Prompt: Alexandra Moon, Los Angeles, 2046 (?)
Acha que eles estão com ciúmes de mim?
A voz pequena dela soou pelo quarto cheio de brinquedos, as portas fechadas abafando toda a confusão do lado de fora nos corredores do hospital e a única preocupação da Carol até agora era encaixar todas as presilhas em volta no cabelo de uma Barbie e me deixar fazer o mesmo com o cabelo enrolado dela, mas apesar de ela ser uma criança, ela não era bem desatenta, muito menos boba. Nenhuma delas era, foi o que eu aprendi com o tempo. Era mais fácil mentir pros pais, porque elas sempre iam ter aquele olhar acusatório e o dedo minúsculo na nossa cara e pedindo a verdade.
Acho que só estão impacientes e um pouco estressados… Todo mundo teve que fazer algum exame e a professora de vocês não anda facilitando nas tarefas de casa e soube que a enfermeira chefe desliga o wi-fi as dez! Se eu fosse eles, estaria desesperada, mas jamais com ciúmes do que vai acontecer com você primeiro, Carol. - Tentei explicar alisando o cabelo dela, antes de prender uma borboleta roxa e uma amarela do lado em uma trança perfeitamente alinhada que tinha me ocupado a fazer, antes de prosseguir. - Não é comum… O que vai acontecer. Os pais da Violet foram muito fortes e corajosos em tomar uma decisão dessas, mas eles sabem que é o melhor pra muitas pessoas, inclusive vocês;
Você pode me contar a história da Violet outra vez? - Ela pediu em um tom amuado, passando pra próxima boneca, antes de cutucar minha perna numa breve cobrança, a qual cedi.
A Violet tem a sua idade, mas está dormindo faz muito tempo… Tanto tempo que os médicos dela acham que ela encontrou um lugar tranquilo pra ficar e não querer mais voltar. Os pais dela decidiram que é melhor deixar ela nesse lugar e seguir em frente com o bebê novo, vai diminuir a dor dela e a deles e, um dia, nos perguntaram se tinha alguém disposto a receber um pedaço especial dela, na verdade, vários deles, mas descobrimos que você podia ficar com um e eles ficaram muito felizes em te dar de presente. Vocês tem a mesma idade e também gostam de roxo, achamos que tudo se encaixava. - Disse com um breve sorriso, terminando de pentear o cabelo dela, pensando que na maior parte dos testes de compatibilidade, ela estava dormindo e dificilmente se lembraria do que aconteceu algum dia até alguém contar pra ela, então aquela versão, pra uma garotinha de oito anos, era muito melhor do que dizer que os pais de outra estavam prestes a desligar os aparelhos dela e deixá-la morrer de vez e doar o que podia ser doado pra quem ia ficar.
Gostaria de conhecer a Violet. Tenho certeza que seríamos melhores amigas! Posso chamar ela pra tomar sorvete no terraço? Como no aniversário do TY! Com os balões e os presentes pra todo mundo… - A observei se virar um pouco rápido de mais, um sorriso enorme nos lábios dela e as mãozinhas juntas de baixo do queixo como se ela estivesse me implorando, mas ela logo fez uma careta, levando a mão até o peito e fazendo um beicinho.
Eu acho que não, mas pode conhecer os pais dela, depois que você receber o coração dela. Eles querem muito saber quem é você e te falar sobre ela, ainda pode ter sorvete e balões, tenho certeza de que eles também vão gostar.
Ela acha que as outras crianças estão com ciúmes dela.
Você é sutil como uma porta.
Observei o corredor meio vazio, a enfermeira chefe do meu lado terminando as últimas anotações no caderno da Carol, antes de fazer uma careta e se voltar a mim com a cara de poucos amigos de sempre.
Isso foi o mais perto que recebi de um elogio a minha vida inteira e me orgulho disso. - Ela proferiu apontando um dedo pra mim, o que me fez levantar uma sobrancelha incrédula, antes de sorrir pra ela. - E é por isso que vou fazer o mesmo com você. A garota, já se preparou pra possibilidade de ela rejeitar o órgão? - Ela perguntou se afastando da porta do quarto da Carol e me levando junto, a família dela no final do corredor; a mãe dela, nos quatro anos que a filha mais velha entrou no hospital pra não sair até ter um transplante, estava grávida de gêmeos e tinha mais um terceiro filho agora, então sempre que eles vinham, era uma confusão de gritaria e crianças correndo pra lá e pra cá e por um segundo ou dois eu me perguntava se eles ainda sentiam falta dela em casa.
É claro que sim, nós sempre estamos, é por isso que colocam umas cinquenta pessoas dentro da mesma sala. - Respondi me fazendo de sonsa, cruzando os braços e desviando meus olhos dela, antes de me voltar a cara feia dela. Talvez não tenha funcionado daquela vez.
E está pronta caso ela rejeite voltar? Ela tem oito anos, nem mesmo tem idade pra tomar metade dos remédios que o tratamento obriga ela e isso já faz quatro anos. Ela mal aguenta falar uma dúzia de palavras sem precisar de uma máscara de oxigênio. - E eu sei que ela tinha mais uma lista de coisas pra falar sobre aquilo, mas a voz da recepcionista do prédio ecoando pelos alto falantes, declarando o meu nome em alto e bom som, interrompeu a nossa conversa e eu não poderia me sentir mais aliviada.
