The heartbreak hotel: Malia Nummes & Tristan White
É tão fácil amar ele que ela não consegue ver uma vida onde os dois não estão de mãos dadas o tempo todo.
A Malia dos primeiros anos de escola, definitivamente, não concordaria com essa afirmação, mas a de agora tem certeza que é por isso que as coisas se encaixam tão bem: é sobre todos os anos que ela passou competindo com Tristan sobre quem era o melhor da turma, quem fazia as tarefas mais rápido e quem se dedicava mais na oratória de apresentação de trabalhos.
Era sobre todas as picuinhas, brigas sem sentido e horas de discussão pra tentar descobrir quem merecia mais a melhor nota da turma, até ela descobrir que gostava do jeito que ele estimulava a veia acadêmica dela, mesmo que eles fossem diferentes em todo o resto.
Porque ela não se imaginava perdendo uma noite de sábado livre para ficar escondida entre pilhas de livros e evitando todos os outros alunos, mas sabia que era exatamente o que ele faria, quando foi o procurar no dormitório pra eles saírem com os amigos e ele não estava mais lá. Bom, os amigos dela, porque aos quinze anos, ele também não era o tipo de adolescente que conhecia muitas pessoas e fazia questão de falar com todas elas — na verdade, ela desconfiava que o único interesse genuíno de comunicação dele, fosse ela, e só porque eles eram namorados.
E às vezes ela tinha certeza.
— Segunda vamos entrar de recesso, você não tem provas pra estudar. — Nummes argumenta, a imagem de Tristan sentado é sozinho chegando aos seus olhos com vários pontos de brilho, por causa do glitter da maquiagem que ela passou horas fazendo, só pra sair com Mariana por aí. — Então…
— Então eu vou me preparar pras provas que eu acho que vamos ter, quando o recesso acabar. — E White argumenta de volta, em seu tom de espertinho insolente, mas só até colocar os olhos em Malia e perceber o quanto ela está bonita. Bonita demais pra desperdiçar aquela produção ficando ali com ele, quando ela se move e puxa uma cadeira, pegando ele totalmente desprevenido. — Malia… Querida, você não precisa fazer isso, eu vou sobreviver sem ter sido convidado pra outra festa do ensino médio, sabia? Você devia ir… Você tem que ir e se divertir.
— Mas eu também me divirto lendo, e estudando, principalmente quando é com você. — Ela responde em um tom doce ao se sentar, puxando as anotações dele pra descobrir em que tópico, agora, os dois estão. — Pra uma prova de verdade ou só uma que você acha que vai acontecer.
No terceiro ano, quando um grupinho de valentões ameaçou quebrar todos os dentes dele por se fazer de sabe tudo, ela prometeu que não ia deixá-lo sozinho independente das diferenças deles. E no ano passado, quando eles oficializaram que estavam juntos e que ela esperava que fosse pra sempre, ela prometeu pra si mesma que não ia deixar seu namorado introvertido se fechar pro mundo sozinho.
É tão fácil admirar ela que ele não consegue se lembrar de como isso começou, e nem descobrir se aquele sentimento beira a inveja.
A primeira memória que Tristan tem de Malia, vem direto do primeiro ano, quando ela era uma coisinha de nada, cheia de cabelo e um sorriso tão bonito que ele se sentiu intimidado por meses antes de finalmente conseguir dizer um oi pra ela. Ela era confiante, carismática e um imã de pessoas, não daquele tipo que fala tanto que faz sua cabeça doer, mas do tipo que cativa tanto as pessoas em volta, que é difícil não gostar dela logo de cara.
Ele se lembra de ter passado anos a vendo como uma ameaça, como se seus sorrisos com covinhas e habilidades sociais a deixassem com vantagem em todas as aulas, como se ela, em toda sua doçura e gentileza, fosse sempre o centro das atenções a ponto de deixar ele sufocado durante as aulas em que precisava sentar perto dela. Como se ela fosse um perigo, e ele vivesse com medo de ser seduzido também, até perceber que era o destino dele a orbitar.
Porque ela era bonita, engraçada e inteligente. Porque ela sabia do que as pessoas precisavam antes mesmo delas precisarem dizer. E porque ela era tudo o que ele não era, e pra ele, a maior parte do tempo, fazia sentido que eles estivessem juntos e ela o completasse como um quebra-cabeça. Como se amor fosse ser completado por alguém, e não somado a vida de alguém.
Ele sente que ela trás tudo o que falta nele, e que talvez precise dela pra sempre pra não se sentir vazio.
— E se… A gente se casar… Quando a escola acabar?
Se não fosse ele pedindo, tem certeza que mais da metade da escola faria isso em seu lugar no menor sinal de distração por parte dele, depois que o último verão a deixou ainda mais bonita e popular e favorita entre umas tantas listas de crush. Mas ainda assim, ele não esperava a reação imediata dela, no jeito que ela se vira em seu abraço tão rápido que quase cai da cama, não levando um segundo pra encontrar os olhos dele, tentando descobrir se ele está mentindo ou brincando sobre aquilo.
