tw: acidente de avião, traumas, morte, vício em remédios. (apenas menções)
THE STYX 5 foi uma banda inglesa de rock que teve início em 2007, quando os membros tinham apenas 17 anos, e durou até 2011, quando todos completaram 21. Formada por Josh (vocais), Logan (guitarra, vocais), Pietro (baixo), Victor (guitarra) e Walt (bateria), os cinco encontraram a fama no primeiro álbum, que recebeu o nome da própria banda. O single Neon Afterglow foi o que trouxe fãs para a banda, que se tornaram obcecados pelos membros, lotando shows ao redor do mundo. O single toca até hoje nas rádios, principalmente em novembro, mês que o infame acidente de avião ocorreu em 2011.
NESSA VIDA e em todas as outras, Thanatos leva a morte consigo como um castigo que atinge as pessoas que mais ama. O conceito de morte sempre será o mesmo que carregava pela antiguidade: como algo inevitável. De um jeito ou de outro, todos os mortais alcançariam aquele destino, e até o esquecimento trouxe a morte dos deuses mais poderosos. Vivendo como um humano agora, o conceito de morte se tornou diferente para Thanatos, assim como é para a maioria. Como Joshua Harlow, o acidente de avião o fez o único sobrevivente de uma queda na Austrália, levando seus melhores amigos, além dos funcionários que acompanhavam a banda. O acidente trouxe sequelas para o Harlow, como algumas cicatrizes pelo corpo, amnésia pós-traumática, depressão e TEPT, acompanhado da culpa do sobrevivente. Por que eu sobrevivi e eles não? — era uma pergunta constante em suas sessões de terapia. O olhar das famílias dos amigos falecidos também pareciam questionar a mesma coisa, mesmo que jamais falassem em voz alta. Por que Josh?
Por anos depois do acidente, as dores crônicas foram as mais difíceis de lidar, mas ele sentia que de alguma forma era um castigo, para relembrá-lo de que a vida que levaria dali pra frente sempre seria acompanhada dos fantasmas do passado. Os remédios para a dor se tornaram frequentes com os anos posteriores ao acidente, se tornando um vício consumido fora da receita dos médicos.
Apenas em 2025 que Josh Harlow resolveu tentar viver como um famoso de novo, viajando por si só para a Grécia, em Santorini. Retornar para os holofotes não era fácil: paparazzi e fãs da banda ainda estavam sedentos para uma notícia sequer do homem que viveu recluso após o acidente. E eles conseguiram; Josh se preparou para aquilo, mas não queria dizer que os fantasmas ainda não assombravam. Querendo ou não, a lembrança sempre retornava, e em alguma hora não seria o suficiente apenas deixar os sentimentos encaixotados em seu interior.
Nos anos 80, quando o rock era mais selvagem que glamouroso, Oliver Ashbluff surgiu como um meteoro: jovem demais, talentoso demais, problemático demais. Vindo de uma família pobre, encontrou na música um palco — e na fama, um vício. Seu nome explodiu com a banda Silverstorm, e logo ele passou a acreditar que o mundo lhe devia tudo. E, pior, que ele não devia nada a ninguém. A carreira? Incontestável. O comportamento? Um desastre ambulante.
DUI, overdoses, vários escândalos com groupies, brigas em bares, prisões momentâneas, manchetes humilhantes… Oliver era uma máquina de controvérsias. E quanto mais amado pelo público, mais se sentia acima da lei.
Como pai? Ausente, quando muito. Ele não estava presente quando Megan nasceu, nem em nenhum momento que importava. Quando aparecia, era para berrar com a menina por não entender algo, zombar de sua sensibilidade ou simplesmente tratá-la como um inconveniente. A única memória boa que Megan guarda é a turnê mundial que fez quando adolescente — mas, ironicamente, não por causa de Oliver, e sim pelos outros integrantes da Silverstorm, que davam a ela o que o pai não dava: atenção, carinho e um senso distorcidamente saudável de família.
Para Oliver, a filha sempre foi um acessório, não um vínculo. Para Megan, o pai sempre foi o pesadelo que criou suas maiores feridas não tão somente com sua ausência mas também com sua presença.
Hillary Ashbluff:
Antes de Oliver, Hillary era sol: vinda de uma família rica, modelo promissora, cheia de vida. Mas Hollywood pode ser cruel — e Oliver, mais ainda. O relacionamento começou cedo demais, quando Hillary ainda estava formando a própria identidade. Ele a moldou com love bombing, a controlou com gaslighting, e a destruiu com o tipo de paixão tóxica que as revistas chamam de “icônica”, mas que qualquer terapeuta chamaria de “abuso crônico”.
As traições, os escândalos, o uso de drogas que ele impôs, nada foi suficiente para libertá-la. Hillary permaneceu — por medo, por dependência, por não saber mais quem era sem ele. A gestação de Megan foi mais uma imposição do que uma escolha: um bebê resolveria a reputação dele, dizia Oliver. Então ela aceitou, mesmo sem nunca ter querido ser mãe. O resultado? Megan cresceu praticamente como um fardo. Hillary a mantinha distante sempre que podia. Quando a menina foi enviada ao internato, Hillary transformou o quarto da filha em um quarto de luxo para sua cachorrinha.
Pearl Ashbluff:
Pearl, uma yorkshire mini, é o verdadeiro amor da vida de Hillary. Clone de sua antiga cadela, Penélope, Pearl é tratada como realeza: só anda no colo, tem um chef privado e come melhor do que a maioria dos humanos, tem um guarda-roupa próprio, tem mais fotos profissionais que Megan teve em toda a infância. Megan detesta a pequena criatura — com razão. Pearl já a mordeu diversas vezes; uma delas deixou uma cicatriz no calcanhar. Hillary achou “engraçado”. Pearl também é influencer e conta com quase dois milhões de seguidores no Instagram administrado por Hillary.
Ser a reencarnação de uma personalidade da mitologia grega sofrendo uma maldição sem nem estar ciente disso não é fácil. Na sua família, ou em grupos de amigos, na escola, na faculdade, no trabalho... alguns de vocês se destacam, outros se camuflam bem entre as pessoas comuns, e outros são realmente amaldiçoados, a ponto de não conseguir alcançar seus objetivos.
Nós sabemos como a maldição afeta você. Mas ela afeta também as pessoas ao seu redor?
Nessa task, queremos saber: quem são as pessoas que passaram nessa sua reencarnação e se destacaram? Elas também sofreram com a maldição que você carrega? Ou elas são a razão de você sofrer a maldição que carrega nessa vida? Essas pessoas ainda estão ao seu lado? Já se foram? Faleceram? Você se culpa, por alguma razão?
Bem, são questões que podem ou não aparecer na sua task. Mas agora que você pode sair de Santorini, você vai vê-las novamente? Pensará nelas, caso não estejam mais com você?
Em forma de POV, flashback, edit, turno, e etc. conte-nos mais sobre um ou mais NPC(s) específicos que passou pela vida de seu personagem e que são/foram importantes para seu desenvolvimento. Pode ser alguém da família, amizade, romance, inimizade, colegas do trabalho, ou simplesmente alguém que foi uma personalidade que se destacou.
POV - Eles nunca precisariam partir o bebê no meio
Drop: Adeus, Santorini
Task 003: NPCS
[Frankfurt, Alemanha. 2025.]
