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WILLY POGÁNY Hand to the Stars
O grito que habita o silêncio
Vivemos cercados de sons artificiais. Ping de mensagens, alarmes de lembretes, sons de curtidas, toques de chamadas — uma sinfonia moderna que preenche nossos dias com uma promessa constante de conexão. Mas, paradoxalmente, nunca estivemos tão sós. É no intervalo entre uma notificação e outra que o silêncio grita mais alto.
O silêncio de uma tela que não pisca. De uma mensagem que não chega. De uma presença que se ausenta mesmo estando online. Vivemos em redes que prometem laços, mas entregam fios soltos — frágeis, voláteis, facilmente rompidos com um deslizar de dedo.
A solidão na era das notificações não é a mesma de outros tempos. Ela não se parece com o abandono físico, mas com a ausência emocional no meio da hiperconexão. Estamos todos acessíveis, mas poucos realmente disponíveis. Falamos muito, ouvimos pouco. Compartilhamos tudo, mas quase nunca o essencial.
Nos habituamos a medir nossa existência pelo eco que ela gera nas redes. Uma foto não curtida fere. Um “visto” não respondido vira fantasma. Uma ausência prolongada vira angústia. O silêncio, antes sinônimo de paz, hoje é ruído ensurdecedor. Porque ele revela o vazio que tentamos esconder atrás das telas.
É como estar preso em um quarto lotado de vozes que falam demais, mas não dizem nada. Um lugar onde o toque virou reação, e a presença virou status. Onde tudo é imediato, mas nada é profundo. Onde quanto mais se tenta ser visto, mais se sente invisível.
No fundo, o que resta é esse incômodo constante. Uma lacuna que não se nomeia, mas se sente o tempo todo. É existir entre notificações — esperando suprir esta ânsia tão voraz por pertencimento.
cárcere
mundo em que vivo sem sentido, inferno crucio e tão atro
cenas de hostilidade nos dias nefastos
cessai os gritos, curvai o corpo calado mergulhai no próprio íntimo, olvida teu fardo explora o âmago em vida mundo dos réus e das sinas onde tudo é embargo
altruísmo indeciso, me pesa a cruz mas eu sigo
servo do bem entre gritos sempre tão bem camuflados
sensação de solidão, atos brutais são inatos
ninguém nem sabe o que é amor, traços de ódio herdados
de geração pra geração
em uma ou outra multidão há sempre um ser arruinado
é triste ter que envelhecer num deprimente cenário
onde o termo evolução só existe no dicionário
quanto tempo mais teria que permanecer calado?
à volta há só infelicidade e é quase insustentável
ter que enxergar futilidade por todos os lados
tendo ciência da existência de milhões de barracos
quando será que enxergarão que somos feitos de escravos?
reféns da fome, frio e do constante descaso
carente povo promissor vivendo marginalizado
por uma ideia obsoleta com raízes no passado
juíz o homem; Deus: delírio, desvario
devo rezar à Ele crente de que fui abandonado?
cerrai os cílios, curvai o corpo calado
mergulhai no infinito e olvida teu fardo
pois só na prece se suporta o peso e gosto tão amargos
de ser oferta pro demônio e seus tantos soldados
e ter que estar submetido à uma vida sem sentido
peço socorro eu que agonizo por viver encarcerado
Mundo tirano, cosmo austero, homem bruto
A sós eu devo me curvar? Olho pra mim, me vejo mudo
Sons abafados, vida rasa, véu soturno
Na voz da morte ao me chamar há sempre o mesmo tom de insulto
Se põe a rir ao divagar tão satisfeita em meu sepulcro
Me envolvem os fios desta mortalha
São tantas falhas, brindo ao luto
Mesmo com a dor e o meu pesar, um gole seco ao deus injusto
Já que jamais irei rezar e quanto à isso não discuto
Pois quantas vezes pereci dentro do corpo que sepulto?
E reergui-me, tolo, em vão, sem direção e sem refúgio
Sem saber ao certo o ponto em que falhei no meu percurso
de pés descalços, tão cansado, fardo duro:
na inditosa vastidão deste tumulto
Nada há de ser sagrado senão os vermes no meu túmulo.
Quando se está machucado demais a mente cria mecanismos para auto defesa e, tudo que tente chegar e ser intimo, parecerá suspeito. É como se fossem armaduras e armas projetadas para se defender e atacar qualquer aproximação. No entanto, o que passa despercebido é que, na medida em que você se defende, esse arsenal, que teoricamente deveria ajudar, também fere a si mesmo.
