Vou guardar seus carinhos de fim de tarde. Teus sorrisos meia lua. Teu jeitinho de me fazer sorrir quando nada mais faz.
Nanda Marques.

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Vou guardar seus carinhos de fim de tarde. Teus sorrisos meia lua. Teu jeitinho de me fazer sorrir quando nada mais faz.
Nanda Marques.
Tudo em mim repousa quando encosta em você, como se tua presença acendesse meu descanso.
Anne Rizzo
Já se passaram dois meses desde que cheguei em São Paulo. Três meses parecia muito tempo quando arrumei as malas, mas agora, olhando pra trás, parece que tudo aconteceu num piscar de olhos. Falta só um mês pra eu voltar pra Curitiba, e é estranho pensar nisso. Eu vim achando que seria só uma fase de trabalho, mas acabou sendo muito mais do que isso. Esses dois meses me ensinaram sobre autonomia, sobre o novo, sobre o que é se jogar no desconhecido e, principalmente, sobre como a gente muda sem nem perceber.
No começo era só eu e o Anakin. A gente se virava juntos, eu tentando entender o ritmo da cidade, ele se acostumando com o novo espaço. Hoje já não estamos mais sozinhos. Agora tem a Padmé, minha calopsita fêmea, que chegou pra preencher a casa com o som dela, e minha namorada que veio passar alguns dias das férias comigo. Ver as duas aqui, junto com ele, dá um certo conforto. Tipo aquela sensação de que, mesmo longe de casa, eu consegui montar um pequeno lar.
Uma das maiores diferenças dessa nova rotina é o trabalho. Eu moro a sete minutos da empresa, e isso já muda tudo. Antes eu dependia de ônibus, trânsito, horários, e isso me deixava completamente esgotada. Agora, posso almoçar em casa, volto rápido, e ainda ganho um tempo pra respirar. É engraçado como às vezes não é o trabalho que cansa, mas tudo o que vem em volta dele. Hoje, mesmo com mais demandas e dias puxados, eu me sinto útil. E gosto dessa sensação.
Claro, tem dias que fico exausta, que quero desligar o mundo por umas horas. Mas tem algo de bom nisso também. É um cansaço que faz sentido, que me lembra que estou fazendo algo que me move. Não é o peso de se arrastar, é o de estar construindo. Eu vejo isso como um sinal de que estou no caminho certo, mesmo que às vezes eu ainda tropece no meio do processo.
Minha rotina virou outra. Acordo cedo, trabalho, às vezes almoço em casa, vou pro pilates, e agora comecei a academia, por incentivo da minha namorada. No começo fui meio arrastada, confesso, mas estou curtindo. Cuidar do corpo tem me ajudado a cuidar da cabeça também. Tem dias que volto pra casa cansada, mas com aquela sensação boa de estar me escolhendo. De estar investindo em mim.
Esses meses me deixaram mais atenta a mim mesma. Eu comecei a reparar nas pequenas coisas, na forma como sinto saudade, em como o silêncio às vezes é mais confortável do que a presença errada. Aprendi a lidar com a solidão sem me sentir sozinha, e isso é uma das coisas mais difíceis e libertadoras que já vivi.
Tenho sentido falta de muita coisa, de Curitiba, dos meus amigos, dos meus cachorros, da minha família, mas dessa vez a saudade não dói tanto. Acho que aprendi a olhar pra ela de outro jeito. Ela me lembra que eu tenho um lugar pra onde voltar, pessoas que me esperam, memórias que ainda me aquecem. Isso me dá uma paz enorme.
Outra coisa que mudou foi minha relação com a espiritualidade. Tenho sentido uma conexão diferente, mais verdadeira, mais leve. Como se, aos poucos, tudo estivesse se encaixando. As respostas que eu buscava começaram a vir, não do jeito que imaginei, mas do jeito que eu precisava. Acho que esse é o tipo de coisa que a gente só entende quando desacelera.
E o mais importante: eu me sinto mais leve. Não porque tudo está perfeito, mas porque decidi fechar alguns ciclos. Cansei de carregar o que já não me servia mais, de insistir em capítulos que já tinham acabado. E foi libertador. Às vezes, amadurecer é só isso, entender o que não faz mais sentido e escolher seguir em frente sem culpa.
Falta um mês pra eu voltar pra Curitiba, e eu sei que volto diferente. São Paulo me deu mais do que experiências profissionais, me deu uma nova versão de mim. Uma que sabe se virar, que sabe pausar, que sabe recomeçar. Foi intenso, cansativo, mas bonito. E acho que é isso que eu levo: a certeza de que, no fim, o novo sempre assusta, mas quase sempre vale a pena.
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Bom dia!
Na maioria das vezes não é preciso estar pronto, mas ter coragem.
Egito Gonçalves, no livro “Três Poetas Húngaros” [1991]
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