Do sacrifício ao sagrado
Na velha terra da escuridão, contava-se sobre uma criatura que desafiava todas as formas. Alguns diziam ser um vampiro amaldiçoado por Onum; outros, um experimento dos mentores. Mas não era raposa. Não era lobo. Não era cão.
Era algo diferente. De longas pernas, dorso arqueado, pelos em brasa e patas que lembravam as bases vulcânicas de Mortvalia. Controversos, solitários, silenciosos — e, ainda assim, admirados até por vampiros superiores. Chamavam-nos de guarás.
Viviam entre as florestas mortas, onde os galhos secos sussurravam mistérios. Não uivavam, não ruíam. Eram pura presença, pura inteligência. Havia neles uma beleza que fascinava, uma reverência natural que nem os mentores conseguiam conter.
Na noite do eclipse lunar — a noite da lua de sangue — os anciões decidiram: o maior guará da região seria oferecido em sacrifício. Através de sua morte, o povo vampírico experimentaria um poder jamais visto.
— Está tudo pronto — anunciou a mentora responsável. — O animal já foi capturado.
Amelzia, recém-vampira, sentiu o coração se despedaçar. Desde a infância, admirara os guarás. Seguia suas pegadas, descobria suas tocas, observava seus filhotes. Aprendera com eles o silêncio, a astúcia, a solidão. Em seus olhos, ela se reconhecia. Mas nada convenceu os superiores. O eclipse era sagrado. E o sacrifício, inevitável.
Na véspera, Amelzia entrou no local onde o guará estava preso. Por um instante, seus olhares se encontraram. Havia tristeza nos olhos da criatura, mas nenhuma consciência de seu destino.
— Vá — sussurrou. — Vá para longe. Não deixe que o matem.
O guará hesitou, emitiu um gemido rouco, e por fim correu para a noite.
Ao tentar sair, Amelzia foi surpreendida pelo Mentor Superior. — Então você ousa desafiar os planos de Onum? O destino do seu próprio povo?
— Os guarás não merecem essa provação — respondeu ela, firme, mas trêmula.
O sorriso do mentor foi cruel. Ele a agarrou pelo braço e, com feitiçaria psíquica, anulou sua resistência. Arrastou-a até a praça principal, onde todo o povo aguardava o ritual.
— Hoje não teremos apenas um sacrifício — anunciou, sua voz ecoando. — Teremos uma oferenda muito mais preciosa. Uma vampira de coração puro: Amelzia será entregue em lugar do guará.
O pânico percorreu a jovem. Ninguém protestou. Na era obscura, sacrifícios eram aceitos como parte da ordem, ainda que injustos. Mas para Amelzia, aquilo era traição. O guará era parte da terra — logo, parte dos próprios vampiros.
O Mentor ergueu a adaga. O metal brilhou sob a lua rubra. E, em um gesto sádico, atravessou-lhe o coração.
O corpo caiu. O silêncio reinou. Então, chamas se ergueram em círculo em torno da jovem caída. O fogo ardeu longo, intenso, até que uma nova forma emergiu dele: o esplendor do guará.
Não era mais apenas animal. Era sagrado. Era o recado dos deuses, o retorno da inocência sacrificada.
O povo se curvou diante da criatura flamejante, sem compreender ao certo o porquê. Mas a partir daquela noite, os guarás deixaram de ser vistos como aberrações. Na velha Mortvalia, tornaram-se criaturas sagradas. Pela coragem de Amelzia. Pelo sangue derramado. Pelo sacrifício que se transformou em sagrado.













