Honra por Beatriz Rodrigues
A estação estava vazia, ainda não estava no horário de pico. Os lances de escadas não estavam aglomerados de trabalhadores desesperados para retornarem para suas casas. Desciam juntos cada degrau, evitaram a escada rolante, talvez quisessem aproveitar os últimos minutos. A cada degrau que desciam, podiam sentir seus corações acelerando, as respirações ficando frenéticas e as nucas suarem.
As paredes eram cinza, as escadas eram cinzas, a poeira era cinza e o momento era cinza.
Cinza.
Quem via aqueles dois homens descendo as escadas, jamais imaginaria que estavam condenados.
Desviaram de uma poça de refrigerante e avistaram a funcionária responsável pela limpeza da estação se aproximando. Função cinza. Evitaram tocar nos corrimãos, com certeza se sujariam se tocassem, não que naquele momento aquilo importasse, mas desejam manter a dignidade pelo menos naquele momento. Dignidade cinza.
O mais jovem tremia, sentia um calafrio percorrer pela espinha até o último fio de cabelo castanho. Olhou para o lado, uma propaganda azul e amarela lhe chamou atenção e o fez parar no meio do percurso. Era a única cor presente naquele mundo subterrâneo, vazio e cinza.
"Faça sua pós-graduação na melhor universidade do país."
Engoliu o choro.
— Eu sinto muito. — O mais velho parou alguns degraus abaixo. Olhou nos olhos castanhos do rapaz acima dele e respirou fundo. — Eu realmente sinto muito.
Passou a mão esquerda pelos cabelos grisalhos, voltando a descer a escadaria cinza. Passos firmes e decididos, era reflexo de sua personalidade forte e dominante. Ajustou os óculos de grau, escondendo as mãos nos bolsos do casaco verde musgo que vestia. Era seu casaco favorito.
Apesar dos cabelos serem grisalhos, o homem tinha apenas quarenta anos, se vestia como um jovem e ouvia música de jovens. Talvez não aceitasse que o tempo estivesse passando mais rápido do que gostaria.
— A gente precisa mesmo fazer isso? — Perguntou o mais novo, assim que conseguiu alcançar seu colega.
— Você sabe que sim.
Faltavam apenas mais cinco degraus para finalmente chegarem na plataforma e aguardarem o próximo metrô. Se dirigiram até a ponta da plataforma, onde lá pararia o último vagão. Um relógio digital declarava um minuto de espera para o próximo metrô chegar. O mais novo tentou não pensar em nada, mas sua cabeça estava prestes a explodir como uma bomba nuclear. Já o mais velho se manteve calmo.
Ouviram então o barulho do metrô se aproximando. O som metálico era ameaçador, infernal e agudo. Aumentava a cada segundo. O rapaz olhou para o colega que retribuiu o contato com um olhar sereno. Seus olhos pretos brilhavam e um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Com o trem cada vez mais próximo, o barulho ficava cada vez mais alto e o desespero cada vez maior. Firmou o corpo no chão e fechou os olhos castanhos, em seguida sentiu gotas quentes se chocaram em sua face, junto de um barulho bizarro que bateu diretamente em seu tímpano. Abriu os olhos, colocou as mãos sobre a boca.
— Não! — Gritou histericamente. — Não! Não! — Agarrou seus cabelos e deixou-se cair de joelhos na poça de sangue.
Olhou para o que sobrou do amigo, um par de pernas presas entre o trem e a plataforma. O tecido do jeans preto completamente ensanguentado, os vagões com borrões vermelhos manchando o metal e as janelas. As pernas continuavam rodando como hélices de helicóptero até o metrô parar. Os passageiros gritavam horrorizados com a cena.
Não se conteve, vomitou assim que percebeu que o sangue de seu amigo escorria pelo seu rosto. Olhou para o lado e vomitou de novo. Dois segundos atrás seu amigo estava vivo e agora estava a dois centímetros de distância do que sobrou do colega, um par de pernas destruídas e uma poça de sangue.
