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Memorial
Pra falar a verdade eu já sabia, quer dizer, já imaginava sem ninguém adiantar que você tinha essas estrias na bunda que elas apareceram depois do estirão. Gosto muito quando passo meus dedos de levinho, olhos fechados sinto as texturas diferentes, terra nova, relevo novo. Parece um pouco com a textura ao lado do seu olho, tem uma ruga muito profunda que fica mesmo quando não sorri. Digo sério que gosto. Esses dias também fiquei reparando que quando você tá sozinha me esperando e atraso você fica falando consigo mesma brigando comigo sem mim enquanto olha pro céu, eu acho bonito. Que nem o fato que você descasca o esmalte dos pés mas da mão não, reparei quando você deixou o sofá de casa cheio de púrpura.
Ainda lembro do dia em que nos falamos pela primeira vez, foi numa festa. Você veio toda feliz disse que tinha lido um texto meu num site antigo e ficou tocada, não sabia o que dizer fiquei parada, boba, sem saber bem e então você só sentou sacou o celular e mostrou o texto. Era meu mesmo. Sobre camas e colchões. Me contou que se chamava Elis e adorava a Regina. Claro que com isso não quero dizer nada que sim agora não é mais claro. Teve uma casa, uns anos e uns desacertos. Mas você ainda gosta de fruta dura e arroz solto. Não há justificativa nenhuma pra quem se vai longe da vista e muito menos em época tão pacífica. Lembro que tinha umas cicatrizes cumpridas que coçavam em dias estressantes e eu brincava dizia que pareciam tão antigas quanto as estrias, de outro tempo. Lá no fundo sei que você ria mesmo quando envergava o olho pro chão e emudecia. Época de palavras desencontradas me dizia e que eu tinha umas maneiras bobas sérias.
Ainda lembro de você, Elis, rindo sozinha pro teto naquele colchão virado. Você sempre estancou os olhos pro céu, no fim.
Fevereiro de 2017: uma quase crônica
Hoje é o dia. O dia em que uma garrafa de vinho se foi em menos de uma hora, o dia em que esqueci de mudar o teclado de español argentino para português brasileiro e, portanto, o programa que não está alcoolizado faz a mudança por mim. Também é o dia em que percebo que as maiores mudanças são feitas em silêncio e as maiores humilhações também. Percebo com muita sinceridade que engordei três quilos que se concentram de forma muito específica de modo a serem perceptíveis, mas isso não me irrita, apenas me faz notar como mudei e como gosto de como estou. Vejo ainda meus seios mais redondos, os mamilos alegres, a bunda com celulite sim, grande, branca, gloriosa, as coxas grossas, o sorriso largo (embora agora meio perdido) e os olhos esverdeados me fitando melancólicos. Houve um tempo em que me encarar frente ao espelho era amedrontador, mas hoje noto apenas uma grande admiração como se de repente me visse, perplexa contemplando uma desconhecida, Que faria amor, sexo, que treparia... como queira. Tinha desejo pelo reflexo, mas não de modo ... e sim estranhamente. Me via e não reconhecia. A dádiva de um tempo que passava e devorada minha subjetividade. Hoje é o dia em que descobri que meu vibrador quebrou, quer dizer, somente a parte importante, a que agrada ao clitóris. Uma pena. Hoje é o dia em que penso que para amar há de se perder o medo da morte. Borboleta delirante pensa-se tartaruga enquanto o tempo lhe come os anos. E vejo a tevê cheia de pessoas cheias de nada e me pergunto o quanto eu mesma não sou a apresentadora do programa, a moça do tempo, o cara do programa sensacionalista, ora dando ibope pros meus problemas e ora disfarçando tudo atrás de um belo e sensual sorriso. Ai ai ai... como agora, eu falo sem parar pra não dizer que quero ir, quero partir novamente e me lembro daquele livro que fala de solidão, irmãs mortas e baleias que choram em que diz que quem quer partir uma parte já se foi. Quero dizer que adoraria chorar e ter ranho escorrendo do meu nariz mas estou seca feito meio vinho. Estou rindo, ao contrário, conversando, ao contrário, e mandando mensagens, ao contrário. Mas, ei, não se engane, de certa forma estou feliz, a luz está estonteante embora o país golpeado e as ruas cinzas, embora em SP reste pouco amor e muitos copos cheios. Minha barriga não dói, somente minha cabeça, então não posso reclamar, sem ironias. Mesmo. O que eu posso estar sofrendo não tem a ver com cores, governo, fome, política, sociedade... exceto por ter tudo a ver. Sou uma grande mulher metralhada bem no meio da buceta adormercida que se senta cada manhã se perguntando se foi apenas um sonho, que ouve homens surdos e mulheres caladas e se pergunta quando é que vem as lágrimas da baleia que enchem o que se chama de oceano e fico nos suspiros, no desalento, mas sem resmungar muito, somente cumprindo meu papel de puta doce que bebe vinho seco, tequila pura, quer dar mas tem que pintar a dama sofredora, no lar. A lua está linda mesmo, a propósito, céu aberto, cinza profundo...
