“Odeio ficar com palavras por dizer. As palavras foram feitas para serem ditas ou escritas.
Mas a questão que se impõem é:
Como sabemos se já foi tudo dito?
Passo a minha vida à procura das palavras certas.
Consigo visualizar perfeitamente aquilo que tenho de dizer, mas raramente o consigo.
Acabo sempre por pôr os pés pelas mãos, e sabem porquê?
Porque o coração será sempre o eterno inimigo da razão e eu sempre dei, sempre darei, primazia aos sentimentos.
O problema é que por vezes ouvir o coração implica, mais complicações.
Implica um discurso improvisado, incoerente, emotivo.
Implica dizer o que não se quer e querer o que não se consegue dizer.
Se eu estou frente a frente com a pessoa que amo hoje, vou querer dizer-lhe que a amo.
Ao fim ao cabo são só três letras, mais duas para especificar, portanto cinco letras.
Eu digo “foda-se” pelo menos trinta vezes por dia. São cento e oitenta letras, ditas assim, sem mais nem menos. Portanto, porque é que não digo vinte e nove vezes “foda-se” e uma vez “F”, guardando assim aquelas cinco letras para a pessoa que amo, é tão complicado para mim e para a maioria das pessoas? Porque “Amo-te”, é uma palavra forte, aliada a sentimento único e especial. É tudo o que temos e ainda um pouco mais. Representa a entrega total e tem de ser racionado, com intuito de manter o seu signficado e respectivo valor. No entanto, muitas vezes o sentimento está lá, mas as palavras ficam por dizer, tomamos as pessoas como garantidas e deixamos de lhes dar o devido valor. Não expressamos o que sentimentos e esquecemo-nos do impacto dos gestos e da importância das palavras. Guardamos o que podemos dizer hoje para amanhã.
Mas a questão que se impõem é:
“E se soubéssemos que não havia um amanhã?”
Será que ficaria algo por dizer?
Ainda me lembro como se hoje, o último dia que vi o meu avô materno. Já faz mais de dez anos. Ele ia para o Brazil em viagem com a minha avó e veio à minha casa despedir-se. Tinha feito o jantar para mim e para a minha mãe. Peixe com arroz de tomate, ele provou e disse que estava óptimo. O ar da minha memória, é o seu ar de orgulho. Não pela qualidade do prato mas pela minha capacidade de tomar conta dos meus. Na altura passou-me ao lado, como suponho que era suposto. Dei-lhe um abraço, um beijo e desejei-lhe boa viagem.
Se eu soubesse que aquele iria ser o ultimo dia que eu veria o meu avô, ter-lhe-ia dito que ele é o ser humano mais fantástico que eu conheci em toda a minha vida, que ele era exactamente o homem no qual eu me queria um dia tornar. Mas não disse, como poderia? Não sabia.
Nunca saberemos ao certo quando será a última vez que veremos alguém, a vida não nos dá esse privilégio e esse risco, esse desconhecimento do amanhã que haveria de nos impedir de guardarmos algumas palavras só para nós. Quando elas existem exactamente para serem ditas, para se cumprirem. Não há nada como valorizarmos e sermos valorizados, a capacidade de amor e de o demonstrar é que nos distingue quanto seres humanos. E como tal devíamos de nos deixar de tretas e maximizar o uso desta nossa maior qualidade, nem que seja pelo simples facto que a vida é simplesmente demasiado curta para ficarmos com algo por dizer.
E como sabemos se já foi tudo dito?
Quando as palavras, não passarem de palavras.“