The good are never easy, the easy are never good | wereslut
O caso do livro era velho já, a biblioteca não tinha ele há éons, parara de ser vendido no próprio beco diagonal. Quase um caso de raridade. Poucos o possuíam e Carlotta custou para acha-lo, mas o fez em menos de quatro semanas e se impressionou quando Lupin dissera que o procurava há anos. Seis anos era muito tempo para alguém tão imediata quanto Carlotta, que quase desistira de procura-lo até achar um Hufflepuff com o livro passado de algumas gerações em sua família. Na verdade, a grifina mal se lembrava do nome do garoto-texugo, não lembrava nem de seu rosto e também não se importava em devolver aquele material raro. Pretendia deixa-lo devidamente guardado e falar em tom de veludo quando alguém cobrá-la um dia. “Contatos, pensei que um marauder também conseguisse tudo o que queria, já que vocês marauders conhecem bem Hogwie.” Comentou ao pegar o livro de volta. Pelo menos pessoas como James e Sirius conseguiam tudo que queriam com contatos, Carlotta não ficava de fora, o nível de influência dentro daquele castelo rendia boas recompensas. “Se precisar emprestado depois, eu não me importo. Já li boa parte mesmo, ajuda bastante.” Sorriu docemente para o garoto, o sorriso clássico que deixara vários garotos aos seus pés. “Quero dizer, eu nunca serei boa como Lily ou Snape em poções, porém é interessante.” Olhou para o livro e depois novamente para Lupin quando se lembrou de algo. “Quero dizer, vai ter que esperar… a Aury me mataria se eu o emprestasse antes de passar pelas mãos dela.” Carlotta conhecia bem o sis code e Aurora era sua melhor amiga. Não deixaria a outra de lado para atender a um garoto que ela estava interessada.
Após ter feito sua pergunta, tomou a pena em mãos e fingiu estar tão interessada em seu trabalho no pergaminho quanto em Remus. Mas ouvia tudo com interesse. Era difícil mesmo reconhecer os cheiros, associá-los a alguém e Carlotta já leu sobre uma mulher que apenas descobrira seu verdadeiro amor depois dos cinquenta anos e, os cheiros que viera da Amortentia sempre tinham sido daquele com quem se casara quando velha. Se havia uma poção que considerava intrigante, com certeza era aquela. Colocava no papel alguns detalhes sobre a história que pesquisara anteriormente, começando o texto com sua letra cursiva e bonita que encantava Slughorn assim como seu modo de pedir desculpas depois de fazer algo errado no caldeirão. “Poção curadora e o cheiro de algo que parece ser o pó que inalamos quando passamos por entre aquelas prateleiras de livros velhos nessa biblioteca.” Deu de ombros, excluindo a terceira opção e rindo da pergunta alheia. “Improvável que eu não acredite no amor, Remus, eu sou a pessoa que mais acredita no amor nesse colégio inteiro.” Afirmou. Realmente o garoto não lhe conhecia nem um pouco, no entanto apenas pessoas próximas reconheciam aquelas opiniões divagantes de Carlotta. “Mas acredito que o amor seja algo mais transcendental que a própria magia.” Posicionou a pena que não usava no tinteiro com suporte e observou o outro com um olhar brilhante, de alguém que se convencera de suas próprias palavras e de opinião forte.
“Por achar o amor algo mais transcendental, por falta de uma palavra melhor, não acredito que ele possa ser distinguido por uma poção. É como a ciência para os trouxas, mesmo aquelas ciências da cabeça não conseguem ser certeiras sobre os pensamentos. Alguém pode mudar de amores. O coração é algo em constante mudança, digo, o coração espiritual, aquele que bombeia pelos sentimentos.” Explicou-se com a chama que incendiava dentro de si, adorava falar sobre aquilo. Sobre o mundo que ninguém podia ver, mas que todos sentiam. Poderia ser até alguém como Brosey do sexto ano que falava tanto sobre seus cientistas de cabeça, mas como uma garota que discutia sobre espiritualidade com amor. “Eu poderia perder a fé na magia, mas não no amor.” Terminou e voltou a pegar a pena para continuar o trabalho que estava fazendo.
