O murmurar insistente não vinha do fundo da mente, de modo que ele não podia dizer que se tratava de uma alucinação. Não, sabia reconhecer aquelas, porque experienciara milhares delas desde a morte de Lisa, todas fruto de sua mente desesperada por um pouco de conforto, de sua ânsia por ter a esposa de volta. O chamado que ouvira no meio da madrugada era real e palpável, e direcionado a ele, quase como se estivesse numa sintonia que apenas ele era capaz de ouvir com seus sentidos apurados. Não saber do que se tratava fazia com que Drácula experimentasse alguma irritação. Num pulo, o vampiro tinha saltado da cama, cobrindo rapidamente a distância que o transportava para fora da construção do Dumort. “Vlad…” – dessa vez, finalmente conseguiu distinguir o sussurrar, virando a cabeça abruptamente na direção da rua deserta e escura. ‘ Diga de uma vez o que quer ’ falou inutilmente, para o vazio, como um louco, no meio do pavimento. Como em resposta, ouviu um novo apelo a distância, e um farfalhar na passagem que levava para a floresta. Sempre havia a possibilidade de que estivessem brincando consigo, alguém que estivesse de posse de suas antigas memórias, pois havia uma única pessoa que se referia a ele pelo nome de batismo, e era decerto isso que o fazia tão desesperado em ir atrás da voz no meio da madrugada. Quase não sentia a vegetação a torturar o rosto exposto ao passo que adentrava na floresta não pela trilha, mas pela mata densa, perseguindo um fantasma. Quando avistou, finalmente, a forma feminina de onde estava, o vampiro deslocou em velocidade sobrehumana até aquele ponto, antes que perdesse mais uma vez de vista o que perseguia, tarde demais percebendo que estava diante de uma humana, e não da pessoa que esperava encontrar. Pior que isso: ele tinha acabado de expor a ela suas habilidades. ‘ O que está fazendo aqui uma hora dessas? ’ demandou, sem se dar ao trabalho de responder a pergunta, porque se perguntava se ela tinha algo a ver com o que acabara de acontecer.
O que quer que tivesse se passado ali, com o homem, Libby atribuiria ao sono, talvez até à sensação perturbada de ter acordado na floresta de madrugada com o corpo dolorido e a boca seca. Em um breve momento de realização, ela arregalou os olhos e sentiu o coração tamborilar uma batida mais forte dentro do peito: não estava dada como desaparecida, certo? Não poderia ser possível, se lembrava vivamente de ter conferido a data mais cedo. Ademais, não era a primeira vez que aquilo acontecia consigo. Na verdade, vinha acontecendo desde muito antes das ocorrências de desaparecimentos na cidade. A novidade era a presença de outra pessoa – o que deveria ser categorizado como bizarro. "Eu poderia fazer a mesma pergunta." Retribuiu em tom ríspido, enfim se apoiando contra o tronco para se erguer. Um pouco cambaleante pela sensação de vertigem, e com dor nas pernas, quase perdeu o equilíbrio no movimento, recompondo-se por um triz. Os olhos logo focalizaram a figura masculina, mais alta que ela, e Isabelle se forçou para tentar reconhecê-lo de algum lugar, apesar do breu que parecia cercá-los naquela área da mata. Sem sucesso, se imaginou virando a lanterna do celular em direção ao rosto dele, mas não o fez. Tamanha era a estranheza daquela situação, que pelo que bem entendia, Libby poderia estar de frente ao próprio sequestrador misterioso de Storybrooke, mesmo que tivesse plena certeza pela confusão do outro ao encontrá-la de que não era esse o caso. "Sou policial." Embora as vestes provassem que estava fora do turno: calça jeans e blusa de alcinha, a Chang mantinha a compostura séria de praxe enquanto falava com ele. Como se pudesse ser intimidadora naquele estado. “Preciso que me acompanhe até a delegacia. Tudo isso–” Ela meneou a destra no ar, depois apontando para ele. “–é suspeito. E você está desrespeitando o toque de recolher.” Bateu a outra mão na camisa para espanar a terra e algumas folhas secas. Quando se virou para caminhar até a saída da floresta, porém, onde esperava ter sinal no celular para chamar uma viatura, foi que percebeu o quão perdida se encontrava. Não havia qualquer indício de que parte da mata eles estavam, e Isabelle ainda tinha os sentidos atordoados pelo despertar confuso. Pigarreou, rapidamente se voltando para o homem. “Vai na frente. Quero me certificar de que... sei lá, você não tente apontar uma arma para mim enquanto eu estiver de costas.” Uma péssima desculpa para que ele guiasse o caminho.