Contos do narrador misterioso: Garotinha Obcecada
Deitada no chão ficava a erguer o tronco do chão até a exaustão, forçava até encostar os minúsculos seios nas coxas tão finas quanto os braços de uma pessoa comum... Ora, Ora, Ora... Cada vez mais esquelética ela não cansava, o suor já lhe preenchia a face quando sentiu um estalo vindo de suas costas e uma dor em sua coxa... Cãibras não escolhem as pessoas tão aleatóriamente assim.
Seu tronco caiu para trás quando a dor lhe atingiu... Mal podia gritar a garotinha obcecada. A mão direita lhe cobria a boca para evitar a emissão de som... Se alguém da casa a ouvisse, coitada... Esperou a dor passar massageando a coxa com a outra mão. E quanto conseguiu se mover caminhou pelo quarto até o espelho. Ela via o reflexo, mas o reflexo que ela via, não era dela. Eu estava ali, no espelho, no reflexo... Sempre a observando. Dava vontade de gargalhar quando aquela menina agarrada a pele da barriga e torcia tentando medir quanta gordura tinha no corpo...
Ouviu gritos no andar de baixo, sua mãe iria exigir que ela comesse, então para desfarçar o corpo morto ela encheu-se com dois moletons completos e desceu a escadaria. No prato ela já via o pedaço de lasanha posto... Aquilo lhe embrulhada o estômago, mas ela fez questão de sorrir para manter as aparências. Comeu tão rápido quanto conseguiu, engolindo grandes pedaços sem mastigar, fazendo de tudo para ser liberada daquela tortura. Sua mãe não entendia como uma garota com aquele aparente apetite conseguia ser tão magra, aquela garotinha obcecada sempre dizia "É genética" e então se justificava.
Ao terminar o prato recusou repetir, não tinha como forçar mais coisas por sua garganta que parecia querer fechar a cada pedaço de comida ingerido, subiu as escarias correndo e foi para o quarto... Meses atrás sua mãe a havia pego vomitando no banheiro, então agora ela era obrigada a fazer isso em seu quarto, para não deixar pistas e depois se livrar daquilo. O balde embaixo da cama tinha uma quantidade grande de desinfetante e numa caixinha ao lado sua escova de dentes antiga, ela forçava a escova para dentro da garganta e a cada vez que a repulsa a vazia chegar a quase eliminar aquilo que a fazia surtar, ela sentia como se uma de suas cicatrizes diminuisse. Só queria tirar aquela gordura de seu corpo, na terceira tentativa ela conseguiu e o mais silenciosamente que conseguia colocava tudo que havia acabado de comer para fora, pedaços inteiros da lasanha saiam para dentro do pote, algo vermelho vinha junto naquela poça de nojeira mas ela já havia se acostumado, o gosto de ferrugem na boca era sempre o fim do vômito. Depois de alguns anos, o bom e velho exôfago não é mais o mesmo e deixa escapar mais do que comida. Não que ela reclamasse, era menos líquido dentro de si no fim. O Desinfetante segurava o odor forte de vômito por algum tempo até q ela pudesse ir ao banheiro e jogar tudo no sanitário.
Caminhou até a frente do espelho novamente, queria ver seu corpo, ver se tinha vomitado o suficiente. Passou as costas da mão sobre os lábios e pegou um pequeno chiclete sem açúcar sobre a mesa ao lado do espelho para lhe tirar o sabor horrível porém familiar da língua.
Levantou os quilos de tecido da frente da barriga, que ainda tinha coloração atenuada em vermelho graças aos beliscões anteriores. Se olhava, olhava, olhava, não cansava daquela imagem, ficava tão obcecada que mal me via, ao seu lado. Só ouvia minha voz.
-A barriga está boa, a gordura está nos seios, e seus braços também não são dos mais finos. Você parece presa a um casulo que não lhe levará a metamorfose alguma, para sempre uma lagarta. Em vida e em morte uma lagarta que nunca evoluiu, nada além disso.
Ficará sempre presa as frases "Eu me sinto bem" ou "Eu comi antes de chegar aqui", mas quando chega a noite sente as dores do corpo fraco, começar a suar frio, os ossos espostos no quadril parecem estar rachando de tanta dor.
Mal se lembra da primeira vez que se sentiu feia, a primeira vez em que decidiu não comer. Tudo isso para momentos de tranquilo, na maioria do tempo vive da ajuda da vida para que nada lhe atinja, ou não passará dessa noite. Pois seu corpo já não é mais seu. Pertence a suas melhores amigas, Anna e Mia, Anorexia e Bulimia. Do berço a cova irão as três: Obcecada garota, Anna e Mia. As mãos entrelaçadas. Os destinos traçados. Uma vida perdida.
-Eu posso comer menos... Posso tomar mais laxantes... Posso fazer mais exercício. Isso vai sumir...
Ela repetia sempre sem enfrentar-me, ela não me via, e no fundo acho que a única coisa que via era a si mesma e as fotos das mulheres tão magras quanto ela na tela do computador.
Talvez, pensasse que eu sou apenas uma voz na cabeça dela. Eu tenho uma voz, mas não sou apenas uma voz, sou um homem por completo. O pesadelo dela... O homem que fala que é hora de parar de brincar e falar sério.
-Sabe algo que pesa em você? A gordura dos seus seios... Os médicos dizem que as nádegas são compostas de músculos, mas os seios são pura gordura... Talvez, uma pequena incisão na parte inferior deles e se você apertar com força, acho que pode tirar tudo isso de si... Pelo menos eu acho.
Chega um momento em que tudo se torna depressão, e a esperança não é mais viver leve… é morrer leve. Aquela garotinha obcecada já tinha chego a este momento, ela só precisava de inspiração...
-Também dizem que sangue incha muito, você não precisa de todo aquele que tem, se não fosse assim, não pediriam para doar parte do que você tem... Talvez, se você tirar um pouco.... Pelo menos eu acho.
Ela pensou nisso, seu lábio quase não tinha cor, seus estágio de magreza enão permitia que o pouco sangue chegasse aos lábios... A desnutrição já havia lhe atingido tudo, até o funcionamento do cérebro, já que ela parecia acreditar em tudo que eu dizia. Obcecada até mais aquela garotinha. Pelo quarto procurou seu estilete dos trabalhos de escola, e devagar cortou o pulso direito, mordeu o lábio imediatamente para conter o grito de dor, o corte não parecia fundo, parecia nem ter sido feito, mas logo ficou vermelho e o sangue brotando sobre a pele alva como uma rosa e pingando ao chão.
-Não é suficiente... Pelo menos eu acho.
Repeti em seu ouvido, o sussuro foi suficiente, mesmo fraca ela trocou o estilete de mão e fez a mesma coisa no outro braço, o corte foi um pouco mais suave mas teve mesmo efeito.
- Não é suficiente... Pelo menos eu acho.
Repeti pela última vez, e ela pareceu confusa sem saber mais o que fazer. Apertou o estilete com a mão direita e aquilo fez brotar mais sangue do corte já feito, abriu mais a lâmina e sem pensar duas vezes ela passou a lâmina de ponta a ponta da garganta. Pela primeira vez, seus últimos segundos de respiração ela me viu... E em meu rosto um sorriso, e neste sorriso, sua vida indo embora por algo que nem ao menos fazia sentido buscar.
O auge da alegria serão sempre os sonhos que se tem antes de dormir, antes de fechar os olhos. Isso é o que resta pra quem vive, mesmo depois de morrer.