22. Charli XCX e a Arte de Fazer Barulho com Sentimento
Tem gente que ouve música. Eu deixo a música me autopsiar. E poucas artistas manejam o bisturi sônico com a precisão caótica de Charli XCX. Para o garimpeiro desavisado, ela é a voz por trás de “Boom Clap” ou “Fancy”. Um erro primário. Isso é apenas a isca na superfície do poço. O verdadeiro tesouro está no barulho, na distorção, no pop do futuro que soa como um anjo tendo um ataque epilético em uma fábrica de metal.
Falo de álbuns como “Pop 2” e “how i’m feeling now”. São artefatos sonoros que não pedem licença. É o som do coração partido sendo processado por um modem discado, é a euforia de uma balada às 5 da manhã quando você já nem sabe mais o seu nome. Ouvir faixas como “Vroom Vroom” ou “claws” é uma experiência física. Você sente o grave no peito, a batida industrial te chacoalhando, e no meio de toda essa cacofonia, a voz dela surge com melodias tão doces que chega a ser cruel.
É a trilha sonora perfeita para quem sente tudo ao mesmo tempo e não sabe como organizar a bagunça. Charli não organiza, ela joga tudo no liquidificador e te serve um coquetel de emoções. É a santa padroeira do pop experimental, a prova de que a música pop não precisa ser limpinha e educada. Ela pode e deve ser suja, estranha e gloriosamente imperfeita. Como nós.
Essa é a essência do garimpo: encontrar a beleza na distorção.
Em 2020 o BTS estreitou os laços com outras formas de arte. O Connect BTS é um exemplo disso, e o outro pode ser Black Swan. O título, que significa Cisne Negro em português, logo nos lembra de duas obras artísticas: Lago dos Cisnes, um ballet dramático do compositor Tchaikovsky, e Cisne Negro, um filme americano de 2010, estrelado por Natalie Portman (classificação indicativa: +16, ALERTA DE GATILHO – é um filme pesado, então procure ler um pouco sobre se quiser de assistir), que também estava relacionado ao Lago dos Cines de Tchaikovsky. Se você quiser saber mais sobre as obras, você pode assistir à apresentação do The Kirov Ballet, no Youtube, e ao filme Cisne Negro no Telecine Play - e alerto novamente quanto a gatilhos que o segundo pode conter.
O primeiro vídeo de Black Swan tem em seu título “Art Film” (filme de arte), reforçando esse laço com as artes. O grupo não aparece neste primeiro vídeo e ele é estrelado por dançarinos da MN Dance Company fazendo uma performance de dança contemporânea. No Art Film, sentimos cada nota e letra da música, toda sua sensibilidade e toda a dor que aquele dançarino despido sente. Ao início do vídeo temos uma frase de Martha Graham: "Um dançarino morre duas vezes - uma é quando para de dançar, e sua primeira morte é a mais dolorosa”, que, de acordo com a descrição de Black Swan do Melon, foi a inspiração para a criação da música. Martha Graham foi uma aclamada dançarina e coreógrafa americana, nomeada Dançarina do Século pela Time Magazine. Quando parou de realizar performances, Martha sofreu de depressão. É possível perceber outras coisas em comum entre Martha e o BTS, como a inspiração na mitologia grega ( Excerpt from Clytemnestra de Martha e Dionysus do BTS), e a ligação com outras artes, Martha buscou trabalhar com artistas de outras áreas, assim como o BTS busca fazer com o Connect BTS.
Black Swan conta a história de um dançarino, um artista, que tem medo do momento em que não mais poderá se apresentar no palco, a morte de sua carreira. Quando a música deixa de tocar o coração do artista nem desperta a sua paixão, essa primeira morte ocorre.
“O coração já não acelera mais
Quando escuta a música começar
Estou tentando levantar
Mas parece que o tempo parou
Oh, essa seria a minha primeira morte
Aquela que eu sempre temi”
- Black Swan
No MV oficial de Black Swan é possível ver algumas referencias ao filme Cisne Negro, citado anteriormente, assim como de trabalhos anteriores do grupo. Aqui, aqui e aqui você pode ver mais detalhes sobre essas correlações. E aqui você pode ver uma análise muito detalhada sobre o Film Art.
