Manifesto da Wicca Inclusiva de Ivonne Aburrow - Tradução por Sirius Cor Leonis - PARTE III
Continuando:
Bolos e vinhos devem ser feitos de forma inclusiva. Alguns de nós usam a simbologia do Amante e do Amado ao invés de masculino e feminino. Nós também desenvolvemos uma consagração do vinho com duas taças, onde nós despejamos o vinho de uma taça na outra com as palavras “eu encho sua taça com amor”. A taça vazia é passada adiante e cada pessoa enche a taça do próximo com essas palavras. Outra forma de fazer os ritos de bolos e vinhos é compreendendo que todos temos energias 'masculinas' e 'femininas', ou que a polaridade última é entre espírito e matéria, ou é entre o eu e o outro, ou o raio descendente e as águas primordiais, ou alguma outra variação inclusiva.
Nós acolhemos diferentes particularidades e necessidades especiais em saúde mental. Essas incluem mas não se limitam a neurodivergência, dislexia, canhotos e aphantasia. Deveria ficar a cargo de cada indivíduo bruxo determinar se está ou não bem o suficiente para estar num círculo, ao invés da promoção das políticas excludentes de alguns covens Wiccanos. A magia ritual também pode ser muito terapêutica. A Wicca Inclusiva segue o modelo social de visão sobre as necessidades especiais e deficiências na qual parte do pressuposto de que as pessoas são desabilitadas quando a sociedade falha em acomodar suas diferenças, ao invés de serem vistas como intrinsecamente 'deficientes'. Um exemplo para assegurar a inclusão é não fazer com que as pessoas copiarem à mão o Livro das Sombras do coven porque isso pode ser extremamente desencorajador para pessoas com dislexia e dispraxia. Outra prática é não dizer à canhotos que devem segurar seus athames com a mão direita. Oferecer alternativas de movimentos e dança para pessoas com mobilidade reduzida, tornar os materiais de leitura disponíveis em diferentes formatos e ser mais sensíveis em relação às pessoas com disforia são caminhos que podem tornar os círculos mais inclusivos.
Nós praticamos abertura com outras culturas e etnias. Nós não insistimos em uma base genética para cultura (qualquer pessoa pode culturar quaisquer deuses de quaisquer culturas). Precisamos estar cientes da existência do racismo sistêmico que é a forma como certos grupos étnicos são oprimidos em áreas como empregabilidade, moradia, acesso à justiça, policiamento e sociabilidade em geral. Nós trabalhamos magia para aliviar a opressão e para engajar na resistência à opressão ao lado dos oprimidos.
Nós tentamos evitar a apropriação cultural. Ao fazê-lo, nós reconhecemos que a apropriação cultural ocorre quando há uma diferença de poder (usualmente devido à história do colonialismo) entre os exploradores e os explorados. Nós não devemos tratar as culturas indígenas como meras mercadorias ou curiosidades. Apropriação cultural é quando alguém da cultura colonizadora ou de alguma forma culturalmente dominante pega um ritual ou significativa prática sagrada de alguma cultura subjugada, subvalorizada ou colonizada, tirando de seus contextos e drenando seus significados.
Nós somos abertos ao Kink, ao poliamor e à monogmia. O BDSM seguro, são e consensual (e o kink ciente dos riscos e consensual) são variantes saudáveis da sexualidade humana e podem trazer experiências espirituais profundas. Tanto o poliamor quanto a monogamia (contanto que sejam igualitários e consensuais) também são variantes da sexualidade humana naturais e saudáveis. As trocas de energia em relacionamentos são saudáveis quando são completamente consentidas e conscientemente trabalhadas. Tanto para relações poliamorosas ou monogâmicas quanto para os covens Wiccanos, a confiança, comunicação e transparência são as chaves.
Nós promovemos a cultura do consentimento. Numa cultura do consentimento, o indivíduo é considerado como o melhor juiz de suas próprias vontades e necessidades. Buscar o claro consentimento para as interações sociais (especialmente se envolver o toque ou contato sexual) é a norma esperada. Porque cada adulto está completamente no comando de seu próprio corpo e mente, é uma violação tentar forçar alguém a alguma atividade contra a vontade ou forçadamente abstê-los de quaisquer atividades que estes desejam (contanto que esta atividade não seja danosa a si mesmos ou aos outros). Em um coven inclusivo todos os membros devem ter o direito de consentir ou recusar toda a magia que os envolva, todas as formas de toque e todas as ações rituais.
A Wicca Inclusiva evita o etarismo. Nós recebemos membros de todas as idades acima dos 18 anos e acomodamos as necessidades dos membros mais velhos. Geralmente há uma restrição mínima de 18 anos de idade em covens Wiccanos para assegurar que os participantes tenham maturidade física e emocional para lidar com o simbolismo erótico e sua energia. Nós escutamos as preocupações e vozes dos membros de todas as idades. Nós recomendamos aos indivíduos abaixo de 18 anos que busquem informações e recursos úteis para iniciar seus caminhos de forma responsável.
Nós somos body-positive (pró diversidade dos corpos). A Wicca Inclusiva não admite preconceitos com os peso e demais características do corpo. Corpos vêm com todas as formas e tamanhos. Eles são lindos, não importando a forma, tamanho, quantidade de pelos, cicatriz ou quaisquer outras diferenças que possam ter.
Nós tentamos acomodar os membros com poucos recursos financeiros. Isso envolve organizar os eventos segundo rotas acessíveis aos transportes baratos, não organizar atividades sociais caras, evitar uma lista de leituras extensa e cara, não esperar [ou requerer] que as pessoas comprem equipamentos caros. De forma similar, nós não insistimos que os membros do coven tenham ou alcancem um nível educacional particular ou pertençam a uma determinada classe socioeconômica.
Nós ouvimos as visões de mundo de todos os membros e valorizamos a contribuição de suas ideias. A perspectiva de uma pessoa nova pode ser incrivelmente valiosa, e também as questões como “mas por que fazemos aquilo daquela forma?” podem fazer o grupo pensar e reavaliar suas práticas mágicas. Cada um traz diferentes experiências e perspectivas para o círculo e todas são bem-vindas. O princípio simples no coração da Wicca Inclusiva é empatia e respeito. Ser inclusivo é sobre respeitar e celebrar as experiências e qualidades que os outros trazem ao círculo empatizando com suas perspectivas. Se você tem respeito, empatia, compaixão e amor, então todo o resto é possível de ser trabalhado.
Leia mais em:
Yvonne Aburrow (2014), All acts of love and pleasure: Inclusive Wicca. Avalonia Books.
Jo Green (2016), Queer Paganism: A spirituality that embraces all identities.
Yvonne Aburrow (2020), Dark Mirror: The inner work of witchcraft
Lupa Greenwood (2012), Talking about the Elephant: An Anthology of neopagan perspectives on cultural appropriation.