Carlotta era decidida. Remus protelava. Carlotta acreditava no amor. Remus duvidava que algum dia fosse capaz de se permitir amar alguém da forma romântica. Carlotta era graciosa. Remus era desastrado e vivia machucado. Dizem que opostos se atraem, e nada poderia ser mais oposto que Carlotta Meloni e Remus Lupin.
O garoto ainda estava embasbacado por Lotta ter o livro que ele procurava por anos, ali na sua frente, e ter conseguido em tão pouco tempo. Era bem verdade que ele tinha contatos por ser um Maroto e conheciam Hogwarts como ninguém – afinal, os seis anos e alguns meses no Castelo como animagos serviram bem para que pudessem descobrir e mapear (literalmente) cada uma das passagens secretas e salas. Talvez fosse um mapa até mais completo que o próprio Dumbledore tinha em seu gabinete. Mas havia algo, um sabor a mais, em conseguir aquele dito livro sozinho, como se fosse sua vitória pessoal. Bem, ele havia perdido. Para Carlotta Meloni. “Conhecemos bem, mas James e Sirius têm mais contatos do que eu, digamos.” Tirou o olhar fixo do livro, temendo que Carlotta o achasse mais estranho do que de fato ele já era por estar tão fixado assim em um título. “Também provavelmente não vou ser tão bom como eles, mas nós, mortais, temos que depender de livros diferentes e não do dom, né? O dom que não temos.” Levantou novamente os olhos do pergaminho em que escrevia, justamente em tempo para ver o sorriso doce nos lábios de Lotta.
(Você não admite, Remus, mas seu coração pulou uma batida ali)
Pigarreou, temendo que tivesse deixado a influência daquele sorriso dela muito na cara e enfiou novamente a cara entre os livros e os pergaminhos, acenando positivamente com a cabeça quando mencionou Aurora. (Você deveria ter prestado atenção nessa parte, Lupin, mas não prestou. Mas deixemos o futuro para o futuro).
Quando achou que tinha novamente as reações de seu corpo sob controle, e só naquele momento, Remus voltou a olhá-la enquanto descrevia os cheiros de Amortentia. Aquilo era algo tão íntimo, poucos amigos seus sabiam do que Remus sentia. De alguma forma, aquela intimidade com Meloni parecia estar indo rápido demais, mas também parecia certa. “Eu ouvi que os cheiros da poção nunca mudam, mas que, às vezes, com o passar dos anos, algum cheiro entra a mais na sua lista. Talvez o cheiro do homem da sua vida não esteja aí ainda. Ou talvez o universo esteja... confuso. Ainda. Não sei.” Estava falando demais, concluiu. O que a gryffindor fazia ou não fazia, com quantos garotos se envolvia, nada disso lhe dizia respeito, nem era seu lugar julgá-la. “Sua visão faz muito sentido, Carlotta. Acredito nisso que o coração mude, que temos escolha sobre o nosso próprio futuro, mas não sei. Ao mesmo tempo acho que a magia é tão poderosa ao ponto de saber com quem vamos terminar antes mesmo que nós saibamos. Quer dizer, temos clarividentes, predição de futuro por outros métodos, não dizendo que funcionam, por que não uma poção não poderia saber o amor da sua vida?”
Lupin não falava muito de amor. Correção, Lupin não falava de amor. E aquela conversa ficaria na história para a posterioridade como a única vez em que o lobisomem expusera suas ideias. Sua Amortentia não tinha nada de muito diferente, e duvidava que o futuro tivesse lhe reservado alguém que aceitasse o pacote completo que atendia por nome de Remus John Lupin.














