Vinte Anos de Secura
Impressões de um thrasher sobre o Skatepark de São Francisco, Niterói.
Na foto acima, o autor em seus anos de thrasher é o segundo da direita para a esquerda. Os demais meliantes: Fredý, Rodrigo Leitinho (roller & comparsa de sessions), Flávio Caxias e Daniel Mezenga.
O movimento começou discreto mas alarmante, bizarro, no melhor estilo Tyler Durden. A rapaziada das antigas do prédio, cidadãos ilibados com quem eu hoje converso amenidades na fila do Presunick, começou a circular pelos elevadores com escoriações, esparadrapos, e seus surrados shapes à tira-colo nos finais de semana. A Regra Número Um do Clube é não falar sobre o Clube, por isso demorou seis meses pra cair a ficha: tinha a ver com o recém inaugurado Skate Park de São Francisco. Era mais factível comer a Magda Cotrofe, ou ver o Mieli finalmente liberar as meninas do programa Cocktail a fazer o tão sonhado Strip Completo. Um skatepark do lado de casa: um sonho improvável. Fui lá conferir, e me senti o Harrison Ford no comecinho do Retorno de Jedai. Ou o Vincent Vega, perdidão no lance.
Foram vinte anos sem fazer uma session. Em 1996 fui diagnosticado com condromalácia patelar: perdi a cartilagem entre a rótula e a patela nos dois joelhos. Esse quadro gerava uma dor insuportável até pra subir escadas, pois um osso rangia no outro. Passei um ano fortalecendo a musculatura em torno dos dois joelhos pra pelo menos continuar a jogar basquete pelo CEFET, o que anos mais tarde me garantiria uma bolsa integral de pré-vestibular jogando pelo Colégio Salesiano Castelo. Aos dezesseis anos, minha carreira de skatista-prego se encerrou rápido, pra alívio da galera da Pracinha Gringa, em Macaé. Eu fui o clássico moleque roqueirinho que viu pela primeira vez o vídeo de 100%, do Sonic Youth, e logo depois batalhou pra conseguir seu primeiro carrinho – comprado no verão de 94 do meu primo pró Gabriel Sodré pelo módico valor de 20 melengos. Nesse verão a gente ia pra mini ramp do Quadrado da Urca, e o Gabriel, surfer fera desde moleque, me passou os bizús sobre como dropar uma ramp. A primeira dica foi: “– Dá um pulo lá de cima até o chão, sem skate nem porra nenhuma, desce rolando na ramp e tenta não se foder demais na queda. Assim você perde o medo de sentir dor.” Sabe tudo. Em filmes como Kids, o skate me apareceu como uma proposta de atitude perante o mundo. Um ponto comum entre o punk rock e o rap. A possibilidade de conhecer uma mulher genial que nem a Kim Gordon, a Kim Deal, ou como a Justine Frischmann, do Elastica. Em Niterói isso era um sonho possível. Terra das meninas do Pancake, da Simone Dash, da Paulita do Morangos Mofados. Da Marta ‘Debbie Harry’. Da Lia Amâncio e da Bel, hoje La Negra de Goya.
Veio o final dos anos 90, veio o Chorão botando a banca e queimando o filme. Consertei o joelho mas enchi o saco: fiquei dedicado à minha banda e meus fanzines. Mas, um skatepark padrão Venice Beach a 20 minutos de rolé da porta do meu banheiro, é sinal de que são novos tempos. Passei na Physic Fuel de Icaraí, salvei um carrinho novo montado, e fui lá ver qual era a da parada. Dar uma chance ao destino. Me livrar desses 20 anos de secura.
Escute aqui minha fitinha da session no Esportifai.
De cara chamou atenção o silêncio. Sem música. Uns dez mlks, alguns usando headphone inclusive, morgavam ao sol das 3 da tarde sentados nos seus carrinhos. O projeto é impecável e a paisagem é fueda. Cheguei na seca thrasheando geral, tomei logo um estabaco na primeira invertida, bom pra dar um esquenta e quebrar o gelo. “Tu é Old School, mano?” Eu sou é No School, meu broder, verdadeiro analfabeto do skate; vim ver e aprender com vo6. Foi o suficiente pros mlks todos retomarem a session e mostrarem do que é capaz a nova geração. E vou falar pra vocês: os mlk tão sensacional. Dominam os aparelhos, bowls, corrimãos, não caem nunca. Usam de obstáculo equipamento urbano concedido pelos coleguinhas da Guarda Municipal, que fazem a preza no skate park em horário integral. São mlks saudáveis e preocupados com a segurança: usam capacetes, joelheiras, gear de pró. Me lembrou a primeira onda do skate massivo no Brasil dos anos 80, a galera dos half pipes, um lance Venice Beach à vera: mais concentrado no esporte, e menos na atitude. Várias meninas com seus skates na session – ô, Sorte! Mas pra quem foi congelado por Jabba The Hutt em 1996, impossível não estranhar a galerinha usando camisas com personagens do mito Waldisney, ilustrador de fanzines mainstream gringos, e os brasões do Estado da Guanabara por todas as partes. Não teve um drop onde o meu carrinho não passasse por cima de um logotipo de multinacional ou holding de comunicação. Não tenho nada contra branded content, mas acho hipocrisia forçar valor de marca. Estilo é pra quem tem. Minhas impressões sobre o skate no século XXI: nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Muito diferente de como eu aprendi.
Uma hora de session com leves escoriações e sem grandes vexames, antes de vazar fiz questão de trocar aquela ideia com os broders. Conheci um fera de Campina Grande no maior corre divulgando seu projeto de rap, Cactude. Não estamos sós, meu mano. Um outro parça também skatista de meia-idade disse que consegue há 10 anos andar de carrinho todas as semanas. Respeito é pra quem cultiva. Mas na hora do vamos-nessa estranhei a atitude geral: me apresentei e ninguém quis dizer o nome. Aí, sim, virei o John Travolta Perdidão. Um básico da cultura de rua de todos os tempos é fortalecer os laços com quem se compartilha os espaços. Se você tá devendo, que use um apelido. Mas o fato é que hoje o haole sou eu, falando merda e fazendo piada com todo mundo, estranhando a parada toda, usando minha camisa favorita de banda – como se isso ainda significasse alguma coisa no século XXI. Não vai rolar de ser o Tiozão do Street; há que se compreender a nova onda, aprender e evoluir junto. O que importa é o bom sk8, que não é crime e nunca será. E os mlk tão sensacional.