O aeroporto de Frankfurt exalava o cheiro característico de vastidão e viajantes. Em paralelo, Saul registrava cada detalhe na agitação empolgada que lhe era comum ao passo que seus olhos registravam a figura a sua frente. Abraham ajustava a gola da camisa do enteado com as falanges precisas e aquele cuidado que lhe era tão natural. Quando mais novo, Saul costumava entender aquilo como tentativa de controle, como querer substituir seu pai quando ele apenas o marido de sua mãe mas, agora, assistindo o engenheiro continuar ali ao seu lado tantos anos depois, nos melhores e piores momentos, ele não conseguia deixar de sorrir ao ouvi-lo falar daquele jeito sério e simultaneamente afetuoso. Em especial, divertia-se com os óculos escuros que o homem usava tentando disfarçar a ressaca óbvia, negada durante uma vida.
“O Egito não é aqui…” A voz grave carregava aquele tom sério. Saul já havia ido no Egito outras vezes, assim como em expedições mas, nunca refutava qualquer um dos avisos do velho, bem… As vezes com uma gracinha ou com um revirar de olhos divertidos, como fazia na situação. O engenheiro, que tocava os ombros insistindo em desamassar a peça de roupa irremediavelmente desalinhada, ignorava e seguia. “O clima é muito pior, você tem de lembrar de se proteger e usar protetor solar. E lembre-se dos riscos sanitários e condições precárias nos sítios arqueológicos. Você colocou os talheres e coisas que eu separei?” Seus olhos, porém, suavizavam a advertência. Abraham recuou meio passo, analisando-o como se tentasse memorizar cada detalhe. “Está com os remédios que preparei? A correspondência do hotel está confirmada?” Saul assentiu, levando as mãos aos ombros do mais alto e, desalinhando seu terno perfeitamente passado. — Relaxa, Abs. Tá tudo certo. Tá de boa. — Abraham, contrariado e paciente que era, deslizou um envelope do bolso interno do terno. “Fundos extras para emergências. Você sempre esquece de sacar dinheiro.” O aviso de embarque cortou o ar. Abraham tocou brevemente o ombro de Saul, um gesto contido, uma verbalização maior do que palavras conseguiriam. “Volte inteiro, bení.” Era uma ordem preocupação paternal. “E me mande mensagem quando chegar. Eu pedi para qualquer coisa o Daniel entrar em contato também.” Saul sorriu, aquele sorriso ardiloso que tantas vezes o tirava de encrencas. Mas, era também um sorriso descrente, porque não havia a possibilidade de Daniel se lembrar de ficar avisando Abraham de cada passo que dava, mesmo quando ele ligaria, várias e várias vezes. — Prometo. — Caminhou para o embarque mas, antes de entrar, se virou por alguns segundos, e sentiu o peso do olhar de Abraham grudado em si. Ele acenou, em um sorriso. — Ani ohev otkha. — Os lábios do mais velho repuxaram, um sorriso largo. “Le’olam va’ed” Abraham respondeu por fim e, ele embarcou.
Em seu assento, Saul abriu a mochila para guardar o envelope em um local mais apropriado que o bolso da jaqueta e sorriu sozinho. A caixa de medicamentos organizada, o pedaço adesivado com a letra cuidadosa que legendava um por um. O próprio envelope de emergências completamente organizado e, o pequeno dinossauro de lego velho, que seu Daniel havia lhe dado e que Saul tanto adorava quando era criança. Talvez ele tivesse um absurdo de sorte, no final das contas. Dois pais…
[Casa da vovó, Carolina do Norte. 2001]
O sol de outubro na Carolina do Norte era gentil demais para o buraco que queimava no peito de Saul. O menino estava sentado na varanda da casa da avó materna há horas. Tinha a mochila aos pés, os olhos grudados na janela. Cada carro que passava fazia seu coração disparar, talvez fosse ele, talvez dessa vez, talvez agora. Não. Um mês. Fazia um mês que o seu mundo desabou junto com aquelas torres, levando a mãe no meio dos escombros. E ele, sem entender a extensão da palavra por ser jovem demais mas, ainda assim a sentindo por inteiro, estava destruído. Mas, ao menos, seu pai vinha buscá-lo, ia levá-lo para sua casa, ou talvez para o Egito, Grécia, Macchu Picchu, onde que quer estivesse. Ia ser diferente. Tinha que ser diferente. Desejava mais do que tudo no mundo se sentir diferente e, tinha fé de novidade e, a nova vida com seu pai o fariam bem. Ele sempre vira o homem como um herói, seria bom passar um tempo com seu herói.
Quando a mercedes prateada parou em frente a residência, Saul correu empolgado até a porta, o rosto empolgado era enquadrado na janela mais próxima da saída. O sorriso, entretanto, foi morrendo ao ver Abraham descer do carro. O terno cinza impecável mesmo sob o calor sulista, a postura ereta. Aquela cara de bobo de “vamos, Saul, eu vou te ajudar a fazer o dever e depois podemos montar um lego super legal que eu comprei para você porque quero te subornar para ser seu pai, seu pirralho”. Mas, Abraham nunca seria seu pai. Seu pai era um aventureiro que descobria coisas de civilizações mortas, que talvez tivesse até encontrado coisas mágicas. E Abraham era só… bobão. Correu até o quarto de visitas que agora chamava de seu, e não viu quando sua avó abriu a porta ou quando os dois conversaram, porque nem importava. Logo mais, Saul estaria longe dali, estaria com seu pai. Certo?
Bem, talvez não tanto assim. Minutos depois, o engenheiro entrou em seu quarto, sentando no chão ao lado do menino, naquela pose de quem ia tentar consola-lo por algum motivo. Como ele ousava? “Hey, kid… Hm… Eu pai teve um imprevisto. Precisaram da ajuda dele para uma coisa muito importante de… ultima hora. Ele queria mais do que tudo vir te buscar mas, infelizmente não vai conseguir. Pediu desculpas e… Enviou isso para você.” Sem mais rodeios, Abraham estendeu uma caixa de Lego, um tiranossauro Rex, grande, caro. Seu pai o conhecia mesmo, porque era o seu favorito. Mas, nem a alegria de ter um pai que o conhecia tão bem substituiu o sentimento ruim. Saul pegou a caixa com dedos que tremiam de raiva. Claro, sempre surgia algo mais importante. — Ele não vem, né? — Não era uma pergunta que precisava de resposta. Era a constatação amarga de um garoto com anos de menos que já entendia demais sobre abandono. Abraham hesitou, mas, o rosto sério vacilou. “Não. Mas eu estou aqui, Saul.” Ele tocou brevemente o topo da cabeça de Saul, o gesto desajeitado de quem não sabia bem como consolar. “Podemos montar o seu lego e… Ir para casa.” Para casa. Como se Nova York ainda fosse seu lar. Como se ele fosse pai. Mas, talvez ele fosse o que tinha Saul apertou a caixa de Lego contra o peito e seguiu Abraham com o olhar, mas, cedeu. E, em algum momento entre se ressentir do pai, de Abraham, da vida, ele encontrou alguma diversão aquele dia.
[Kairo, Egito. 2025.]
O aeroporto do Cairo fervilhava em um caos organizado. Vendedores insistentes, famílias se reencontrando, o árabe misturado ao inglês e francês em camadas sobrepostas de som. Saul parou perto da saída de desembarque e ficou lá por uns dez minutos depois de enviar a mensagem que havia chegado. Mas, Daniel não respondeu. Na realidade, não visualizou. Ele andou de um lado para o outro, pode-se dizer que fez até uns amigos, voltava sempre ao ponto de desembarque e, honestamente, depois de duas horas, já poderia dizer que conhecia a cor dos olhos dos seguranças de turno de cor. Checou o relógio de pulso pela décima vez, depois o celular. Três ligações não atendidas. Duas mensagens enviadas sem resposta. O calor sufocante do Egito grudava na pele, mas, o frio na boca do estômago era familiar. Aquela agitação conhecida da espera. Seu pai havia prometido busca-lo. Talvez ele estivesse só sem sinal, preso no proprio voo, certo? Andou mais pelo aeroporto, até ousou uma refeição mas, aquelas borboletas, não do jeito agradável, preenchiam seu estômago mais do que qualquer outra coisa. Malditas borboletas conhecidas desde os nove anos, desde aquela janela na Carolina do Norte. Ele não viria, Saul percebeu quase quatro horas depois.
