Em nosso quadro, somente os mais competentes, e dentre eles não poderia faltar 𝐓𝐈𝐙𝐈𝐀𝐍𝐎 𝐍𝐈𝐂𝐎𝐋𝐎 𝐒𝐄𝐑𝐑𝐀𝐓𝐎𝐑𝐄, que orgulhosamente desempenha suas funções como 𝐂𝐇𝐄𝐅𝐄 𝐃𝐀 𝐒𝐄𝐆𝐔𝐑𝐀𝐍𝐂𝐀 𝐃𝐎 𝐏𝐀𝐋𝐀𝐂𝐈𝐎 𝐃𝐄 𝐓𝐑𝐄𝐀𝐓𝐀𝐍 durante a Althara, vindo diretamente da ITÁLIA. Não que seja elegante perguntar, mas sei que ele já conta com seus TRINTA E SEIS ANOS, e não esconde a fama de CONTROLADOR, mas é sabido que seu lado DILIGENTE compensa. É visto que o sangue vermelho sempre fala mais alto, já que é a cara de MAX MINGHELLA!
( 𝐩𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐭 ) Há vermelhos e Vermelhos. Vermelhos com V maiúsculo. Normalmente, aqueles que estão mais próximos do trono, que estão tão habituados a lamber as botas anis que quase se esquecem de sua origem. É importante que se diga que a família de Tiziano era vermelha, mas com V maiúsculo. A mãe era uma figurona da segurança da família real italiana - inflexível, forte, turrona, sangue quente - como qualquer mulher em seu meio teria que ser; completamente fora dos padrões do que se espera de uma esposa na Igreja da Magia. Bastou que o filho começasse a andar para que se cansasse de brincar de casinha com Ezio. Ela não se deixaria definhar e ser enterrada na Toscana. Ao mesmo tempo, não podia levar consigo a criança que era fruto de sua passagem por aquelas terras. O pequeno Tiziano haveria de entender um dia. Mas ele nunca entendeu.
Com o passar dos anos, a mãe não era nada além de palavras no papel que pouco significavam para ele. Sabia que ela estava evoluindo rápido na guarda real, mas não a conhecia a fundo – mal sabia qual era a sua aparência para além do que via no noticiário, quando ela surgia ao fundo do rei e da rainha, numa pose profissional que transmitia zero afeto. Porém, o menino tinha uma vida boa com o pai, que era gentil e paciente, e inteligente de uma forma que quase não se via entre os seus. Nicolo estava longe de ser tão brilhante, mas pode ter sido o incentivo do mais velho que fez com que se interessasse pela facilidade proporcionada pela tecnologia a que tinham acesso apenas porque essa era precisamente sua ocupação. Claro que toda aquela parafernália não era para pessoas como eles. Eram apenas os cérebros que criariam os dispositivos para que alguém com muito dinheiro pudesse usufruir.
Assim como a mãe, Tiziano se cansou facilmente da vida pacata do pai. Era um garoto agitado, impulsivo e violento como Serafina. Sua juventude foi turbulenta, para desgosto de Ezio, e quando o alistamento militar o levou, o Serratore sabia que não havia muito a ser feito. Toda indisciplina foi esmagada mais tarde pelo Exército Italiano, e Tiziano aprendeu a engolir sua arrogância depois de uma boa quantidade de surras. Passados alguns meses de suplício, quando encontrou com a mãe, era como se ele significasse pouco ou quase nada para ela, e Tiziano sabia que nenhuma proteção viria dali. Por conta de seus feitos, Serafina se tornou conhecida como a Corça, uma figura emblemática dentro do sistema de segurança da família real e notável na contenção de rebeldes. Quando sentiu que o filho já tinha sido torturado e endurecido o bastante, ela o colocou numa das equipes da guarda do palácio em Roma, justificando que o rapaz era necessário, a fim de aprimorar o trabalho com o manuseio da tecnologia de ponta.
Com a pressão de seu sangue e as responsabilidades no palácio, Tiziano não demorou a entrar nos trilhos – e era surpreendentemente bom no que fazia. Serafina não estava mentindo quando disse que ele agregaria: o treinamento militar, aliado com o uso da tecnologia para rastreamento desenvolvida pelo pai, os alavancou na questão da contenção dos focos rebeldes, e rendeu mais uma série de medalhas para a Corça. Aos poucos, a mulher passou a transferir cada vez mais responsabilidades a Nicolo, como se ele tivesse conquistado sua confiança.
Por ser vital o trabalho que desempenhava, o Serratore foi se tornando cada vez mais ranzinza e intolerante com os rebeldes, dedicando as 24 horas de seu dia para a sua caça, e ficando cada vez mais paranoico. Um convite inesperado - ou não tão inesperado assim, vez que eram os melhores em termos de segurança - intensificou sua ansiedade, visto que na edição deste ano teria de supervisionar a guarda da Althara, evento que reúne não apenas uma família real, mas dezenas.
Ele não se importa nem um pouco com quem está prestes a se casar. Apenas sabe que não pode falhar agora que os olhos de todo o mundo estão sobre o trabalho dele. Conhecendo a Corça, sabe muito bem que é ele quem vai pagar o pato se algum desastre acontecer.
𝐸𝑋𝑇𝑅𝐴𝑆
* Sobre a ocupação [Chefe de Segurança da Althara]: embora tenha treinamento militar, sua posição era local até que fosse convocado para Treatan, restrita ao palácio e aos lugares frequentados pela Família Real, e estratégica, se alastrando para outras partes de Roma apenas em caso de necessidade, a fim de identificar células rebeldes. Tem competência para alocar guardas e convocar mais militares para a segurança, declarar quarentenas, bloquear ingressos e fechar passagens, mas as decisões mais importantes passam todas por Serafina Orsini, praticamente aposentada, que se reporta à Coroa.
A CORÇA: Serafina Orsini é a figura mais alta no escalão da segurança do Palazzo Farnese. Conhecida por sua frieza e métodos pouco ortodoxos, alcançou o posto que hoje ocupa usando muitos outros oficiais de escada e lavando suas botas com sangue rebelde. Mesmo nos postos avançados mais distantes da capital italiana, todos sabem que se a Corça é acionada, a situação é excepcional. Ela não se importa com nada que não seja manter a realeza azul segura, tendo por muitos anos vigiado o sono da rainha Asteria diretamente, sendo este o motivo para que tenha angariado tanta confiança da Coroa. Também já participou de diversas operações militares internacionais, sendo este o motivo para que seu nome tenha sido lembrado com a aproximação da Althara. É ela a figura por trás da segurança do evento, já que seu sangue frio certamente garantirá que nada atrapalhe os nobres de encontrar uma excelente aliança. Poucos sabem que ela teve um filho, pois a mulher nada tem de maternal.
