26
Alyara | Elenora
Sam e Edna nos levaram até a residência que tinham invadido para se estalar até conseguirem um lugar melhor. Faddy havia contado a Alyara que este fora o lugar aonde Gemma tinha ido meses antes em busca de aliados, e agora haviam retornado. Não existia animação para conhecer “os do norte”, como se referira o amigo, eles eram mais radicais do que os do sul. Conforme se aproximavam, o aglomerado de pessoas se fazia. E então, Gemma surgiu afobada. - Franklin! - gritou ela correndo na direção dos 4, abraçando o filho - Nunca mais faça isso, garoto! - Não posso prometer, Gemma. Ela apenas lhe enviou um olhar alerta e voltou-se para Alyara. - Querida! - ela a abraçou - Que bom que estão bem. - Faddy sabia para onde estávamos indo. - contou Alyara sorrindo - Por isso chegamos rápido. - Claro que sabia! - Gemma bagunçou o cabelo do menino - Agora venham, devem estar famintos. - Nós vamos voltar para caçar nossa refeição de amanhã, Gemma. - anunciou Edna - Já que Sam me fez perder uma coruja. - Ei, você quem quase me matou com uma flecha e a culpa é minha? - se defendeu ele. - Sim! - ressaltou ela. - Vou com vocês. - disse Faddy - Eu estou bem, mãe, sério. Gemma encarou relutante, e o olhar de Alyara era apreensivo. - Leve a Lyra para comer algo, voltamos logo. - continuou ele. - Não, eu vou com vocês! - Alyara protestou. - Não seja teimosa, Lyra. - Faddy balançou a cabeça - Iremos rápido. Já volto. Ela apenas o encarou emburrada. - Não demoro, está bem? - Faddy a tocou no queixo, trazendo seus olhos para si e a surpreendendo - Vai sobreviver sem mim por algumas horas. Ela pensou em reclamar por conta do “algumas horas”, mas permaneceu paralisada. Quando enfim ele levou os dedos para longe de seu rosto, ela pôde soltar uma última frase: - Tome cuidado. - ele assentiu pegando uma espingarda com um dos amigos, atrás de Gemma. E então, partiram deixando Alyara para trás. Gemma a levou para dentro.
*
Alyara já tinha comido, e sido levada, por Elenora, para o quarto onde ficaria. Dividindo-o com sua amiga, Colette, e Valkirie, uma das garotas da antiga toca. Colette estava desenhando algo do outro lado do quarto, com seus lápis e Valkirie nem ali estava. Alyara estava ao lado da janela, em sua cama, sentada sobre as pernas e olhando para fora. Dava para ver o campo dali, não a floresta, infelizmente. - Eles vão ficar bem, Alyara. - disse Colette um tanto entediada - Eles são os melhores. - Faddy disse que não demorariam. - Alyara mordeu o lábio inferior virando-se para ela. - Isso depende dos animais. Ela não respondeu, apenas voltou os olhos para fora. - Vamos, Faddy! - sussurrou para si mesma, passando os dedos pela estaca que Faddy tinha lhe entregado mais cedo e subindo os mesmo para seu colar. Nada. Passaram-se alguns minutos até algo estranho acontecer, uma pequena claridade? - O que é aquilo?! - ela sussurrou mais uma vez, forçando os olhos. O barulho da porta do quarto abrindo assustou Alyara, que voltou-se para a silhueta agora presente no quarto, Valkirie. - Calma lá, loirinha! - ela riu - Sou só eu. - Ela está nesta janela há muito tempo. Alyara abriu a boca para protestar, e então ouviu o barulho alto. Longe, porém alto. - O que... - Valkirie e Colette voaram para o lado de Alyara, e olharam para fora da janela assustadas. - Sem dúvidas veio da floresta. - alertou a mais velha. Alyara trocou um olhar apavorado com ambas e saltou da cama as empurrando para o lado. - Alyara, onde você está indo?! - gritou Colette. - Eu não posso deixar eles lá. - disse ela da porta. - E o que você pode fazer?! - Valkirie ergueu a sobrancelha. - Mais do que ficar sentada esperando por notícias! - e correu. Mesmo com as pernas bambas, ela correu em busca de armas e achou uma bem grande e pesada, e perigosa, numa sala, que vira mais cedo. - Onde você pensa que vai com isso, Alyara? - era a voz de Kyle, um dos guardas. - Na floresta. - respondeu ela, prendendo a arma debaixo do braço - Tem algo errado. - Nem pensar. - ele balançou a cabeça - Você nem sabe como usar essa arma. - Eu posso aprender. - Não creio que dará certo. - Bem, eu não pedi sua permissão, Kyle. - disse ela tentando passar, mas foi barrada. - Não posso deixar que passe. - reforçou ele pegando a arma. - Mas