Aula 5 - Inaye Santos
É claro que ela gostaria de enxergar.
Conhecer as cores, os rostos, as paisagens. Ter algo além do que já tinha.
Mas essa não era sua realidade e estava acostumada com isso. De sua forma, de seu jeito, ela via. Com toques, cheiros, sons, gostos, tinha sua própria versão de cada coisa e isso, afinal, era único. Só que naquele dia ela, pela primeira vez em muitos anos, lamentou por não poder ver.
Estava em um hospital. A sala cheirava a água sanitária, desinfetante, metal e sangue, sua boca estava seca, havia muito barulho lá dentro. Não poderia ser diferente. Seu tato estava prejudicado por causa da anestesia geral, não sentia nada que não fosse em seu rosto, como aquela touca que incomodava perto de suas orelhas. E também o carinho que recebia nas bochechas, que eram acompanhados de um leve sussurrar incentivador.
— Estamos quase chegando lá — explicou o médico.
Quase lá. Mais um pouco e sua vida mudaria para sempre. Estava ansiosa. Queria tanto, tanto, poder enxergar. Queria saber quais eram as cores que estavam presente lá e quais eram as sensações que elas poderiam passar. Ela sabia que assim como seus outros sentidos poderiam causar diferentes sensações em diferentes situações, a visão poderia mudar tudo naquele momento.
— É muito feio — o sussurrar iniciou — eu gostaria de poder apagar essas imagens.
— Eu estava pensando nas cores que tem aqui.
— Todas manchadas de vermelho. Vermelho-sangue. Nada agradável.
— Estou nervosa.
— Eu também.
E, como num passe de mágica, tudo mudou.
Ela sentiu. Sentiu em seu coração, sentiu no ar, sentiu em sua pele, sentiu até mesmo onde não estava sentindo mais nada. Tudo mudou e ela sabia.
Um novo cheiro, um novo som, um novo gosto, uma nova sensação invadiu seu mundo. Era como se sempre estivesse ali, mas nunca manifestou-se. O sentimento cresceu em seu peito enquanto a sala era repleta de novos barulhos e cheiros.
— Uma linda menina. — o médico disse.
— Eu quero senti-la. — implorou com uma voz fraca, emocionada — Amor…
Sentiu quando seu marido interrompeu o contato com ela, mas sentiu também quando um novo contato começou. O barulho do choro de uma nova vida ressoava em seu ouvido, diferente de tudo o que já escutou. Era um choro de quem já não estava mais confortavelmente guardado em um ventre quente, um choro de quem estava desesperado para voltar a proteção de sua moradia. As lágrimas escorriam pelos olhos que não viam, mas que sentiam.
— Ela é linda — o marido sussurrou — Tem a cor dos seus cabelos. Loiros, claros. Mas tem o meu nariz.
Eles riram, mesmo sem motivos para rir. Ela conseguia sentir a pele macia e melada, conseguia sentir o cheiro de sangue com algo desconhecido e o gosto… Era de amor.
Aquilo havia sido desejado e esperado. Construído. Amado. Complicado, difícil, solitário, enlouquecedor.
E o resultado estava ali, chorando contra seu rosto, indignada com tudo.
— Qual a cor dela? — ela perguntou sabendo que ele saberia o que aquilo significava.
— Uma que eu nunca vi antes — ele disse, beijando as testas das duas — Algo entre vermelho-amor, amarelo-felicidade, rosa-paixão e azul-eterno.
— Um arco-íris.
— Nossa própria versão dele.
Então o mundo com cores era assim.





