"Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos."
Jean Paul Sartre
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"Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos."
Jean Paul Sartre
Diálogo interno- Noite de queima em Porto Portugal
Duas da manhã. A neblina alcoólica que paira sobre a estação de metro de Trindade no centro do Porto é contagiante. No entanto, após os meus pés assumirem a difícil tarefa de carregar todo o meu peso até a saída... Fiquei petrificado ao verificar que eles se detinham na saída principal onde havia um aglomerado de pessoas indignadas e cambaleantes. Os meus olhos pestanejantes e vislumbram o dífícil de acreditar. Era um batalhão de seguranças acompanhados de Polícias com a missão ridícula de verificar quem tinha bilhete de metro. Caso não acontecesse passaria a noite na esquadra. Os meus pés ainda tremelicaram por receio de ter comprado o bilhete errado mas facilmente comprovei que estava tudo em ordem legal! No entanto senti uma enorme indignação pelo tamanho da ignorância colectiva das autoridades. Este tipo de comportamentos leva a que todos nos sintamos indignados para além de provocar a enorme ira da população já por si em enormes dificuldades. Não posso deixar de fazer um paralelo com Estocolmo. Onde em alguns dias festivos abrem-se excepções e o metro é gratuito como no caso das festividades do fim de ano. Não entendo porque o país onde nasci e certamente tenho muita dificuldade em assumir como parte da minha identidade mas sim com uma identidade do passado insiste em políticas tão retrogadas e simplistas que só criam mais entraves à credibilização das forças públicas que nasceram para nos proteger ao invés de nos querer roubar! É obvio que todos temos o dever de cumprir as leis. No entanto seria aceitável que as próprias autoridades não procurassem o conflito direto com as populações já por si tão revoltadas com os dias que se vivem. Bom senso e sensibilidade é somente o que sinto que deveria existir.
O começo de nada em absoluto!
Gostaria de inaugurar este espaço com um filósofo Alemão que admiro e preservo na sua concepção de realidade temporal.
Algo que sempre me intrigou foi o facto de:
"povos aparentemente mais primitivos demonstrarem ser mais felizes que a sociedade ocidental contemporânea. Muitos se perguntaram como muitas pessoas que não têm nada ou quase nada podem ser mais bem- humoradas do que outras que trabalham para acumular todo tipo de bens" Nietzsche.
Após uma vivência pessoal, prolongada por alguns meses num território tão árido e tão hostil para a maioria da população. Senti que estes povos locais de facto preservam aspectos quotidianos que nós ocidentais já os esquecemos. Não somente o respeito pela natureza ao qual designam de "Pachamama"mas também nas raízes familiares aparentemente estruturadas e organizadas nas assembleias comunitárias. Onde os problemas da comunidade são inteiramente debatidos e onde há decisões contundentes que afectam a maioria das famílias. Ou seja o sentido de comunidade está presente inclusive nas tarefas agrícolas onde posteriormente serão repartidos os produtos por cada família.
Ora esta simples forma de vida leva-me a sublinhar o quanto estas pequenas comunidades não se sentem obrigadas a representar um "papel" tal como acontece nas cidades principalmente no ocidente onde estamos realmente preocupados com o que pensam de nós.
Ora, a minha conclusão, passados estes anos depois de meu primeiro contacto com estas populações tão incrivelmente mágicas desde um ponto de vista humano concluo que é totalmente errado tentar fundamentar que existe uma pobreza extrema como a maioria da imprensa classifica. Que estes povos são totalmente ignorantes. Que estes indigenas ou "cholos" são mal cheirosos não tomam banho e somente falam Quechua.
Aos olhos do comum jornalista estas são as observações geralmente mais destacadas e amplamente mais relatadas. No entanto, a minha percepção leva-me a concluir que se me incorporo numa perspectiva de um indígena os jornalistas e as pessoas das cidades são certamente as mais pobres as mais tristes e as mais necessitadas de felicidade e de sentimentos mais nobres outrora olvidados. Porque todos os bens materiais que consigam acumular ao largo de uma vida, o Indígena somente dirá que não estamos a viver nossas vidas. Mas, vidas de outras pessoas. Ou seja, que nos esquecemos totalmente de nós próprios. Muitos de nós não comandamos os nossos "barcos" Esse é um mal comum que se vive actualmente no ocidente. A tão conhecida crise moral que estamos a viver. E que nos levará certamente a um caminho de mudanças bruscas e forçadas e onde as bases culturais de tão simbólicos povos vão estar presentes nas decisões soberanas futuras.
Não que creia em verdades absolutas e certamente este será um processo gradual de mudança que no mais profundo inconsciente de cada um de nós anseia.