Sofro de sonhos. A casa tinha uma curta escada pra chegar na porta, quatro degraus nos quais nos sentávamos nos dias de noite quente para comer fruta após a janta.Três cômodos e algumas paredes tinham mofo. O chão tinha um piso vermelho que parecia barro e meus pés sempre estavam sujos ele, no começo, brigava comigo para usar chinelos - cuidado canceriano - mas depois pegou minha mania e nos deitávamos pés sujos entrelaçados no sofá. Nosso portão era pequeno porque a vila era pequena e segura. Turística. Ele trabalhava com fotografia e eu dava aulas de dança. No fim da tarde fazíamos amor nos últimos raios do dia.
Depois, quando chegou a massa cinza na cidade tudo se entempestou. A menina de câmera e sorriso solto se instalou como uma nuvem pesada e ele me deu um guarda-chuva o qual ele não dividiu comigo,disse que sentia falta de se banhar na chuva, de se sentir criança. Noite após noite os sapatos molhados ao chegar em casa e as caminhadas para fotografar não ocupavam o cartão de memória, a luz estava ruim, dizia. Achava que talvez o resfriado o houvesse feito voltar a usar chinelos em casa e sua graça estar sempre distante.
Foi numa noite de carambola na escada em que ela passou e o olhar dele fixou que percebi, ouvi. e me atirei com o vento.
A tempestade me levou os livros, a paz, as noites, quentes, os últimos raios do dia, a fruta na escada, os pés descalços dele. Achei que as nuvens se encaminhariam para outro lugar então, mas ao invés disso se instalaram sob meu teto que, então já não era meu. O mofo vai crescer, pensei.
Desperto.
Noite calma
A dúvida de quando é que vai fazer aquele calor gostoso. Coloco em riste o indicador e traço espirais no ar imitando seus cabelos, fico só na tentativa. Nunca é fácil recriar de olho, assim, as coisas que a gente vê de muito perto. Pula uma linha, letra maiúscula, pê ésse dois pontos o amor deixa a gente besta.
O tempo tá de chuva, não sei se reparou. Decidi botar ordem numas coisas, prioridade em outras. Decidi isso depois de ver que as árvores estão dando amoras e pintando o chão de preto, porque a gente nunca sabe quando. Fiquei ensimesmada também querendo achar sentido no jeito dele, querendo achar sentido da minha cabeça funcionar tão rápido e estar sempre tão cheia de coisas também sem nunca pifar, deve ser por isso que ando cansada. Ontem peguei aquele caderno que enrola a linha pra fechar e escrevi várias coisas vamos ver se assim funciona, ao menos durante um tempo, pra diminuir as crises. Taí, percebi que sou uma crise ambulante, vivo em crise desde a menarca, depois disso percebi que tava sozinha... Muita coisa muda quando você percebe que sangrar não é algo tão grave e que ninguém te ajuda a limpar. Mas é diferente, depois que você sangra induzida, é diferente, depois que você se torna mulher e ainda por cima esburacada nem o trovão na boca da janela te faz assustar. Vou encontrar ainda alguma paz de espírito na torção de tronco, nas quedas e inversões, principalmente no pé grosso roçando o chão sujo.
Cede
Para Amós Kres
A sede me preenche em cada eco seu, a cada vulto de seu toque, basta o rastro de saliva intentar secar em meus poros e, novamente, um quê de boca seca, a garganta fechando, as narinas atentas, os olhos sedentos então. A mão esgueira-se no ar num simples gesto de súplica, quem sabe pelo gozo final, o regozijo infinito de sentir na ponta dos dedos e na palma entregue o espesso suor cultivado em longas horas no rego tímido. E o fio que vaza de suas axilas vem verter em meus joelhos firmemente postos nos ilíacos salientes, enquanto brota da raiz de meus cabelos bem ali no meio da testa as gotículas que vão se esfumaçando sob seu toque de alento.
