AnaCrônicas | Adeus Christopher Robin
Sem muitas pretensões, assisti ao filme Adeus Christopher Robin (2017), biografia que nos conta a história da criação do universo do Ursinho Pooh. Isso por si só já é um bocado estranho, já que não tenho ligação alguma com o tema - devo ter visto um desenho ou outro, mas nunca tive uma conexão forte, emocional.
E, ainda bem, a projeção foge do clima de falso otimismo de outras biografias, como Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013), ainda que este seja muito bem executado e repleto de boas performances. Interessante, esse foi outro filme que vi sem ter relação pessoal alguma com a obra ali retratada (tanto que só fui conferir o clássico com Julie Andrews alguns meses depois de assistir à biografia).
Enfim, a questão é que o filme desconstrói a imagem alegre de quando uma grande obra conhecida por todos chega ao público. Claro, o lançamento do livro é algo financeiramente maravilhoso à família de A.A. Milne, seu criador, mas ao custo da infância de sua inspiração: seu filho, Christopher Milne, o verdadeiro Christopher Robin.
O pai, interpretado pelo sempre excepcional Domhnall Gleeson, consegue entregar muito bem alguém emocionalmente distante, quebrado pelas experiências da Primeira Guerra, e ainda assim empático ao espectador, mesmo com suas falhas. A mãe, Daphne, interpretada pela igualmente excepcional Margot Robbie, entrega outra pessoa tão quebrada quanto, apesar das aparências; ela surge quase como uma antagonista em diversos trechos da trama, e embora entendamos seu primeiro momento desprezível, o roteiro lida com esse tema de uma forma imprecisa ao longo da projeção.
Kelly Macdonald, que interpreta a babá Olive, e Will Tinston, esse fazendo Christopher enquanto criança, também são extremamente competentes em seus respectivos papéis. Kelly consegue entregar uma pessoa extremamente terna e responsável, e é ela quem fica a cargo de entregar muitos bons momentos emocionantes. O jovem também se sai bem, como a criança que apenas quer a presença e o amor de seus pais, tanto como já o tem de sua babá. A fama pela inspiração do livro de seu pai o quebra, e sentimos. Infelizmente, Alex Lawther é bastante competente, mas o longa decide usá-lo por pouquíssimo tempo, mal dando espaço ao já adolescente Christopher.
E já que mencionei o tempo, devo dizer que o ritmo é um pouco abrupto. Claro, se o filme nos mostrasse cada momento na íntegra, seria uma atividade nada agradável. Mas senti muito o peso dessa decisão dinâmica ao não nos dar muito tempo para conhecermos Alan e Daphne no primeiro ato, demorando a nos fazer simpatizar com ambos. O mesmo se dá à fase adolescente de Christopher, extremamente picotada, e acaba não sendo o suficiente para sua nova construção. Mais alguns minutos de desenvolvimento não iriam machucar.
No mais, a direção de Simon Curtis é extremamente competente, a fotografia é soberba ao nos colocar na mente, no psicológico de cada personagem por meio de cores frias ou espaços amplos e escuros, e a recriação de época, tanto pelos cenários quanto pelo figurino, é belíssima.
Vale muito a pena conferir, se já não o fez.














