Miguel Braga, Procissão Em Beiriz I Ritual, 1990

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Miguel Braga, Procissão Em Beiriz I Ritual, 1990
House L27 / DIONISO LAB
Photos © Fernando Guerra | FG+SG
O que é nacional é bom 👌 #tapetes #beiriz #portugal #carpet #rug (at Fábrica de Tapetes BEIRIZ)
Cede
Para Amós Kres
A sede me preenche em cada eco seu, a cada vulto de seu toque, basta o rastro de saliva intentar secar em meus poros e, novamente, um quê de boca seca, a garganta fechando, as narinas atentas, os olhos sedentos então. A mão esgueira-se no ar num simples gesto de súplica, quem sabe pelo gozo final, o regozijo infinito de sentir na ponta dos dedos e na palma entregue o espesso suor cultivado em longas horas no rego tímido. E o fio que vaza de suas axilas vem verter em meus joelhos firmemente postos nos ilíacos salientes, enquanto brota da raiz de meus cabelos bem ali no meio da testa as gotículas que vão se esfumaçando sob seu toque de alento.
Penso-me como uma tela de velhos e novos suores, nossos e tua cara, se veste de uma sombra ensurdecedora que cega os lábios que vão se entreabrindo para então amaciar os meus e então mastigar, repuxar, deslizar... Molha-me e inunda meu corpo não com teu mar, mas com suas perversões e intenções, afoga-me até as coxas dentro de ti e entra dedo por dedo até meu âmago. Não se deixe repuxar as entranhas facilmente quando a clavícula se erguer pulsando ao ritmo de sua saliva, renda-se somente em meu último sôfrego suspiro aquele em que os cílios se convulsionam e o grito entala vazando rouco, num rugido e então num miado.
Noite em Dia
“Deep in the cell of my heart I will feel so glad to go” (The Smiths, Asleep)
Viu quando começou a atravessar a rua mas só prestou atenção quando hesitou entre um passo e outro, no momento que seu olhar correu para ele e então voltou a caminhar da mesma forma, agora com o rosto fisgado pela curiosidade que o rosto do outro indagava. O acompanhou até sumir na esquina verde e relaxou se sentando para esperar o ônibus. Se sentia calma demais. Observava sem interesse, sem refletir, só por curiosidade.
A noite acabara há algumas horas finas e o vento frio desfiava seus fios mascarando o rosto desperto há tantas... Já não bebia mais, mas fumava pois gostava do gosto amargo na boca, do enjoo não. Lembrou então que havia conhecido semanas passadas um certo tipo alto, cabelos sebosos na altura do pescoço, olhos profundos e a pele daquela cor de susto; lábios finos quem sabe, lembrava apenas do corpo firme que tentou atravessar com a ponta dos dedos. Se sentiu enjoada aquela manhã quando acordou deitada com ele na cama de solteiro, o estômago embrulhado, corpo dolorido e o gosto de cerveja quente na boca. Ele acariciou seu rosto uma dezena de vezes e perguntou se queria água, no que respondeu que sim e bebeu devagar olhando o peito esquelético e o rosto bruxuleante no quarto que começava a clarear. A manhã foi lenta, a mesa barulhenta e ele não falava nada, eu bebia meu café do outro lado incomodada de alguém imitar meu silêncio.
Não se lembrava de ter visto ele rir uma única vez, mas sabia que tinha dentes tão pontudos quanto os dedos compridos que tragavam um cigarro atrás do outro. Mesmo assim o conteúdo das horas altas que passou junto dele remexiam ainda em algum lugar entre o baixo ventre e o fim das costelas móveis, enfim, não sabia bem mas o par de olhos pretos, porém opacos a fitavam, ou melhor seguiam medindo o ataque no menor sinal no canto de sua boca carnuda de mulher sisuda. Mal sabia ele que minha espera era sede.
Não me importava seu nome de RG, tampouco outro qualquer mas sim a dor que sentia por fora e o enjoo por dentro assim que posou gentilmente o lençol branco e me abraçou segurando a mão daquele jeito íntimo. Por isso o último número estava errado e só anotei o primeiro nome. A bile subia a cada toque matinal, o efeito da noite passara e só conseguia pensar na claridade de tudo naquele quarto estranho. Trancou a cisma no fundo do olho e se despediu desviando do beijo de nicotina.
Apagou o cigarro assim que acendeu, olhou uma última vez para a esquina para se certificar do engano. Embora a manhã fosse clara e fria e o vento agitasse a água nas orbes esverdeadas, não sentiu enjoo, só que de repente certo vulto na memória quase a despertou do estado débil de desinteresse pela vista. Sorriu repuxando o canto dos olhos e até sugeriu um aceno para o rapaz de cachos negros e logo se virou, lembrando que era melhor esperar o ônibus no ponto seguinte e andar um pouco. Esqueceu porque precisava ir embora rápido e junto o maço no banco do ponto em que estivera. Não deu pela falta no bolso de trás da calça, também não percebeu o leve aperto dentro de qualquer parte entre o umbigo e a primeira costela, tampouco o peso de algo quando virou meio hesitante a esquina verde, somente que a mente turva lhe nublava a calma.