* Em nenhum momento havia se iludido com a possibilidade de ser deixada em paz após ter sido flagrada em um cenário tão incriminatório. Essa nunca seria uma opção viável para uma princesa, ainda mais durante um jogo de alianças televisionado, onde a ordem era exigida em condições favoráveis ao entretenimento — e apenas este. Quando o viu avançar cômodo adentro, instintivamente fez o mesmo, aproximando-se dele com passadas firmes ao passo que cruzava os braços diante do corpo, assim assumindo sua postura mais rígida. Diante de palavras tão sutilmente afiadas, os cílios de Florence delicadamente bateram pelos instantes silenciosos que se seguiram, durante os quais parecia perplexa com o atrevimento do rapaz ao afrontá-la daquela maneira. Já estava suficientemente contrariada para ainda ter que lidar com desaforos velados. “ ── Tem certeza de que quer me acusar de algo? Principalmente com implicações tão ofensivas? ” O intenso olhar semicerrado o desafiava. Que fosse homem o suficiente para dizer com clareza o que insinuava. Seus movimentos foram lentos, cuidadosamente calculados para expressar descaramento ao consentir com o pedido seguinte. “ ── Poderia, então, me guiar até o quarto que eu esteja autorizada a vandalizar? ” Desta forma, assumiu sua responsabilidade, assim como suas intenções para o momento.
Tinha convivido por tempo suficiente com soldados para saber quando alguém estava atrás de conflito. Era quase cômico que a princesa estivesse desesperada por um pouco de violência, mas não poderia ser ele a dar isso a ela. Como alguém que tinha lidado com diversos problemas de temperamento e indisciplina na juventude, não era difícil para Tiziano compreender aquela necessidade. Ele analisou a figura feminina por breves segundos quando ela se posicionou diante dele, se perguntando se também acabaria sendo atacado. ' Não diria que esta é uma acusação formal. Não ainda ' repuxou um dos cantos da boca, pela ironia daquilo. Ela devia imaginar que ele, como oficial, podia reportar a prática de crimes aos superiores da Althara, mas não devia imaginar que era o responsável pela segurança como um todo para que estivesse agindo daquela maneira. ' Pode se tornar se a senhorita prosseguir com a depredação ' anunciou calmamente, já que não considerava um problema real. Na pior das hipóteses, teriam de transferir Sarp Karadag para outros aposentos. Foi a pergunta seguinte, contudo, que pegou o Serratore de surpresa, fazendo com que elevasse as sobrancelhas. ' Bom, nenhum, na realidade. Pelo menos, nenhum dos quartos. Mas temos um lugar... No centro de treinamento. Destinado aos guardas ' era como se ponderasse a cada frase, em dúvida sobre estar fazendo o certo. Afinal, ela era um membro da realeza. Não devia frequentar espaços vermelhos. ' Não que vossa graça possa frequentar. Não seria adequado '
a primeira coisa que maysilee sentiu ao vê-lo foi o estômago afundar . na verdade , não foi nem a colisão que a desarmou . foi a forma como ele disse aquele apelido que soava tão encantador quando saia da boca dele . aquele apelido que soava como casa . e ela odiou o que sentiu . porque , se deixasse , tudo viria de novo . o término foi devastador — pelo menos , para ela . ele apareceu sério , falando sobre deveres , responsabilidades , escolhas . como se amar fosse uma coisa que se deixasse no cabide , ao lado da farda . e tudo que ela ouviu foi : não vale a pena o suficiente . você não vale a pena o suficiente . ‘ o quê ? ’ ela ergueu as sobrancelhas , indignada , quase deixando todos os papéis cair no chão . ‘ ah , claro , porque eu só existo dentro dos limites geográficos de toscana , né ? eu sou tipo ... uma planta local . se sair de florença , morro . ’ maysilee não sabia soar ameaçadora , mas esperava que tiziano a conhecesse o suficiente para perceber que estava irritada . ‘ você fala como se tivesse algum direito de decidir onde é o meu lugar . eu também pensei que florença fosse o seu . o nosso . ’ a última parte escapou mais baixa , menos firme do que o resto . não era pra ter dito . droga . ela nunca conseguia seguir um script . desviou o olhar , culpada pela confissão não-intencional . ela se abaixou , pegando um dos post-its do chão . estava rabiscado com alguma fofoca que precisava contar para lucrezia , mas sua atenção não durou meio segundo . ‘ não precisa se preocupar . não quero atrapalhar o seu trabalho . ’ ela realmente não precisava ir para a enfermaria , mas gostava da ideia de tiziano se preocupar com ela . gostava tanto que ficou parada na frente dele como uma estátua . como se esperasse que ele perdesse um pouco mais do tempo dele ali com ela .
Ele não demorou a perceber que ela estava enfurecida, indignada, com o que ele havia acabado de dizer. Tiziano percebeu que sempre perdia o controle sobre as palavras quando estava nervoso, soltando absurdos. Ele não pensava que ela era uma planta, oras! Mas o choque de vê-la ali, onde não deveria estar, fez com que soltasse a primeira coisa que tinha lhe vindo à mente – e a mais idiota também. ' Não. Não foi isso que eu quis dizer... Não acho que deva ficar presa na Itália. Só não te esperava aqui ' sinalizou, frisando a ultima palavra para que ela entendesse que ele estava se referindo à Althara e a todas as implicações de sua presença ali. Os olhos vasculharam o rosto alheio em busca de respostas, esperando decifrar, por detrás dos olhos claros qual era a intenção da Vercelli naquele lugar. Ele sempre tinha sido um bom leitor de Maysilee e esperava que isso não tivesse mudado em razão do tempo separados. A fala seguinte, contudo, fez com que experimentasse alguma frustração com a falsa acusação, embora, no fundo, houvesse, sim, algum desejo de sua parte em controlar a loira e era bem provável que ela soubesse disso. ' Eu jamais poderia decidir onde é o seu lugar, Maysie ' negou com a cabeça, se inclinando para ela, mas recuando quando ouviu que Florença era o lugar deles. Sabia o que estava implícito na fala: só não era mais por culta dele, e ele nem poderia dizer que ela estava sendo injusta. Levou um segundo para que se recuperasse, aproveitando para tomar fôlego quando ela se abaixou para recuperar um de seus papéis, amassando o rosto com uma das mãos como se já estivesse cansado. ' Você não atrapalha. Nunca ' reforçou, em dúvida sobre ser tarde demais para deixar isso bem claro.
