Resenha | Homem-Aranha no Aranhaverso
Vocês já estão cansados de saber que sempre há alguma desventura cercando meu encontro com qualquer nova obra do Homem-Aranha, e isso não poderia faltar em mais uma página da minha HQ de origem, que teve seu início lá em 2004. Tem gente que não sabe? Pois bem, a história é a seguinte, para aqueles que acabaram de chegar: quando tinha 8 anos, me vi apaixonada pelo universo do Teioso graças ao agora antigo filme Homem-Aranha 2. Meus olhos brilharam no cinema, de verdade. Desde então, tenho sido a primeira e única Garota-Aranha... ao menos, era o que pensava. Pude conhecer diversas outras pessoas que amam o personagem e tudo o que o cerca nesses 14 anos (cacete!) como fã, e que possuem muito mais conhecimento do que eu. Mesmo assim, por algum motivo, acabei “herdando” certas características do Aranha, como seu uso de piadinhas infames em momentos de tensão e sua falta de sorte em várias situações na vida.
E é aqui que posso iniciar esta mais nova edição.
A ida ao (longínquo) cinema fora aprazível, como não é de costume. A estadia lá, até o início da sessão, também começara de forma normal: uma ida à livraria que habita o local foi igualmente agradável. Mas houve um plot twist. Não sabia que teria um combo para poder garantir um balde especial de Homem-Aranha no Aranhaverso, então fui pega totalmente desprevenida. E havia um agravante: para garantir tal item, era necessário comprar um baldão de pipoca... e dois refrigerantes, sendo que estava sozinha (assim como na esmagadora maioria das vezes). Ou seja, precisei da ajuda da moça do balcão para levar as bebidas à mesa, até esperar a hora do filme começar, já que eu estava carregando a sacola com as compras da livraria, a sacola com o balde do Aranha e o baldão de pipoca.
Como diabos levaria tudo isso para a sala? Como iria sequer mostrar o celular comprovando a compra do ingresso no site?! Bem, eu tive de levar o aparelho primeiro para só então pegar as bebidas. E como faria para sentar na poltrona escolhida? Por sorte, o jovem casal ao meu lado foi bastante gentil ao segurar o assento e eles me permitiram usar os dois suportes por conta do excesso de drinks. Eles viram o quão enrolada que estava. Agradeci cada pessoa que me ajudou nesse perrengue. Tudo por causa de um balde. Soa até meio patético, falando assim, tão secamente. Mas o amor, seja por alguém ou por um personagem, é muito doido, mesmo. Faz com que cometa essas loucuras... Mas chega de devanear sobre sentimentos! O logo da Sony apareceu, é hora de focar no filme!
E, minha nossa, foram quase 2 horas de muitos sentimentos trazidos à tona, tais como tristeza e alegria. Foram quase 2 horas de pura e simples diversão. Foram quase 2 horas das mais emocionantes e gratificantes da minha vida. Há tempos não ficava tão feliz com algum filme do Aracnídeo. E o longa de animação, que estreou primeiramente em Dezembro de 2018 lá fora (estreando no dia 10 de Janeiro no Brasil), marcou o ano passado como um dos melhores do personagem, contando também com o game de PlayStation 4, Marvel’s Spider-Man. Duas adaptações maravilhosas em uma só tacada, ainda que num ano repleto de dificuldades e perdas; o Aranha perdeu seus criadores, Stan Lee e Steve Ditko. Peter perdeu seus pais. Mas pessoas que amam o personagem fizeram jus à obra de toda uma vida tanto com o jogo quanto com a película. Isso por si só deixaria ambos orgulhosos.
É muito bom se deparar com um trabalho tão cheio de carinho para com o material de origem. Os idealizadores, dos diretores aos roteiristas e aos inúmeros artistas, colocaram muito amor nessa obra, tanto até que há uma vastidão de easter eggs e referências que, quando descobertas, são um prato cheio para uma felicidade quase infantil (se bem que são tantas que farão você rever a película um bocado de vezes). Mas um filme não se sustenta apenas disso, e que bom que Aranhaverso sabe disso, porque o enredo é bem caprichado e soube focar no que é importante: a origem de Miles Morales, e seu amadurecimento tanto como homem quanto herói. E admito, o conceito de introduzir a noção de universos alternativos numa narrativa dessas me deixou preocupada num primeiro momento, mas serviu ao seu propósito muito bem: as outras pessoas-aranha aqui adicionam ao crescimento de Miles.