Penso-me como uma tela de velhos e novos suores, nossos e tua cara, se veste de uma sombra ensurdecedora que cega os lábios que vão se entreabrindo para então amaciar os meus e então mastigar, repuxar, deslizar... Molha-me e inunda meu corpo não com teu mar, mas com suas perversões e intenções, afoga-me até as coxas dentro de ti e entra dedo por dedo até meu âmago. Não se deixe repuxar as entranhas facilmente quando a clavícula se erguer pulsando ao ritmo de sua saliva, renda-se somente em meu último sôfrego suspiro aquele em que os cílios se convulsionam e o grito entala vazando rouco, num rugido e então num miado.
Pureza
Dia de sol após longas semanas de sôfregos chuviscos e só não sabe quem não quer: o corpo sua mais do que soa. Ainda assim o café quente e o pão com queijo na chapa e no caminho até a geladeira novamente pisa numa poça de água fria – calafrio –, terceiro dia seguido já, pensa, e pega um pano pra limpar o chão... talvez seja da pia ou tenha derrubado na noite anterior em uma das viagens até a cozinha nas madrugadas perturbadas, embora isso não importe muito é melhor prestar atenção pode ser problema na casa, vai saber. Em primeira pessoa digo que, em minha defesa, no breu as coisas perdem a margem.
Janelas do quarto escancaradas, a gente toda desce a ladeira, peito arfante. Despe-se com o bafo quente lhe assando a carne e abaixa para pegar a bermuda e a regata – brancas – ao se colocar de pé e estender os braços nota numa obra à frente, pela janela, o olhar de medusa. Os orbes inflam e o músculo murcha, sente um formigamento entre as coxas, medusa acaricia a cabeleira e peça por peça, centímetro por centímetro se veste paralisada e passo atrás quase em seu pé acerta um jorro de luz. Janela, porta, zíper, boca, pernas, abertas, repara então de onde acabara de sair o lençol da cama empapado de suor e um pequeno quadrado preto sob a cama, enfim, explode um suspiro
.
O entardecer: tempo que compreende o entre. Pequena obsessão, é nele que sucedem os atos definidores, como a chuva de verão que vem certeira e define se haverá enchentes e trânsito ou somente a rua molhada, como o sol que pesa do topo do céu e vai caindo derrubando a massa pesada de calor e define se cabe uma cerveja no boteco da esquina ou enfrentar a multidão comprimida dos ônibus, metrôs e trem. É no entre que definimos o que esperar e o que planejar. Como a conversa das quatro que define o que será da noite, mesmo antes da quinta já estava definido, no momento que batemos os olhos um no do outro e com isso não estou contando uma história de romance, mas sim uma de fatos, pois quando se vive no entre, em suspenso, qualquer sinal é facilmente percebido. O alto-mar: território do entre.
Taciturno me fitava
Na primeira noite em que vi os óculos escorregarem
Entendi que a massa confusa de seus cachos repousados em minha barriga
seriam um suspiro guardado na boca do estômago
Como era possível, me diga você
construir um mundo único de memórias intemporais em corpos de pedra
e mesmo assim termos palavras escorregadias?
Maldição de primeiro de abril.
Um chaminé
Outro exaustor
Dupla função
Engolir profissional
Uma vez pensada a palavra brota em qualquer boca
Mas pra quem nunca teve o direito de pensar
a palavra é expiro inspirador
Se por um lado a caneta exita
o trago direto do filtro
escreve reto por linhas tortas
Pela mão aberta pescou o lírio azulado. Pela boca pressionada um chão descalço. Pela sombrancelha caída duas orbes grandes. Dois olhos grandes que veem muito mas não acham nada. Se houvesse essa coisa de redenção diria que nem mesmo a parte que senta se safaria da tal condenação, tomara que o porta-retrato de família seja perdoado, amem.