Ao observá-lo se viu questionando se ele era desatento ou apenas surpreso de ser abordado, será que estavam tratando os vermelhos sem o mínimo de educação? Bom, imagina que o irmão mais velho sim, mas esperava ao menos uma conduta razoável vinda de outros nobres. ❝Que bom, você é meu salvador!❞ Exagerou em um tom animado, um sorriso resplandecente no rosto. Por vezes, era quase cômico ver que a Karadag se sentia tão confortável na presença dos vermelhos do mesmo modo que proporcionalmente estes se sentiam desconfortáveis na presença dela. ❝Estou em busca da galeria dos pactos, sou um tantinho curiosa com coisas históricas...❞ Comentou, sabia muito bem que o corredor ficava bem distante de onde estavam e era ideal para que tivessem tempo para uma conversa no percurso e bem, esperava que ele não a deixasse falando sozinha. ❝Você gosta de história? O quanto sabe sobre os tratados exteriores e as antigas guerras? Imagino que boa parte da Europa não tenha tanto conhecimento sobre a parte da Eurásia ou da Ásia em si.❞
A reação parecia um tanto exagerada, considerando que ele não fazia nada além do próprio trabalho, mas não seria ele a apontar e constranger uma azul. ' Não é nada ' meneou a cabeça, desfazendo do elogio, até porque não estava acostumado a ser elogiado, muito menos por membros da outra raça. A tarefa era deveras simples para Tiziano, que já tinha decorado a disposição dos cômodos do palácio – era o mínimo que se esperava de alguém como ele. ' Pode me acompanhar, alteza, embora eu não seja o melhor dos guias...' se virou para começar a andar, logo depois de receber a explicação sobre o motivo para que ela estivesse atrás da Galeria dos Pactos. De modo geral, o Serratore não se detinha em analisar os aspectos históricos do palácio, pois não era como se tivesse tempo livre para isso. ' Tive sorte. A senhora sabe como as escolas vermelhas não são as mais qualificadas para ensinar História ' comentou, repuxando um dos cantos da boca como se esperasse que ela não revelasse sua crítica. ' Ainda assim, pude aprender muito no interior da corte italiana, quando mais jovem, com tutores azuis. Evidente que não sei tanto quanto vossa graça, mas estou sempre disposto a aprender. Até porque o ponto de vista de vocês, eurasianos, deve ser fascinante '
Sua busca pelo medalhão estava em segundo plano, por que pretendia se divertir um tantinho com os vermelhos que via pela floresta densa, especialmente quando avistou um que lhe era muito apetitoso. O que era se dizer algo, se considerasse que ele era um rubro, que se fosse comparado a carne seria uma de quinta. Em termos de comida, é claro. Se aproximou lentamente, passo a passo tomando cuidado para que não acabasse pisando no galho errado e fazendo barulho, sabia que ele sentiria sua presença quando estivesse perto demais e por isso usou dos poderes para ser rápida, deixando a língua passar pela bochecha dele antes que ele tivesse tempo de se afastar. Soltou uma risada divertida, o observando com atenção. ❝Não sempre... Apenas quando a minha presa parece estar implorando por atenção... Me diga, o que faz aqui, docinho? Veio me ver?❞
Parecia-lhe uma tremenda perda de tempo perder sua manhã ali, escondendo medalhões, quando podia estar fazendo algo bem mais produtivo. Ainda assim, Tiziano não era de questionar ordens, especialmente as ordens do Sumo Sacerdote. Podia não ser um devoto fervoroso da Igreja da Magia mas respeitava seus dogmas e sabia da importância política da instituição para a manutenção da ordem. Mesmo pequenas transgressões poderiam causar um abalo significativo na estrutura social. Apenas por isso que ele vinha implantando armadilhas pelas últimas horas, posicionando-as a cada poucos metros no interior da floresta – o suficiente para tirar a paz dos azuis que atuariam como Caçadores. Estava distraído encarando o tablete que usava para esquadrinhar a área quando sentiu a textura de uma língua contra a bochecha, o calor do contato fazendo com que desse um passo atrás, em sobressalto, apenas para reconhecer os cabelos cor de fogo da rainha da Armênia. Cazzo. Ele tinha sido pego de novo. "Parece que estou implorando por atenção?" ele não deveria utilizar daquele tom para falar com uma rainha, mas ela também não devia sair por aí o lambendo. Foi com incredulidade que baixou a cabeça e balançou, tão logo ouviu a pergunta. "Trabalho. Já ouviu falar? Eu tenho um para manter. Não sobraria muito tempo para te ver, mesmo se eu quisesse"
@serrvtore disse "Be a good Catholic for fifteen fucking minutes! Is that so much to ask?" na torre de vigia
TW: Leve insinuação sexual e menção a sangue.
Parte do acordo com o Magisterium para sua participação no Althara — um acordo que ela fizera questão de parecer um favor da parte dela — envolvia retomar uma “imagem contida” após se casar outra vez. Em troca, exigira liberdade. Não total, claro — o mundo nunca dava isso a monstros como ela — mas liberdade suficiente para que não morresse de inanição tentando parecer humana. Deram-lhe concessões. Permissão para se alimentar em locais discretos, desde que “as partes grotescas” fossem escondidas da alta sociedade. Uma ilusão conveniente. A torre de vigia, ao escurecer, pareceu perfeita. A solidão, aliada à névoa que subia dos jardins, criou o cenário ideal para o que Gayane chamava de lanchinho. E a loira que encontrou ali — viva, quente, pulsante — parecia apetitosa o suficiente. Talvez não fosse um banquete, mas ela estava com sede demais para ser seletiva. Prendeu a mulher contra a parede com um movimento ágil, o joelho pressionado entre as pernas alheias, mantendo-a firme enquanto os lábios se colavam ao pescoço. O sabor do sangue correu quente e doce em sua boca, um alívio quase religioso. A mão livre de Gayane repousava sobre o seio da loira, massageando com uma lentidão cruel — um carinho que era mais sobre domínio do que afeto. Os batimentos cardíacos da mulher aceleravam, os gemidos escapavam. Tudo corria como o esperado… até o xingamento cortado no meio e a voz de um guarda a interromperem.