eu vou passar mesmo assim. - ainda segurando a arma, ela a empurrou para cima, batendo em seu queixo, foi o momento da fuga perfeita pelo corredor. Pessoas se assustaram ao vê-la com a bazuca, mas pouco ela importava, continuou correndo. - Alyara! - Elenora gritou, mas não a interrompeu. Alyara correu pela cidade fantasma, depressa e sem medir forças, ou falta delas. Antes mesmo do primeiro clarão e barulho estridente ou sentir o chão tremer, ela já estava em frente da floresta. Quando enfim, estava pronta para entrar, pela qual correra tanto para alcançar, faróis brilharam atrás dela, fazendo o contorno de sua sombra. Virou-se encontrando Elenora. - Você é maluca, garota? - Elenora saltou com alguns guardas. - Preferia que eu os deixasse morrer? Ela não respondeu, e Alyara não ficou para ouvi-la, apenas continuou correndo, entre as árvores, e conforme se aproximava o som, o cheiro e o barulho se amplificavam. Haviam muitos guardas ali, cerca de uns 20, e eles estavam procurando por algo, provavelmente por Sam, Faddy e Edna, que não estavam ali. Tinham soltado bombas, o solo estava queimado em alguns pontos à frente, dava pra ver por conta das lanternas que eles tinham presas nos ombros. Ela continuou ali abaixada, até sentir uma mão agarrando seu braço. Pensou em gritar, mas teve a boca bloqueada pela mão de Elenora. - Shhh! - pediu ela levando o dedo indicador da outra mão aos lábios. Alyara não disse nada, apenas se manteve calada enquanto os guardas passavam. - Temos que achar Edna, Sam e Faddy antes deles. - Jura? - Alyara a encarou - Onde estão os seus guardas? - Nos espalhamos. - ela respondeu - Agora venha comigo, vamos procurar também. Ainda abaixadas, elas se moveram pelas árvores. Seguraram-se em um dos galhos depois do impacto quente, cegante e barulhento. Elenora olhou para o céu alerta e voltou-se para Alyara. - Temos pouco tempo. - alertou ela apontando para o céu - Daqui a pouco começará a clarear e será pior para nós nos escondermos. Vamos. - O que eles estão fazendo aqui? - quis saber Alyara - Como nos acharam? - Se tratando do Renê, nada me surpreende. - de onde estava, ela percebeu um movimento em uma das árvores. Alyara a seguiu. Com a proximidade, identificaram Edna. - Meninas? - ela saiu das sombras e se uniu a elas - Eu perdi os meninos, eles estão escondidos, provavelmente. - Viram vocês? - quis saber Elenora. - Acho que não. - ela negou - Estávamos caçando e ouvimos uma explosão, tentamos correr mais vimos os homens fardados, eram muitos e vieram depressa, nos escondemos e eles começaram a soltar mais bombas... Ouviu-se um alvoroço atrás de nós, e os primeiros tiros começaram. - Faddy e Sam! - me desvinculei delas e disparei sem destino certo. - Alyara! - as duas gritaram, e ela as ouviu correrem atrás dela, mas sua atenção estava voltada para a correria em volta da floresta. Quando Edna e Elenora a acharam novamente, ela já estava fazendo o inesperado. - Parem! - todas as luzes se voltaram para ela - É a mim que vocês querem, não aos meus amigos. Me levem. - Não! - foi o grito de Faddy, que apareceu junto de Sam, que segurava o braço, aparentemente ferido. Os guardas se voltaram para os dois prontos para atirar. - Não! - ela gritou de volta desesperada, quase se rasgando - Por favor, não! Por Deus, não atirem neles, por favor, por favor! - ela implorou - Sou Alyara Pepper. - ela jogou sua arma no chão aos meus pés - Seu líder me quer. Renê Carlson. Levem-me então. Palmas foram ouvidas, e os guardas se viraram. A sombra caminhou, caminhou, caminhou... - Ora, ora! - era ele, ela reconheceria aquela voz arrepiante de qualquer lugar - Nos encontramos mais cedo do que imaginei, menina. Você pode até ter me expulsado da sua mente, mas eu ainda posso assombrá-la pessoalmente. Os guardas não a deixariam chegar até Faddy, então se conteve e apenas encarou a imagem de Renê saindo das sombras, como um monstro vindo à tona. - Você é muito tola, minha querida. - ele riu. - Não se aproxime dela! - gritou Faddy - Venha me pegar, eu era o alvo dos seus guardas. - Vocês não me interessam. - Renê tocou uma mecha do cabelo dela, e a pele do queixo. Faddy, se contorceu de nojo, ela percebeu. - Temos assuntos para resolver antes de eu atirar na sua cabecinha loira.
