Nunca fui atleta em minha vida.
Difícil de acreditar né?
Mas recentes acontecimentos me deixaram preocupado. Será que finalmente a idade, essa vadia que só leva, tinha levado mais e antes que eu esperava?
E não, não broxei, apesar de ter ouvido um “você é mais velho um ‘bocadinho’ sim", o problema é que as aulas de kite estão foda de aguentar, e eu gastei pacas pra isso!
Então vamos lá, comprei um tênis, que já fazia alguns anos que não tinha necessidade disso, amarrei com o famoso nó invertido, que não solta nunca, botei um bermudão, porque não sou viado pra usar aqueles shortinhos, e fui pra rua.
Devidamente aparelhado com fones de ouvido, radio 89 rock, sem banho tomado depois de um dia de trabalho, foda-se os outros, desci até o térreo, pra ouvir de relance uma gurizada sentada no sofá da recepção falar "é o que eu falei". Também não entendi, mas meu ego diz que a vizinha do 302, de 13 anos, me curtiu. Pode ser aquele dia em que me pegou cantando Bohemian Rhapsody saindo do elevador, vai saber!
Pé na rua, parti pra praça aqui perto. Meus pés já reclamavam e eu nem havia chegado nela.
Pé na praça e agora era pra valer, eu só tinha andado duas vezes na vida, uma na corrida Tiradentes de Maringá, em 1991, quando cheguei em 235 lugar (e é verdade!), a segunda para agradar a ex que queria fazer exercícios e eu só pensava em meu sofá, mas fiz com todo gosto, já que andávamos entre 5 a 10 minutos, moleza! Mas agora era sério, questão de sobrevivência, de não se abater pela idade, de não perder seu posto de alfa para gurizada de 20 e poucos que se se pudessem beijavam a si mesmo (em público).
Dei uma volta, foi tranquilo, já não sentia mais os pés, no dia seguinte eles me cobrarão por isso, seus vadios. Dei a segunda volta, ok, nada de anormal, já posso dizer que sou um caminhante. Sim, porque pensar em correr nem fodendo!
Então me peguei olhando pro chão, puta coisa chata, alinhei o olhar para o horizonte, ruas, carros, prédios e gente, muita gente aliás.
Comecei a olhar para as pessoas, no começo até cumprimentei as que me cruzavam, mas depois de três voltas começou a parecer estranho e as pessoas estavam desviando de mim.
Percebi minha babaquice e parei de cumprimentar, um amigo que trabalhava comigo deve ter estranhado, mas enfim, ele não sabe de toda a história e nem das regras de conduta ao se caminhar.
Mas apesar disso percebi que algumas pessoas me olham com uma cara estranha, tentei compreender aquilo, então ao passar por um ônibus vi meu reflexo, e fiz a mesma cara.
Eu não sei andar!
Eu sofro de síndrome do pé de pato, nem sei se existe, mas define bem a situação.
Deixa eu explicar, meus pés, ao contrário do resto dos humanos são virados para fora, do tipo side-out, parece bacana, mas é mais ou menos assim:
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Então ao andar a força exercida pela frente do pé é maior para dentro e contra o corpo! Um paço para a direita cria uma força contrária proporcional, e a frente, para a esquerda. E vice-e-versa.
Meio decepcionado tentei controlar isso enquanto andava, mas ficou mas estranho, sei disso porque uma criança que brincava no parquinho no centro da praça apontava pra mim enquanto ria, e muito!
Sempre confie numa criança caçoando, nesse momento elas nunca mentem.
Esqueci tudo, o mundo teria que me aceitar.
Continuando com a caminhada percebi também que eu nunca ultrapassava ninguém, e ninguém nunca me ultrapassava, comecei então a perceber que todos, e acredite eram muitos, andavam no sentido anti-horário, sem qualquer explicação aparente. Eu era o único ser andando no sentido horário, e de forma estranha. O que não faz o menor sentido, e os que tem TOC me compreenderão perfeitamente!
Imaginei que fosse para ver os carros e talvez se proteger de algum possível acidente, mas porra, estamos dentro de uma praça, tem que ser muito azarado para ser atropelado, o risco compensa viver de forma horária. Não entendi e ignorei!
Mas esse sentido correto-contrário me deu a oportunidade de perceber as pessoas, e eles o meu andar é claro.
Todos, sem exceção, estavam excessivamente perfumados, me senti meio que o cascão da turma. Que diabos que você quer, que vai fazer exercícios e se perfuma?
Arrumar alguém?
Puta que pariu, um bar é muito melhor pra isso!
Bom, da próxima tomo um banho antes, já não basta rirem do meu andar, me chamar de fedido já é demais!
Ja quase nos 30 minutos de caminhada em perfeita sincronia com o relógio, estava tudo muito bom, a música estava me dando a disposição e o ritmo perfeito para a caminhada, decidi então parar de andar curtindo a música e ir embora satisfeito com o exercício do dia.
Nota mental: Evitar se animar com a música, as pessoas também estranham alguém andando e balançando a cabeça!