A coreografia de Black Swan, criada por um brasileiro chamado Sérgio Reis, tem muitos elementos da dança contemporânea, com movimentos suaves e orgânicos, fazendo jus à belíssima orquestra da música, que você pode escutar aqui e assistir uma performance de arrepiar, literalmente, também com elementos inspirados em Lago dos Cisnes, com detalhes observados por essa ARMY aqui. A sonoridade da música é melancólica e angustiante, e sua composição não fica para trás quando falamos de compositores como Tchaikovsky e Vivaldi. Particularmente, acredito que Black Swan merecia muito mais reconhecimento e, no mínimo, uns 3 Grammys. Sem exagero, é uma obra de arte pura.
Black Swan é uma música triste, sobre um artista perder a sua paixão e deixar de gostar as coisas que te trouxeram alegria em algum momento. Todo artista, seja ele de qualquer tipo de segmento, já sentiu ou corre o risco de se sentir assim. E todo mundo que experimenta ou já experimentou a depressão, sabe o que é perder a alegria de fazer algo que antes gostava. A música continua triste até o sem final, sem nenhum momento de virada, tentativa de positividade ou esperança, tanto na sua letra, quanto na melodia e no MV. No trecho “Batimentos cardíacos pulsando em meus ouvidos, tum, tum, tum/ Com os olhos bem abertos na minha própria floresta, em disparada, em disparada, em disparada/ Nada pode me devorar/ Eu grito ferozmente” parece haver uma faísca de esperança, onde a personagem parece querer lutar contra o medo, usando sua voz (o grito pode ser uma analogia a cantar, por exemplo). Mas, em seguida, o tom dela volta a ser triste e introspectivo.
No MV a luz e a sombra foram muito utilizadas para representar a esperança e o desespero, com pouca luz comparada a quantidade de sombras, no mar de desespero: “Chorando em um grito silencioso/ É como um oceano que tem toda a sua luz apagada sim, sim, sim”. Para mim, as partes mais fortes da música são os trechos em que eles falam: “Do your thang” - “Faça sua coisa”, que é uma expressão em inglês usada normalmente para pedir que uma pessoa mostre seu talento, a sua paixão. É como uma ordem vinda de fora, o que as pessoas esperam e exigem do artista, são como vozes que ecoam na cabeça da personagem da música, as expectativas sobre si. E em um momento da música, o artista responde: “What’s my thang?” – “O que é a minha coisa?”, porque ele não está sentindo mais nenhuma paixão, então, ele passa a se questionar, que coisa é essa, que paixão é essa?
Outro ponto alto na minha opinião é o “Film it now, film it now/ Do you hear me?” – “Filme isso agora, filme isso agora/ Você me ouve?”, que me faz pensar sobre o fato do grupo ser seguido por câmeras a cada pequena ação. Tudo é gravado e disponibilizado (comercialmente ou não) para o público, mas a que custo? Talvez do sacrifício e dor por trás da falta de paixão. A parte em que pergunta: “Você me escuta?”, eu interpretei como: você escuta minha dor e angústia? Ou simplesmente, suas ideias.
O MV, assim como o Art Film, é triste e honesto. Quando vemos Jimin dançando sozinho, tomado por sombras, lembro-me de cada dor sentida por ele que nos foi mostrada nos filmes do BTS em tour, cobrando de si mesmo sempre o melhor, a perfeição. A dança termina com ele no chão, coberto pelas sombras.
Na parte em que o Jin está numa sala cheia de espelhos, e seu reflexo não segue seus movimentos, percebe-se a referencia ao filme Cisne Negro, que citei anteriormente. No filme, essa cena simbolizada as alucinações que Nina, a personagem principal, enfrentava devido à não conseguir incorporar a personagem para a apresentação de Lago dos Cisnes, retratando talvez uma pessoa perdendo a si mesma.
O cenário do MV foi gravado no Los Angeles Theatre, que apesar de ter seu interior decorado com o barroco francês, estilo de arquitetura dos séculos 17 e 18, foi construído em 1979. O estilo arquitetônico barroco é o mais ornamentado dos estilos, e umas de suas características são excesso, dualidade. O estilo barroco é marcado por fortes emoções, e libertação da arquitetura da geometria – traçados retos. Tudo isso faz muito sentido com a música orgânica e carregada e intensa, tornando o cenário complementar. Ainda mais importante que o protagonismo da beleza do cenário é o fato deles estarem dançando em um teatro sem plateia. Sozinhos e, diante da grandiosidade, pequenos.
Ao final do clipe, a sombra vai descendo e desaparecendo atrás de Jungkook, que, quando ela termina sua dança atrás de si, caminha. Eu não interpretei como uma superação da sombra, porque em nenhum momento pareceu haver uma conciliação entre o artista e a sua sombra, tanto na letra quanto no MV, mas como a sombra se escondendo dentro dele, e sendo levada com ele enquanto ele segue adiante.