O arquiteto pegou a mala com mais força que o necessário e, alinhou a mochila nas costas. Fora do aeroporto, negociou com um taxista tão tagarela quanto ele e, Saul que estava mais calado se comparado ao usual, tentava entregar um pingo de simpatia enquanto ouvia sobre as pirâmides, sobre o clima, sobre a cidade. E, respondia até… Uma gracinha ou outra, meia frase em alguns momentos. No fundo, o que mais fazia era encarar a janela, vendo as construções embaçadas que tentava memorizar. Talvez lhe servissem de inspiração, talvez o sentimento servisse de inspiração. Não ficava claro tantas vezes mas, Saul costumava usar a quebra de expectativa como combustível, porque essa era a única coisa que conseguia fazer, lidar com o absurdo do abandono com a simpatia de que não era nada demais. Sorriu e rolava pedra acima.
(…)
O hotel era elegante, inclusive, europeu demais para aquele cenário. A recepcionista lhe entregou a chave com um sorriso profissional. “Ah, Mr. Berkowitz! Há uma mensagem para o senhor.” O envelope era grosso, estava meio amassado e, dentro, havia um bilhete manchado de algo, com uma caligrafia que Saul mal reconhecia.“Filho, surgiu uma questão urgente que demandou minha atenção com muita urgência, sim, entendo a retórica mas, reforço a necessidade de partir. Foi algo que não pode aguardar. Lamento não poder recebê-lo pessoalmente. Nos encontraremos no sítio arqueológico conforme planejado. A expedição permanece confirmada. Aproveite o Cairo. Até a aventura, Pai” Saul agradeceu, pegando as chaves de seu quarto enquanto guardava o bilhete amassado no bolso. Subiu sozinho, a mala arrastando no tapete persa. Analisou o bilhete mas, algumas vezes e então o celular vibrou. Uma ligação. Daniel dando noticias? Abraham esperando noticias. Saul atendeu no terceiro toque, tempo o suficiente para processar. “Hey, kiddo. Você chegou no hotel? Está tudo bem aqui? Eu tentei calcular pelo GPS o tempo que chegaria mas… Vi que o transito poderia estar um pouco confuso hoje por algum… evento?” Saul suspirou mas, suavizou a voz para não parecer que havia um problema. — Sim, sim. Inclusive, vamos sair em alguns minutos para comer algo, dar uma volta pela cidade. Eu… te ligo depois? E Abs? Você tomou o remedio pra ressaca que te falei? Sua voz tá meio fodida. — O resmungo baixo antes de qualquer resposta fez Saul rir de maneira sincera pela primeira vez desde que pisou naquele hotel. “Eu não estou de ressaca, já disse. Devo estar gripando. De toda forma, sim, eu espero noticias. E, por favor…” — Disseram o “tome cuidado” juntos, porque Berkowitz já conhecia aquele nome de cor. Se apressou em desligar, porque não queria que o engenheiro percebesse e ele, meticuloso, sempre percebia. Tudo o que não precisava era da compassividade de Abraham do outro lado da linha, porque afinal… Que sorte tinha Saul. Ele tinha dois pais e enquanto um o esquecia ou desapontava, ele ao menos sabia que sempre poderia contar com o outro.
• interações entre radiação solar e clima da Terra.
O time funciona como uma mistura de expedição científica, task force ambiental e laboratório móvel de elite. Eles operam em regiões remotas, polos, florestas tropicais, desertos e zonas vulcânicas, sempre buscando respostas que possam salvar vidas — agora e no futuro.
Juniper Wolf; Geóloga
Prática, brilhante e doce, Juniper é responsável por mapear formações geológicas, riscos ambientais e atividades tectônicas. Ela e Derek formavam um casal admirado até perceberem que o romance atrapalhava o time. Ainda se gostam muito — às vezes até demais.
Richard Higgins; Especialista em Mudança Climática
O mais velho e um dos mais teimosos da equipe. Competente, apaixonado e completamente alheio ao fato de que sua namorada mantém um relacionamento secreto com seu melhor amigo. Richard vê Derek quase como um irmão.
Rachelle Beaudry; Bióloga
Carismática, intensa e sedutora, é responsável por estudos de ecossistemas, microbiomas e impactos da radiação solar em organismos vivos. Rachelle provoca Derek e o trouxe para essa zona moral cinzenta da qual ele não consegue (ou não quer) sair.
Kyrie Petrakis; Astrofísico
Amigo de Derek desde a faculdade. Os dois estudaram juntos, passaram madrugadas trabalhando, treinam juntos na academia e funcionam como uma dupla científica afiada. Kyrie é o “porto seguro” de Derek no grupo.
Jamie Brown; Líder da Equipe / Bilionário Cientista
O cérebro e financiador do projeto — mas também o coração. Jamie é calmo, justo e paternal. Ele já está ciente das escapadas de Rachelle a tenda do físico e avisou Derek sobre os perigos do seu envolvimento com Rachelle, lembrando sempre: “Nenhuma mulher no mundo vale a destruição de uma equipe inteira.” Jamie vê o grupo como a família que escolheu, e sua maior missão é garantir que a humanidade tenham futuro.
POV - Frater
Task 003: NPCS
Drop: Adeus, Santorini
Roma tinha aquele brilho ameno, particular em dezembro, em que fazia a cidade inteira parecer estava aquecendo mais devagar. Beatrice caminhava pelo Trastevere com as mãos nos bolsos do blazer de lã, as iris verdes perdidas nas vitrines de lojas que não pretendia entrar, os pés seguindo um ritmo próprio que dispensava destino. Existia um reconforto ali, como estar em casa, longe de casa. Ninguém esperava nada dela aqui, mas, ao mesmo tempo, tinha a sua familia perto o suficiente, o que, depois de tantos meses afastada era a melhor coisa. Claro, amava todos que conheceu no Aletheia e, morria de saudades de cada um. Mas, cada vez que retornava a casa e se via imersa a bagunça de Emilia, Catarina, Julieta e Antonio, ela se em casa. Não exatamente em seu apartamento de Los Angeles mas, naquela casa da avô, onde corriam de um lado a outro, exatamente como alguns dias, Catarina fazia pela cozinha, perseguindo Tony. Era uma… Bagunça maravilhosa.
Naquela noite, os encontraria numa pequena trattoria de esquina, daquelas com mesas na calçada e um cardápio escrito à mão pendurado na porta. E ela, claro… Seria a primeira a chegar. Porque se empolgava em conhecer a parte interna do restaurante, conversar com o chefe responsável, curiosa pelo pequeno negocio numa cidade enorme. Meia hora antes, quase. Estava empolgada para entrar, o sorriso largo no rosto. Foi quando o viu.
Peter.
TW. Abortamento. Menção a sangue.
O mundo não parou. Não houve música dramática nem câmera lenta. Mas, alguma coisa no peito dela se contraiu, um músculo há muito tempo sem uso forçado se moveu repentinamente. Ele estava sentado à mesa do canto, um copo de vinho tinto pela metade, um prato de carbonara que parecia intocado. O cabelo estava mais longo do que ela lembrava, algumas mechas grisalhas nas têmporas agora mesclavam com as loiras. Ele ria de algo que o barman à sua frente havia dito, e o som daquela risada atravessou a calçada e atingiu Beatrice no peito com a força de um soco. Ele, era tão discreto, mas, ria tão alto, tão de verdade, que sempre havia sido a característica favorita dela.
