uma coisa estranha passou pelo meu estômago às 9h quando o professor se atrasava, e o amigo ao meu lado não servia o suficiente pra me fazer afundar na realidade, e as plantas verdes em contraste com a porta azul enjoado (e eu amo muito azul para ter que dizer isso) me traziam sensação de estar longe.
nos últimos dias é disso que tenho fugido e é também o que tenho mais experimentado.
perguntei pra alguém mais experiente que eu: quando você se sente ansioso, também sente que tudo que está fazendo (até mesmo o que fala) está equivocado?
a resposta foi: sim, era depressão leve.
mas dessa eu me esquivo até a morte. foi nesse pensamento bobo que meu professor atrasado chegou pra poupar a ladainha que se seguia na minha cabeça. o rosto de bajonas é de um senhor bastante experiente da elite carioca. toda vez que ele se dispõe a falar dos anos dourados da universidade na baixada, eu só penso em como o homem não teve um fiapo maltrapilho da vida.
e isso não é apenas meu julgamento. atualmente ele aplica uma disciplina meio esquisita de projeto de tcc e quando se depara com o terror nos olhos de alguém, ele mesmo diz: não tive nenhum trauma na universidade, não posso compreender o que está passando. eu apenas fazia e passava.
foi assim que ele ganhou um concurso de um livro de filosofia, na época, uma bufunfa de 50 mil reais. diz ele que construiu sua casa com o prêmio. lá em manguinhos. de onde ele sai toda sexta-feira e se atrasada dizendo: é que eu sou de manguinhos. quando as aulas eram nas quintas ele fazia a mesma coisa.
manguinhos é distante mesmo, mas se eu chegasse atrasada de viana na segunda ou na terça, ninguém ia entender que viana também é longe.
quando ele está girando a chave na porta azul bonito eu percebo que ele tem cheiro de protetor solar. pudera. a capital está matando nossa saúde. é muito concreto quente, por isso eu odeio universidade que parece um escritório de advocacia. os advogados que me perdoem, mas que coisinha mais sem vida. universidade pra mim tem espaços esquisitos, abertos, pintados, verdes. uma coisa misturada entre longas extensões e prédios fofos. claro que fofos vem bastante maquiado de aos pedaços, às vezes interditados. às vezes sem energia, enfim, deixa pra lá. aqui tem bastante espaço aberto e está um calor terrível.
a forma com que o professor se movimenta me lembra a capa do álbum solar power e radical optimism. azul forte que está na porta é o fundo, sol brilhante sob a sua cabeça e um corpo inquieto cheio de protetor solar.
mas ele nem deve ouvir essas coisas. é filósofo. vive descaldando o sertanejo que "transformou nossa cultura em agro". imagine o que ele não pensa do pop despretensioso.
quando entro a sala tem aquele cheiro insuportável que eu vou sentir falta quando for embora de vez. três pessoas na sala nem é mais desconforto. eu chamo de sorte. conversando e gravando nossa conversa que bajonas chama de orientação, eu deixo escapar meus objetivos e lamurias sem parar de anotar alguma coisa sobre o universal que ele tanto fala.
universal pode ser aquilo que está em comum, é claro. mas para hegel é finalidade. essa finalidade me pega. finalidade de que? aí é problema meu né. tenho que responder esse papo de maluco.
mas basicamente é para aonde a história aponta. o fazer dos sujeitos. se eu penso em crise climática, jornalismo e povos originários, talvez a finalidade seja a emancipação social. um mundo onde nossa relação com a natureza não seja de expropriação, uma nova ordem vigente. se for isso, está feito.
no fim ele ajeita a postura para falar comigo sobre algo importante: sua falta de aderência na turma. é cômico como eu sempre fico com o pior. ele fala bem baixo: recentemente o coordenador do curso comentou comigo que sua turma tem insatisfações com a aula, sabe me dizer o que houve?
ah se sei! fizeram até lista com matrícula e nome para formalizar uma queixa contra o barbudo de protetor solar e camisas apertadinhas. eu achei uma arrogância sem tamanho e jamais colocaria meu nome. se eu tivesse algo pra reclamar com ele, que pelo menos fosse honroso em sua frente.
claro que a semana inteira eu esbravejei os e-mails enormes que ele manda que no fim das contas me deixam mais confusas. mas eu devolvi na mesma moeda, mandei e-mails enormes dizendo que não ia dar pra pensar daquele jeito. é o que a turma também faz mas não se entende que fazem.
ele não fica sensibilizando ninguém para produzir, e eles respondem na mesma moeda: não produzem. não sei porque o escândalo. às vezes acho que sou grosseira, porque não entendo nada disso. se deseja tanto reclamar, venha até o barbudo e reclame!
o que esse senhor filósofo que nem ao menos cobra presença poderia fazer frente a uma crítica? ouvir, é claro. é demasiado educado para não fazer. tentei ser cuidadosa nas palavras e ele disse algo que concordo: sua turma tem um certo grau de primarismo, se comportam como ensino médio.
no 7 período eu também esperava mais. mas não tendo mais nada para pontuar...e diversas vezes eu tive que me repetir pois o barbudo não me ouvia. como ele podia falar tão baixo e se escutar, e a mim não entender nada? enfim, terminei o relato dizendo: a turma não teve muito acordo, e acabou caindo por terra essa história toda. acho que eles chegam com um julgamento da sua aula, e vão confirmando ao longo do semestre. talvez porque você deixa as coisas mais livres, sem datas acirradas e cobranças de presença.
imagine o homem sofrer por isso. que pena.
na volta pra casa eu estava quase dormindo. a tarde marquei um programa que deu todo errado e isso me desregulou. não gostei do filme que vi. em partes porque cheguei atrasada e já não quis ver mais nada. pra mim é uma loucura chegar atrasada no cinema. que tipo de gente se atrasa para um filme porque está tirando foto? não digo em voz alta para não ser grosseira.
conclui que minha maior audácia em vida ir contra as orientações de bajonas para o tcc.
de noite meu coração pesa. ele não entendeu nada, eu queria me sentir enterrada no mundo algumas horas antes, quando minha mente estava flutuando morimunda. agora eu só quero me sentir leve.