~~ Edna cutucou seu ombro, de onde estavam eles não podiam vê-las. - O que foi? - indagou se voltando para ela. - Está vendo aquilo? - ela apontou e Elenora forçou os olhos para ver o que ela estava vendo. - A bomba não detonou. - reparou - Por que não detonou como as outras? - Talvez tenha sido programada. - Merda! - praguejou Elenora - Mande um rádio para a Gemma, agora. Alyara está o atrasando, ela não se entregaria. Avise que Renê está aqui com os guardas. Vamos contra-atacar. Edna assentiu e se afastou. Elenora aproximou-se da bomba, de fato, tinha sido programada. 5 minutos. - Aguenta firme, Pepper. - a segurou firme, o dispositivo cabia na sua palma. Quando Edna retornou, faltavam 2 minutos e 30. - Quando faltar meio segundo. - avisou - Esteja pronta para correr quando eu lançar, e torça para eu não acertar nenhum guarda. Edna assentiu e as duas manteram os olhos no cronometro. ~~
- Eu não sei onde os meus pais estão. - disse Alyara, arrastado. - Ah, eu não me importo com Laurent e Reese, minha cara. - ele sorriu - Estou mais intrigado com você. Ela permaneceu imóvel, mas desviou os olhos quando os dedos dele alcançaram a corrente em seu pescoço. - Aqui está. - ele puxou a corrente em sua direção, fazendo Alyara bater as mãos e braços contra o peito dele - Essa é a sua kriptonita. Ele a sufocou, forçando a corrente, que agora se fechava em volta do pescoço. Alyara sentia o ferro se fechar. Faddy assistia de longe, a garota que amava batendo as mãos contra o homem enquanto tossia e perdia o ar, a pele ficando vermelha, os olhos arregalados... - Talvez o prazer maior seja vê-la morrer em minha frente. Mesmo com a situação, ela se concentrou, esquecendo a falta de ar e sorrindo. - Você vai perder essa guerra. - ela se engasgou - Não importa quantos tenham que morrer, nós vamos ganhar. Nada mais saiu, ela apenas fechou os olhos, enquanto as lágrimas desciam. O som ensurdecedor se fez, fazendo com que Renê a largasse. O impacto, foi grande e a jogou longe assim que ela agarrou sua bazuca, que a pouco estava no chão. Abriu os olhos com os braços de Faddy a puxando para cima, deveria ter ficado inconsciente por alguns segundos, até enfim ser alcançada. Ao encontrar-se de pé, ela aceitou os braços de Faddy em torno de seus ombros, a puxando. Somente quando segurou firme a arma, de pé, foi que percebeu que Sam tinha um dos braços sobre os ombros de Elenora, e Edna os seguia depressa, dando cobertura. Estavam todos ali. Estavam quase chegando à toca, seus pés tocaram o asfalto, mas o corpo de Sam não aguentou e despencou, contra o chão. Elenora se jogou ao lado dele, caindo de joelhos e tentando reanima-lo, mas ele encontrava-se inconsciente e pálido, tinha perdido sangue demais. - Sam! - gritou ela tentando levantá-lo - Sam! Pelo amor de Deus, acorde! Samuel! Faddy o tomou nos braços, mas assim que se levantou, com as mãos de Elenora ainda em seu pescoço, sentido a pulsação dele, os guardas os alcançaram. Alyara e Edna tomaram a frente, empunhando suas armas para eles, a bazuca e o arco e flecha. - Atirem! - ele gritou sedento, de uma distância pequena. Atiraram. Mas nenhuma bala os acertou, apenas voaram no ar e quicaram contra a pele deles. Alyara e Edna abaixaram