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@sanayeondiet
⠀⠀⸺⠀𝓡ᥲd𝑖᥆.⠀✧⠀ㅤ۫ ㅤ
O rádio que está sob a pequena mesa de jantar no canto da sala de estar emite uma música pautada em violinos melancólicos, uma melodia antiga o suficiente para que alguns indagarem se há alguém que escute a velha e interrupta rádio que vem tocando as mesmas músicas por mais de 30 anos. Não se sabe como ou porquê a estação ainda está ativa, mas ela agradece todos os dias por essa dádiva misteriosa.
Sentada na madeira gasta do piso enquanto saboreia um picolé de coco, a garota se refresca com um sofrido ventilador verde água. A trilha sonora é a mesma todos os dias. A televisão está ligada, mas som algum surge dela, apenas o rádio e os rangidos do ventilador preenchem o silêncio da sala. As paredes amareladas recebem gentilmente os raios de luz que atravessam as janelas de carvalho e refletem nos vidros dos porta retratos pendurados, impossibilitando ver as faces fotografadas de longe. Não que alguém queira vê-las.
Subitamente uma ideia emerge, uma pequena voz no fundo da mente desenterra um desejo esquecido. Ela encara o teto de ripas de madeira com um semblante receoso, beirando ao assustado, enquanto pondera sobre o futuro, com medo, afasta a curiosidade como se fosse o aroma de uma deliciosa sobremesa que jamais poderia provar, mas a tentação cresce assim como o aperto no peito. A garota rola pelo chão aflita, se encolhe juntando a testa aos joelhos, cobre os ouvidos para calar a voz e fica por longos minutos escutando a própria respiração pesada.
Por que não trocar a música? Há tantas melodias além daquelas proferidas pelo rádio, basta girar o botão. As mãos suadas deixam os ouvidos até que a musica seja captada novamente, ao contrário da calmaria que um dia causou, o som só gera raiva. Os dentes rangem, ela fecha os olhos com força para afugentar as lágrimas.
Em um pulo se pendura na pequena mesa e vê-se frente a frente com o rádio, pode sentir o vibração em sua pele, os olhos marejados se apertam para focar em um botão médio lustroso, intacto. Os dedos trêmulos estão separados por milímetros do destino. Ela busca ar pela a boca e ajoelha-se na frente do rádio, encosta no botão sem ousar movê-lo, deleitando-se com a rotação imaginária, até que escuta um ruído.
Escapando de seu controle, as mãos se movem e num singelo gesto, o botão é girado. Agora o cômodo é preenchido por um longo chiado. A garota cai no chão desacreditada, os ouvidos zunindo, sua presença é nula, os olhos arregalados observam o velho rádio. Estica o braço desesperadamente para voltar a estação inicial, mas acaba girando mais o que o necessário, perdendo de vista o ponto em que a rádio poderia estar. Ela grunhe frustrada e começa a hiperventilar, os olhos alagam e deságuam nas bochechas rosadas, um choro incontrolável inicia.
Agora rádio não está mais sob a pequena mesa de madeira. Não se sabe onde foi deixado. A televisão está desligada, assim como o ventilador. O vento agora assopra as cortinas sujas que estão penduradas nas janelas. Os retratos agora estão nas prateleiras acima da televisão, é possível vê-los.