A única que morreu quando já estava morta
Perseguida por seu passado a pobre menina estampava em seu rosto um sorriso todas as manhãs e o mantinha como se pintado fosse até a hora de se deitar. Ela falsificou tudo sobre si, mudou tudo que a sociedade parecia não gostar, mudou sua personalidade, mudou a forma como trata seu corpo. Depois de tantas pessoas lhe usarem como um objeto ele chegou ao ponto de não se importar com o que faziam dela, apenas mais uma, mais um número, um pedaço de carne que de tanto as pessoas não darem valor... Ela também desistiu.
Acorda todos os dias mantendo um rosto que não lhe pertence, esconde os olhos para que ninguém veja a dor e a melancolia de sua aparência natural, alisa os fios do cabelo – precisa ser sexy – o que é uma garota nessa sociedade se ela não for sexy?
Ela já desistiu... Desistiu de um dia conseguir realizar as paixonites que sua versão mais nova criou, viver um amor sem julgamentos, ter alguém para abraçar a noite antes de dormir, se importar com alguém que realmente mecereça.
Quando eu encontrei com esta garota, ela já havia morrido, talvez por esta vocês não me culpem.
Morta completamente por dentro ela já havia desistido de si mesma, desistiu de mostrar emoções as pessoas. Até mesmo quando um sopro de esperança entrava em seu peito lhe dando um novo amor completamente unilateral, ao qual ela se entregava e confiava e começava a desenhar nas contra-capas de seus cadernos... Bom, mesmo assim ela era dopada, estuprada e acordava num quarto de hotel, com sua mãe na recepção achando que ela era uma vadia por ter ido parar ali sem avisar a ninguém... Enquanto nem ela sabia que adentrou ao local completamente carregada e desacordada e que o corrimento que sentia entre suas pernas não era gozo e sim sangue.
A pior ou melhor parte, é que depois de um tempo, aquela garota começou a preferir que a estuprassem quando ela estava desacordada. Não que isso tenha virado algo de sua preferência, ela ainda sentia repulsa, porém ela já havia desistido de encontrar alguém que não fosse fazer aquilo, então ela preferia não se lembrar.
Preferia não se lembrar de seu primeiro namorado tapando-lhe a boca enquanto retirava sua virgindade a força, ou quando ele a queimou com a chave de casa esquentada no isqueiro por cada vez que discutiram por ela usar roupas curtas, preferia não lembrar de cada vez que apagou enquanto estava sendo enforcada e que cada vez que isso acontecia ela tinha 50% de chances de acordar machucada pois ele continuaria batendo nela, contra 50% de chances de acordar suja de gozo, pois ele teria aproveitado que ela estava ali apagada e usado seu corpo mais uma vez.
Ela preferiu deletar de sua mente que seu melhor amigo de dez anos de amizade a drogou na primeira balada que foi e a deixou acordar sozinha num motel, e ainda disse que foi bonzinho pois utilizou camisinha, então ela não corria risco nenhum. Estava segura ele disse...
Aquela garota foi morta por dentro.
Cada vez que ela foi magoada ela estava morrendo um pouco, estranho como ninguém parecia notar como ela era uma paciente terminal caminhando com seu soro em direção ao abraço da morte... O único abraço que não teria uma mão em sua bunda.
Ela continuava tentando, e era tão triste. Conhecer alguém, passar horas conversando, desenvolver planos quando a pessoa dizia que queria vê-la mais vezes e então ser bloqueada no dia seguinte da primeira noite de sexo. Ou ser paga por ter sido confundida com uma prostituta... Pensava com seus botões se merecia aquilo, se sua atitude atraia aquele tipo de pessoa que não conseguiam ver mais do que seu corpo como um buraco.
Naquele dia ela se levantou da cama, sua vida toda culpou a sociedade por seus atos... Mas ela estava cansada. Sem saber o que faria da vida, sem saber como seguir em frente, mais uma vez se apaixonando outra pessoa que iria usá-la e depois de uma maneira pior que os anteriores descartá-la... Pois sempre era pior... Desta vez ela não tinha nada, sem emprego, sem faculdade, sem expectativa de futuro... Ela apenas tinha a dor que a envolvia e o medo do que poderia acontecer quando o próximo se cansasse dela... Viraria estatística de violência doméstica? Ou ele chamaria os amigos para estuprá-la por ela ser tão vulgar... Provavelmente ela aguenta uns 6 ou 7 seguidos, é o que deve passar na mente dela.
Ela não tinha nenhum objetivo naquele dia e somente naquele dia ela não se maquiou, estava com a cara lavada e tinha acabado de sair do banho. Ela vestiu seu moletom e olhou ao espelho e ela me viu... Por alguns instantes eu tive pena dela, era tão Bella, que não pude deixar de me sentir tocado... A face de um anjo destruída pelos demônios presos ao purgatório que chamamos de terra. Ascendeu uma vela para sua deusa, e rezou por perdão... Mas ela não aguentava mais.
Saiu de casa dizendo que iria apenas no bairro vizinho comprar um acessório para usar a noite, já que tinha marcado de sair com suas amigas e precisava estar deslumbrante... Ninguém notou a dor em seus hábitos.
Ela saiu e pegou o ônibus, assim que passou a catraca alguém apertou sua bunda com força e dessa vez ela nem se virou para ver quem era, ela tinha desistido. Ficou ali esperando o ponto final, depois passou a catraca do metrô... Enquanto esperava o próximo trem seu rosto estava molhado em lágrimas.
A garota perseguida em si mesma e culpada pelo que esperavam dela desistiu de um dia alcançar a felicidade, desistiu de um dia ouvir um eu te amo, desistiu de buscar...
Pegou em seu bolso um bastão colorido de maquiagem que lhe tingiu um lábios de vermelho, e no segundo exato quando ninguém poderia segurá-la, ela olhou para o lado e disse para mim as palavras que eu sempre ouço... - Eu consigo...
Seu corpo foi atingido pelo trem de força tão rápida que eu vi seus músculos sacudirem por causa do atrito causado mas sua alma não estava mais lá.
Ela nunca quis morrer de verdade, mas a partir do dia que ela acordou com este desejo... Ninguém poderia pará-la....
Só de pensar que ela escreveu sobre isso e enviou para pessoas e ninguém conseguiu identificar do que se tratava eu sinto pena... Mais uma garota suicida em minhas mãos...
Corrijo, a menina perseguida pela sociedade não era uma suicida... Como eu disse ela já havia morrido. Homicídio doloso causado pelo descaso do mundo em conseguir preservar uma alma pura... Agora pelo menos ela teria paz, seu corpo estava tão desfigurado que ninguém poderia abusar dele novamente, e eu tenho certeza, que quando ela se viu seja lá onde esteja, pela primeira vez, com a pele alva descoberta exibindo as manchas e os lábios pintados, pela primeira vez ela se sentiu bonita, e livre, e feliz.