Aquelas Palavras
“(…) Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora.” – A insustentável leveza do ser
"(...) o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão." –Cantiga infantil
E estava novamente sem saber o que fazer, ou melhor,como. Caminhara a tarde inteira pela longa avenida à procura de um livro que pudesse tornar vivas as memórias que há tanto guardara consigo mas que por medo reprimia amargamente afim de não ser traída por si em sã consciência. Por isso sentou-se e repousou o que mais parecia um amontoado de folhas em seu colo, deu uma boa olhada em cada pessoa que se juntava à multidão e então num suspiro contido pode se concentrar nas palavras que, sabia, apenas aflorariam suas angústias.
A verdade é que não sabia bem explicar aquela necessidade que sempre se apossava por completo dela a cada vez que se sentia esquecida. Superada. Sentia que se lembrasse efusivamente de cada detalhe da história ao menos ela manteria viva aquela garota de cabelos curtos que o havia afastado da fila extensa afim de tê-lo para si; sentia que somente assim não se perderia numa sacola de lixo junto de cada letra que escrevera para aqueles olhos negros. Sentia que jamais suportaria ser esquecida. Era por isso que se olhava bem no reflexo do vinho na taça, da cerveja no copo e da água na banheira antes de realizar a ação seguinte, para ter certeza que se reconhecia. E naquelas páginas sabia que ao ler o nome, que lhe fora reconhecido já mulher, poderia ter a esperança de estar viva em alguma parte dele também.
Tinha fome da história e devorava cada vírgula com a impressão que naquelas páginas encontraria o que procurava e a cada vez que o nome aparecia sentia um novo pulsar e seus olhos marejavam, de modo a ter um momento entre as demais pessoas. O movimento constante formava infinitos mosaicos entre as pernas e as vozes que dilatavam assuntos incompreensíveis formavam um mantra que a perturbava, esticava o pescoço de onde estava com a esperança que ao menos uma delas estaria parada e seria ela quem viria conversar sobre a leitura, perguntar o que fazia ali em dia de carnaval. Mas o mantra era claro e se pôs rapidamente em pé e saiu correndo atônita, como se a multidão pudesse prendê-la ali para sempre. Não sentia mais nada, somente o incomodo do livro em sua mão trêmula. Desde quando passara a ter medo de lembrar?
Embora os pés já doessem caminhou mais e sentou-se num canto de cimento já cuspindo a fumaça, pensando sobre como nos camuflamos para sobreviver. As palavras rodavam em sua cabeça. E se aquele amor realmente houvesse nascido de uma metáfora? Isso tornaria menos verdadeira cada eventualidade que os unira? Talvez ela mesma fosse agora uma metáfora, contada uma vez por Bandeira e outra por Kundera só não sabia se isso a tornava mais ou menos real. Nem mesmo se olhasse agora seu reflexo no café quente saberia responder e a angústia aumentava pois não sentia capaz de encontrar o como do que precisava fazer. A leitura não a norteara e tinha somente mais perguntas, talvez fosse um erro sórdido confundir-se com aquele nome e sua história e talvez fosse um erro também não querer ser apagada de outra que já fora escrita permanentemente. Sentia-se nervosa novamente e o vai-e-vem das pernas a deixava enjoada.
Agora era tarde. Embora houvesse devorado a história não sentia a empatia necessária com sua conclusão e talvez o enigma que criara perdurasse para sempre além daquela que ela mesma escrevera em seus dias e já se esquecia mesmo da angústia de manter-se só, embora escondida, entre corpos. Tinha somente um vazio que, via agora, não poderia ser suprido com uma auto-resposta: quem era a metáfora? Embora se lembrasse agora de cada detalhe do que viveram, recapitulava cada fato como uma profecia cantada que a guiava em direção ao leito de lençóis suados e ar abafado. Não se reconhecia no presente. Não se sabe, mas se sabia.
Sentia perdida novamente e não sabia como ser após do que havia sido e se estranhava em qualquer reflexo que lhe cruzasse o caminho. Poderia ela ser ainda o que fora? Tinha dificuldade em se reconhecer com os próprios olhos e por isso tomava emprestada a impressão alheia mesmo que a sentisse se perder no instante seguido. Nesses momentos banhava-se repetidamente era quando apagava as luzes e se dividia entre assistir seu corpo se desfazer ante seus olhos e ser refeito pelo toque. Nos últimos dias haviam sido cinco no mínimo. Não queria mais se lembrar.
Percebera que a dor em seus pés enquanto caminhava não era somente real, era viva e presente, diferente da outra que pairava como um fantasma que a perturbava a cada instante e prendia seus pensamentos em atos encerrados. Sabia ainda que ao tirar o sapato a dor diminuiria até cessar, mas que aquela somente seria retirada com a palavra que lhe fora negada. E esperava sem sapatos na multidão com o livro na mão.
Às vezes meu pensamento corre morno
E me ocorre que talvez seja essa pressa toda
Que me deixa besta
Meio lenta
-
Você diz Vem
E penso: Só mais um pouquinho
Talvez ano que vem o amor melhore
Mas nos olhamos e a cada vislumbre de palavra é uma mágoa preguiçosa
Se recusa a levantar e seguir o dia
-
Tenho um tipo de quentura no peito
Que não acaba nunca
Como um buraco que se abre no chão assim, do nada
Ele se dá e cresce todo absorvendo à quem se der
E assim vou feito véu perdido no tráfego
Nota segunda da Madrugada
Sonhei que o mundo tinha invertido a lógica Caminhávamos no céu observando a rua Que do alto brilhava em profusão e fazia um longo ruído durantes os dias Sonhei que a lógica tinha invertido o mundo Era monstruosa e você no fundo negro reluzia sob minhas mãos