Sinopse: Você e Ana sempre foram amigas. Boas amigas. Porque não mais que amigas? Porque, derrepente, uma tal de Escarlata estava na vida dela, impedindo você de sequer tentar?
T.W: Doença Hanahaki já é um aviso :'((
Palavras: 2,1K
O ar do posto de saúde estava gélido, causando arrepios na pele. Ainda assim, seu olhar estava fixo na mulher a sua frente, que se encontrava de costas, e seu corpo imovel. Quando Ana se virou, expondo a expressão séria e severa, mas de alguma maneira ainda doce, você se limitou a sorrir e estender a mão cortada, na qual o sangue Ana já havia estancado e limpado.
“Você precisa tomar mais cuidado.” Repreendeu a enfermeira, segurando seu pulso com uma leveza que desmentia o tom rígido.
“De que outra maneira eu iria ver como minha amiga preferida está indo no trabalho?” questionou, sorrindo segundos antes de tirar um sorriso doce e tímido de Ana, que desviou levemente o olhar antes de focar em passar a agulha pela ferida aberta na palma da sua mão.
“Então foi de propósito e você mentiu pra mim?”
“Não, a faca realmente caiu e antes de pensar direito, e agarrei a lâmina no ar. Mas qual o problema de unir o útil ao agradável?" Você perguntou, somente para franzir o cenho e prender a respiração quando a agulha curva começou a passar por sua pele, fazendo-a estremecer.
“Eu diria que não foi útil e, pela sua expressão, está desagradável.” ela brincou
“Culpa sua. Porra, aquela anestesia foi pra que?” Reclamou, apertando os dedos do pé com a sensação estranha da linha passando e puxando a pele; não muito doloroso, mas agoniante.
“Normalmente temos que esperar uns quinze minutos para agir, mas…” Ana levantou o olhar por um segundo, parecendo quase divertida. “Eu não quero que você se machuque só pra vir me ver, então acho justo que doa um pouquinho pra você não repetir.”
“Ah, é? E se eu gostar da dor?” Perguntou, se curvando levemente para frente, aproximando levemente suas faces. A pele branca e imaculada de Ana atraiu seu olhar, que percorreu cada centímetro que avermelhou em segundos.
O seu estômago revirou, e uma satisfação familiar correu por suas veias. A dor foi esquecida com a quantia avassaladora de borboletas voando dentro de você; nada importava além do olhar tímido e adorável da mulher à sua frente.
Ao menos, não até que ela abrisse aquela maldita boca.
“Falando assim, você me lembra da Escarlata.” Ela gaguejou, o que a fez enrijecer. Sua boca amargou e o que eram borboletas, passou a parecer uma espiral dolorosa. Sua respiração pesou, e algo coçou em seu peito.
“Ah, aquela esposa do cara do museu?” perguntou mesmo sabendo muito bem quem era ela, tentando ao máximo agir como se não importasse. “Que o marido dela gostou de você, ou algo assim e ofereceu uma relação poligâmica?”
Mas em sua mente, só havia um sentimento amargo e egoísta. Você veio primeiro. Escarlata quem devia parecer com você, não o contrário; o ódio e o amor se agarraram em seu coração como vinhas espinhosas.
“Sim.” Ela pigarreou, ainda vermelha, mas voltando a focar no trabalho. “Mas não dei uma resposta ainda. Eu não gosto dele assim, mas…”
“Ai!” Exclamou, mesmo não tendo doído. Não estava preparada para ouvir o que viria a seguir, e assustada, Ana arregalou os olhos e parou todos os movimentos, parecendo ter até prendido a respiração.
“Doeu?”
“Bastante. Nossa.” Respirou fundo, embora não pela dor; mas para aliviar o peso que sentiu repentinamente no pulmão.
“Achei que gostasse.” Ela brincou com um sorriso apologético, dando a última passada com muito mais leveza. Sua expressão escureceu.
“Não gosto.”
“Eu sei.” Ana sussurrou, evitando seu olhar devido ao tom cortante de sua voz. A mulher olhou para cima por baixo dos cílios, ainda com a cabeça baixa, curiosa com sua repentina amargura. Como se numa tentativa de melhorar seu humor, Ana cortou a linha rapidamente, deu o nó e segurou sua outra mão enquanto colocava a agulha na mesinha de alumínio ao lado das duas e pegava o líquido desinfetante. “Pode apertar se arder, diferente de você, eu não me importo se doer.”
A voz suave e aveludada enviou um arrepio por sua espinha. Um tão grande que o provido pelo ar condicionado sequer era percebido – a dor foi esquecida, e seu corpo pareceu flutuar para longe da cena.
