DOCUMENTÁRIO: "Axé: Canto Do Povo De Um Lugar"
Um documentário que narra as fases do axé-music, explorando seu início, auge e declínio do fenômeno musical. Com imagens de blocos da Bahia e foliões aproveitando o carnaval, o diretor Chico Kertész conduz a narrativa dos entrevistados e as imagens de apoio com muita sensação de nostalgia.
O documentário, que fala sobre o movimento carregado de sincretismo cultural da Bahia, o axé-music, se inicia na voz da cantora Ivete Sangalo: “Já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar...”. A música clássica do carnaval em todos os estados brasileiros é apresentada na voz de uma das principais e mais conhecidas cantoras do ritmo. Para complementar a música, a abertura utiliza imagens de arquivos antigos dos carnavais. Ao fundo dessas imagens de apoio, o documentário de fato começa com a entrevista de Caetano Veloso, compositor da música de abertura. Porém, é estranho ver um documentário que aparenta querer valorizar a cultura baiana, o movimento dos blocos de rua de Salvador, o axé e suas influências africanas, que foram tão criticados e marginalizados, serem iniciados com vozes e canções de personagens brancos.
A narrativa do documentário é construída cronologicamente de acordo com os acontecimentos e avanços do estilo musical, elegendo sempre um personagem importante para cada parte da história do axé. O primeiro a ser apresentado é Luiz Caldas: “Luiz estava no momento certo, com a música certa e com a banda certa”, diz o cantor Ricardo Chaves sobre o artista. Complementando Ricardo, o também cantor Durval afirma que Luiz foi o artista que lançou a música baiana ao business nacional. Começamos a compreender que a trajetória dos personagens apresentados no documentário e a história do axé seriam narradas através do negócio e reconhecimento nacional da música, uma visão diferente do que se espera ao ler o título, que sugere um entendimento sobre toda a convergência de estilos musicais e culturais de influências africanas. Uma das confirmações dessa afirmação é a criação do trio elétrico, instrumento usado por todos os personagens seguintes e importante para a história do carnaval de Salvador e, consequentemente, do axé. O trio é mencionado apenas uma vez, de forma passageira, no início do documentário, por um dos entrevistados. Sente-se falta de um foco maior para o principal acontecimento do estilo musical.
O diretor escolhe conduzir o documentário garantindo uma sincronia das falas dos entrevistados, unindo-as ao tema e às imagens de apoio, o que garante veracidade ao assunto abordado e traz a sensação de uma conversa multilateral. O documentário não é dividido por tópicos, embora eles fiquem claros ao longo do longa. O diretor garante a narrativa dos temas abordados um a um, através de cada personagem puxando o próximo tópico ao longo da entrevista e dos assuntos tratados, dando ainda mais ênfase à condução da conversa e à sensação de descontração. A importância dessa condução também é mostrar como todos os personagens exaltados no documentário influenciaram uns aos outros.
À medida que o documentário transcorre, percebe-se ainda mais aflorada a intenção da obra e das narrações de Kertész. Quando Olodum é apresentado pelos entrevistados, nota-se a preocupação com as questões do negócio musical. Apresentado como “divisor de águas” e dito por Alfredo Moura como “não vamos contar isso a Rangel, pois senão Fricote vai para o 'beleléu'”, mostra as concorrências existentes no meio.
As falas recorrentes de quase todos os personagens sobre o Olodum, banda afro de percussão, destacam os arrepios sentidos. A música dos tambores e a resposta dos foliões causam arrepio nos envolvidos na história, mas pouco se aprofunda nisso. As narrações de Nestor Madrid, produtor musical e dono da produtora WS, continuam tendendo o documentário para o lado do negócio, ao descreverem as letras como complexas e longas, impossíveis de se decorar. Logo em seguida, na intenção de confirmar as falas anteriores, recebemos imagem e som de arquivos com a legenda sublinhada, aumentando de tamanho ao longo do vídeo, estratégia que não fora usada até então pelo diretor.
Quando se ouve o depoimento de Lazinho, cantor do Olodum, percebemos o foco do personagem nos instrumentos e em como os integrantes interagiam entre si. Ao comentar que Neguinho do Samba tocava com duas baquetas ao invés de uma, pois “o tempo da escravidão acabou para se machucar para branco ficar curtindo e pulando”, traz a sensação de que o assunto racial seria levantado no documentário, mas rapidamente o foco é desviado para os aspectos musicais.
O documentário constantemente utiliza som e imagem complementares. Não só para garantir a veracidade dos fatos levantados, mas também para apoiar as falas, por exemplo, o som da percussão ao fundo da fala explicativa e sonora de Gerônimo em exata sintonia. A música continua após essa sobreposição com as imagens de arquivo, que neste ponto do documentário já estão naturais aos olhos.