Carteou
Untitled (Mary Frank and children with sparklers) - Robert Frank, 1958
Solitude
na vida sempre fui sozinha visito lares, dobro esquinas reflito em vão: onde estão as companhias? no deserto das cidades há sempre um ou outro alarde hão de ser delírios! e ainda que eu os cale voltam sempre a assombrar. no trajeto ou mesmo bares, é lamentável a vaidade e os corpos vagos se singrassem buscando o riso ou outros ares encontrariam algum contraste? nunca há cores em meio ao cinza, mas talvez disparidades. não sei se é uma saída se há alguma alternativa pois invade a solitude e já não sei viver sem ela, mesmo sendo um pouco rude. parte do solo já mirrado, convivo em paz com o azedume sendo assim, bailemos! pois ao aprender que todo rio segue seu rumo tenho em mente que às vezes as solidões se esbarram em meio ao percurso.
Longevidade
a amargura clama espaço
absortos olhos refletem o estrago
escasso vínculo banalizado
na cidade os muros, poesia e asfalto
todos ilustram o engradado
compõe, alheios, a minha prisão
ainda assim, por ironia,
me põe no eixo a poesia
busco enterrar nas entrelinhas
um pranto aflito e a agonia
de saber que é curta a vida
e dela pouco ser permitido desfrutar.
mas que faço se nasço com sede do mundo?
curto a vida que é curta e ao passo que correm os ponteiros se encurta ainda mais?
me instalo num canto e lá canto à angústia?
nesta imundície de constante peças teatrais
penso em dar voz aos meus silêncios.
abanco o corpo no solo e lanço ao vento a prenúncia:
a gente morre e não vê tudo.
Se sofro hoje é por não amares à todas as rosas
Cinzento céu me encobre hoje
amanhã talvez não mais
o ontem perde-se no tempo
um brinde à erva e ao relento
à estiagem e meus tormentos
que me trouxeram até aqui.
Mesmo tendo envelhecido um par de anos
não sei bem por onde ando
após dobrar aquela esquina, quantas outras hão, portanto,
de cruzar o meu caminho?
Como saber o momento exato em que partimos?
Qual a razão de existirem os pulmões com que respiro?
Sinto-me frustrado! O que há por trás de tudo isso?
E não mencione o deus onírico, pois seja real ou seja mito, desacredito no intangível
não creio em Deus, no céu ou Cristo
talvez da fé não seja digno…
No futuro, quem sabe eu largue o ceticismo
desconsidere o suicídio
ao ouvir de outras bocas um “eu te amo” sem motivo.
Mundo tirano, cosmo austero, homem bruto
A sós eu devo me curvar? Olho pra mim, me vejo mudo
Sons abafados, vida rasa, véu soturno
Na voz da morte ao me chamar há sempre o mesmo tom de insulto
Se põe a rir ao divagar tão satisfeita em meu sepulcro
Me envolvem os fios desta mortalha
São tantas falhas, brindo ao luto
Mesmo com a dor e o meu pesar, um gole seco ao deus injusto
Já que jamais irei rezar e quanto à isso não discuto
Pois quantas vezes pereci dentro do corpo que sepulto?
E reergui-me, tolo, em vão, sem direção e sem refúgio
Sem saber ao certo o ponto em que falhei no meu percurso
de pés descalços, tão cansado, fardo duro:
na inditosa vastidão deste tumulto
Nada há de ser sagrado senão os vermes no meu túmulo.
positivo, é aquilo que anseio ser a positividade é a lareira que eu adoraria que as mãos da minha atitude se agasalhassem num tempo infinito mas a ausência da minha positividade é espontaneamente saliente, quando sinto que outras pessoas necessitam quando consiste somente, no meu eu singular consigo só alcançar o seu gémeo maléfico aquele que está sempre deitado saudando de estilo subtractivo a maneira que os meus sentimentos assistem as coisas.
“I found out I was in love with you, winter before last,” she said. “I wasn’t going to say anything about it because - well, you know. If you felt anything like that for me, you’d have known I did. But it wasn’t both of us. So there was no good in it. But then, when you told us you’re leaving… At first I thought, all the more reason to say nothing. But then I thought, that wouldn’t be fair. To me, partly. Love has a right to be spoken. And you have a right to know that somebody loves you. That somebody has loved you, could love you. We all need to know that. Maybe it’s what we need most.”
- A Fisherman of the inland sea, Ursula K. Leguin
em mim, a vida arde mais.
Amor não é só paz É loucura também.