As pessoas corriam, algumas não sabiam o que acontecia, apenas temiam o pior.
Levantou-se para se aproximar do cadáver, mas escorregou no próprio vômito sujando sua bermuda e seu joelho. Apoiou a mão no chão e sentiu tocar em algo mole, levantou a palma e notou que estava se apoiando nos poucos miolos que estavam espalhados pelo chão.
Chão cinza… com vermelho.
Limpou as mãos no moletom azul royal de zíper e engatinhou até o que sobrou do mais velho. O jeans estava retorcido, completamente sujo de sangue e um pouco queimado. As botas estavam raladas. Tirou o moletom e cobriu seu amigo.
— A área está sendo evacuada, o senhor precisa sair da plataforma. — Disse o funcionário do metrô, um senhor que trajava o típico uniforme com o colete verde-limão. — Eu sinto muito, mas você precisa sair da plataforma.
...
— Então vocês estavam voltando do trabalho mais cedo, pois havia terminado tudo, certo? — Perguntou o delegado.
Era o dia seguinte do suicídio. Foi encaminhado para a delegacia para prestar depoimento. A família do homem não entendia o motivo do suicídio e a única testemunha presente era o jovem.
— Sim…
A sala do delegado era semelhante a estação, cinza. Chão cinza, paredes cinzas, teto cinza.
— Preciso que você me conte de novo como foi o dia desde o primeiro momento que o viu.
— Ele chegou no horário de sempre, por volta das oito horas da manhã, deu bom dia para todos — caminhou pela sala e olhou o mais jovem nos olhos, era aquele dia — Sentou na sua mesa, trabalhou como sempre, nada de anormal. Por volta do meio dia ele foi almoçar, nós não almoçamos juntos, então não sei nada sobre este período. — durante o almoço, sacou o celular e digitou em seu e-mail pessoal: "é hoje, como o combinado. Sinto muito, mas é necessário que façamos isso." — Quando todos voltamos pra sala, ele parecia normal, continuava fazer seu último relatório. O setor inteiro estava terminando os serviços para poder ficar de recesso do Natal até o Ano Novo. Logo foi minha vez de finalizar tudo, então ele me chamou pra irmos juntos, já que não tinha ido de moto.
— E durante o trajeto até o metrô? — Questionou o senhor.
— Durante o trajeto... — o silêncio melancólico acompanhava a dupla até a estação de metrô, nenhuma palavra dita, nenhuma troca de olhares. — Ele me perguntou sobre as festas de final de ano, comentou que viajaria para a cidade dos sogros para os filhos matarem a saudade dos avós. Disse que a esposa estava muito empolgada com isso.
— Ele parecia empolgado?
— Parecia, as crianças o deixavam animado. — O único comentário dito saiu da garganta do mais velho: "eu sei que é covardia fazermos isso perto do Natal."
Esse depoimento foi repetido por pelo menos três vezes, porém o delegado o liberou para descansar e passar pelo processo de luto. Atravessou o corredor estreito e cinza, parando para beber água de um filtro de galão. Bebeu dois copos. Terminou o trajeto até a porta e pegou um táxi até sua casa.
Sentou no banco atrás do motorista e encarou a vista. A cidade cinza corria uma maratona contra o carro, os edifícios se distorciam como monstros e as únicas cores vistas eram as poucas árvores nas calçadas, que na velocidade que o carro se movimentava, se tornavam apenas borrões verdes que flutuavam na paisagem.
O céu estava nublado, cinza. As nuvens, cinzas, carregadas. Aparentava estar anoitecendo, mas o relógio na rua marcava duas horas da tarde. Era verão, mas pessoas na rua usavam casacos e carregavam guarda-chuva. Vultos, em meio aos monstros e aos borrões verdes, as pessoas eram pinceladas em meio ao quadro que o jovem observava com angústia.