Beatrice parou. O corpo dela parou antes que o cérebro pudesse ordenar que continuasse andando. E ali, parada na calçada da rua estreita em Roma, com turistas passando dos dois lados e o cheiro de alho e tomate no ar, se permitiu olhar para o homem que um dia havia sido seu. Ele não a viu. Ainda não. Estava absorto demais na conversa, na companhia, naquela versão de si mesmo que existia longe dela, independente dela. E era dolorosamente libertador em vê-lo assim. Não que não o tivesse assistido com seus pequenos, com sua atual… esposa? Acreditava que ele havia casado aquela altura. Mas, batia diferente quando em carne e osso, ao vivo, em cores romanas. A uma semana do que poderia ser o aniversário de casamento dos dois.
(…) Roma. Novembro, 2017.
Era um Katarina Fedora belíssimo. Etéreo, delicado e românticoA silhueta retri ajustada dava um caimento leve, fluido, com movimento orgânico que combinava com Bea, bem como o bordado de flores brancas em relevo, com um desenho botânico continuo e elegante. Ela estava linda, como a cidade. Roma era linda em novembro, o céu que mesclava um dourado pálido com tons de lilás fazia a Basílica de Santa Maria Maggiore ainda mais deslumbrante mas, ela só tinha olhos para ele. Assim como, ele era incapaz de tirar os olhos dela. Peter não tinha duvidas. Ela era a mulher de sua vida, a única. E por isso, ele estava nervoso ao mesmo passo que absolutamente entusiasmado para o inicio oficial de suas vidas juntos. As mãos tremiam segurando o papel, mas quando olhou para ela, algo se acalmou. Respirou fundo. “Pinot…”A voz saiu rouca, carregada. Ela sentiu os olhos arderem imediatamente, aquele apelido que ele usava só nos momentos tão deles, agora dito em voz alta, na frente de todos. “Eu passei a vida inteira procurando por algo que não sabia nomear até te encontrar.” Ele largou o papel, precisava das mãos livres para segurar as mãos dela, os polegares acariciando os nós dos dedos dela num gesto inconsciente. “Você é a resposta para perguntas que eu nem sabia que estava fazendo.” A voz dele falhou um pouco, e Beatrice apertou os dedos de volta, encorajando. Sorria, mas, as lágrimas já escorriam livres. “Prometo te amar nos dias fáceis e nos impossíveis, quando você estiver radiante e quando estiver quebrada…” Parou, engoliu seco, e uma das mãos subiu para enquadrar o rosto dela, o polegar limpando uma lágrima. “…porque aprendi que amar você não é apenas sobre os momentos perfeitos, é escolher ficar em todos os outros. Prometo te ver, realmente ver, mesmo quando você tentar se esconder.” Beatrice soltou uma risada molhada, porque ele a conhecia, conhecia demais. “Prometo ser o lugar onde você pode descansar, onde não precisa ser forte o tempo todo.” Ele trouxe a testa dela para pousar contra a dele por um segundo, um segundo para respirar juntos, esquecendo-se das diversas pessoas ao redor. “Vou segurar sua mão nas tempestades e dançar contigo sob a chuva. Vou te fazer rir quando o mundo pesar demais e te lembrar de quem você é quando esquecer.”Afastou apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. Beatrice estava chorando abertamente agora, mas sorrindo, sempre sorrindo. “Você me fez acreditar em magia novamente, no tipo de magia que existe em café pela manhã e conversas às três da madrugada e no jeito que seu nome soa quando eu acordo.” As duas mãos dele seguravam o rosto dela agora, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. “Eu te escolho hoje, amanhã, e em todos os dias que vierem.” Ele sussurrou a última parte, só para ela. “Para sempre, pinot. Para sempre.” E quando ela acenou com a cabeça, incapaz de falar, Peter puxou-a para um beijo antes mesmo que o oficiante pudesse dizer que podia.
A memória derreteu, as cores se dissolvendo como aquarela sob chuva, e quando reformou, era tudo diferente. Vermelho. Tudo era vermelho.
(…) Los Angeles. Fevereiro, 2022.
O sangue de novo. Sempre de novo. Oito semanas dessa vez. Tinha sido dez na anterior. Beatrice estava sentada no chão do banheiro, as costas contra a banheira fria, os braços envolvendo os joelhos. da chave na porta ecoando pela casa silenciosa. Beatrice ouviu os passos dele, a pausa quando viu a luz do banheiro acesa, a porta entreaberta. “De novo?” Foi tudo que ele disse. Nem sequer era uma pergunta. Era uma constatação. Cansada. Resignada. Ela não respondeu. Só olhava para o azulejo branco do chão, para as pequenas manchas vermelhas que não havia limpado ainda. Peter não entrou. Ficou parado na soleira, e quando Bea finalmente olhou para ele, viu a exaustão estampada no rosto dele. Não era dor fresca. Era aquela dor antiga, desgastada, transformada em algo próximo de entorpecimento. “O médico ligou mais cedo.” Ele disse, a voz monótona. “Ele disse que há um novo protocolo de de tratamento. Mais anticoagulantes, um teste com imunobiológicos, o acompanhamento é rigoroso. Enfim… Ele mandou os detalhes por email. — Okay. — Foi tudo que ela conseguiu dizer. “Okay?” Peter repetiu, e havia algo afiado na voz dele agora. “É só isso? Okay?” — O que você quer que eu diga, Peter? — “Sei lá, Beatrice!” Ele passou a mão pelo cabelo, em frustração. “Qualquer coisa! Alguma reação! Você está aí sentada no chão, sangrando outra vez, e tudo que consegue dizer é ‘okay’?” — Você prefere que eu chore? — Ela olhou para ele, e havia algo morto nos olhos dela. — Que eu grite? Que eu quebre coisas? Já fizemos isso. Três vezes já fizemos isso. E não mudou nada.