Foi um flerte.
O que mais seria senão isso?
Ou não foi? Mas o assunto era tão propício…
Sua mente desvaneceu, seus olhos perdidos na cabeça loura raspada de Ana enquanto ela lutava para limpar sua ferida com uma única mão. Sem nem perceber, suas unhas pressionaram na pele dela, que nem sequer se incomodou; Ana se demorou limpando sua mão, parecendo estender o toque como se pensasse em algo também.
Mas quando ela terminou, olhou para cima e seus olhos encontraram aqueles azuis profundos a centímetros de distância, seu corpo deu uma sacudida e por reflexo sua mão apertou ainda mais, fazendo Ana fechar os olhos e inspirar pela sensação dolorosa de suas unhas cravando na palma dela.
“Opa, foi mal.” murmurou, se curvando para trás enquanto ela abria os olhos e sorria.
“Tá tudo bem. Você já me fez coisas piores.” ela brincou, fazendo um sorriso ladino subir sua face.
“Ah, mas aí foi de propósito…” disse enquanto ela se afastava, pronta para guardar todos os utensílios e te liberar.
“Você é terrível.” murmurou a loira, tentando – e falhando, em conter um sorriso. A mulher relativamente alta, com seus prováveis um e setenta e cinco, se colocou à sua frente com o uniforme impecável, ereta como um soldado, mas com o olhar suave e doce.
Diferente de como é com outras pessoas, Ana nunca teve dificuldade em olhar nos seus olhos. Isso costumava te fazer sentir tão especial… Até Escarlata aparecer.
E então, outra coceira chata no peito. Um incômodo sutil, como se algo tivesse roçado levemente um órgão – seu pulmão.
“Já pode ir. Não esqueça de passar na recepção.” em resposta, você apenas acenou. De maneira mecânica, se colocou de pé e quase se inclinou para frente a fim de beijar a bochecha da mulher, até se lembrar de que ela estava ali a trabalho.
Pigarreando, acenou, mas não perdeu a vermelhidão e o sorriso divertido no rosto dela.
“Passa na minha casa depois, se der.” Pediu ao ir em direção a porta, sentindo o coração vibrar de emoção.
“Pode ser amanhã? Hoje eu já combinei com a–”
“De boa! Tchau, Ana!” Exclamou sem parar a caminhada, sumindo pela porta do postinho para não ter o desprazer de ouvir o resto.
Que vibração chata. Uma hora agradável, na outra, tão dolorida que lhe tira o ar.
E assim os dias seguiram. Ana dizia não saber ainda se a relação a três é o que ela queria, então estava saindo em encontros frequentemente com os dois – o que começou como uma coceira dentro do peito, porém, rapidamente evoluiu para tosses secas. Quando o amor da sua vida irrompeu pela porta de sua casa dizendo amar escarlata, apesar de odiar a dinâmica a três, foi o que a fez piorar ainda mais.
Ana queria pedir para Escarlata se divorciar do Torvo.
“Você acha que ela concordariam?”
“Sei lá, acho que pode ser que sim.” Não.
Não.
Não.
Não. Deus, por favor, não.
“Pode ser?” Ana suspirou, frustrada, e perceber que seu papel de amiga exigia dar forças ao amor da sua vida fez a coçeira em seu pulmão começar a pinicar.
“Desculpa. Tenho certeza que sim, Ana. Você é incrível e essa mulher… Te ama, né? Então acho que sim – eu sei que sim. Pelo que você me diz, é claro.” Forçou as palavras dolorosas a saírem de sua garganta, engolindo a tosse que tentou subir, o que só a fez prender a respiração ao sentir aquela maldita coçeira.
Quando Ana abriu a boca, porém, você não conseguiu mais segurar e se curvou pra frente no sofá, tossindo alto e forte. Aquele roçar macio na parte interna de seu pescoço abriu passagem pra cima, mas junto a isso, algo parecia apertar seus pulmões e te impedir de respirar direito.
“Ei, você tá bem?!” A loira perguntou, se arrastando no sofá até o seu lado para apoiar uma das mãos levemente calejadas em suas costas.
A pele de Ana é tão quente contra a sua. Tão suave, cheia de preocupação – como será que sua Ana toca aquela Escarlata?
O pensamento a fez abrir a boca, mas incapaz de falar em meio a tosse violenta que se seguiu, fez que sim com a cabeça apenas para sentir uma ardência tomar conta da garganta e algo desconfortável subir; Diferente das coceiras das pétalas, sentiu pontadas internas e um nauseante gosto de ferro. Com olhos arregalados, correu até o banheiro, seus pés trêmulos mal suportando seu próprio peso enquanto se jogava na privada com os sons dos passos apressados de Ana logo atrás.
