“It's the feeling of betrayal, that I just can't seem to shake
And everything I know tells me that I should walk away
But I just want to stay
And my friends said:
I know you love her but it's over mate
It doesn't matter put the phone away
It's never easy to walk away, let her go
It'll be okay
It's gonna hurt for a bit of time
So bottoms up let's forget tonight”
Dean Lewis - Be Alright
Hoje acabou minha segunda caixa de Androgel – eu tenho usado de 50mg desde o início porque o de 25mg foi descontinuado – durou um pouco mais porque eu perdi uns dias quando viajei e esqueci de levar em dois finais de semana e fevereiro tem só 28 dias. Enfim, me peguei pensando nas mudanças nesses dois meses e gostaria de ter feito mais registros antes de começar, mais específicos, sabe? As pernas, as mãos, braços, tirei fotos muito genéricas de rosto e corpo inteiro na frente do espelho. Acredito que as mudanças mais visíveis até agora são:
Meu maxilar: acredito que esteja mais em evidência e eu consigo sentir os músculos da ATM como se eles tivessem surgido pela primeira vez agora, principalmente o masseter (obvio que eu pesquisei isso no google agora para poder ser mais específico na minha colocação, sempre fui péssimo em anatomia haha);
Ombros: De alguma forma, eu sinto que eles estão mais desenhados, algumas camisetas mais justas que tenho ficam mais apertadas agora e foi assim que eu percebi essa mudança, depois passei um dia inteiro alisando meus ombros porque achei o máximo;
Quadril/Bunda: Esses eu já não sei se é uma mudança da testosterona ou se é um conjunto de coisas – como emagrecimento, deixar de usar roupas apertadas que deformam o corpo, etc –, mas sinto que eles diminuíram bastante, minhas calças novas, que comprei pré-t estão bem folgadas nessa região e quando eu olho no espelho realmente vejo uma mudança na silhueta. Resisto em acreditar que seja da T porque tá muito cedo para a redistribuição da gordura corporal e eu não sinto que tenha emagrecido a ponto de mudar da forma que mudou em apenas dois meses, de qualquer forma, sou muito grato a essa mudança;
Pelos/Unhas: Sinto que estão crescendo muito – muito – rápido! Os pelos estão mais grossos eles têm nascido na parte de dentro do meu braço, onde não tinha antes, e estão mais cheios nas pernas, minha sobrancelha também está ficando mais cheia.
Barba: Pouquíssimos pelinhos no pescoço, na lateral do rosto e um bigodinho chinês, tão finos e discretos que eu não percebi, quem notou foi uma amiga, mas para tristeza geral da nação não tem volume suficiente para ser chamada de barba.
Compilando agora, parece tanta coisa, mesmo em tão pouco tempo. Aí a importância de escrever e falar, eu estava aqui pensando sobre como nada mudou e, desculpa corpo, serei mais paciente e grato com você.
Tirando isso, escolhi por definitivo com quem farei a mastectomia e estou absurdamente empolgado e ansioso.
O tempo passa tão rápido, eu queria poder aproveitar mais cada segundo da vida sem esperar sempre pelo minuto, hora, dia, mês seguinte, uma pessoa me falou para conhecer um lugar aqui em São Paulo que é como se fosse um templo (?), não sei definir, eles praticam uma arte japonesa, ainda não fui, mas quero conhecer, sempre penso que essas coisas ditas em momentos que você não espera e que ficam ecoando na sua cabeça tem um significado maior, como se a pessoa que falou fosse um caminho que a vida encontrou de te encaminhar para algo que você precisa, então pretendo ir ainda essa semana, agora que passou o carnaval.
“All of the time we've lost
All of the love we gave
And now these hands are tied
I can't help thinking
That I was in the days I was losing my place
I was screaming out at everything
Waiting for the walls to come down
Before my moments starts of fade
But everything that's perfect falls away”
Matchbox Twenty - Sleeping at the Wheel
Eu sempre tive muita dificuldade em começar, qualquer coisa que seja, inícios sempre foram complicados para mim. Acredito que meu medo de falhar e de não atender expectativas – principalmente as minhas, uma vez que sou um crítico muito algoz comigo mesmo – me mantiveram em uma posição de expectador da minha própria vida em diversos momentos, e hoje, resolvi materializar algo que há muito permeava meus pensamentos, criar um diário para tentar, de alguma forma, exteriorizar o universo que sinto dentro de mim.