Um suspiro pesado e bilateral saiu. “Não.” Ele disse, e a voz saiu baixa, perigosa. “O que eu preferia é que você falasse comigo. Que você parasse de me trancar pra fora. Que você lembrasse que tem um marido que também está passando por isso.” Beatrice riu, num som seco, sem humor. — Você está passando por isso? — Ela se levantou, finalmente, e havia raiva começando a ferver sob a superfície entorpecida. — Você? Foi seu corpo que matou quatro bebês? Foi você que passou pelas curetagens? Pelas infecções? Pelas noites acordada sentindo as contrações expulsando algo que deveria estar crescendo? — Não era justo. No fundo, ela sabia que não era justo. Mas, que tipo de justiça existia ali? Quando seu corpo parecia colocar para fora a coisa que ela mais queria no mundo antes da hora, não havia justiça e, ou talvez fosse jovem para encontrar a justiça nisso. “Não foi só você que perdeu!” Ele gritou de volta, e era tão raro Peter gritar que o som preencheu todo o espaço entre eles. “Eram meus filhos também! Meus! E toda vez você age como se fosse só sua tragédia, só sua dor, e eu sou apenas… o quê? Plateia?” Ele bufou, braços cruzados, obviamente chateado. E ela sabia que estava sendo horrível mas, também sentia-se horrível. — Você quer o papel principal no sofrimento? — Beatrice caminhou até ele, os olhos brilhando com raiva e dor e ressentimento. — Que reconheça que você também sofre enquanto eu sangro? Enquanto meu corpo se destrói? — Ele passou a mão pelo rosto, irritado, impaciente, injustiçado. “Eu quero que você lembre que ainda tem um casamento!” Peter estava gritando agora, mas era raiva, não tristeza. “Que ainda tem um marido! Porque você tem sido tão consumida por essa dor que esqueceu que eu existo!” A voz dela saiu baixa, cortante. — Talvez… Talvez seja porque toda vez que olho pra você, vejo decepção. Vejo você querendo algo que eu não posso te dar. — “Isso não é justo.” — Nada disso é justo, Peter! — Ela gritou. — Nada! Não é justo meu corpo me trair. Não é justo perder quatro bebês. Não é justo você olhar pra mim e eu não saber mais se você ainda me ama ou se só está ficando por pena! — O silêncio que caiu foi denso, sufocante. “Pena?” O homem repetiu com a voz quebrada. “Você acha que ainda estou aqui por pena?” Beatrice não respondeu. Só olhou para ele, e nos olhos dela havia tanto medo, tanta insegurança, tanto desespero que Peter sentiu algo rachar por dentro. — Eu não sei mais por que você está aqui. — Ela sussurrou finalmente. — Eu não sei mais nada, Peter. Nem quem eu sou. Nem o que a gente é. — Ele poderia ter ido até ela. Poderia ter segurado ela, dito que amava ela, que iam superar isso juntos. Mas, estava cansado. Tão cansado. De brigar. De perder. De ver a mulher que havia amado tanto se afastar cada vez mais e não conseguir alcançá-la. “Eu também não.” Admitiu finalmente, e as palavras caíram entre eles como pedras. “Eu também não sei mais, Bea.” Ela acenou com a cabeça, como se aquilo confirmasse algo que já sabia. Passou por ele, saindo do banheiro, deixando as manchas vermelhas para trás. Peter não tentou pará-la. Só ficou ali, parado na porta do banheiro, olhando para o sangue no chão que marcava mais uma perda. Dessa vez não era só um bebê que estavam perdendo. Se perderam um do outro também.
Em contraparte, a cena se diluiu quando ele a encontrou. Os olhos em azul errante a encarando.
(…)
O movimento foi periférico. A cabeça de Peter, e somente, se virando na direção dela, os olhos dele varrendo a rua distraidamente até pousarem nela. Beatrice viu o reconhecimento acontecer. A surpresa, a confusão momentânea, e então algo que parecia ser…contentamento? Não felicidade exatamente. Mas, não infelicidade também. Ele voltou a sorrir. Dessa vez um sorriso pequeno, cauteloso, mas genuíno. E então levantou a mão num aceno. Apenas um aceno. Simples. Daqueles que se dá a um conhecido na rua, alguém que você conheceu em outra vida, em outra versão de você mesmo. E, por mais estranho que fosse, sentiu os próprios lábios se curvarem. Não foi uma decisão consciente e sim um reflexo. Memória muscular talvez, de todos os anos em que sorrir para Peter havia sido tão natural quanto respirar. Levantou a mão também, os dedos se abrindo em resposta, e viu o alívio passar pelo rosto dele. Talvez porque ela não estava furiosa, não estava quebrando, não estava fazendo uma cena ou ateando fogo em um restaurante, mesmo que sem querer. Embora não tivesse sido sem querer que ele a tivesse trocado por uma de suas melhores amigas. Mas… Enfim. De toda forma, alivio porque talvez ambos estivessem bem. Com o aceno ainda pairando no ar, Bea se virou meio atordoada. Os pensamentos ainda presos entre o passado e o presente, entre a mulher que havia sido e a mulher que estava tentando se tornar. O mundo parecia um pouco desfocado nas bordas, as cores de Roma escorrendo umas sobre as outras numa aquarela molhada.
Foi quando ela viu os quatro. Na esquina da rua, poucos metros de distância, como se tivessem se materializado do nada. E, Beatrice conhecia aqueles rostos melhor do que conhecia o próprio. Conhecia a forma como Emilia mantinha as mãos nos bolsos, tentando parecer casual mesmo com a tensão evidente nos ombros. Conhecia o jeito que Julieta mordia o lábio inferior, preocupada. Conhecia Antonio em seuss braços cruzados, protetor mesmo à distância e o jeito que mantinha aquele olhar de “estamos aqui, você não está sozinha”. Conhecia como Catarina sempre estava um passo à frente dos outros, sempre a primeira a se mover quando precisava. — Como… — A palavra saiu fraca, confusa. “Julie viu um story.” Cat respondeu, sendo a primeira a se aproximar. “O idiota postou foto da trattoria. Reconheci o lugar. Juro, quem posta foto ainda estando no lugar?” Beatrice sorriu, a cabeça balançando negativamente mas, não havia qualquer desaprovação ali. — Vocês… — Beatrice olhou de um para o outro, ainda tentando processar. — Vocês vieram até aqui tão rápido… — Mal podia acreditar, o quarteto quase nunca chegava na hora, ainda mais, adiantados. Antonio passou um dos braços sobre os ombros da mais velha, a puxando para perto enquanto caminhavam na direção oposta ao restaurante. “Ue, e você achou que íamos deixar você encontrar aquele sonso filho da puta desgraçado do cacete sozinha?” Bea o fitou, tentando recriminar a quantidade de xingamentos mas, não o faria agora. Emilia se aproximou, passando também um braço sobre os ombros de Bea. “A gente não sabia se você já tinha visto ele.” Disse em seu tom firme. “Mas não íamos arriscar. Não depois de tudo.”
O coração desmanchou em alivio, gratidão, compreensão súbita e avassaladora de que nunca, nunca estaria sozinha. Porque, como diria sua avó em cada uma das vezes que brigavam uns com os outros, “No final das contas, sempre teriam uns aos outros. Eram irmãos.” E talvez aquele fosse o laço mais forte que poderia existir. — Eu acabei de… — Gesticulou vagamente em direção a Trattoria. “A gente acenou, foi… okay. Eu queria que ele caísse da cadeira e batesse a cabeça? Sim. Mas, foi okay. Você está bem?” Antonio perguntou em um tom preocupado, que nem combinava com a leveza do mais novo. — Eu… — Bea respirou, olhou para os rostos ao seu redor. — Agora ainda mais. — Cat finalmente relaxou os ombros, Beatrice percebeu os músculos liberando a tensão. “Ótimo, porque a gente reservou mesa no Piazza Navona e vamos sentar, comer uma massinha, beber enquanto você nos conta mais sobre o Hotel em Santorini. E o Ton para de reclamar dessa fome eterna que ele diz ter.” Antonio rolou os olhos, quando Cat falou e todos começaram a rir em seguida. “E nada de falar do imbecil lá de trás.” Julieta adicionou, puxando os irmãos pelas mãos. “Ele não merece nem mais um segundo dos nossos pensamentos. Plus os bebês dele são feios então assim… Fica ai se benção ou maldição!” Bea arregalou os olhos. — Julie! — Repreendeu. “Ue gente mas, menti? Tá bom então, não tá aqui mais quem disse a verdade. Só vamos! Nós ocupar com coisa mais importante tipo… Ao pesto ou cacio e pepe? Ou os dois.” A jovem sugeriu por fim e todos riram juntos mais uma vez.
