Nota de conteúdo sensível: relacionamento abusivo/tóxico e breves menções a problemas com álcool na adolescência e transtorno mental (em tratamento ☝️)
Meu Deus, como eu odiava ter dezessete anos e achar que o mundo todo ia acabar porque um garoto irresponsável e viciado tinha terminado comigo pela milésima vez no mês, só porque ele tinha ficado muito chapado e feito alguma merda no final de semana, que podia, e ele sabia que iria, me deixar decepcionada.
E meu Deus, como eu odiava não saber o caminho de volta para o consultório de Mr. Torres pra retomar nossas sessões de terapia, mas sabia direitinho onde meus pais guardavam as garrafas de soju importadas pra dar de presente pros amigos depois de um jantar na nossa casa, quando não estavam preocupados comigo tentando afogar todos os meus problemas secando todas elas, uma atrás da outra, até chorar inconsolável debaixo da minha cama ou dentro do meu closet.
Eu achava que o álcool ia ser um anestésico, evitando que eu sentisse tudo ao mesmo tempo, tipo medo do meu namorado medíocre nunca mais me ligar e eu ficar sozinha pra sempre, medo dos meus pais ficarem tão frustrados comigo que isso ia machucar eles pra sempre, medo de terminar morta em algum buraco por aí e ninguém nunca mais me achar. Mas aí minha cabeça começava a queimar, e era como se eu tivesse jogado mais gasolina em todas aquelas emoções e sentisse que a fumaça delas ia me intoxicar até morrer.
E eu não preciso nem dizer que, quando ele ligava de madrugada pra avisar que ainda não tinha morrido e que tinha mudado de ideia sobre dar um tempo, e que segunda-feira a gente podia voltar a andar de mãos dadas e fingir que ele provavelmente não tinha comido outra pessoa enquanto sei lá, cheirava cocaína no decote de alguém, eu aceitava sem pensar duas vezes.
Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira e quinta-feira, até o final de semana chegar de novo e eu lembrar que fingia normalidade e que eu não vivia sempre com raiva ou ansiosa ou me sentindo vazia e insuficiente e desesperada por qualquer migalha de equilíbrio de uma pessoa que era tudo, menos estável.
Porque ele me amava. Bom, ele era o único no mundo capaz de amar meu caos e minha loucura do jeitinho que tinha que ser.
Mas o que me deixa chocada de verdade, pelo menos agora, não é nem a parte que aquele infeliz tinha saído mesmo das drogas e nunca foi preso por agredir o próprio irmão, mas sim a parte de que quando vieram me parar em uma cafeteria pra falar sobre, eu já nem fazia mais ideia de quem ele era, voltando a me esquecer dele e de qualquer resquício de sua existência no segundo que MinJun abre a porta do carro pra mim e o agradeço com um beijo no rosto.
O mundo volta pra mesma sintonia que tinha quando meu namorado me avisou que nós íamos dar uma volta no meio da semana pra desanuviar sim, quer os dois queiram ou não pelo volume de coisas pra fazer, porque equilíbrio era tudo.
— Obrigada por lembrar do matcha gelado, a medicação nova não funciona muito bem com café e eu não quero trocar de novo porque esse remédio está operando milagres. — O agradeço com outro beijo em seu rosto quando ele entra no banco de trás também, o atualizando do meu quadro de remédios como quem fala sobre uma fofoca no grupo da família, porque ele não se importa. Na verdade, ele se importa, e muito, mas só com o que é realmente relevante, como minha saúde mental. — Eu acho que nunca dormi tão bem e acordei tão disposta na minha vida. Eu consigo pensar em tudo, eu consigo fazer tudo.
É meio doido pensar que agora, somos namorada e namorado, falando sobre os casos jurídicos que ele anda movendo, falando dos meus ensaios e das minhas aulas no mestrado em negócios, então da minha família e da família dele. Eu gosto como naquele mesmo carro, um tempo atrás, choramos tanto nos declarando um pro outro que eu consegui ficar feia enquanto fazia isso, porque achava que ele ia desistir de mim quando soubesse que minha relação com o borderline não tinha cura e que eu tinha medo pra caralho de me perder antes de conseguir me achar de novo, e que agora, muito mais do que ter seu sorriso bonito e toda sua atenção em cima de mim, nós usamos anéis de compromisso e ele me apoia.
Fosse comprando um chá gelado com gosto de mato só por causa do meu remédio, fosse me deixando amá-lo tanto quanto ele me amava.
— E eu comprei uma coisa pra você. — E não era outro relógio, nem outra caneta ou gravata cara pra ele exibir naquele escritório com outros advogados, dessa vez, e dava pra ver na logo da sacola da Target, mas eu queria que ele descobrisse sozinho. — Talvez não seja tão legal quanto não precisar repetir nem um terno durante o ano todo, mas achei fofo e lembrei de algo que você me disse uma vez…
Em um jantar? Talvez na sala de espera dos nossos respectivos terapeutas? Eu finjo que não sei mais, ansiosa pra ver a reação dele pra esse carrinho da hot wheels que parecia muito algo que alguém ia gostar de ter aos dez anos, e talvez beirando aos trinta também.
— Sinto muito por não ter conseguido ficar com um desses quando era um direito seu, e eu sei que não é muito e que não vai curar as coisas pelas quais você passou, mas eu quero que saiba que você merece celebrar sua vida mesmo agora. — Confesso com todo meu coração, me apoiando no banco pra conseguir abraçar seus ombros. — Você merece coisas boas, eu amo você e eu sou grata por ser meu namorado.
Meu Deus, como eu amava estar sóbria e medicada e namorar um homem que não tinha vergonha de dizer obrigado ou chorar na minha frente.