Ele sabe que não é a resposta pra pergunta dela, não a que ela fez de verdade, mas também sabe que aquilo é suficiente pra ela o escalar e o engolir em um beijo tão bom que o deixa duro na mesma hora. E ele não quer que outra pessoa o beije daquele jeito, e nem que outros garotos fiquem duros por causa dela, porque Tristan sabe que sem Malia, vai terminar sozinho, mas que no corredor lá fora, ela tem tantas opções que mal consegue colocar em uma fórmula matemática pra saber o número exato.
Ele não sente só inveja do que ela é e do que ela faz dele quando está por perto. Ele sente ciúmes do que ela é pra outras pessoas, e do quanto essas mesmas pessoas a querem também. Ele precisa que aquele sempre seja dele. Dos dois, mas principalmente dele.
Mas se é tão fácil pra ela amar ele, por que é tão difícil pra ele amar o que ela é?
— Grafismo não é bobagem, serve pra identificar uma tribo da outra, é símbolo de pertencimento. Minha avó tem, minha mãe tinha, eu vou ter as mesmas marcas das duas e acabou. — E ela odeia que aquilo tenha virado uma discussão e que esteja usando seu tom de namorada indignada agora, mas não entende por que uma linha fina e escura no meio de seu rosto incomoda tanto Tristan, a ponto dele ter escolhido fazer daquilo uma DR. — Eu não pedi sua permissão, só disse quando vou fazer e que quero que esteja lá no ritual, quando acontecer e antes da gente se casar, porque já considero você família.
— Mas eu não sei se quero estar lá quando mutilarem você…
— Então por que é tão importante?
Porque faz parte do que ela é, sendo a primeira resposta imediata e na ponta de sua língua, mas o tom de desdém dele a faz se encolher toda enquanto eles estão no corredor. Ela se sente tão envergonhada, que espera que nem um outro aluno esteja ouvindo a conversa dos dois, porque ela odiaria que alguém além dela estivesse ouvindo aquela merda toda.
Eles se conhecem uma vida inteira, ele sempre soube de onde ela vinha e como aquilo era importante pra ela e todos os outros alunos indígenas que conviviam ali com os dois, em menor número por causa das atrocidades cometidas no passado por pessoas que também não achavam que aquela cultura nativa era sem valor. Eles se conheciam mesmo uma vida inteira, então de onde vinha aquilo tudo?
— Você está mesmo bravo por causa de uma tatuagem ou por que não quer que eu siga o que eu acredito… Quando eu me tornar parte da sua família?
Era uma dessas perguntas de um milhão de dólares ou uma dessas que você precisa fazer antes de decidir passar sua vida inteira com outra pessoa, mas quando ele não a responde imediatamente, Malia não sabe o que fazer. Eles se conhecem uma vida inteira, estão no último ano letivo e com data marcada pra se casarem, e ela nunca tinha ouvido Tristan dizer que não concordava com ela em algo.
E antes fosse sobre um livro, uma prova ou um assunto aleatório qualquer, do que ela se sentia segura e acolhida vivendo. Existindo. Pertencendo. Ele não concordava e era tarde demais pra argumentar o porquê.
Tarde demais pra tentar entender, também, porque ele não vê sentido nas coisas que ela fala e porquê ela se sente daquele jeito, e não está disposto a tentar entender.
— Não aconteceu nada com você Mr. Huh lá fora, pelo menos nada que não aconteça o tempo todo… Todos os dias, e você sabe. — Cada ano, empurravam uma surpresa ameaçadora diferente no colo de todos eles, e não ia ser diferente no último que eles estivessem ali. Então ele jurava que só estava sendo racional e firme, pra proteger ela também. — Eu sei o que você acha que viu…
— E é por isso que não devia ficar tão pilhada com isso, porque ainda assim, você não faz ideia do que é.
Ele viu como ela ficou machucada, ouviu toda a confusão como todos os outros alunos, também achava que o cachorro dela estava esquisito pra caralho e odiava toda aquele sentimento de perigo ao redor de todos eles, mas não conseguia ver um propósito na tensão dela.
E não estava disposto a tentar entender também.
— Você sabe que isso não é uma ameaça de verdade… — Tristan sabe que aquele terreno é muito delicado e que está pisando em gelo fino, quando tenta colocar a mão no ombro de Nummes. — São histórias que contaram pra você, e nem por isso quer dizer que seja real. Eu posso te dar um milhão de motivos pelos quais tudo isso aconteceu, e todos eles são mais confiáveis do que folclore. Se fosse importante, não iam ter tirado tudo isso da grade da escola.
E ele sabe que não devia ter falado aquilo em voz alta, e muito menos pra ela, quando a sente se retrair e pular um assento na mesa de estudos, ficando tão longe dele e tão rápido, que ele ainda tem a audácia de se sentir ofendido pelo comportamento dela. Porque não é como se fosse a primeira vez que ela ouvia aquilo de alguém, e não é como se a escola toda já não estivesse tratando todas as falas dela como histeria pura.
No fundo, ele pensa que só quer proteger ela, mesmo que seja da pior maneira possível, e que aquilo a afaste tanto, que ele nunca mais vai conseguir alcançá-la.
— Eu precisava te dizer isso. — Ele suspira, sem nem um peso no peito. — Você sabe que eu precisava.
Machucando ela e quebrando seu coração em um milhão de pedaços ou não.