A realidade é o mais hábil dos inimigos. Desfecha seus ataques sobre o ponto do coração onde não os esperávamos e onde não tínhamos estabelecido uma defesa.
Marcel Proust, em “A Prisioneira”

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A realidade é o mais hábil dos inimigos. Desfecha seus ataques sobre o ponto do coração onde não os esperávamos e onde não tínhamos estabelecido uma defesa.
Marcel Proust, em “A Prisioneira”
É claro que a solidão teria valido mais, seria mais fecunda e menos dolorosa.
Marcel Proust, em “A Prisioneira”
tem cap novo no site ;)
22
~ Alyara ~
Ela ouvia correria por todo lado e não via mais que flashes de luz. Tinha corrido para uma das extremidades da sala enquanto homens com armas passavam rendendo algumas pessoas e atirando em outras. Se segurando nas paredes, Alyara procurou a saída mas não dava pra ver muita coisa. Estava sozinha, Edna e Sam tinham desaparecido, e Faddy também. Apenas sobrara ela e aqueles homens armados que poderiam achá-la a qualquer momento e agarrarem-na, ou nos piores dos casos atirarem contra ela. Alyara prendeu a respiração na garganta e antes que pudesse se mover mais um passo, sentiu um braço agarrá-la. Ela tentou se debater mas quando olhou direito, viu que era Faddy. O abraçou imediatamente enquanto ele a puxava por uma porta nos fundos, não dava pra ver se estavam na mesma sala, pelo menos não até saírem. Ela se lembrava daquele lugar, tinham matado Liam ali. - Espera! - ela se recompôs depois de torcer o pé e quebrar o salto - Meu pé. Alyara apoiou nele e tirou o sapato o mais rápido que eu pode, aproveitou para tirar o cabelo grudado na nuca de lá. - Vamos! - consentiu ela se desprendendo dele e correndo tentando acompanhá-lo. Alyara não quis falar sobre o que estava acontecendo ou como ele tinha a achado, apenas correu e esperava que parassem logo para que ela pudesse ter algumas respostas para as suas perguntas.
*
Acabou durando o que pareciam horas, se fizesse alguma diferença naquele lugar seria muito mais do tolerável para Alyara. O céu já não estava tão escuro e uma coisa era certa, seria pior pra eles circular durante o dia, sob o sol, de forma que seriam mais facilmente vistos. - Já chega. - disse Faddy a parando - Vamos encerrar por agora, ok? Alyara assentiu e novamente tirou o cabelo colado no pescoço. - Tem pessoas acampando aqui perto. - respondeu ele - É a área deles. - Então por que nos trouxe pra cá? - perguntou ela. Ele tocou o ombro dela e a guiou para um lugar mais baixo, onde uma caverna se erguia. - Uma caverna? - indagou ele - Sabia que isto estava aqui? - Não. - respondeu ele singelamente - Não vamos ficar, é só por um tempo. - Faz ideia dos que sobreviveram? - Alguns. - respondeu ele - Mas não sei pra onde foram. - Você já estava do lado de fora. - disse Alyara - Por que voltou? - Eu não ia te deixar. - ele a ajudou a se sentar em uma pedra ao lado da parede esquerda da caverna. - Mas deixou a Gemma? - Se nos esperassem talvez fossem pegos. - falou ele pausadamente - Não podia correr o risco de... - Quebrar o juramento que fez aos meus pais. - Isso. - concordou ele. - Como vamos achar eles, Faddy? - Vamos dar um jeito. Alyara tinha ficado quase uma semana com eles e agora mal sabia se estavam vivos, sua resistência em criar laços poderia ter sido convincente enquanto estavam todos bem, mas agora ela sentia o peso de cada vida que poderia ter sido perdida em uma festa. Era como se o tempo tivesse voado desde que estava naquela sala dançando com Sam, Edna, Colette, e até com Elenora. - Quantos estavam com a Gemma? - O Sam, a Elenora, o Shawn e a Faire. - Edna e Collete? Ele