Por que minha forma de te amar não é válida?
Depois de passar por uma série de namoros e relacionamentos menores – um atrás do outro – me encontro num momento meio inusitado pra mim. É a primeira vez que fico solteira em seis anos. Seis anos entrando e saindo em relacionamentos com todo o tipo de gente. Gente de humanas, gente de exatas, gente de esquerda, gente de direita, gente com gato, gente com cachorro, gente com gato e com cachorro, gente que bebia e fumava maconha, gente que nem sabia o que era uma catuaba... Um verdadeiro circo de paixões! Apesar de tudo isso, porém, toda essa gente tinha uma coisa em comum.
De alguma forma e por algum motivo que até então me era desconhecido, a forma de amar de todos eles era completamente estranha para mim. Sempre me era exigido que eu me comportasse de uma maneira que eu nunca consegui me comportar. Eu deveria sentir ciúmes, fazer questão, parar de falar com certas pessoas, não ir a certos lugares... E diante da minha recusa em ser assim, todas as reações eram unânimes: “É questão de compromisso”, “Sua falta de ciúmes indica que você não se importa comigo”, “Você tem medo de se envolver”, “Você é fria”.
Seis anos. Ouvindo isso de todas as pessoas com quem eu me envolvia. Houve momentos em que eu realmente pensei que o problema era meu. Que tinha alguma coisa errada comigo, que em algum momento dos meus 23 anos de idade alguma coisa deu errado e eu simplesmente não desenvolvi a capacidade de amar como todas as pessoas. Ou que minha mãe tinha me derrubado no chão quando eu era criança. Ou os dois.
Mas dentro de mim, existia uma certeza enorme de que eu não estava fazendo nada de errado. Era tão grande que eu chegava a afirmar isso pros meus ex-namorados durante discussões. Foram seis anos onde eu me vi repetindo diversas vezes “Eu não estou fazendo nada de errado!” como se eu estivesse sendo acusada do crime do século. Como se eu fosse o próprio Harry Potter se defendendo de ter usado magia pra salvar o Duda dos Dementadores no meio da rua. A questão é que assim como o Harry não estava fazendo nada de errado, eu também não estava.
A verdade é que a nossa sociedade nos condiciona a uma forma extremamente doentia de amor. Pode parecer chocante, mas pare e pense. Quantas músicas, filmes, livros e jogos por aí não representam o amor como algo que anda de mãos dadas com o sentimento de posse? Achamos extremamente romântico quando alguém diz “Eu te amo. Você pertence a mim e a mais ninguém.” Mas isso não faz sentido nenhum, porque efetivamente falando, cada pessoa pertence somente a si. No entanto, estamos tão acostumados a ver esse tipo de ideia tão propagado por aí, que tomamos isso como verdade absoluta. É um fato social, e todos aqueles que agirem fora desta norma, são punidos.
Isso explica a necessidade que a maioria das pessoas sente em receber amor através desta forma distorcida. As pessoas sentem uma necessidade imensa de serem o motivo de crises de ciúmes, de verem a pessoa amada se desesperar e perder o controle diante da possibilidade de perdê-las. Algumas chegam ao extremo de provocar deliberadamente situações que elas sabem que gerarão desconforto em seus parceiros, somente pra ter sua necessidade de amor doentio suprida. É como se para se sentirem amadas, estas pessoas precisassem do sacrifício emocional de seus parceiros. Validação amorosa através do ciúmes e da posse.
Este comportamento não faz o menor sentido. O simples fato de ter a pessoa ao seu lado, já deveria ser o bastante pra você saber que ela gosta de você. Se de alguma forma ela não te faz sentir seguro, então você deveria conversar com ela e não recorrer a todo tipo de possível motivo pra gerar atrito.
É tão bom perceber que a pessoa que está com você é uma pessoa livre e que, no exercício desta liberdade, escolheu justamente ficar com você entre um mundo de diversas pessoas que ela poderia escolher. Em vez de se prender a sentimentos negativos, em vez de cobrar satisfações a todo momento, pare e admire a pessoa que está ao seu lado. Apóie as decisões que ela tomar, elogie o trabalho dela, sinta-se feliz quando ela conquistar algo que desejava muito, sinta-se bem ao ver a felicidade de alguém que escolheu justamente você, entre todas as pessoas do mundo, para compartilhar aquele momento. Perceba quão bom é viver um amor livre de limitações, de problemas inventados, de brigas desnecessárias, de implicâncias bestas com pessoas que em nada ameaçam sua relação. Um amor verdadeiro e que simplesmente ama.
E pergunte-se, ao final de tudo isso, “Por que esta forma de amar não é válida?”