Danação
Vejo o cão sentado no meio da rua e no meio da noite, olhando a porta do bar que há muito está em cochilo profundo. Me pergunto se ele sabe. O asfalto frio lhe serve de apoio, o ar assopra os sons que põem suas orelhas sempre em alerta e acredito que talvez não se importe muito por não saber sobre dignidade e muito menos do tal orgulho que nós aqui de longe estamos sempre a ostentar, pois bem. Ela veste longas barras verdes num pano de fundo azul metálico que geralmente é tirado por cima, sua moldura também é azul – embora desbotado – os olhos se pudesse vê-los diria ser de um negro profundo pois tudo, até mesmo as construções tem olhos para nos vermos. Principalmente os carros, mas isso é outra história. Se bem que no alto do tempo que ocorre este caso tudo estivesse mesmo era tingido de preto – talvez fosse esse o assombro magnífico do cão que via seus olhos no mundo todo e só mirasse o epicentro – ele tinha muita espera ainda e se contentava assim com a imobilidade do momento, sem se importar muito que ela, fria e dormente estivesse tão ocupada em conjecturas chulas da ordem dos acontecimentos de acordo com a claridade que dita os ponteiros. Fico com a impressão que talvez por serem mais cálidos, mornos e esperançosos o preto de seus olhos podiam quase projetar-se esparramando pelo chão cada anseio que lhe ocorria ali, sentado no meio da rua, enquanto ela tão altiva em seu lugar posto mal podia deixar-se olhar, somente o cão danado como estava se atrevia a ter coragem. Passaram então duas pessoas com o medo metido entre os passos e portanto caminhando muito mais do que depressa, até mesmo contra os ventos porém sem nunca se chocarem com o cão ou a porta ou o bar apenas com o silêncio que pairava. Queria muito saber a história que ali se passava, se planejava ficar a noite toda ou se apenas precisava de algo que ela guardava sob seu sono, mas dado o véu que banhava o círculo de seus olhares entendi que em momento de espera não se pode meter o verbo. Confesso que pelo alto das horas não consegui me estender muito nas observações além da janela e mesmo que tenha tentado pontualmente lhes velar em sonho pude somente ver através desta outra um par de orbes negras aprofundadas me ninando o sono e quando acordei, atônita procurando esperançosa o desfecho a porta do bar se encontrava aberta e clara mas o cão do olhar comprido já não estava mais lá.
(IV) Muros intensos E outros vazios, como furos. Muros enfermos E outros de luto Como o todo de mim Na tarde encarcerada Repensando muros. A alma separada de ti Vai conquistar a chaga de saltar.
Você entrou no trem E eu na estação Vendo um céu fugir Também não dava mais Para tentar Lhe convencer A não partir...
E dizia: não me deixe! Não me deixe, não! E me agarrava os cabelos, os seios, a bunda, me abraçava virando no avesso. Ficava quieta, deixava que seu corpo fosse (m)eu novamente. Não vou, não vou, me deixe aqui. Era um fôlego novo, ângulo novo. Nosso cheiro de novo. Me desfazia sobre seus dedos e o arco de meu peito se elevava a cada beijo encravado na pele. Como ir se só existe este quarto para nós? Quantas vezes mais, meu deus? Quantas e quantas nos deitaremos aqui e deixaremos entre cada suspiro uma lembrança do pranto passado? O meu amor não me eleva, não se eleva, mas me tira os panos, os danos, as tristezas e dores, o nosso... Como esquecer? Deixou o rastro de suas mãos para que seguisse nossos roteiros para sempre? Quero esquecer. Adeus, primeiro amor.
Madrugada de maio
A sensação de que a capa pode manchar minha alma. Ou melhor, carne. Quando será que as dúvidas se tornam norte? Às vezes corro em mim pensando que assim fujo. Outras somente pressinto que mesmo o fim está prestes a acabar. O que sei da ingenuidade estuprada é somente a dor de não ser nunca mais. Porém a orelha com a foto em preto e branco me suaviza: já não será mais esquecida. O pé nem sempre pisa até o fim, queria aproveitar mais. O jeito arredio de planejar a vida como se planeja uma saída. Não sou de falar, quero aprender a descuidar do outro porque dói feito um suspiro eterno esse esvaziar-se de si. Penso muito sobre quem é esquecido primeiro mas ainda mais sobre quem nunca esquece e acho toda essa conversa de depois talvez uma precaução desmedida, quanta bobagem! Bom mesmo é ser invocado por seu perfume pelo nariz alheio, ainda que me interesse muito a função de invisibilidade da multidão, dá muita saudade de ouvir aquela voz me chamar e, reconhecida, de repente todos me olharem.