Familia tinha um significado vasto para Beatrice mas, seus irmãos sempre seriam o centro dela. Talvez, fosse o que lhe bastasse para qualquer situação. Mesmo nas que não estava completamente certa. Se permitiu ser conduzida, envolta pelos irmãos, suas vozes se sobrepondo em conversas sobre nada e tudo ao mesmo tempo. E enquanto caminhavam pelas ruas de Roma, ela olhou para trás uma única vez. Peter ainda estava sentado à mesa da trattoria. Ele a viu, cercada pelos irmãos, rindo de algo que Antonio havia dito. Os olhos deles se encontraram por um segundo final, e Beatrice viu o entendimento passar pelo rosto dele. Ela estava bem. Ela tinha pessoas. Ela não estava quebrada, não estava sozinha, não era a mulher destruída que ele havia traído. Ela tinha se reconstruído. E não precisava dele para estar inteira. Peter acenou mais uma vez, pequeno, quase imperceptível. Um adeus de verdade dessa vez. E, Beatrice acenou de volta, virando-se completamente, enquanto os quatro irmãos criavam um escudo protetor ao redor delas. — Vocês são caóticos. — Disse, mas a voz estava carregada de afeto. — Completamente, absolutamente caóticos. — Antonio ergueu as sobrancelhas e concordou sem pensar muito mais. “Sim. Mas, somos seus caóticos.” E era verdade. Eram dela. Da mesma forma que ela era deles. Conectados não apenas por sangue, mas por escolha. Por presença. Por aparecerem em cantos de rua em Roma quando ela nem sabia que precisava que aparecessem.
Roma continuava com seu brilho suave. O cheiro de alho e tomate continuava no ar. Turistas continuavam passando. Mas, Beatrice não estava mais sozinha. Nunca tinha estado realmente. Porque família para ela, sempre seria sobre as pessoas que apareciam, sem serem chamadas, apenas porque sabiam. Porque se importavam. Porque amar, às vezes, era tão simples quanto pegar um avião para uma cidade estrangeira só para garantir que alguém não enfrentasse fantasmas sozinho. — Eu amo vocês. — Beatrice disse, enquanto ainda caminhavam. — Eu amo vocês. Tanto. — E mais uma vez, os cinco sorriram juntos. Juntos. Como sempre estariam.
miray nasceu em uma família antiga, de raízes profundas na elite intelectual e financeira da turquia. os çelik eram ricos por tradição, por um nome que se repetia em universidades, conselhos, museus, bancos de pesquisa, fundações culturais. crescer ali significava respirar cultura como ar primário e obrigação como ar secundário. sua mãe, uma mulher austera e elegante, era especialista em literatura clássica otomana; seu pai, engenheiro químico e consultor para diversas empresas farmacêuticas, fizera fortuna desenvolvendo protocolos industriais para derivados de antibióticos. desde cedo, ela aprendera que sentimentos eram interrupções na produtividade; observava os pais se comunicarem por frases curtas, precisas, de uma cordialidade impecável e distante. não havia grandes brigas, porque não havia grande intimidade suficiente para elas.
miray absorveu algo dos dois, a inteligência cortante de um, a curiosidade insaciável do outro. cedo, destacou-se como uma criança de QI absurdamente alto, atraída por perguntas que ultrapassavam seu tempo de vida. cresceu fascinada por como o pensamento se organiza, onde falha, onde se fragmenta, e como pode ser modulado. a família, percebendo a inclinação natural da filha, optou por direcioná-la ao caminho mais prestigiado à época, medicina. era elegante, relevante. encaixava-se perfeitamente na tradição, que prezava por carreiras que produzissem impacto científico e social. e miray, mesmo sem sentir grande entusiasmo, sentiu adequação, medicina lhe permitiria investigar o cérebro, estudar comportamento.
ela cursou medicina em ankara, destacando-se rapidamente em neurociências e psiquiatria. muito antes de terminar o curso, já participava de grupos de pesquisa sobre psicofármacos e mecanismos neurológicos de dependência química. após a residência, engrenou um mestrado em psicologia clínica, seguida de uma especialização voltada para farmacodinâmica e farmacogenética aplicada aos transtornos mentais. para miray, psicologia e psiquiatria eram um mesmo organismo, dois lados de uma mesma equação complicadíssima. ela se orgulhava de saber transitar por ambas, e por graduar-se na primeira posteriormente. seu interesse era específico e quase obsessivo, compreender como a química molda o comportamento humano.
𝐇𝐀𝐊𝐀𝐍 𝐊𝐔𝐙𝐄𝐘 𝐃𝐄𝐑𝐌𝐈𝐂𝐈, 𝐂𝐀𝐍𝐒𝐄𝐋 𝐄𝐋𝐂̧𝐈𝐍, 𝟒𝟖 𝐀𝐍𝐎𝐒
hakan foi o sexto filho, o último fio na extensa tapeçaria dos demirci, família que pendia inteira para política, medicina e indústria. cresceu cercado por reuniões tensas, vozes sobrepostas, alianças que mudavam como ventos do bósforo, e irmãos que já nasciam com o destino decidido, cada um pronto para ocupar algum lugar nesse tabuleiro. ele tinha boa relação com todos, claro, a família o amava, mas havia algo nele que sempre se deslocava ligeiramente para fora da moldura (por mais irônico que seja, se considerarmos a maneira como ele se comporta com hazal). inspirava-se no avô materno, engenheiro químico, já que para hakan, ouví-lo falar sobre química despertava algo tão profundo que quase parecia herança biológica. era nesse silêncio que ele se encontrava, nesse universo sem gritos, sem pressões políticas.
fez medicina para agradar a mãe, porque ela esperava aquilo dele e porque ele, mesmo sabendo que o caminho não era inteiramente seu, nunca soube recusar uma obrigação. encontrou na psiquiatria uma forma de reconciliar o que herdara da família com o que o movia por dentro, o cérebro como estrutura, comportamento, falha, ritmo. parecia-lhe perfeito que toda experiência humana pudesse ser traduzida em sistemas tão delicados, em impulsos elétricos que se fragmentavam, em neurotransmissores. a verdadeira paixão sempre permaneceu nos cantos mais sombrios dos laboratórios. a alquimia moderna. o estudo minucioso dos compostos, das núcleos químicos que alteravam mentes. ficava até tarde no laboratório, riscava teorias nas bordas dos livros, escrevia ideias em pedaços de papel amassado que se acumulavam nos bolsos do jaleco. mergulhava em artigos, traduzia estudos estrangeiros, desenhava projetos. ainda jovem, já falavam dele nos corredores como alguém que se moveria longe, muito longe, caso continuasse naquele ritmo frenético e, ao mesmo tempo, meticulosamente calculado.
especializou-se também em neurologia porque precisava do mapa completo. não bastava entender o invisível dos neurotransmissores; queria compreender também o concreto, o tecido, o funcionamento físico, as falhas microscópicas que se manifestavam como desastres existenciais. queria ver o cérebro como totalidade e não como fragmento. queria encontrar a costura que unia tudo.
fato é que mesmo em destino diferente, rakan tinha uma boa relação com a família. ele comparecia aos almoços intermináveis, ouvia as discussões políticas, sorria quando necessário. amava a família, mas vivia em outro eixo, em outro timing. e nunca escondeu que seu desejo não era continuar o legado político-industrial dos demirci. queria construir algo seu. um império de ideias. um reino de inteligência, ciência, descoberta. que não dependesse de dinheiro herdado, mas de conhecimento produzido. com o tempo, conseguiu exatamente isso. tornou-se nome indissociável do meio acadêmico, presença cobiçada em congressos, convidado para mesas de discussão cujo nível intimidava até veteranos. seus artigos circulavam como referência, suas teorias eram estudadas. havia algo nele que o tornava figura central em qualquer ambiente científico.
