Evangelho de Malditinha: Limbo
Este é um texto de 2019 que eu jurava já ter publicado aqui. É a minha contribuição para um livro que seria composto por uma série de contos sobre essa personagem/persona/drag chamada Malditinha
Acordo com a dor de ter os cabelos puxados com tal força que quase ergue todo meu corpo. Isso somado ao susto parecem ter ligado todo meu corpo de uma vez, que num desespero por novo fôlego, aspira sonoramente o máximo de ar que pode. Imediatamente, boca e narinas são invadidas por aquele fétido odor de enxofre presente no ambiente.
– Levanta! Levanta que eu não tenho o dia todo! - Uma voz rouca e castigada quebra o mórbido porém breve silêncio que nos rondava
Abro os olhos e vejo inicialmente uma luz fraca e turva à minha frente. Parecia que estava vendo através dum vidro na chuva. Depois de algumas piscadas e esfregadas nos olhos pude limpar as vistas e traduzir a imagem. Era uma senhora cheia de marcas em seu grande corpo. Algumas eram da idade, outras eram cicatrizes que remetiam a brigas. Tinha uma vela na mão, única fonte de luz naquele sinistro lugar onde ao invés de chão haviam corpos e mais corpos empilhados.
– Que? Quem? Onde eu tô? Quem é você?
Eu costumava gostar dessa parte de me apresentar, mas no tempo e no lugar em que estou não dá pra fazer pompa. Basta lhe dizer que sou Malditinha, Imperatriz da boca do lixo, senhora dos becos escuros e Rainha dos excluídos. E se você está aqui, significa que é uma das minhas crianças, e que chamou por mim na hora da necessidade.
Era estranho perceber que eu não me lembrava de nada que tinha acontecido antes desse momento, mas sentia que antes do encontro com a tal Malditinha estava em perigo de morte. Uma dor constante nas costelas me acompanhava e me dificultava a respiração. Era como se tivessem me esmagado o peito.
– E que lugar é esse?
Meu campo de visão se limitava àquele pedaço de vela nas mãos de Malditinha. Eu a seguia pra me certificar de não ficar sozinho naquela escuridão, e de ter minhas perguntas respondidas.
– É o limbo, minha criança. É o limbo. É pra cá que os desgarrados vão. Os que não são bons o suficientes para descansarem no paraíso, nem maus o suficiente para serem recrutados para as guerras do inferno. Aqui ficam os rejeitados por Deus e pelo Diabo. Aqui é onde minha existência começou e é de onde eu tiro os que um dia também vão me tirar daqui.
Enquanto falava, ela andava chutando as cabeças daqueles infinitos corpos sem vida empilhados.
– Eu não entendi direito. Eu morri!?
Malditinha para sua caminhada e se volta para trás, bufando de impaciência.
– Mais ou menos. Se eu não tivesse te achado, você ficaria em estado catatônico e agonizante até que sua existência não fosse nada além de uma casca seca. Meu trabalho aqui é justamente encontrar os que, assim como você, ainda tenham alguma centelha de vida e mandar de volta pra que tenham uma chance de ter um destino definitivo e lembrar aos outros de me chamar na hora de necessidade.
Malditinha tira duma sacola que tem pendurada no braço outra vela, que acende no fogo que queima na que estava em sua mão, tira a vela acesa do disco de metal envelhecido que o sustentava e me entrega.
– Agora chega de conversa que eu ainda tenho muita gente pra achar aqui e você precisa voltar
Com a cabeça confusa diante da realidade recém-desvelada e com aquele pedaço de vela na mão, vejo Malditinha se distanciar enquanto sobe outro monte de corpos empilhados. Chutando-lhes as cabeças.
– Ei, espera! Pra que lado que eu vou?!
Sem se virar, Malditinha responde gritando:
– Vai logo que quando tua luz acabar não tem mais como voltar.
Tão logo ela termina seu aviso, sua silhueta some no relevo mórbido.
Sem rumo, escolho uma direção e vou andando no que acredito ser uma linha reta e fazendo meu caminho no meio da pilha de moribundos. A vela dada por Malditinha vai diminuindo e seu fogo vai brilhando cada vez menos, o que me traz um pânico crescente por lembrar do aviso que ela me deu ao me entregar a tal vela.
Até que em uma inesperada rajada de vento, o fogo se apaga.
Escuridão Total
Grito por Malditinha, mas ao invés da voz dela, ouço grunhidos e gemidos indecifráveis e cada vez mais altos vindo de todos os lados.
Tento correr sem tropeçar na escuridão e no relevo acidentado formado pelo amontoado de corpos, mas os ameaçadores sons estão cada vez mais perto e mais perto.
De repente, algo que parece uma mão me prende pelas pernas e caio. Logo após outras mãos ou seja lá o que for, me agarram e vão me puxando para dentro de um desses montes. Tento gritar mas minha boca é rapidamente tampada por várias dessas mãos. Depois os olhos, ouvidos e nariz, até que me soterram inteiramente.
Acordo com a dor de ter os cabelos puxados com tal força que quase ergue todo meu corpo. Isso somado ao susto parecem ter ligado todo meu corpo de uma vez, que num desespero por novo fôlego, aspira sonoramente o máximo de ar que pode. Imediatamente, boca e narinas são invadidas por aquele fétido odor de fumaça presente no ambiente.
Enquanto solta meus cabelos me deixando apoiar pelos braços, fazendo-me perceber que tinha tirado meu corpo dum esgoto a céu aberto, minha salvadora emite em alto, rouco e bom som o alerta:
– Corre! Corre senão eles te pegam de novo!