Gayane suspirou, frustrada. Ergueu o rosto, lambendo o sangue que escorrera pelos próprios lábios com os dedos e a língua. Virou o rosto devagar, lançando um olhar por cima do ombro — o bastante para transformar qualquer incauto em pedra. Com um aceno preguiçoso, despediu a loira. ❝Vai.❞ Disse apenas, como quem dispensa um brinquedo quebrado. Então se virou. Lentamente. Como um felino entediado com a presa que atrapalharam. E sorriu. Um sorriso que dizia “você me deve” e “vou cobrar” ao mesmo tempo. ❝E você acha que pode me pedir qualquer coisa, querido?❞ A risada veio baixa, seca, serpenteando entre os dentes da rainha armênia. Ela avançou um passo. Depois outro. Lenta como uma serpente se aproximando da presa pouco antes de dar o bote. ❝Pra sua informação, Magisterium e eu somos praticamente um só de onde eu venho. Mas acho fofo você se preocupar.❞ O deboche escorria da voz. Quando parou diante de Tiziano, ergueu a mão, pousando-a sobre o peito dele — um toque quase respeitoso, quase reverente. Mas Gayane não sabia ser reverente. ❝Mas se está tão preocupado...❞ Murmurou, os olhos cravados nos dele, ❝...por que não assume o lugar da minha comida que você acabou de espantar?❞ A ponta da unha percorreu o tecido que cobria o tórax dele, desenhando um caminho imaginário até onde a garganta começava. O olhar da vampira era afiado quando retornou aos olhos dele, um sorriso malicioso brincando nos lábios da ruiva. ❝Ainda estou faminta. E não me importaria de ter você na ponta da minha língua.❞
A cena diante dele era grotesca. Antinatural, repulsiva. Sabia que azuis tinham todo um arsenal de poderes – alguns ele sequer tinha sido capaz de catalogar até o momento – mas o que via ali era diferente de tudo o que já tinha visto, tendo ouvido apenas boatos sobre a possibilidade de mimetismo vampírico. Era como se estivesse diante de uma criatura não humana, sendo o primeiro instinto do italiano o de sacar a própria arma e apontar para a figura que mantinha a outra cativa. Foi só quando a ruiva se virou que ele soube de quem se tratava, reconhecendo as feições da nobre azul. Sendo ela quem era, o simples ato de Tiziano lhe apontar uma arma já podia ser considerado uma traição, mas o capitão se fiava no fato de que em Treatan as leis dos reinos não se aplicavam, e ele realmente podia estar em situação de risco, com necessidade de legítima defesa, a julgar pelo sangue que brilhava nos lábios da rainha da Armênia. Era demais esperar que alguém como ela seguisse qualquer preceito do Magisterium; estava sendo um tolo por apelar para isso na abordagem inicial, mas tinha ouvido dizer que vampiros se incomodavam com invocação de elementos religiosos, e qualquer arma seria útil numa situação como aquela. Mal respirava quando a ruiva o encarou, dando passos para trás, cuidadoso, ao mesmo tempo em que ela dava passos para frente, sem que fosse rápido o bastante, pois ela logo lhe alcançou - não havia como competir com a velocidade sobrehumana, de todo modo.
" Ela estava ferida " acusou, desviando os olhos por breves segundos para a loira que agora corria para longe, a passos trôpegos. No entanto, ele devia ser o único preocupado com detalhe tão insignificante. Além disso, se havia alguém em risco imediato e que parecia ser a nova presa de Gayane, este alguém era ele. " Acho que não deve estar autorizada a... se alimentar aqui " mas não tinha tanta certeza, já que azuis faziam o que queriam, apenas, e ela era uma rainha, no fim das contas; sabe-se lá que acordo tinha feito com a Igreja da Magia. " O Magisterium compactua com as suas atividades? " tão atordoado estava que aquela parecia uma pergunta válida. O Serratore tinha a Igreja da Magia como um órgão máximo de autoridade e um parâmetro para o que ele podia considerar certo ou errado. Quando ela pôs as mãos sobre ele, Tiziano baixou a arma, devagar, sabendo que qualquer movimento brusco de sua parte seria suficiente para que ela afundasse as mãos em seu peito e lhe arrancasse o coração. Afinal, se estava diante de uma vampira, a superforça também a acompanhava. A garganta se contraiu com a sugestão de que ele se tornaria a próxima refeição dela, embora o capitão estivesse tentando manter o controle. " Bom, você poderia me matar, mas teria de se explicar. Aposto que sabe disso e já está ponderando a respeito " testou, fixando os olhos nas íris avermelhadas. O fato de ela falar que o queria na ponta da língua fez com que o Serratore corasse, o sangue vermelho se acumulando ridiculamente no pescoço. Ainda assim, tentou se manter firme. “ Além disso, vai descobrir que não sou mais difícil de digerir do que parece. E que não sou o tipo de refeição que se consome impunemente ”
* Ultrajada. Contrariada. Revoltada. Silenciada. O padrão do sentia quando interagia diretamente com a ignorância inerente do próprio irmão se provava imutável. Tendo discutido novamente com Laurent na mesa de jantar ─ mais uma vez aos sussurros, para evitar que as câmeras captassem a troca de ataques e argumentações calorosas ─ a princesa sentia o sangue fervilhar enquanto percorria suas veias, ao passo que cegamente atravessava alguns corredores do palácio em busca de refúgio. Mais do que isso, ansiava por encontrar evasão para aqueles sentimentos que há anos se acumulavam dentro do peito e não reaviam descanso. Trégua. Com um estalo mental, seus pés souberam exatamente para onde rumar, iniciando passadas mais urgentes em direção a um local onde teria o mínimo de privacidade ─ ou algo próximo a isso. Não tardou a encontrar seu destino: a área designada aos aposentos voltados para o descanso dos mais nobres. Invadindo o primeiro deles que encontrou, acidentalmente esbarrou com a mão contra um vaso que adornava a entrada pelo lado de dentro, então observando o item sofisticado oscilar sobre a base que o sustentava.
O gatilho colocou um meio sorriso sádico nos lábios de Florence. Um único movimento preciso, mas nem um pouco gracioso, foi o suficiente para lançar o objeto em direção ao chão e despedaçá-lo em diversos estilhaços, com o estampido produzido ecoando nos ouvidos. Aquilo não era o suficiente, precisava gritar contra um travesseiro ou atingir o rosto do irmão com um golpe certeiro. Mas, por ora, se manter isolada bastaria. Com o olhar fixo no chão, caminhava em círculos, tentando normalizar o fôlego e aquietar os pensamentos — até que um som sutil rompeu o silêncio ao redor. Se não fosse por aquele ruído, talvez tivesse descarregado sua inquietação no restante da suíte. Ao erguer os olhos e perceber a silhueta masculina além da porta entreaberta, engoliu em seco o constrangimento que ameaçava dominá-la, o substituindo por uma exasperação mal disfarçada. “ ── Posso te ajudar com algo? ” A entonação ríspida realçava o caráter retórico da pergunta. “ ── Me falta coordenação motora. ” Alegou um acidente, embora não tivesse a necessidade de convencê-lo de nada.