suas armas surpresas e um tanto chocadas, não entenderam até ouvirem a voz de Gemma. - Perdão, Renê! - anunciou ela acompanhada de vários dos seus, incluindo Colette e Valkirie - Mas essa área é nossa agora, e não é bem-vindo aqui. Ele, tão surpreso quanto os outros, recuou. - Vai ter volta, Collins! - ele rebateu - Vai ter volta para todos vocês! Vai se arrepender, Alyara! Ganhou um inimigo para o resto da vida! - Vá para o inferno, desgraçado! Ele riu enquanto os guardas recuavam. - Você está muito ferrada, menina! - Chega de ameaças. - se pronunciou Gemma, atirando uma bomba contra eles, ela explodiu longe, próxima dos guardas que já estavam correndo dali - Corram como covardes! Todos se foram. - Mãe, o Sam... - ela apressou-se e com a ajuda do guarda, com quem andava para cima e para baixo agora, o guarda o levou dali e Elenora o seguiu, branca como um papel e nervosa. - Está bem? - Gemma se aproximou de Faddy e tocou seu rosto. - Estou. - respondeu ele com os olhos fechados enquanto ela passava as mãos trêmulas por sua testa, afastando os fios negros molhados de suor. Eles se abraçaram e Gemma voltou-se para Alyara. - Me dê isso. - ela entregou a bazuca - Foi muito corajosa, querida, mas não faça mais isso, está bem? Alyara assentiu em silêncio. - Como fez aquilo? - indagou ela enquanto Gemma caminhava de volta para a toca - Era para termos sido atingidos por aqueles tiros. - Proteção. - disse ela apontando para o ar - Blindamos toda a área, como fizemos antes com o som na outra toca, reforçado agora, nenhuma arma inimiga pode acertá-los daqui. Não houve mais nada depois disso. Gemma se foi, deixando apenas Faddy e ela ali. - Faddy, me desculpe por... Ele não a deixou completar, a envolveu e apertou contra o seu peito com os braços em sua volta. Ela respirou contra a roupa molhada dele, aliviada por estar nos braços dele, por poder tocá-lo depois de achar que nunca mais poderia fazê-lo. Ela sentia as lágrimas dele molhando seu rosto, estava amanhecendo agora. Ela quis se afastar, mas foi no pensamento, pois o aperto dele não afrouxava, pelo menos não nos primeiros minutos, que pareceram horas. Ele a soltou, mas ainda tinha as mãos leves em seus braços. - Eu tive tanto medo de te perder hoje. - disse ele piscando rapidamente. - Está tudo bem agora. - ela deu dois passos para frente e passou os polegares pelas bochechas dele, limpando os rastros das lágrimas - Eu estou bem, você está bem. Ele forçou um sorriso. - Lyra, eu preciso te dizer algo, algo que eu já devia ter te dito antes, mas eu tive medo. - sua testa tocou a dela, e as respirações relaxaram ambos - Eu tive medo da sua reação, que se afastasse... Eu devia ter dito antes... Eu... não aguentaria te perder, nunca. Lyra... - Eu também te amo. - ela sorriu passando os dedos pelo rosto dele - Eu te amo, Faddy. Lágrimas também desciam dos olhos dela agora, coragem brotou em seu peito e suas mãos seguraram seu rosto, o beijando. Um beijo diferente do primeiro, e não pelo fato dela ter tomado a iniciativa, e sim por ter sido cheio de paixão, por serem lábios conhecidos. E o mundo ao redor dos dois sumiu, aquele era o abrigo de ambos, eram a casa um do outro.
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