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@sombraesopro
Onde habito meus hábitos se não nos outros?
Digo-lhes, viver é ser imenso como um inseto
Alguns tem a vida mais curta, como as asas de uma mosca
E como há de caber grandeza em algo tão miúdo?
Miocárdio...
Estreitar-se em monólogos estirado no chão de terra
Ter os pés nus e areia nos olhos: chorar até cerrar as pálpebras
Dito isto, nada se compara ao êxtase da companhia alheia
Habita em nós o dissabor do incompreensível
Como se fossemos maiores do que as pequenas coisas sobre a palma de nossa mão
Idealizar a vontade de um Deus que a muito permanecia desconhecido: saudamos a vida e abominamos a morte
Não vejo nada nos olhos além de luxúria, pecados que outrora acometi
Instinto animalesco, chamem amor - já não o trato com tanto afinco...
Se observamos a mesma lua Consciente me alegro Não existe nada tão longe Que não possa tornar-se perto
É como reconhecer O que reluz acima do teto Mesmo que não visto Nada no céu é secreto
Acredito que nossos olhos Se encontram sorrateiros Quando despercebidos Tomam nossos pensamentos
Que o sorriso é uma forma De expressar por um momento Que presença assim distante também é estar Só que por dentro
Nas entranhas da noite onde aqueço meu coração
O frio enrijece a leveza de um corpo inerte
Vejo estrelas e postes de luzes incomparáveis
Em chamas meus pesadelos vagueiam sob minha pele
Há quem diga de pouco afeto a beleza de um sonhador
Quando a cama não é nada mais além do que uma tese
Daqueles que quando deitam de bruços entre os lençóis
Fazem da própria solidão a melhor companhia da espécie
Orai por dias melhores em madrugadas insones
O primeiro raio de sol não ofusca tampouco fere
Dentre tudo que fica quando amanhece sobre os homens
São resquícios do aroma doce do pescoço das mulheres
Itinerários II
Itinerários
Fazei do que é triste um sorrir de alegria
Eis o grande segredo que não se revela
Um feixo de luz por entre a cortina
Soprando baixinho beirando a janela
Soubesse que tudo do que desmotiva
Passa ligeiro igual tempo: tem pressa
E enquanto ignora tudo que cativas
Das coisas que vê: em nada se enxerga
Oposto de ser quando é e nem sabia
Respira tão fundo sem saber que era
Alegre tristeza: uma tênue linha
Viver já não basta e morrer não se espera
Quando não integra a essa luz pequenina
Percebe que sem resistência se entrega
E o vento soprando a janela vazia
Aguçava os sentidos da mente deserta
Sorrir de tristeza e chorar de alegria
O pranto é premissa de tudo que cessa
E a fonte desnuda do corpo que habita
Ilumina retalhos de uma alma desperta
Sensação de primavera Reflexo novo no espelho Que é isso que sinto Mas não toco nem vejo?
Haverá explicação Que determine meu desejo? Se até no mesmo dia O céu azul fica negro
E sou tão minúsculo Perante essa plenitude Se eu manter escondido Talvez até me acostume
Sei bem que segredo algum Permanecerá imune Mas há quem troque lâmpadas Por vaga-lumes
A elegância do sofrer É chorar bem de mansinho Como se estivesse imitando O cantar de passarinho
Um pranto de desamor Há quem diga não ser nada Antes nada fosse Passarinho não cantava
Chorando como quem canta Parece até que é feliz Passarinho que é sem canto Voa alto por aí
Já que não possuo asas Nem cantar assim baixinho Vou fazendo da tristeza O que ela faz de mim sozinho
Com a ponta da língua Oscilo palavras no céu da boca Almejando respostas De perguntas que não fiz
Sente o silêncio e a brisa Querem dizer alguma coisa Como eu também ousei tentar Mas não consegui
Juntando moedas e desejos Esqueci meu nome e idade Decisão de morrer cedo Pobre rapaz por ser feliz
Nem mesmo os dentes todos De um amarelo afinidade Como tijolos empilhados Expressariam o que é sorrir
Fujo das amarras mas gosto mesmo é de abraço Se possível bem apertado o resto é indiscutível Pois o que é forte pode ser fraco E o fraco tão forte que pode ser invencível
A questão é quebrar correntes Por muito mais que uma sensação indescritível Sentir-se pleno e não mais doente Transgredir a essência num processo irreversível
O amor que dá certo É aquele que errado Quando venta lá fora Derruba telhado
O amor que dá errado É aquele que certo Quando chove bem forte Um raio cai perto
Bebida e trânsito
Esse fascínio das pessoas dá trabalho Não é perfeito nem diário