As passadas furiosas chamaram sua atenção, fazendo com que observasse à distância, em princípio, e depois iniciasse caminhada, seguindo atrás da princesa. Como exigido de sua função, Tiziano permanecia invisível aos olhos dos mais nobres, sendo este o motivo para que ela não tivesse lhe visto, recostado numa das pilastras, quando passou. A julgar pelas feições alheias, era de se esperar que um crime estivesse prestes a ser cometido, sendo esta fundada suspeita um motivo válido para que ele a seguisse. Afinal de contas, se não machucasse alguém, sempre havia a chance de machucar a si mesma, e o Serratore tinha de preservar a integridade física de todos os azuis, mesmo quando o maior perigo eram eles mesmos. Não demorou para que o chefe da guarda se desse conta de que ela havia invadido aposentos que não lhe pertenciam , a julgar pela numeração. Tiziano tinha todos os quartos catalogados para que trabalhadores da Althara não cometessem gafes ou invadissem suítes nas quais não podiam pisar em determinados momentos. Ele sabia, com certeza absoluta, que a suíte 102 pertencia ao herdeiro da Anatólia. Em seguida, foi o som de algo se partindo que ouviu, o que fez com que se apresasse, cruzando o umbral. Era visível a exasperação no rosto alheio, a evidência de que não gostaria de ter sido incomodada por alguém como ele – não que o Serratore se importasse, naquele momento. Estava diante de uma violadora de quartos e ainda por cima vândala. " Na verdade, eu estava prestes a perguntar a mesma coisa... " comentou, passando os olhos pela cena, incluindo o vaso quebrado diante da lareira. Em seguida, deu mais alguns passos cautelosos para o interior do quarto, como se temesse ingressar na caverna de um animal hostil. " Tem certeza de que o seu problema se resume à falta de coordenação motora? Não está experimentando nenhuma confusão momentânea também? " meneou a cabeça em direção à decoração do quarto, que não trazia nenhum toque feminino. “ Esse quarto não lhe pertence, alteza. Vou ter que pedir que se retire. Imediatamente ”
maysilee estava definitivamente surtando por dentro . com um caderno aberto numa das mãos , três bilhetes coloridos grudados nos dedos ( o vento tinha arrancado da mesa da lucrezia e ela correu atrás como uma maluca para não perder nenhum ) , e o cabelo preso de qualquer jeito com um lápis — o terceiro lápis da manhã , já que os dois primeiros tinham sido quebrados por pura frustração — , ela caminhava apressada pelo corredor do jardim , os olhos passando rápido pelas anotações : ‘ mandar carta à baronesa de osta ... confirmar presença de lícia na mesa do chá … era lícia ou era lívia ? ai , céus , esses nomes … ’ ela virou de forma apressada numa das passarelas de pedra e bateu . com força o bastante para quase deixar os papéis voarem de novo . só não voaram porque ela instintivamente os agarrou com as duas mãos , o que impediu qualquer reação educada . ‘ perdão ! perdão , eu não vi você , eu 'tava só— ’ a frase parou no ar . os olhos subiram . e ela congelou . claro que ela ia bater justamente nele , e não , sei lá , num ministro cego de um país distante ou num cavalo desgovernado — algo mais fácil de lidar . o sorriso no rosto dela murchou como uma flor esquecida fora d’água . ‘ oi . ’ foi só isso . um oi . pequeno , murcho , quase imperceptível . um “ oi ” que não parecia nem dela — parecia de alguém que ela teria achado entediante se tivesse ouvido de outro lugar . porque , sinceramente , o que se diz para um ex-namorado que terminou contigo por “ foco na carreira ” ? por responsabilidade . ela também trabalhava . dobrado . com uma princesa exigente , expectativas familiares e , claro , a parte secreta onde era espiã infiltrada — detalhe técnico . mas ela teria dado um jeito , como sempre dava . se ele quisesse , ela acordava às três da manhã para atravessar uma passagem secreta e beijar a boca dele como se fosse contrabando . mas ele não quis . ‘ meu ombro agradece pelo reencontro com o concreto que você chama de peito . ’
Assim que se deu conta, já era tarde para uma retirada, e ele não podia ser covarde a esse ponto. Ainda assim, hesitou na passada, parando de chofre, esperando estar equivocado ou com a visão prejudicada, tão logo a viu de perto. Com a mente ocupada, majoritariamente, por assuntos profissionais, não é como se Tiziano tivesse tempo para refletir sobre todas as escolhas impulsivas que havia feito – Maysilee sendo uma delas. Em raros momentos de distração, contudo, os pensamentos acabavam se voltando para o que havia ficado em Florença, do que ele havia aberto mão para estar ali; de todas as exigências que sua mãe havia feito, incluindo estar cem por cento focado no trabalho que desempenharia pelos meses subsequentes. O fato de que a garota estaria distante durante a Althara seria o bastante para que ele a esquecesse, pensara, em princípio. Não vê-la já era meio caminho andado. No entanto, a loira que estava diante dele não podia ser outra senão a nobre azul que ele deixara para trás. " Maysie " sussurrou em reconhecimento, sem saber se podia continuar se referindo a ela dessa maneira, alheio à toda a confusão que ela vinha causando com aqueles post-its e à postura atrapalhada. Também não se importou com o colidir em seu tronco, já que o trombar não tinha sido suficiente para causar impacto ou fazer com que vacilasse. Ela não parecia feliz em vê-lo, assim como ele não estava exatamente feliz em vê-la ali – não quando imaginava que ela estaria a um mar de distância, longe de todos os pretendentes que se apresentariam naquela temporada. " Pensei que seu lugar fosse em Florença " ele não tinha cogitado que ela acompanharia Lucrezia até ali, porque estar na Althara tinha certo significado, quando se era azul – um que ele não queria imaginar para a Vercelli. Ainda assim, ele não tinha o direito de fazer cobranças, de forma que desviou os olhos e se pôs de lado, para possibilitar que seguisse caminho, caso fosse do desejo dela. " Scusa. Se não estiver se sentindo bem, posso te levar até a enfermaria " e ali estava ele, desviando do trabalho por causa dela, justamente o que a Corça previu que aconteceria.