Black Swan é triste e reflexiva até o final, e não tenta esconder sentimentos ruins com purpurina e cores vibrantes, nem tenta entregar uma mensagem de motivação e positivismo. Eles deixaram essa mensagem para outras músicas. Aqui eles trouxeram um sentimento despido e indo ao contrário de mensagens como “siga seus sonhos” – mensagem que eles sempre tratam com olhar crítico, como em “Paradise”, “No more Dream”, e outras músicas. Mensagens como essas podem ser muito tóxicas em um mundo que nos cobra sucesso financeiro desde o momento em que nascemos. Às vezes seu sonho “não dá dinheiro”, e às vezes, seu sonho dói e pode se perder de você. E é em momentos assim que você encontra um abraço nas letras do BTS, que abordam esses temas com profundidade. E é todo esse conjunto que torna Black Swan uma obra memorável e um dos trabalhos mais marcantes do grupo.
Uma música ser triste é também uma das maiores belezas que pode carregar, porque nos leva a nós mesmos, e é só encarando o abismo e se atirando nele que nos encontramos e entendemos nossa alma.
“Eu vou mergulhar em mim mesmo, no meu mais profundo interior, eu me encontrei”
Lago dos Cisnes: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Lago_dos_Cisnes
Mais equívocos sobre a biografia do professor Georg Wassermann e sobre os caminhos da teoria de Heinrich Schenker no Brasil. O intuito desse texto é apenas pedir com muita humildade que sejam observados alguns detalhes importantes em relação à divulgação da teoria de Schenker no Brasil e, na maneira do possível, que os equívocos cometidos possam ser reparados. Não divulgarei o nome do artigo e nem quem o escreveu por questões éticas. 1. As ideias de Schenker não chegaram no Brasil em 1960, mas sim em 1941. 2. O artigo “The Reception and Dissemination of European Music Theories in Brazil “ não fala sobre esse fato em momento algum. 3. Não há provas de que o professor Wassermann divulgou a teoria de Schenker nos Seminários Internacionais de Música da Pró-Arte, em Teresópolis, porém existem provas de que ele a divulgava para alguns de seus alunos particulares. 4. O artigo afirma que no texto já citado “The Reception and Dissemination of European Music Theories in Brazil “, há tentativa de se fazer aproximação entre a teoria de Schenker e a linha de análise da professora Esther Scliar, entretanto segundo depoimento dos professores Felícia Wang e Carlos Alberto Figueiredo, ex-alunos da professora Esther Scliar, ela nunca mencionou a teoria de Schenker em suas aulas e, provavelmente, não possuía influências consideráveis da teoria de Schenker em seu método de análise. 5. Os conceitos de estrutura e coerência na música tonal pregados por Schenker não foram transmitidos em território brasileiro inicialmente pelo livro de Félix Salzer. Esses conceitos foram inicialmente introduzidos pelo professor Georg Wassermann que os trabalhou com alguns de seus alunos durante mais de duas décadas que morou no Brasil (1941 a 1964). Entende-se que, apesar dos esforços do professor, a disseminação da teoria não obteve grande êxito. #analisemusical #música #teoriamusical #georgwassermann (em Botafogo, Rio De Janeiro, Brazil) https://www.instagram.com/p/CacwBMMraEO/?utm_medium=tumblr
PRÉVIA DO MEU 2º LIVRO. Agradeço aos autores do livro "DICIONÁRIO DE REFUGIADOS DO NAZIFASCISMO NO BRASIL", da editora Imprimatur, pela citação do meu nome e da minha dissertação de mestrado "O ALCANCE DA TEORIA DE HEINRICH SCHENKER NO BRASIL". A história do Professor Georg Wassermann é fascinante e realmente merece ser divulgada. Essa história será contada no meu 2º livro, que possui o mesmo nome da dissertação. Para aqueles que quiserem comprar o livro "DICIONÁRIO DE REFUGIADOS DO NAZIFASCISMO NO BRASIL" e saber mais sobre a vida do professor Wassermann e de outros refugiados é só clicar no link a seguir: https://www.amazon.com.br/Dicionário-dos-Refugiados-Nazifascismo-Brasil/dp/658957202X. #wassermann #schenker #analiseschenkeriana #analisemusical #teoriamusical. (em Botafogo, Rio De Janeiro, Brazil) https://www.instagram.com/p/CaN_Ya_lavc/?utm_medium=tumblr