Curvada na privada, sangue escorria de sua boca, e junto dele duas pétalas solitárias de rosas vermelhas. O horror tomou conta de seu rosto enquanto a mulher atrás de você tentava espiar por cima de seus ombros trêmulos.
“Água!” Gritou com a voz embargada, quase enfiando a cabeça na privada para impedir Ana de ver as pétalas flutuando na água avermelhada.
“C-certo.” Ela disse, claramente nervosa ao correr até sua cozinha.
Enquanto a loira se afastava você se apressou em dar descarga e tentou limpar o sangue dos lábios com a língua, engolindo o gosto metálico e passando a língua cheia de saliva ao redor dos dentes agora rosados rapidamente, várias vezes, querendo acabar com qualquer vestígio que revelaria seus sentimentos.
Quando sua paixão voltou com um copo já cheio d’água e uma garrafa como precaução, seus olhos encaravam o ladrilho do banheiro como se fosse a coisa mais interessante do mundo; mas em seu coração, havia apenas a vontade incontrolável de chorar até o corpo murchar e apresentar rugas de desidratação.
Os sintomas estão todos ali, não há mais como negar ou tentar se enganar. É Hanahaki.
“Aqui, beba.” Aquela voz suave e ligeiramente tímida a tirou de seu transe induzido, fazendo-a olhar para o lado e, incapaz de olhar o rosto de Ana, estendeu a mão sem desviar o olhar dos sapatos dela.
“Obrigada.” Murmurou, pegando o copo delicadamente. O momento em que seus dedos tocaram nos leitosos de Ana foi o momento em que seus olhos encheram de água, sobrecarregada demais pelas emoções.
“O que foi isso? Está tudo bem?” Questionou a enfermeira, que por hábito levou a mão até sua testa enquanto a água fria descia raspando sua garganta machucada e obstruída.
Duas lágrimas escorreram pelas laterais de seus olhos com a sensação quente da palma delicada; você, porém, sentiu duas pequenas casquinhas de cicatrização em forma de linhas no peito da mão de Ana, e algo dentro de si sabia que não eram machucados obtidos no trabalho.
Porque aquela desgraçada continua profanando o que devia ser seu?
“Fala comigo.” A loira sussurrou, se sentando no chão bem à sua frente enquanto bebia mais água, lavando todo o gosto daquele líquido avermelhado.
“Eu não sei.” Disse, sem saber para qual das perguntas. E olhando brevemente para os olhos azuis escuros, preocupados com você, seu corpo cedeu; a visão embaçou enquanto lágrimas salgadas escorriam, fazendo-a soluçar. “Eu não sei, Ana.” Chorou, puxando o corpo de sua amada para seus braços, mesmo que soubesse que ali não era o lugar dela para estar.
Ana, porém, não se afastou. Te envolveu com força e enterrou o queixo em cima da sua cabeça, permitindo que molhasse a blusa dela com seu fluxo interminável de lágrimas.
“Você precisa ir ver o que é isso.” Sussurrou, mas não insistiu. Você estava chorando, assustada, e a última coisa que a mulher queria era sobrecarregá-la ainda mais.
Então satisfeita com seu balançar suave de cabeça, Ana começou a acariciar suas costas, decidida a lhe trazer tanto conforto quanto possível.
Ela cancelou um encontro com Escarlata naquela tarde e te fez prometer investigar a causa dessa tosse misteriosa que te fez ‘morder a língua’. A desculpa que usou pro sangue, dor e lágrimas.
Como dizer pra pessoa que ama que seu coração está criando raízes que perfuram seus pulmões e faz nascer flores? Flores que não cabem no peito e precisam ser postas para fora. Flores que florescem e crescem junto ao seu amor, assim como os espinhos cutucam junto a desilusão. Como explicar para a mulher mais doce que já conheceu, que por não te amar, o sentimento que você cultiva iria te rasgar por dentro até a morte?
Ana não merece carregar essa culpa, então você mentiu. Disse que marcou um exame ao qual nunca compareceu. Depois, que era alguma reação alérgica. Então que descobriram ser um acúmulo de água no pulmão e teria que extrair. Essa mentira te deu muito tempo para aproveitar as sopas quentes de Ana, os olhares preocupados, os toques suaves e gentis.
Te deu tempo suficiente para tentar, mesmo que por minutos frágeis e facilmente quebradiços, que eram só você e ela novamente, até o dia de sua morte.