Aula 5 - Anderson Paz
Onde diabos foi parar Horácio
Horácio, Yasmine e eu estávamos no lugar errado e na hora errada (sempre discordei dessa expressão popular que não faz sentido, pois afirmamos estar no lugar errado na hora certa ou então estar no lugar certo na hora errada. Lugar errado na hora errada é algo bom). Não pensávamos que aquele protesto pacífico pudesse virar aquele pandemônio.
Só percebemos a aproximação da polícia, quando eles já estavam próximos a nós uns três metros de distância, daí não tínhamos mais o que fazer. Foi bordoada na orelha, chute na canela, tapa na cara e gritos e mais gritos em cima de todos os manifestantes que apenas exigiam a recontratação de todos os demitidos da prefeitura. Quando alguns ameaçaram o revide pra cima dos soldados, o inesperado por nós aconteceu: veio aquela rajada de spray de pimenta.
Agora estou aqui, perdido no meio dessa gritaria e troca de socos e pontapés, sem enxergar e tateando o ar aos gritos procurando os meus amigos:
— Horáciooooooo! Yasmineeeeeee! Cadê vocês, caramba?????
Inúteis são estes meus gritos, pois aqui está um misto de choro, gritos, ofensas, palavras de ordem e ameaças onde entende-se absolutamente nada. Mas persisto na esperança de encontrá-los.
Horácio é meio que esquizofrênico e nunca consegue ficar em paz em meio a brigas, pois sempre aparecem, como ele sempre descreve, vozes aos seus ouvidos que o levam a tomar ações violentas que nunca imaginaria eu que meu amigo fosse capaz de cometer: Uma vez ele disse ter enforcado a merendeira da escola durante uma briga na fila do lanche na época do Ginásio. Outra vez a mãe dele confidenciou-me ele ter socado a cara da própria irmã repetidamente durante uma discussão de seus pais (o que resultou no término da discussão de relacionamento para que a filha caçula pudesse ser atendida).
Yasmine é um doce de garota, embora uma mulher empoderada e firme em seus princípios. Nunca leva desaforo pra casa, porém nunca é daquelas pessoas que inicia uma briga. Seu poder e força estão nas palavras proferidas. Abomina violência física e nunca permite que as situações próximas a ela cheguem às vias de fato.
Não consigo imaginar meus amigos sem minha pessoa próxima a eles nessa situação. Como será que eles estão? Fico aqui, desprovido de visão temporariamente, imaginando de maneira insegura que estão protegidos do mal. As lágrimas do ardor de pimenta nos meus olhos misturam-se com minhas lágrimas de angústia e medo. Não posso perder meus amigos agora. Eu sou o protetor deles. Essa kryptonita tirou o poder do Super Amigo aqui.
— Otáááááááááávio!
Opa! Ouvi alguém chamando meu nome. Melhor eu aproximar-me
— Otávio, tá gostando disso?
Ué, estou gostando de quê?
— Toma esse soco no bucho, seu otário.
— Otááááário. Otário, toma essa!
Não acredito que nessa confusão de vozes e ruidosos cães eu consegui confundir meu nome com um xingamento tão genérico, embora tivesse vivenciado tantos apelidos similares durante toda minha vida.
Mas enfim, pensei ser meus amigos e não eram.
Já estou ficando cansado e meus braços esticados para frente não conseguem mais permanecerem em noventa graus, posição inicial dos mesmos.
Vou sentar-me e torcer pra não ser pisoteado pelo povo que passa esbarrando uns nos outros.
Acho que esse gramado aqui é um bom local, e pelas vozes estarem um pouco mais baixas, deduzo eu que consegui afastar-me um pouquinho da muvuca.
— Caralho, Tavinho. Te encontrei. Você se afastou de nós quando os policiais chegaram.
— Que bom que encontrou-me, Yasmine. O spray de pimenta me cegou e estou até agora sem enxergar.
— Puxa vida! Na hora que você afastou-se não conseguimos te ver na multidão e Horácio e eu corremos pra onde havia menos pessoas. Mas foi em vão, pois Horácio começou colocou as mãos nas orelhas, como se tapasse os ouvidos e agachou no chão gritando NÃO! NÃO! NÃO! Em seguida levantou-se e começou a desferir socos aleatoriamente em quem passasse próximo, fosse policiais ou manifestantes. Ele começou a nocautear quem estivesse ali, depois uns 15 fecharam em cima dele e não consegui me aproximar para tirá-lo de lá. Quando consegui chegar no “olho do furacão” ele já não estava lá.
Putz!
Onde diabos foi parar Horácio?