𝐄 𝐄𝐍𝐓𝐀̃𝐎, 𝐇𝐀𝐊𝐀𝐍, 𝐌𝐈𝐑𝐀𝐘 𝐄 𝐇𝐀𝐙𝐀𝐋….
a história de hakan e miray, por fim, começa com aproximação gradual, silenciosa. eles se conheciam desde a escola, orbitando os mesmos corredores; eram conhecidos um do outro, mas nada além disso… duas linhas traçadas próximas, sem intersecção. a amizade aprofundou-se apenas na graduação. ele estava alguns passos adiante, movendo-se com aquela firmeza obstinada que sempre tivera; ela, recém-chegada, devorava tudo que aparecia diante dela, ainda mais curiosa do que disciplinada. o inevitável aconteceu como sempre acontece; começaram a conversar, dividir textos, dividir cafés, dividir horas de estudo que se estendiam por noites inteiras. não perceberam quando o limite entre admiração intelectual e atração se dissolveu, só perceberam quando já estavam dentro de algo maior do que se poderia explicar.
e foi rápido. um verão apenas. ambos ocupados com projetos, artigos, laboratórios, responsabilidades para mentorias. dois jovens que, pela primeira vez, encontravam em alguém a continuação de um pensamento. hakan, mesmo aos vinte e dois, sabia exatamente o que queria. e queria miray. amava a maneira como ela se curvava sobre os livros, como sua mente saltava entre disciplinas sem esforço, como tudo nela parecia um campo fértil para descobertas. havia nela esse potencial gigantesco que combinava perfeitamente com o dele. e quando surgiu uma oportunidade acadêmica em outro país, ele aceitou sem hesitar. ficaria um semestre fora. mas antes de ir, pediu miray em casamento. foi direto, foi honesto, foi absurdamente certeiro. não acreditava em perder tempo com aquilo que já estava decidido. hakan viajou com a promessa de um futuro delineado. mas… acabou voltando antes do previsto, abruptamente, sem sequer concluir a responsabilidade, porque recebeu uma ligação. miray estava grávida. voltou para casa sem pensar duas vezes. o casamento aconteceu alguns meses depois, impecável e opulento como tudo que envolvia os demirci. mas não se engane, hazal não foi obstáculo. eram jovens, brilhantes e ridiculamente ricos. havia babás, governantas, famílias inteiras contratadas para gerir a rotina que eles não tinham tempo (ou interesse) de assumir.
e, surpreendentemente ou não, o casamento apenas os alinhou ainda mais. miray e hakan tornaram-se um eixo. demirci & demirci. parceiros de laboratório, coautores, pesquisadores lado a lado, provocadores intelectuais um do outro. projetos surgiam, e eles corriam atrás, publicavam, revolucionavam. eram presença constante em congressos, prêmios, mesas de debate. dois prodígios que se tornaram dois gigantes acadêmicos. apaixonados, absurdamente intensos. vistos de fora, pareciam uma dupla impenetrável. eram, até hoje, tão conectados que criavam uma espécie de membrana invisível ao redor deles, quase imune à interferência externa. e foi exatamente aí que hazal cresceu. sempre do lado de fora dessa membrana. sempre vendo os pais conversando em códigos, mergulhados em artigos, em estudos, em descobertas. sempre observando o mundo deles, de onde era estrangeira. amavam-na, mas era um amor que se expressava mais por expectativa do que por presença. miray cobrava excelência; hakan cobrava disciplina. ambos acreditavam que ofereciam o melhor, quando na verdade entregavam um molde.
o que ninguém percebeu foi que ela era, em essência, um fragmento dos dois, as partes mais intensas, mais apaixonadas, menos racionais, justamente aquelas que eles anularam em si mesmos para seguir a linha reta de uma vida científica impecável. inteligência, ela tinha, mas sufocada pelo excesso de exigência, acabou se rebelando. como alguém empurrado tão violentamente para um lado, que precisou correr na direção contrária para respirar. ela queria o direito de errar. de falar besteira. de não ser brilhante o tempo inteiro. queria um caminho que não fosse desenhado pelas equações da família, mas pelo pulso próprio. mas não existe espaço real para isso dentre os dermici & demirci.
Emotions, particularly anger, are like fire.
They can cook your food and keep you warm.
Or they can burn your house down.
Sabia que era questão de tempo até ferrar com alguma coisa.
E não somente com ele próprio, senão estaríamos tranquilamente se referindo a uma simples segunda-feira.
Para si, pouco se fala da quentura confortável do fogo.
Pouco se fala em acolhimento contínuo, felicidade duradoura.
Seu estilo não é esse.
O queimar, tudo e todos..
...Aí sim estamos falando de Ashford.
Tudo começa... aqui.
Outro lado da história.. aqui.
Task 003: NPC + Caos.
Ezra foi alocada na ambulância, ele próprio sentado no meio fio de cabeça abaixada. Esperava Oscar, a primeira e única pessoa que fez uma ligação além dos médicos buscarem a mulher. Só precisava de um tempo para deixar a bebida da cabeça baixar e poderia tentar resolver a merda que havia se enfiado. Já bateu o carro antes, foda-se. Já fugiu de prisão antes, foda-se. Se fosse preso, foda-se também. Mas havia colocado ela no meio, novamente, de um caos injusto que a carregava em ferimentos emocionais ou físicos que lhe trazia meramente ao estar em sua presença. Seja em ser omisso, seja em ser imprudente, seja em deixar a promessa pairar de não deixá-la jamais antes de colocá-la novamente sobre a boca do vulcão e lançá-la direto para ele como uma oferenda a própria destruição que atrai. Foi um irresponsável por beber, por se flexibilizar, por deixar um copo vir atrás do outro como se isso não fosse fazer efeito algum. A ideia simples de que sabia se controlar, como se não tivesse lutando contra sua falta de controle por anos a fio. E lá estava ele de novo, só pedindo alguns segundos antes de conseguir falar alguma coisa. Ouvindo a gritaria do outro motorista, uma sirene no fundo, vozes e vozes se misturando ao zumbido irritante do próprio ouvido. Controle-se, controle-se, controle-se pairando na mente. Um pedido que vinha com a própria voz em uma exaustão carregada de uma sabedoria antiga. A visão se avermelhando, ainda que os olhos se pressionassem fechados.
Alguns segundos, é o que pede.
Porém, nunca te dão a porra do espaço.
E esse é sempre o problema.
FLASHBACK — worcerster , aos 15 anos
O tempo parou, como se fosse capaz de ver a cena de fora. E ao mesmo tempo sentir na própria pele a raiva que tinha pelo pai como um adolescente em meio a uma discussão com o amado progenitor. Hadrian é teimoso igual uma mula, ajuda seu pai na oficina mas não concorda com muito do que ele te diz. Tem outras ideias de como arrumar aquele carro, no qual costuma estar certo, mas o pai insiste em perder tempo com ideias bobas que te impedem de otimizar o quanto eles conseguem entregar por dia. Sabia que não era da sua conta, pois era somente um ajudante, mas a insistência para que fosse voltar a estudar invés de te ajudá-lo irritava e te fazia continuar ali. Porra! Custava muito o velho te ouvir logo? Mas isso deviam ser os próprios hormônios da puberdade gritando, ou a sua personalidade agressiva padrão que omitia que se metera em mais uma briga pela cidade após ver o pai sofrendo mais um calote de algum filho da puta que se aproveitava da sua bondade. Queria tirar os pais daquela merda de lugar, mas precisava de grana para isso — e a benevolência de Thomas em pegar mais e mais trabalhos não lucrativos não deixavam essa tarefa mais fácil. A discussão era sobre isso, sobre outras coisas, sobre tudo. Se intrometia e ele próprio tirava peças do carro derrubando gasolina no chão, e tinha o pai lutando para tirar da sua mão o cano em constante reclamação. Só era uma criança irritada que não sabia bem porque discutia, mas tão breve se afastava quando tentavam te acalmar e te acolher. Saia de perto puto porque não conseguia resolver nada, como se imaginasse em sua própria maturidade que era o responsável e capaz por resolver tudo, por trazer algo que tiraria a família daquela situação. Tinha ideias, sabia coisas, via com clareza tudo — mas sua própria maldição era não conseguir fazer algo concreto de fato. E só se irritava por isso.
