Anjo,
Bem, aqui estou eu. Queria que soubesse que faz tempo desde quando anotei na lista de afazeres que precisava escrever-lhe uma carta. Sei que gosta de saber como estou e o que ando fazendo, mas o senhor nunca conta-me os detalhes de sua vida. É sempre assim. Pois então, façamos do meu jeito: te conto tudo, você me conta tudo.
Então, eu mudei para aquela escola, como sabe, e não gostava das pessoas da minha sala de jeito nenhum. Aliás, como as matérias ficam tão difíceis do nada? Fiquei de recuperação pela primeira vez, a prova é amanhã. Tenho que tirar pelo menos 9 para recuperar, então duvido muito. Voltando às pessoas, descobri que, principalmente os repetentes, são muito inteligentes. Fico vendo eles discutirem alguns assuntos com os professores (assuntos dos quais não entendo absolutamente nada, então prefiro ficar quieta) e, sinceramente, me impressiono. Sempre me pergunto “como é que nunca pensei por esse lado antes?”
Mudei de ideia sobre as pessoas da minha sala depois disso e depois de conhecer melhor meus novos amigos. Eles são exatamente daquele tipo que você evita: bebem muito, fumam muito e depois contam as histórias. Mas não me importo muito. Nem presto mais atenção nas histórias de como uma ficou bêbada e tiveram que tirá-la da festa ou como a outra quase teve um ataque quando ficou sei lá quanto tempo sem fumar. Eu não ligo para isso tanto quanto você. É a vida delas, não tenho nada com isso. Desde que elas vivam a vida delas e eu, a minha. Pois, de qualquer forma, elas me fazem bem. São tão divertidas quanto possa imaginar, e uma delas, a que mais bebe, escreveu um pedaço de uma história um dia desses só porque não tinha nada para fazer. E acredite: aquela história é muito boa! Aliás, acho que isso me impulsionou um pouco a escrever isso. Você precisava saber das coisas!
Nesse tempo que andei meio perdida, meio traumatizada porque não estava mais com meus amigos, sei que deve ter imaginado que parei de escrever. E acertou. Voltei a escrever ontem. É uma historinha boba, mas me deu vontade de escrever e estou tentando fazer o que quero. Acho que nunca fiz isso antes. Então, eu quis escrever a história, eu escrevi a história. E estou satisfeita. Ah, te contei que não estou mais tão tímida? Não sei que diabos me ocorreu, mas sei que até parei com aquela frescura de não prender o cabelo nem mostrar o rosto (ei, eu pensei que nunca pararia!). Acho que esse mundo novo me deixou assim. Mas, ao mesmo tempo, ele me fez esquecer das coisas realmente importantes. Briguei com muita gente, porque fiquei tempos sem falar com elas. Elas não entenderam que eu estava sem tempo, mas aí comecei a me perguntar se isso não era uma desculpa. Não gosto de me fazer de vitima, gosto de aceitar quando faço algo de errado. Se às vezes faço o contrario é sem perceber. Então refleti sobre essa baboseira toda e pensei “você está sem tempo, mas será que está ao menos se esforçando para tentar arranjar um pouquinho do seu dia, só para tentar falar um oi para aquela pessoa que você tanto diz que ama?” Mais um motivo para te escrever. São exatamente 6:44 da manhã, tenho prova na primeira aula e estou atrasada. Mas você é importante. E as coisas importantes têm que vir primeiro.
A prova de hoje é de biologia e quero que saiba que sou péssima em biologia. E em geografia. E em física. E em exatas em geral.
Antes que eu me esqueça, queria comentar sobre dois fatos que aconteceram comigo essa semana. Não têm importância alguma, eu só queria te contar porque é legal saber que você realmente esteve lá quando alguma coisa aconteceu, mesmo que essa coisa seja você caminhando na rua e um estranho sorrindo para você. Então, acho que minha tia está começando a ficar louca. E também estou começando a achar que aquela história de acabar solteira com 40 gatos é real. Ela tem nove gatos. Então ela parou o carro no meio da rua, as pessoas começaram a buzinar e tudo isso só para ela olhar para a calçada e gritar “olha, um bebê!” Ela é solteira e tem quase 60 anos. A segunda coisa foi quando, pela primeira vez em 15 anos, meu pai me deixou escolher o que íamos ouvir no carro. Escolhi Paramore. E ele não se importou. E só agora percebi que as duas histórias aconteceram no carro.
Agora eu queria falar de música. Porque tenho ouvido músicas ruins (realmente ruins), como Bridgit Mendler. E, ao mesmo tempo, músicas muito boas como How Deep Is Your Love na versão do Cameron Mitchell. Mas não importa muito se são boas. Eu gosto, de qualquer forma. Principalmente do Cameron.
A essa altura, deve estar se perguntando sobre os meninos. Você ama me perguntar isso. Pois bem, eu estava perseguindo dois, mas tive que parar um pouco, pois as pessoas já estavam começando a perceber (principalmente os dois). Isso me lembra que eu estou começando a fazer o que eu quiser, então não acho que devia parar. Mesmo sem saber bem o porquê disso. Acho que é só porque um me lembra o Nick Jonas e o outro, o Brendon Urie.
Não me lembro de mais nada que eu deva contar. Só sei que minha prova é daqui 15 minutos e eu não sei nada. Que progresso. Então, é isso. Obrigada por me ouvir, mesmo que seja para falar da vida solitária da minha tia. Eu te amo.
p.s.: Sua vez de me contar as coisas.