O Peter Parker quarentão aqui presente é, talvez, uma de minhas versões preferidas do personagem. Ele está acabado e cansado porque deixou a vida o derrubar, algo impensável de alguém que, supostamente, sempre viveu do clássico ditado “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Ele faz o papel do mentor relutante, que por vezes se torna o papel do pai que zela pelo seu filho, essa última figura sendo adotada por Miles; aliás, o guri é outro que possui aqui uma de minhas versões favoritas, repleto de carisma e personalidade suficientes para liderar uma boa história e, claro, uma futura franquia. A Gwen Stacy também tem seus vários bons momentos, aparecendo até mais do que pensava. Os únicos que são introduzidos um pouco “em cima da hora” são o Aranha Noir, a Peni Parker e o Porco-Aranha, ainda que sempre possuam boas sacadas e sejam presenças agradáveis em cena. E mais: todos com seus devidos estilos visuais.
Até porque, se tem algo que essa obra tem de sobra é estilo (o melhor: esse aspecto não interfere na narrativa, mas, sim, a complementa). Desde o aspecto de quadrinho antigo às onomatopeias e quadros com pensamentos dos personagens; é um verdadeiro festival criativo. E cada integrante da equipe aracnídea possui seu visual inerente ao seu respectivo universo. Ao passo que Miles possui um mundo repleto de elementos que remetem à pichação, o Peter do universo Noir traz consigo uma paleta de cores monocromática (clássica do gênero e das capas do selo nas HQs) e Peni já apresenta exageros clássicos da estética de um anime. O impressionante é que tudo converge muito bem; parece que, mesmo com suas diferenças estéticas, aquele pessoal pertence ao mesmo lugar. E, por conta dos acontecimentos em suas vidas, acaba que realmente o fazem, ainda que por meio de um elo trágico.
Não só isso. Todos eles possuem suas respectivas melodias, também. Se as aparições de Gwen trazem consigo mais rock e as do Peter apresentam a clássica música orquestrada típica de um herói, Miles introduz mais hip-hop à playlist, acentuando ainda mais sua personalidade. Aliás, falando nisso, a trilha sonora original consegue deixar alguns bons temas na cabeça, enquanto que as músicas inspiradas no filme também se destacam e nos fazem até escolher nossas favoritas (não consigo tirar “What’s Up Danger” da minha mente. Ela e “Sunflower” tocam sem parar por aqui).
Agora chega a parte que, bem, parte meu coração. Enquanto que dois vilões possuem um background compreensível, outros são meros dispositivos para set pieces de ação (ainda que agradáveis ao olhar). O foco realmente se situa nos heróis, seus dilemas e seus núcleos (o pai de Miles, Jefferson, e a tia May roubam alguns momentos, tornando-os muito bons), o que não é de todo mal, mas não dá para não ter a sensação de oportunidade desperdiçada.
Homem-Aranha no Aranhaverso é tudo o que sonhei ver algum dia na tela do cinema. Além de um bom enredo, bons personagens principais, boas atuações, arte primorosa e um baita ritmo, o filme ainda passa a mensagem mais poderosa que sempre existiu como legado do Teioso, mas sempre foi pouco explorada ou sequer tocada: qualquer um pode vestir a máscara, qualquer pessoa pode ser um herói. E isso me leva ao momento mais emocionante de Homem-Aranha 2, onde a tia May diz o seguinte:
“Eu acredito que exista um herói em todos nós, que nos mantém honestos, que nos dá forças, nos enobrece, e no fim nos permite morrer com orgulho. Ainda que às vezes tenhamos que ser firmes e desistir daquilo que mais queremos. Até de nossos sonhos.”
Foi esse discurso que deixou aquela garotinha de 8 anos, lá em 2004, emocionada pela primeira vez na vida. E ele ressoa até hoje, desta vez emocionando cada vez mais crianças, ainda que de uma forma renovada, mas igualmente importante, ou até mais. Tem coisa mais poderosa do que essa?
Obs.: fiquem até a cena pós-créditos, eu vos imploro!