"Contam os ipanemitas o seguinte: numa noite, um juiz de Israel percorria os arredores de Jerusalém numa biga puxada por dois cavalos vermelhos, todos fortes. Quando se aproximava de um dos portões da cidade, foi o juiz parado por um destacamento. ‘Identifica-te, ó estranho. Teu passo é duro. Andas errado da visão? Ou tropeças no juízo? Por acaso misturaste bebida forte?’. ‘Sou um juiz de Israel, e a nenhum aquém da minha investidura digo Amém’. ‘Sopra esta bexiga de carneiro, para que saibamos se tu ousaste entrar na cidade encharcado de vinho’. ‘Nada mais digo’, afirmou o juiz. ‘Deixa então teu carro e teus cavalos neste posto. Assim não ferirás a ninguém em tua marcha’. ‘Só me dirijo aos meus. Se quereis ouvir minha voz, se quereis a graça de meu sopro, trazei a mim um homem da minha estatura’. Uma integrante do destacamento respondeu deste modo: ‘Juiz não é Deus’. Ao ouvir aquilo, o juiz viu-se atacado da ira, e houve altercação. Dias mais tarde, foi a tal mulher levada às cortes, onde ordenaram a ela o pagamento de setenta ovelhas, como reparação. Na praça, imperou o tumulto. Mandaram chamar aí outros juízes, de forma a apascentar o povo. Os juízes revisaram os procedimentos, releram os manuscritos, e anunciaram: ‘Aquela mulher desafiou a um juiz de Israel, um homem como nós. Deve ela pagar pela transgressão, para que aprendam todos’. Um profeta gritou na hora: ‘Soberba! Os senhores querem tomar o assento do Senhor’. Jerusalém não dormiu.”
Genial