Outro ponto que chama atenção ao longo das narrativas é o fato de Chacrinha ser o personagem-chave da história do axé. Passando por todas as histórias, artistas e estilos musicais, Chacrinha é mencionado. Ele não só é mencionado, mas também exaltado com gravações de seus programas com quase todos os artistas e descrito como de grande influência para o conhecimento do axé-music. O foco do documentário é explicar e dar voz aos personagens que fizeram o êxito do estilo musical, e não aprofundar nas raízes negras da música e das danças. Percebemos sutilmente os personagens ditos como “filhos do axé”, importantes para a história do estilo musical, passando um a um ao longo do longa, porém com praticamente os mesmos entrevistados contando sobre eles, como o diretor da gravadora WS.
Quando é apresentado o bloco Ilê Aiyê, o diretor consegue suprir parcialmente a falta de narrativa sobre a cultura africana e os preconceitos sofridos na Bahia, não só pelo carnaval, mas pela forma de dançar e de usar os cabelos com dread, por exemplo, que na época era proibido. O cantor Marcionílio explica a violência sofrida por qualquer negro que tivesse dread no cabelo, que era uma referência para a polícia de “vagabundo e maconheiro”. Onde os negros que possuíssem dread eram presos, sofriam agressões físicas e teriam seu cabelo raspado. A importância e a influência de Ilê Aiyê para o povo negro de Salvador fica clara ao ouvirmos os relatos, onde ele incentivava a cultura africana e o uso de trajes, acessórios e cabelos com essa característica. Para garantir ainda mais veracidade nas palavras, o diretor utiliza pela primeira vez a sonora de uma reportagem, dizendo que 15 anos depois do bloco “Poder Negro” ser proibido no período autoritário, hoje é o Ilê Aiyê, com grande carga cultural para Salvador. Também percebemos mais destaque nas imagens, que valorizam os acessórios utilizados pelos foliões no bloco, a música que percorre com a imagem por mais tempo que o normal, as danças características e os ritos de influência religiosa.
Após esse bloco, rapidamente o foco volta para o business do axé. Explicando a personalização das músicas de Olodum, como “porta-vozes”, a Banda Mel é apresentada. A intensa rotina de gravação e ensaios, com a recorrência da banda na mídia, é citada constantemente. A partir disto, já temos a ascensão do estilo musical e o início do debate com a indústria comercial, que utiliza essa onda para gerar entretenimento para a classe média, gerando também o branqueamento das manifestações dos blocos. Mas como ocorreu durante todo o documentário, esse tópico é levantado de forma sutil, sem muito foco, e rapidamente o assunto é trocado.
Ao explicar o termo que nomeia o estilo musical, “axé-music”, temos o jornalista Hagamenon, que admite que o termo é satírico e preconceituoso, para algo que seria “brega”. Porém, ele diz isso com um tom de justificativa por ser “jovem e roqueiro”, quase como se fosse algo natural. Não há um grande aprofundamento no debate e falta a explicação exata do termo, das raízes e do porquê da associação do termo ao estilo musical.
Quanto mais nos aproximamos dos dias atuais no documentário, mais vemos também a influência do pop nas músicas e o “branqueamento” do axé. O documentário que, pelo título: “Axé: Canto do Povo de um Lugar”, traz a sensação de que iríamos ter uma aula sobre o povo, as influências e o lugar de onde vem o axé em formato audiovisual. Porém, o que o diretor apresenta na produção é uma cronologia das bandas, cantores e dos acontecimentos do axé em um determinado período, sem o aprofundamento nessas questões. Esse debate é mais aprofundado ao final do documentário, explicando os motivos da decadência atual do ritmo. Ao ouvirmos Ninha dizer que a indústria fez muitos empresários enriquecerem e que quem fez a cultura está pobre por terem sido sugados e jogados fora, sem o protagonismo negro no terreiro, a sensação é que a condução do diretor ao longo do documentário foi exatamente igual, focada no business do axé-music e deixando os debates ricos e essenciais da cultura como coadjuvantes.
O objeto da obra, como audiovisual, tem a manipulação do diretor nas falas dos entrevistados que se contrapõem o tempo todo, garantindo essa sensação de conversa e descontração. As imagens de arquivo bem coloridas – alguns vídeos mais antigos e outros mais recentes – complementadas com músicas com o som levemente mais alto manipulam para o sentimento de nostalgia, alegria, arrepio e êxtase que quem já participou de alguma manifestação carnavalesca entende. A trilha sonora se complementa perfeitamente com o tema e com a fala dos entrevistados, muitas vezes iniciando junto com eles e aumentando de volume aos poucos até seguir sozinha com as imagens de apoio.
O plano dos entrevistados é igual para todos, mudando apenas o cenário de cada um. Já nas imagens de arquivo, os planos variam, mas a direção usa efeitos em câmera lenta em algumas ocasiões.
Nos minutos finais, temos a comprovação de tudo o que foi debatido no texto sobre o foco na indústria musical e não cultural, ao vermos a propaganda sem explicação de Saulo Fernandes, cantor que mal é citado durante toda a narrativa e que, ao terminar, é ovacionado e colocado em um pedestal como o futuro do axé.