Construíram um retrato meu
com tintas emprestadas,
e o penduraram na parede
como se fosse verdade.
Enquanto isso,
eu seguia existindo
do lado de fora.
Errei.
Como erra
quem ainda está aprendendo
o caminho de casa.
Mas os meus erros
foram eternos para vocês.
As minhas mudanças
sempre chegaram tarde demais.
Talvez porque fosse mais fácil
amar a história
do que conhecer
quem a viveu.
Nunca perguntaram
onde o inverno
havia me encontrado.
Nunca souberam
quantas tempestades
atravessei descalça.
Nunca viram
o sangue secando
por baixo das mangas compridas.
E talvez nunca vejam.
Porque algumas pessoas
preferem o eco
à verdade.
Preferem a sombra
ao corpo.
Preferem o retrato
à pessoa.
Hoje não bato mais
nessa porta.
Não porque ela tenha se aberto.
Mas porque descobri
que ninguém pode chamar de lar
um lugar
onde é preciso pedir licença
para existir.
Fiquem
com a versão de mim
que lhes aquece a consciência.
Eu fico
com todas as partes
que vocês nunca quiseram conhecer.
Não levo rancor.
Só o silêncio
de quem finalmente compreendeu
que algumas despedidas
não precisam ser anunciadas.
Basta parar
de esperar.
E ir.
Adeus














