Não foi bonito, nem limpo. Não teve flores, nem palavras ensaiadas. Foi sujo, foi com ranho no nariz e gosto de sangue na garganta, de tanto que eu prendi o choro por anos demais.
Foi sozinha. Sentada no banheiro frio, sentindo o azulejo gelado nas costas e o peito apertado como quando eu era criança.
Mas foi real. E doeu. Como tem que doer.
Eu te perdoei, pai.
Perdoei cada grito que me atravessou como faca.
Perdoei os socos, os tapas, os chutes.
Perdoei os dias em que escondi a cabeça debaixo do travesseiro achando que, se não ouvisse, talvez parasse.
Mas eu era só uma garotinha, pai.
Uma garotinha com medo. Que ainda acreditava em finais felizes. Que só queria proteger a mãe.
Me lembro do dia em que joguei um dente no telhado e pedi pra Jesus, em oração infantil, que você parasse de bater nela. Eu tinha oito anos.
Em vez de desejar presente ou brinquedo, eu só queria paz.
Você tinha me feito conhecer o medo antes de saber o que era amor.
E, mesmo assim, eu te perdoei.
Não porque você mereça.
Mas porque eu me cansei de viver com você dentro de mim.
Cansei de te carregar em cada escolha errada, em cada abraço negado, em cada homem esquisito que eu amei só porque me ofereceu migalhas de afeto.
Você me ensinou a aceitar o pouco. A confundir carinho com trégua.
Fez de mim uma mulher que tremia de alegria por um “bom dia” dito sem grito.
Me fez amar quem me tratava mais ou menos, porque “mais ou menos” ainda era melhor que você.
E isso doeu, pai. Doeu profundamente.
Mas hoje, eu te vejo. Não o monstro, não o carrasco.
Vejo o menino.
O menino que talvez não teve ninguém pra ensiná-lo a amar.
Que engoliu dor e cuspiu raiva, porque era o único idioma que sabia.
O menino que sonhou um dia. Que quis ser alguém.
Hoje, quando estudo psicologia, percebo:
Você foi o primeiro que eu analisei.
Mesmo sem querer.
Cada aula que falo sobre repetição, eu penso: “é isso. Ele só repetiu.”
E ainda assim, pai, não é desculpa.
Eu sei.
Mas é explicação. E eu a honro.
Honro cada dia em que passei fome e ainda assim fui forte.
Honro as tardes em que brinquei com boneca de pano enquanto minha barriga doía de vazio.
Honro porque sobrevivi.
E isso me fez quem eu sou.
Sou feita de cascas, pai.
De feridas que cicatrizaram torto, mas fecharam.
E o mais difícil: hoje eu consigo dizer que sinto por você.
Sinto pelo que fizeram contigo, pelo que não te ensinaram, pelos sonhos que o mundo te arrancou sem aviso.
Hoje, eu sou a mulher que sobreviveu.
E sobreviver a você, pai, foi o primeiro milagre da minha vida.