Carta para você, que me encontrou antes de saber o que fazer comigo
Eu entrei na sua vida sem roteiro. Sem saber direito o que você carregava, sem saber o que eu estava trazendo também. Mas entrei. E talvez só isso já tenha sido muita coisa.
Eu sei que não fui neutro.
Nem leve.
Nem passageiro.
Eu fui movimento.
Fui barulho quando você só conhecia o silêncio.
Fui pergunta quando você queria respostas prontas.
Fui tempestade numa rotina que parecia confortável demais pra te fazer crescer.
Eu te provoquei, às vezes sem querer — e às vezes de propósito.
Te puxei pro agora, tentei te mostrar o que havia do lado de fora desse mundo interno onde você se escondia.
Te dei palavras, quando você se calava.
E talvez eu tenha ido rápido demais, enquanto você ainda tentava entender o primeiro passo.
Eu não vim pra preencher um vazio.
Vim pra sacudir o que você já tinha acumulado aí dentro.
E, no fundo, acho que você sabia.
Sabia que eu não era alguém pra caber em metades.
Que eu ia exigir presença, verdade, troca.
Eu não soube te salvar — e nem era minha função.
Mas deixei em você o que eu tinha de mais honesto.
E se você parar, um dia, e escutar com atenção, talvez ainda ouça meu riso cortando aquele silêncio que você tanto usava como armadura.
Se eu fui demais, foi porque te vi de menos do que você poderia ser.
Se eu insisti, foi porque enxerguei o que você ainda não via.
E se eu fui embora, é porque entendi que meu papel ali já não era mais permanecer, e sim despertar.
Obrigado por ter me deixado entrar.
Mesmo que não tenha me deixado ficar.
- Key.















