certamente o pintaria com muito mais afinco, avivamento e motivação. Henry não conseguiria, nem de longe, persuadi-lo, dissuadi-lo, mudá-lo.
A criação divina dotada de toda a perfeição e que permeia dia e noite meus pensamentos ainda presos ao movimentos literário romântico em sua segunda fase.
Quisera eu, morrer de amor como o jovem Werther, ou qualquer outra personagem dos livros que tanto odeio e agora imito, por estar presa a um amor platônico que existe somente no mundo das ideias.
Tentei perder-me em outros olhos também claros, belas e carnudas bocas, queixos, narizes e cabelos... Mas só você faz com que me sinta assim.
Como ocorreu a Basil, ocorre-me ter-te como inspiração, objeto de meus anseios, de modo que só sei escrever sobre ti, meu caro, meu amado, meu nunca tido, meu e somente meu, Dorian.