❝Não mais.❞ Se permitiu dar de ombros, buscava resolver qualquer problema menor com eficiência e rapidez, até por que valorizava o próprio tempo. E bem, não estava ali apenas como guarda, precisava de um ou outra conversa que fosse lhe render algo para os Russo. Não pode conter uma curta risada, vendo um tanto de graça na observação alheia, mesmo que soubesse que vinha de boas intenções. ❝Geralmente me cobram mais seriedade e firmeza, não o contrário.❞ A parte que jamais tinha contado a Tiziano sobre as atividades de sua família, também incluía a sua ligação com um ou outro azul, andava entre eles a tempo demais. Riccardo provavelmente tinha mais contatos entre os azuis do que os vermelhos, sabia bem dos desgostos alheios, mas também sabia que o Magisterium estava acima ali e não a pirraça de uma princesa das Maldivas que estava bem longe de casa. ❝Não se preocupe, Tiz, nunca passo do que é necessário. Sei como crianças são difíceis de lidar, tenho muitos irmãos mais novos e sobrinhos.❞ E ao ver de Cesare, os nobres eram como crianças mimadas em sua maioria, mas isso não o incomodava muito. ❝Labirinto, alguém quebrou algo de vidro e ainda não conseguiram arrumar. Não ficaria bem deixar que caminhassem despreocupados e acabassem se cortando com o vidro, mas não é sempre que escutam a razão como você bem sabe.❞
A maneira resolutiva que o italiano tinha lidado com o problema fez com que o Serratore o admirasse internamente, ainda que sem colocar em palavras. Tinha pegado aquilo da mãe: a mania de não elogiar, mesmo quando a pessoa merecia, como se isso fosse o suficiente para envenenar a boa-vontade de alguém. " Pode-se dizer que não estamos operando em terreno normal. Você entendeu o que eu quis dizer..." talvez Ric estivesse certo e ele não devesse ceder tão facilmente à vontade dos anis, mas Tiziano só o faria em situação em que tivesse absoluta certeza de que não correriam risco algum. Em dias normais, ele cobraria, certamente, seriedade e firmeza dos guardas, como já vinha cobrando até ali, quando o assunto era grave. " Você se surpreenderia com o que uma criança mimada é capaz de fazer " meneou a cabeça, pensando no quanto tinha sofrido na mão de herdeiros mimados. " Não porque sabem o que estão fazendo, mas justamente porque não sabem " mesmo que se sentisse à vontade para aconselhar o outro, não queria passar a impressão de que estava confabulando contra os azuis, de modo que deu o assunto por encerrado, limpando a garganta. " Nesse caso, mantenha o labirinto isolado até que alguém apareça para recolher o vidro. Não queremos sangue azul sendo derramado logo cedo"
✽ gaspar não se importava com os exercícios matinas. claro que para ele, se pudesse estar fazendo qualquer outra coisa além de, ele preferiria, mas para ele ter o privilégio de acordar cedo apenas para correr de um lado para outro era aceitável. no uruguai, ele acordava cedo e mesmo sendo um príncipe tendo suas atividades oficiais sua rotina ainda era bem mais entediante. ver essas pessoas completamente inaptas para corrida era engraçado e era um bom lembrete de que certas coisas ele ainda sabia fazer melhor do que todas esses nobres imponentes. gaspar tinha uma memória curta, mas existiam rostos, existiam pessoas, que era impossível esquecer. então, no seu próprio jeito, gaspar esperava que elas o esquecessem. exceções existiam e tiziano era uma dessas. ele via o reconhecimento no rosto do outro homem e isso lhe causava o desconforto de pensar se precisava ou não falar algo. ou melhor, como falar. o elogio veio como um conforto para a mente dele. "sr. serratore, como vai?" fez uma leve reverência com a cabeça, enquanto diminuia o ritmo para ajeitar o cabelo. uma mera desculpa para focar sua atenção em duas coisas ao mesmo tempo. "obrigada, no meu país damos valor ao esporte desde cedo. acha que gerou bons resultados?" tentou, brincando. jogava futebol quando criança então era apenas justo que ele conseguisse manter um trote básico como o ritmo que tiziano impunha naquele momento.
Tiziano não sorriu, por não se sentir completamente confortável na presença de nenhum azul, mesmo daqueles que pareciam mostrar alguma simpatia. Na realidade, ele nunca sorria de verdade quando estava em serviço. Ainda assim, a feição se suavizou um pouco ao ouvir a réplica de Gaspar; a forma como o príncipe falava com ele dava a entender que se lembrava. " Já tive dias melhores " comentou, repuxando um dos cantos da boca, visto que os últimos dias tinham sido de pura tensão e regados a relaxante muscular. Era como se tivesse de se manter alerta durante as 24 horas de seu dia. Seus olhos escanearam a trilha adiante, como se procurasse alguma coisa, depois voltaram ao príncipe. " Está com o fôlego melhor do que a maioria. Não que a concorrência seja particularmente difícil. " essa última parte saiu mais baixa, em tom confidente, depois que a fila de corredores tinha se afastado o suficiente para que a conversa deles não fosse ouvida. O próprio ritmo não diminuía, porém, Tiziano reduziu o impacto das passadas, como se concedendo a Gaspar breve momento de descanso, sem admitir que o fazia. " Já no meu país, damos valor à ordem desde cedo " devolveu, no mesmo tom de provocação sutil, sem ironia explícita. " E a corpos que aguentem horas de pé antes de sequer pensar em sentar "
Bateu duas vezes com os nós dos dedos na porta, firme, mas sem pressa. Quando a voz autorizou a entrada, ele girou a maçaneta e adentrou, já com a postura ereta e o queixo levemente elevado. ❛ Senhor Serratore. ❜ Fechou a porta atrás de si e caminhou até a distância adequada, as mãos cruzadas nas costas. Vê-lo de perto sempre era... algo. Ainda mais quando a luz batia de um jeito que lembrava ela — aquela mulher que aparecia nos livros de história e nas lendas das barracas de feira. A mãe dele. A Corça. Foco, Çınar. Engoliu seco, mantendo o olhar firme e inabalável, mesmo que sua mente traísse a fachada sóbria com pequenos surtos de admiração disfarçada. ❛ Relatório da ronda entregue na primeira hora da manhã. Nenhuma anormalidade detectada, fora o habitual trânsito de nobres azuis ignorando os corredores restritos. ❜ Uma pausa. Um leve erguer de sobrancelha. ❛ Mas suponho que isso já tenha chegado aos seus ouvidos. ❜ Ajeitou a gola do uniforme. Estava limpo, alinhado, como sempre. Não por vaidade — por disciplina. ❛ Estou à disposição para novas ordens, senhor. Ou… ❜ Levemente mais contido. Um resquício de admiração mal domada escapando: ❛ ..qualquer missão que exija mais do que o protocolo. ❜ Buscar uma água? Um cafézinho? Ele poderia fazer isso por Tiziano.