Dito isso, quando comecei a escrever essa postagem, queria fazer uma introdução a meu respeito e tentar ser mais poético e claro para quem sabe assim me entendessem, depois pensei que não estaria sendo sincero comigo se fosse poético e claro, porque tentaria disfarçar com palavras bonitas e boa escrita algo que não sou: poético e claro. A partir disso, também me veio a cabeça que não importa o quanto eu me esforce para me fazer entender, porque só entende quem está disposto a, e se eu precisasse me explicar, me desdobrar, talvez no fim, ainda que entendessem o que quer que eu quisesse dizer – que a essa altura não lembro mais o que era exatamente – seria um esforço em vão, uma vez que eu sempre teria que me dispor a esse papel: o papel de explicar, elucidar, me desgastar para que me entendam, me compreendam, e penso que a partir desse ponto em que preciso ser claro (e talvez poético) a meu respeito tiro do outro a responsabilidade de se esforçar minimamente para me conhecer, para que exista uma relação e uma troca respeitosa e real onde um aceita o outro e vai, aos poucos, conhecendo o outro e entendendo suas nuances sem que nada precise ser explicado ou esclarecido, e que quando me explico dou a entender que errei, que não fui sincero com o que sinto, ou que fui sincero e que me arrependo de tê-lo sido, e não me arrependo, não mais.
Imagino que agora você esteja pensando que tudo isso é muito choroso e chato, mas eu preciso dizer tudo isso para que entendam – o que é bem irônico a essa altura – que eu criei esse espaço para mim e que o que quer que seja escrito ou postado aqui será o mais próximo possível da pessoa atrás da tela, sem enfeites, sem pontuação acertada, sem qualquer coisa que possa soar falso para mim. É isso.
Sobre a transição:
Tenho dito para os meus amigos do quanto esse início tem sido difícil, que eu me sinto no limbo entre os dois gêneros, não tenho passabilidade como homem ainda, e já não me encaixo, e nem quero, enquanto mulher mais. Então surgem todos os medos e receios que acredito serem naturais nessa etapa da transição: eu não sei em qual momento eu posso simplesmente entrar no banheiro masculino e não sofrer nenhuma repressão por isso, ou quando eu posso parar de aceitar que me chamem de um nome que não é mais o meu, ou de pronomes que eu não me identifico, e as pessoas dizem que é complicado e que elas não conseguem, e eu entendo tudo isso porque de alguma forma tem sido difícil para mim também, me apresentar, me posicionar. Ontem um amigo me disse que não sabia mais como me cumprimentar, e eu sempre respondo “como você quiser”, mas antes disso, no final de semana, falando sobre outro assunto com uma amiga, ela disse que eu posso quebrar esse medo das pessoas dizendo, por exemplo “olha, eu gosto dos abraços e dos beijinhos” e foi exatamente o que eu disse, ele me abraçou e pareceu surpreso, eu fui embora feliz.
É tão difícil lidar comigo e com a sociedade ao mesmo tempo, mas apesar disso, é tão bom! Cada conquista tem um gosto tão único e significativo, eu fico buscando pequenas mudanças no meu corpo todos os dias, e quando encontro algo que mudou, penso “meu deus, há quanto tempo esta mudança chegou e eu só percebi agora?” e fico feliz e saltitante e mostrando para ver se as pessoas perceberam também, ou quando alguém aponta algo que eu ainda não tinha notado, como os pequenos indícios de barba que começam a surgir, agora me pego no espelho monitorando cada pelinho que se encoraja em aparecer, e tem sido uma descoberta maravilhosa ♥
No dia 28.02 eu fiz dois meses em T, pensei em comemorar, mesmo que sutilmente com uma foto, ou algo assim, não o fiz, me arrependi, de vez em quando gravo uns videos para o Adrian do futuro assistir, quem sabe um dia não posto aqui?
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