Foi a primeira vez que tratou a mãe com desrespeito. Que gritou ao passo que ela solicitou calma na sua voz tranquila e corriqueira, e levou um tapa no rosto pelo progenitor para aprender a respeitar a mulher. Estranho e irreal aquela dinâmica, porque nunca haviam chegado no estado de sequer discutirem um com o outro. Isso deveria ter sido o suficiente para que Hadrian caísse na realidade e se afastasse, pedisse perdão e pensasse em suas atitudes. Mas não. Um vulcão ativado não simplesmente recua por um ser superior pedir que o faça. Nem Deus, nem Deuses, conseguem conter a erupção de algo que já está borbulhando e dando sinais de destruição. O jovem Ashford de pouco se lembra desse dia, mas sua mãe marcou profundamente na memória a primeira, e última vez, que viu o olhar amargurado de Hefesto tomando a face do próprio filho querido. E primeira, igualmente última vez, que o viu partindo para cima do próprio pai.
ATUAL — SANTORINI ; 31.10.25
Hadrian se levantou e não foi de forma calma. Os passos pesados andaram até o homem que berrava do carro destruído em uma irritação que parecia até se recordar de um sentimento que estava somente adormecido. Está bêbado, o outro não, mas não era a bebida a causa ali. A raiva é parte de si, não precisa do álcool para senti-la, precisa dele para sentir sem culpa. Porque foi no ato impensado que já se viu segurando a gola da roupa do outro no primeiro sinal de ameaça. Que gritou de volta e viu sua agressividade bem escancarada ao contrário do simpático professor que todos conhecem. Só conhecem essa parte porque é o que ele mostra, porque odeia a perdição da própria raiva. Mas sempre volta para ela, pronto para bater, pronto para descontar a irritação em alguém que está certo de ficar puto simplesmente porque ele próprio está consigo mesmo. Pronto para disparar as labaredas do fogo que te rodeia e carregar inocentes contigo, simplesmente por ser um incapaz de lidar com a devastação da própria existência.
Alguém o parou.
Sua mãe tentou também.
Mas era tarde. Pelo menos para ela.
FLASHBACK — worcerster , aos 15 anos
Não sabe dizer como o fogo começou, pois acordou do devaneio que se colocou somente sentindo seu pai te empurrar para fora da garagem implorando que agarra-se a mão de sua mãe e saíssem dali. Thomas sangrava na testa, no lábio, no olho. Hadrian tinha marcas que não sabia explicar nos próprios dedos. E mal conseguia andar, saía manco como se a própria perna decidisse que não funcionaria. Mas ele deu um jeito, segurou a mãe e a levou para fora, ainda que a ouvisse gritar o nome de Thomas. Os sons confusos e a distorção da cena te impedia de entender o que acontecia, porque sabia que só precisava tirá-la dali e o pai viria atrás. Entretanto, não demorou muito para entender o motivo do desespero. A casa era velha. O telhado da garagem principalmente. O desabamento foi visto diante dos próprios olhos, mas logo já teve alguém te segurando pela cintura e derrubando na grama antes que comete-se a loucura de tentar salvar o próprio pai. Um vizinho qualquer, não lembra, não viu, será que foi alguém ou ele próprio se conteve? Porque olhava outras pessoas acolhendo sua mãe chorando em desespero, telefones, vozes e não conseguia entender direito onde estava, o que fazia, o que eram as marcas nos nós dos dedos?
E porque tentar se aproximar da mãe foi visto com tanto asco, distanciamento, desgosto, raiva.
Aquele mesmo olhar que já te perturbou em sonhos tantas vezes, quando ela te empurrava para longe. E agora era real. E ele próprio estava em uma ambulância, sua mãe tendo faixas enroladas nos braços e o pai .. Não havia corpo suficiente para que pudessem enterrá-lo.
ATUAL — SANTORINI ; 31.10.25
Não havia espaço para que fosse colocado juízo em sua mente, e o advogado, mais do que ninguém, sabia disso. Mas entregava o silêncio, a cabeça baixa - não por vergonha, mas para não se inflamar mais quando tinha alguém tentando resolver sua situação. Precisava ir para o hospital, não queria curativo no ferimento tosco da cabeça, queria estar ao lado de Ezra. Queria confirmar se ela estava segura e bem, e era a única coisa que fazia se segurar no canto do penhasco para não se afundar a amargura de foda-se tudo e todos, que não se importava com o destino que tomaria. Não ligava para a carreira quando estava dessa forma, não ligava para si próprio quando estava nesse estado. Mas ligava para ela.
Não foi preso, não sabe como foi resolvido, pediu que o advogado te cobrasse de verdade e não os honorários mequetrefes que sabia que ele fazia vista grossa para si. Uma forma de autopunição, talvez? Porque também teria que pagá-lo com o carro alugado destruído. Foda-se, depois resolveria também. Era uma constância de que merda e ofensas contra a si próprio, com a mistura de pensamentos de todas as vezes que deu um jeito de estragar a própria felicidade ao longo da vida longa.
A relação com a mãe jamais foi a mesma, mas Hadrian cuidou dela a distância. Envia dinheiro, tenta visitá-la, mas entendeu quando não havia reciprocidade. E se afastou.
O mesmo aconteceu com a primeira namorada. Sinal de raiva, o ciúmes, a obsessão, o beber para espairecer tomando profundidades além de somente algo social. E se afastou.
Namoradas no plural passaram por isso, a sua condenação frequente em não conseguir ter felicidade. Se isolar, sumir, a raiva. Sempre a raiva. Uma melhor amiga quase, porque dela não afasta jamais. E, novamente, se afastou.
A vida segue, tentou melhorar com Vivian, encontrou a força para tentar parar de beber de novo. Demorou para assumir o termo alcóolatra, mas assim era. Porém o Deus do Fogo e das Forjas pouco foi feliz em sua essência divina, caindo sempre em sua destruição corriqueira. Se não era a raiva, era a melancolia. Ela não merecia se perder nos próprios pensamentos pensamentos destrutivos. E se afastou.
Estaria ele condenado a solidão no final das contas? Alguém carregado de amizades, admiradores, pessoas queridas por perto. Jovens que se espelham, se orientam, que ele os acolhe. Não estaria enganando a todos com uma falsa bondade?
Hadrian novamente de cabeça baixa sentou-se na cadeira do hospital e esperou, sob todo e qualquer protesto que qualquer um tivera sobre a não necessidade de fazer isso. Passou um pano no ferimento e só, não considerava gravidade suficiente para ser necessário qualquer preocupação. Queria saber dela. Usou o pretexto de ser "O Namorado" e ficou por ali, esperando, pensativo, se odiando. Que merda, que merda, que merda.
Sinto pena de você Ashford, ainda que odeie o uso dessa palavra. Porém, infelizmente, é impossível separar sua mente do amargurado deus que tanta destruição causa a si próprio. Mas, se tranquiliza sua mente perturbada, Hefesto sabe mais do que ninguém que a alma que reencontrou era a de Eris, a única capaz de acalmar o fogo da devastação. Ao lado dela sua chama não era destruição, mas transformação. Em todas vidas que a encontrou foi sua única chance de felicidade genuína.
Ao passo que você, Hadrian, reflete que possivelmente ela não irá mais querer vê-lo, você cruza a primeira barreira para a própria melhora sem saber que o faz.
Dessa vez, prometeu que ficaria ao seu lado.
E realmente ficou, porque decidiu que não mais se afastaria.
Não dela.