Havia sido uma exigência da mãe que ele tivesse o próprio quarto – um sinal de que eles, os Serratore, não eram como os outros vermelhos que trabalhavam no palácio, dissera. Tiziano, por sua vez, achava que isso apenas o afastava da equipe, correndo o risco de não ser respeitado por aqueles que dividiam a farda consigo. Desde o primeiro dia que tentava estabelecer um ambiente ameno. Tinham de respeitar a hierarquia, é claro, para bom andamento dos trabalhos, mas não era preciso que o tratassem como alguém que estava no patamar os azuis. Ainda era relativamente jovem para que fosse alçado ao posto de capitão, mas isso também devia à Corça. De todo modo, ainda se estava se adaptando à nova realidade que tinha vindo com a Althara. " Pode entrar " instruiu, deixando de lado as pastas que tinha em mãos e relaxando na cadeira. Seu trabalho em escritório não era tão satisfatório quanto o de campo, mas era necessário. " Çinar. Sente-se, por favor " cumprimentou, tentando estabelecer informalidade, mesmo quando o outro mantinha-se formal. " Já estou a par do relatório. Não acho que isso seja um problema por agora. Já era esperado que eles não fossem respeitar os limites " falou, contendo um revirar de olhos mas torcendo a boca, no único sinal de desgosto. Ele apreciava o senso de responsabilidade do anatoliano, ainda que fosse cedo para julgar o homem. Teve de repuxar um canto da boca e baixar os olhos para a mesa quando ouviu que o outro se oferecia qualquer missão. Era provável que o rapaz tivesse ouvido a respeito da Corça e estivesse ansioso por agradar, mas aquilo, ele sabia, era para sua mãe, não para ele, Tiziano. " Só vamos nos certificar que eles não se percam na floresta - não temos equipes de busca preparadas. E seria bom se se mantivessem longe do vilarejo vermelho "
O programa mal havia começado e talvez ela não devesse se demonstrar tão descontente com a perspectiva de noivar outra vez, mas a cada ano que passava suas ideias de usar sua posição para fazer alguma diferença pareciam mais distantes, afinal, jamais conseguiria sobrepor o irmão mais velho. Dois noivos mortos poderia ser uma simples coincidência e não arrumar problemas, mas um terceiro? Bem... Isso provavelmente acabaria arrumando uma bela guerra para Anatólia e por mais que não concordasse com o governo atual, não colocaria pessoas em risco puramente por que não queria ser infeliz. Então, ela precisava de outra saída e foi justamente quando pensava nisso que os olhos se encontraram com os de Tiziano. Um sorriso prontamente surgiu nos lábios da turca quando viu o guarda, se aproximando com determinação e animação. ❝Oi! Como vai? Será que você poderia me ajudar? Eu acho que estou um pouquinho perdida... ❞
Mantinha-se invisível na maior parte do tempo. Era por isso que, quando ouviu um oi, como vai? nunca considerava que a pessoa estivesse se dirigindo a ele. Demorou um segundo para que Tiziano percebesse que a nobre estava parada na sua frente, exigindo atenção, enquanto ele encarava o nada, fixamente, em sua pose tradicional de soldado. E não qualquer nobre, mas Adalet Karadag, a segunda filha da Anatólia. Talvez, se não soubesse quem era ela, ficasse menos apreensivo. Nessas horas, amaldiçoava a memória fotográfica e o fato de que tinha passado noites e noites, antes da Althara, montando as pastas dos participantes. " Estou aqui para isso " cumprimentou-a com um aceno de cabeça, imaginando que não precisasse responder a pergunta que ela havia feito apenas por educação. " Esse é um palácio bem grande... Que lugar a senhorita deseja encontrar? "
Stefan não tinha muitos aliados na corte de Tanarvia, tanto por que muitos não gostavam de seu pai quanto por que muitos não apreciavam a própria falta de tato social de Stefan, mas que culpa ele tinha se preferia ser útil para o reino e não ficar gastando tempo com trivialidades como festas da corte? Se os nobres não lhe fossem úteis ainda, já teria se desfeito de boa parte deles. Contudo, com as questões que andavam enfrentando com os vermelhos, ele sentia que precisava de um auxilio maior e uma visão diferente. E só teria isso com um vermelho, mesmo que se visse incapaz de confiar no mesmo. ❝Serratorre.❞ Cumprimentou assim que o viu, ali estava a parte difícil de seu trabalho, ter que se comunicar. Se dependesse do Draganis, jogaria apenas uma sacola cheia de dinheiro na direção dele e o subornaria para que aceitasse servir Tanarvia, mas nunca era tão fácil assim, não é? Alguns vermelhos ainda tinham o estranho senso de orgulho, quem diria, não? Não surpreendia muito Stefan, mas também não tornava seu trabalho mais fácil naquele caso. ❝Me conte, como tem sido o trabalho da corte italiana? Mais do mesmo?❞
Atender a todos os convidados da Althara era seu papel, como se todos fossem seus superiores, e ele um servo vermelho. Mesmo todo o orgulho não apagava o fato de que a família Serratore, como todas as outras de sangue rubro, estava abaixo dos azuis. Ele só não cogitou que um príncipe fosse procurá-lo sem que tivesse por intenção requisitar seus serviços, porque essa não era a praxe. Mantinha um arquivo semi-detalhado de todos que estavam no evento - suas pastas ainda estavam sendo alimentadas e não eram tão ricas em detalhes quanto ele gostaria, já que não tinha acesso a toda a informação que desejava - e era só por isso que sabia que estava diante de Stefan Draganis, o herdeiro da Tanarvia. " Alteza " cumprimentou, com um aceno de cabeça que era o seu equivalente para a reverência. " Agitado, como deve imaginar " ele não sabia o motivo da especulação, nem o quanto era seguro revelar, mas estava atento às relações entre países. Tanarvia não tinha se mostrado, até então, como uma ameaça para a Itália. " Estamos enfrentando alguns focos de rebeldes em Roma, mas Florença está segura. Eu não diria mais do mesmo, porque não chamaria esse trabalho de repetitivo. Vossa graça não está lidando com o mesmo no seu reino? "
Bahar empurrou com cuidado a porta lateral que dava acesso ao terraço. O ar da noite cortou seus braços nus, e ela instintivamente puxou os próprios cabelos para frente, como se isso bastasse para aquecer os ombros expostos. A bainha longa dançava com o vento, assim como o incômodo sutil que crescia no fundo da nuca — ela deveria ter levado um casaco. ❛ Não estou atrasada. ❜ Disse com um meio sorriso, a voz carregada de ironia suave. Tinha o péssimo costume de não ver o tempo passar enquanto estava trabalhando e, se estava realmente atrasada, tinha nome e sobrenome para aquilo — ainda que duvidasse que ele estivesse interessado. Estivera, minutos antes, sentada no sofá do próprio quarto, os olhos presos na tela do celular. A entrevista de Sarp acabara de ir ao ar, e ela queria garantir que cada corte de câmera, cada legenda e cada comentário do apresentador favorecesse a imagem pública do príncipe. E, como uma cereja no topo, postou uma imagem dele no feed oficial da Casa Karadag: Sarp sorrindo durante a entrevista, com uma legenda que exaltava seu compromisso com a nova geração de líderes. ❛ Acredito que você só esteja ansioso demais, Tiziano bey. ❜ A ponta do queixo ergueu levemente, desafiando-o enquanto os braços cruzavam à frente do corpo, mais por frio do que por defesa. O vestido colado ao corpo era mais apropriado para os salões do palácio do que para aquela ventania, mas ela não parecia disposta a voltar. Ainda não. ❛ Não achei que o chefe da guarda fosse tão impaciente. Sempre idealizei com uma postura mais... séria. ❜ Provocou de novo, o tom brincando com uma intimidade que ela mesma fingia não analisar. Havia algo curioso em vê-lo ali em cima, tão atento, como se o mundo abaixo fosse apenas um detalhe. Ela não dizia, mas apreciava o modo como ele tratava a segurança com seriedade — como se o lugar e todos ali fossem responsabilidade dele. Era diferente de muitos vermelhos que ela vira ao longo da vida: ele parecia carregá-la. E embora ela jamais dissesse — nem para ele, nem para si mesma — parte dela achava que poderia encontrá-lo todas as noites sem que aquilo parecesse rotina.