O carro entrou em uma rua sem saída com casas e sobrados em cor creme acinzentado, estacionou em frente a penúltima casa, o imóvel era coberto por um grande portão cinza. Um gato cinza descansava na calçada, era o gato do vizinho ao lado. Uma casa menor, também coberta por um portão cinza.
Assim que a porta foi aberta, o gato se espreguiçou e deixou sua barriga exposta para receber carinho, porém foi ignorado. O jovem apenas desceu do carro e observou o táxi dar ré, olhou para as casas de arquitetura infantil, não poderia abandonar o lugar de onde veio, não tinha essa coragem.
Entrou na casa e viu sua avó assistindo televisão. Não queria conversa, subiu as escadas de madeira e entrou no quarto. Ligou o computador e apagou o e-mail daquele dia. Sua avó apareceu na porta observando o neto aflito e perguntou:
— Não é estranho como os dias ficaram cinza de repente? Talvez isso tenha sido um sinal de que a hora dele tinha chegado. Não podemos ir contra os planos de Deus. — Notou que não iria obter respostas, então apenas beijou o topo da cabeça do rapaz e partiu para outro cômodo da grande casa creme acinzentada.
Ficou no quarto por dois dias. Dois dias sem conversar, sem tomar banho, sem comer uma refeição decente, apenas deitado coberto com cobertores cinzas, encarando o teto cinza. Pegou no sono sem saber que horas eram, não fazia diferença, os dias pareciam eternos. Se manteve preso na sua rotina cinza, no luto cinza.
— Por que você não pulou, seu covarde? — Gritou ferozmente.
— Cara, me desculpa, eu não consigo! — Levantou da cama em um pulo.
— Olha só, eu larguei tudo, como prometemos! Eu mantive minha honra. E você? Você foi um covarde! — Ele estava ali parado, vestia seu casaco favorito e usava suas botas pretas. Estava intacto. — Olha só como eu estou!
Automaticamente sua pele do rosto começou a descolar e cair em pedaços, seus olhos estouraram e os braços escorregaram da manga do casaco, então o tronco explodiu como um balão d'água e jorrou sangue pelo cômodo, a cabeça bateu no teto e caiu no chão como uma bola de praia. As pernas ficaram ali, firmes e cinzas.
...
Acordou suado, estava claro do outro lado da janela. Levantou preocupado, tonto, ansioso. Pode ouvir uma voz vinda do térreo, não era de seus familiares, porém soava conhecida.
— Me desculpe incomodar logo cedo, sei que amanhã é véspera de Natal, mas precisamos conversar com seu neto. — O delegado estava ali, um homem alto que cobria a porta toda, vestia um casaco cinza.
— Eu vou acordá-lo. Entre, aguarde um pouco.
Atordoado com o que ouviu, entrou em pânico, sua honra estava em risco. Era um traidor covarde e não poderia viver com isso. Agarrou os cabelos e olhou para aquela imensidão cinza que vivia, sentia o vômito subir pelo esôfago, engoliu. Olhou a janela, a salvação da sua honra.
Abriu a janela, espiando o minúsculo jardim e o muro com lanças cinzas. Sentou na janela, não conseguiria ficar de pé. Era arriscado, poderia não dar certo e viveria com seus erros para sempre.
Fechou os olhos, soltou o corpo e deixou-o cair, foi tudo rápido.
Seu corpo pesado estava preso na lança pelo pescoço, mas o peso era muito maior do que o corte poderia aguentar, então o corpo se soltou e a sua cabeça ficou ali, morta, presa, no muro como um enfeite de Halloween. O sangue sujava o muro cinza e se misturava com o vermelho das rosas espinhosas que abraçavam o morto. Morto. Dividido em dois pedaços, espetado como um churrasco, largado como carne podre. Carne podre, cinza arroxeada.
Dois homens, duas famílias, duas honras, duas mortes.















