Aula 4 - Amanda Monteiro
Analisar o cenário de uma morte é como ler um romance de Dostoiévski com uma tradução bem porca. Ao mesmo tempo que tudo parece estar no lugar, caminhando para uma resolução, sempre ficar aquela dúvida “como seria se a tradução estivesse adequada”? Como seria se o rapaz estirado no chão tivesse deixado um bilhete? Como seria se a primeira pessoa a chegar aqui fosse um amigo e não um policial? Esse garoto estaria salvo?
Em todos os meus anos como repórter, posso assegurar que já li muitos romances mal escritos ou mal traduzidos. Mas esse era de longe o que mais me incomodava. Cada pessoa entrevistada dava uma versão diferente, como reedições de um mesmo livro, os familiares da vítima nos davam a versão de capa dura, bonita e higienizada, “Ele é um bom menino”, “nunca teria feito algo do tipo com outra pessoa”, “Ele não tem culpa”. Os amigos tinham uma versão mais acabada, um livro de sebo cheio de anotações, algumas páginas rasgadas e amareladas, “Ele sempre foi desse jeito”, “era só uma questão de tempo até ele explodir”, “Ele era louco, até mesmo fazia terapia”. Já a namorada tinha exatamente a versão mais próxima da qual eu queria, aquela edição especial com algumas anotações revisadas do autor, “isso já estava planejado há tempos, mas nunca achei que ele fosse pôr em prática”, “parecia uma brincadeira, como podia estar falando sério?”.
Como um colecionador ávido, não podia me contentar com essas publicações meia boca, eu precisava da edição certa, a mais rara, a mais completa, a mais crua, aquela que nunca passou por um revisor que nunca foi julgada pelo público. Eu queria o manuscrito do autor. Visitei a cena como quem visita um leilão de arte ou uma biblioteca universitária. Uma hora ou outra eu encontraria o exemplar que queria, nem que isso consumisse meus meses.
O corpo já havia sido retirado, todas as provas recolhidas, o quarto estava completamente limpo, mas ao mesmo tempo parecia intocado. Meu mandato de busca falso era minha licença poética, eu podia fazer o que quisesse. Revirei todas as gavetas, passei de estante em estante, prateleira por prateleira. Uma perda de tempo, como em museus, as obras mais preciosas ficam escondidas no subsolo, protegidas. Não fiquei surpreso ao encontrar o pergaminho perdido em um fundo falso na gaveta de cuecas. O diário do rapaz estava em minhas mãos. Pobre Edgar, não foi fácil crescer na Rua Moorgue.
Estava encantado pelo o que lia, não porque tinha algo de extraordinário, era um diário comum, de um garoto comum, que teve uma vida comum. Estava encantado porque sabia que eu era o único a conhecer a verdade, tinha a solução do caso em minhas mãos. Todo colecionador de livros é um colecionador de histórias e essa é a minha mais nova aquisição.
Guardei o diário em minha bolsa. No relatório para os superiores escrevi que não encontrei nada. Minha coleção era particular, apenas para meus olhos e mais ninguém. Em meu porão tinha um verdadeiro necrotério de memórias, cada diário de assassino ou suicida era como uma câmara frigorífica cheia de histórias mortas e esquecidas. Fichários e mais fichários de estudos feitos por um hobbie mórbido. Documentos que não deveriam estar em minha posse, espalhados a torto e a direitos em pilhas e mais pilhas de papel.
Fitas cassete, cds, dvds e pen drives, cheios com confissões. Lembrava de todas só pelo título e isso me fazia sorrir. Qualquer pessoa diria que sou um abutre e não posso discordar, faço a festa com o que há de mais podre.
Com esse novo diário em mãos, sentia a mesma alegria que um pai sente ao trazer um filho para casa. Me sentei em minha cadeira, bem no meio de todas as estantes e comecei a ler o diário em voz alta. Queria apresentar o novo irmãozinho para todos os presentes. “Segunda feira - 27 de junho de 2002 Sinto que estou sendo observado. Seguido. Caminhando cada vez mais para uma armadilha. Todos acham que estou ficando louco. Escuto passos na minha porta e na escada de incêndio do lado de fora da janela. Tenho certeza que quem quer que seja já entrou aqui e ficou sentado me vendo dormir… eu estava acordado, mas não tive coragem de me virar para ver quem ou o que estava lá.
Disse para minha terapeuta, ela não acreditou em mim. Meus amigos acham que sou insano. Disse para minha namorada que vou matar essa pessoa mesmo que ela já esteja morta.
Todos os dias vem me visitar. Todos os dias na mesma hora. Não sei o que quer comigo, não sei porque não me deixa em paz. Já não consigo viver direito desde que isso começou meses atrás… Amanhã, vou matar essa pessoa e provar de uma vez por todas que não sou insano”
Essa era a última página do diário. A última página antes da minha visita.
— “Não sei o que quer comigo”, isso é hilário, não acham — Perguntei para as estantes. Nunca quis nada com ele, além de brincar. Queria, pela primeira vez na vida, ser o autor de algo, apenas isso. Meses e mais meses dedicados a mim, todas essas páginas escritas sobre mim. Eu era o autor e conduzi meu personagem até onde queria, até o melhor dos finais.
Me sentei na escrivaninha e comecei a escrever o epílogo. O que acontece depois que o sofrimento do jovem Werther cessa. Como um dossiê, descrevi detalhadamente a nossa última noite. Cada palavra passada para o papel com precisão cirúrgica. Eu estava vivo, ele morto, tirou a própria vida, pois sabia que não o deixaria em paz a menos que me matasse, mas, ao ver meu rosto, não teve coragem de puxar o gatilho.
— Sempre foi fraco, desde que éramos pequenos… — Falei para mim mesmo antes de anexar o final da minha obra definitiva e deixar que ela se perdesse em meio às demais.