Quando ela o retrucou, Tiziano percebeu que sua fala podia ter soado como cobrança, e não era essa a imagem que gostaria de passar. Ele não a controlava – mesmo que secretamente assim desejasse, mas só porque desejava controlar todos os aspectos de sua vida. A forma como Bahar envolveu o próprio corpo, contudo, logo chamou sua atenção. O vestido justo que ela trazia aquela noite junto ao corpo podia ser bonito, mas não era a peça mais apropriada para o terraço àquele horário. Na verdade, não sabia dizer se ela estava ali apenas para vê-lo, porque ele havia convidado mais cedo, ou se para tomar um ar, porque queria transitar pelo palácio de Treatan. " Pode ser que eu estivesse " deu de ombros, como se isso não fosse nada, ainda que o tom fosse um tanto provocativo e a fala beirasse o proibido. Como vermelho, ele sabia muito bem das consequências de desejar uma azul, mas perto dela, não vinha pensando racionalmente. Em seguida, retirou a jaqueta que vestia, caminhando até a Kavur e passando-a por seus ombros, a fim de impedir que o vento fustigasse sua pele. O Serratore se demorou ajustando a jaqueta nos ombros alheios enquanto encarava o rosto de Bahar, esperando que ela esboçasse resistência ou negativa a qualquer momento, dizendo que ele não podia chegar perto dela, porque aquilo definitivamente não era apropriado. " Não sou sério o suficiente para a senhorita? " elevou uma das sobrancelhas, se perguntando se era realmente essa a opinião dela. Sendo a anatoliana uma das pessoas mais competentes com quem ele já cruzara, era difícil não acreditar quando ela tecia uma crítica. Além disso, justamente porque a respeitava, a opinião da morena de muito valia para ele. " Posso me empenhar mais, se não estiver do agrado da baronesa " ultrapassando limites como estava, era fácil esquecer que estava diante de uma nobre, mesmo que as circunstâncias o lembrassem com frequência.
Não havia descanso para ele, mesmo após o toque de recolher. Teriam longos meses pela frente, turnos intermináveis, vigílias e protocolos - não que houvesse alternativa. A Corça havia deixado bem claro que ele não teria uma oportunidade como essa em outro momento e que a Althara era uma imensa vitrine para expôr o trabalho que realizavam. Tiziano já começava a duvidar se a lealdade da mulher estava, efetivamente, com a Coroa Italiana, ou se suas ambições eram maiores que isso. O tenente segurava um copo de café recém feito enquanto andava de uma ponta a outra do telhado de uma das torres do palácio, forçando a vista para que enxergasse no escuro. A essa altura, todos já deviam estar se encaminhando para suas camas (ou quase isso). Sabia que o toque de recolher era meramente “decorativo” já que herdeiros de sangue azul não se prestariam a seguir leis que não fossem as criadas por eles mesmos. O Serratore não se preocuparia, a menos que algum deles se colocasse em risco, é claro - não acreditava, realmente, que nobres se enfiando nas camas uns dos outros se configurasse um risco, desde que não estivessem com intenções homicidas. Era o lado externo que o preocupava; o que quer que estivesse disposto a atravessar o oceano para chegar até eles. O constante estado de alerta fez com que se sobressaltasse levemente ao ouvir o barulho à direita, virando-se de imediato para reconhecer a figura de Bahar, suavizando, então, a postura, ainda que houvesse algum enrijecimento dos músculos pela antecipação. Os traços esculpidos sempre o deixavam desconcertado e faziam com que o chefe da guarda repuxasse um dos cantos da boca. " Está atrasada. Ele precisava que você o colocasse pra dormir e aquecesse o leitinho dele? " perguntou em tom provocativo, tentando esconder o ciúme.
As batidas do coração ainda ecoavam em sua mente, carregando receios enraizados em seu peito. Se no primeiro dia - nas primeiras horas - por pouco havia conseguido escapar de Sarp, como aguentaria toda a Althara? Beren inspirou profundamente, os punhos cerrados e os pensamento enevoados dando espaço ao problema a sua frente: um guarda de aspecto mal-humorado e músculos torneados - não que ela tivesse prestado muita atenção em seu peitoral desnudo, claro. "Estou certa de que isso não será um problema, eu não usei tanta força assim." Uma mentira, era evidente, mas não seria ela a reconhecer o desespero que guiara suas ações. Duas tentativas de abrir a porta mais tarde e ela já não tinha como esconder que estavam presos ali. Um suspiro frustrado deixou seus lábios, pressionando os olhos ao encostar a testa contra a superfície de madeira. Claro, a Aksoy poderia arrombar a porta com o corpo, como já havia feito dezenas de vezes, mas ela preferia que ninguém além de Çinar conhecesse sua força - ao menos não ali. "Não." Concordou, endireitando a postura ao voltar-se em sua direção. "Eu me perdi." Uma verdade parcial, deveria soar boa o suficiente. "E você não deveria estar no evento? Ao invés de despido em um alojamento qualquer?"
Ele também não achava, realmente, que ela tinha empregado tanta força assim para fechar a porta, tendo feito a observação como forma de provocação. Entretanto, assim que a morena tentou abrir a porta e esta não cedeu, Tiziano abandonou o que estava fazendo, seguindo até onde ela estava para tentar, com os próprios esforços, fazer com que a abertura cedesse. O tenente puxou uma vez, e então uma segunda, com mais força, gemidos escapando de sua garganta em razão do esforço inútil, ao mesmo tempo em que os músculos se tensionavam. O exercício foi concluído com um bufar e um secar de testa com o dorso da mão, seguido de um palavrão. Ela tinha os trancado ali, afinal de contas. O Serratore estava cogitando quanto tempo levaria para abrir a porta e reassumir seu posto enquanto os olhos procuravam, insistentemente, por um pé-de-cabra no interior do alojamento. " Se perdeu, uh? " ele não estava tão certo disso, e sua sobrancelha arqueada mostrava que ele não era burro. A cobrança direcionada a si, contudo, fez com que cruzasse os braços, para minimizar o fato de que efetivamente estava meio despido, mesmo que a tom dela sugerisse algo bem mais grave. " Eu estou no evento. Estava, até a senhorita me trancar aqui dentro. Só precisava resolver uma intercorrência com meu traje " negou com a cabeça, se aproximando da porta novamente e batendo com a mão aberta sobre a madeira. " Scusa! Tem alguém aí? " perguntou, elevando o tom de voz. " Viu se tinha alguém lá fora que poderia nos ouvir? "