balançou a cabeça. - Não. Assenti calada. - Não sei como vai ser agora. - Faddy se sentou em outra pedra perto da de Alyara - Nem como vamos chegar até eles, mas vamos ficar bem, eu te prometo. Alyara sorriu minimamente, a esperança de Faddy era como uma luz no fim de um túnel de escuridão. - Eu nunca estive tão assustada. - revelou ela, após tremer - Você estava certo, sabia? - Sabia, claro. - ele riu - Brincadeira! - A superfície não era o que eu esperava. - Eu sinto muito. - disse ele - Eu queria ter nascido no século passado, dizem que foi uma época maravilhosa, tinha muita coisa que nunca vamos saber o que é. Sabe como é dormir e sonhar com um dia melhor e acordar na mesma merda do dia anterior? Eu me sinto assim. Odeio ter que fugir, odeio ser tratado como uma aberração, odeio sentir falta dos meus pais. - Eu também. - respondeu ela - Dos pais que eu lembro e todo o resto, digo. Sonhei com ela há algumas noites. - Sério? - Eu acordava e ela estava bem do meu lado. - contou ela - Disse que nos veríamos em breve, isso não sai da minha cabeça. Foi na mesma noite do pesadelo com os Lyspectros. - Por que não me contou antes? - Por favor, Faddy! - resmungou ela - Você tinha que se preocupar com coisas mais importantes do que com o que eu estava sonhando, não acha? - Não quer dizer que eu não tenha tempo pra te ouvir. - Eu mal converso com você mais, nem penso em nós como antes. Parece que tudo mudou. - Mesmo que tudo mude, eu não vou deixar de ser o seu melhor amigo. Os dedos de Alyara acharam o colar no pescoço e apertaram o círculo metálico com a pedra azul. - Tenho medo. - soltou ela - Tudo isso que está acontecendo, não paro de pensar que pode ser culpa minha. - Não faz sentido. - E se fizer? - ela levantou a questão - Renê e eu estamos ligados. - Não é assim que funciona. - Eu não sei se quero voltar com você se eu for um risco pra todos. - balancei a cabeça - Não quero ver um massacre diante dos meus olhos e saber que é minha culpa. - Não é sua culpa, é miinha. - Que história é essa? - ela voltou-se pra ele. - Eu não quero ficar longe de você, mas vou ficar quando estiver pronta. - Então planeja me deixar, assim como me apunhalou pelas costas? - Não faz isso. - ele se levantou conturbado - Viu quantas pessoas morreram ou quase por minha culpa? Eu não teria matado o Liam se eu fosse menos idiota e não deixasse ele levar as coisas que levou, deveria ter ajudado os guardas na vigília comigo, Shawn quase foi morto. - Não podemos salvar todo mundo. - Você tem razão. - ele passou a mão pelo rosto - Melhor deixarmos esse assunto pra depois. - Culpa não é algo discutível. - disse ela - Não vai nos levar a lugar nenhum - Você tem razão. - repetiu ele tirando a mão do rosto. Ela sorriu, dessa vez perceptível. - Vou sair um pouco, tudo bem? - O que? - sobressaltou ela - Aonde vai? - Vou ver se consigo umas roupas pra gente. - E onde vai achar roupas?! - Lembra das pessoas acampando? - Vai roubar delas? - Não seria a primeira vez. - disse Faddy convencido - Essas pessoas estão cheias de dinheiro e roupas, nem vão dar falta de uma ou duas peças.Eu não demoro, só não saia daqui, por favor. - Por que não posso ir junto? - Não é hora, Alyara. - pediu ele - Preciso que fique aqui, pode fazer isso? Alyara encostou a cabeça na parede. - Não pode ficar andando por aí descaço, vai se resfriar. - ele se abaixou na frente dela e tocou sua bochecha gelada - É por isso que não pode vir junto. Ela o fitou. - Aqui. - ele tirou o paletó e pôs sobre os ombros dela - Vai te aquecer um pouco. - Obrigada, Faddy. - ela revirou os olhos. - Durma um pouco. - Não força! - Tudo bem.
◆◇