Você ainda é sutil como uma porta, jamais se esqueça disso.
O que você faz aqui? Achei que tinha te mandado pra casa faz uns dois meses.
Minha mãe teve um sonho aleatório e bizarro que deixou ela com um sentimento ruim, então ela me jogou dentro do carro e agora estou aqui… Por umas duas semanas ou mais, até ela sentir que é seguro voltar pra casa ou sei lá. Eu geralmente não entendo metade das coisas que ela fala.
Me deparei com um TY tirando coisas de uma mochila e organizando elas no quarto que costumava ser o dele, ainda tinha os adesivos de football e mais um monte de coisas que ele gostava e que deixavam ele pendurar ou colar ali e a gente só mantinha, já que Jihyo Wang era uma maluca e sempre encontra um motivo pra prender ele ali sem a menor necessidade.
Sua mãe é uma surtada. É por isso que eu não suporto ela desde o ensino médio. - Proferi rolando os olhos e o observando se sentar na cama e começar a rir, antes de parar tudo e fazer uma tour pelo próprio quarto.
Soube que a Carol vai ganhar um coração novo. Como ela está? - Ele perguntou um pouco distraído, olhando pela janela meio aberto e fechada atrás dele.- Me lembro do dia que ela chegou… Na verdade, acho que me lembro do dia que todos eles chegaram.
Você foi quase o primeiro da turma, não é? E ela está bem… Os pais da outra garota vão assinar os papéis em breve e vir ver ela e todas essas coisas que normalmente acontecem.- Disse abanando a mão na frente do rosto como se não fosse nada, mas devia ser no mínimo difícil pra ele, já que, desde que ele tinha chegado, tinha visto um monte de crianças irem embora e chegarem com os mesmos problemas e ele era o único que ficava.
Ela é legal, sempre deixo ela prender chiquinhas no meu cabelo nos intervalos de aula… Pelo menos deixava. - Ele tinha um breve sorriso no rosto, não do tipo triste, mas talvez conformado, como ele era meio que obrigado a ficar, igual todas as outras vezes que ele tinha passado por aquilo. - Como estão o Beau e o cachorrinho? Eu queria tanto que eles me visitassem! Não ter ninguém pra falar de football é horrível e eu queria fingir por uns trinta minutos que tenho um mascote. Prometo que sou menos catarrento e desnecessário do que a maior parte dos adolescentes de quatorze anos.
Eles vão bem e, sabe como é, não gostamos muito da sua mãe, então dificulta a parte de vir aqui te ver e começar a bater boca com ela antes mesmo de entrar no hospital, mas eu prometo, que vou fazer esse encontro acontecer no SuperBall, nem que a gente precise trancar ela em algum banheiro e sequestrar você. - Disse no meio de um sorriso, porque não era bem uma mentira e eu só estava evitando o caos, antes de me aproximar do TY e anotar algumas coisas na ficha dele. - Algum apelo pra quando eu encontrar com ela no corredor?
Pode, por favor, dizer a ela que eu já deveria ter morrido a muito tempo e que, se acontecer agora, nem vai fazer diferença se estou aqui ou em casa? O wi-fi daqui é péssimo e não dá nem pra ligar o Skype com a Anne! E você nem pode mais contrabandear doces e BigMac. É uma prisão. - O observei levantar as mãos pro ar dramaticamente, antes de se jogar na cama e tombar a cabeça, esperei mais alguns segundos até que a cena terminasse e ele levantasse a cabeça e pedisse… - Por favor?
Qualquer coisa pra você não enlouquecer com o wi-fi desligado até as dez.
Qual é a porra do seu problema? Disse pro seu filho de quatorze anos, que por acaso tem uma bomba relógio no peito, que teve um sonho ruim e que ele precisava voltar pra merda do hospital? Jihyo Montgomery, eu vou arrancar todo o seu cabelo se não parar de bancar a maluca e deixar meu paciente traumatizado! - Eu mal tinha localizado ela no corredor e já estava gritando/sussurrando com os punhos cerrados e meus olhos treinados nela e mais um segundo e eu provavelmente bateria nela.
A Anne entrou em estágio terminal ontem… Eu não sabia o que fazer. Não quero que ele esteja lá quando os pais dela ligarem. Ela ainda nem sabe. - A observei começar a formar uma cara de choro no segundo em que calou a boca e, muito relutantemente, me aproximei dela e a abracei. Eu não odiava bem a Ji, talvez por ela sempre ter sido uma vadia ridícula na escola, mas depois que o TY chegou e ela e o marido sempre pareciam desesperados e confusos sobre o tratamento e a vida de ter um filho doente e com uma data de validade na testa, eu só me sentia no dever de bancar a irmã mais velha dela, mesmo que ela não precisasse de uma e sim de alguém pra gritar na cara dela.
Podia ter pegado mais leve dessa vez, eu tenho certeza que ele vai ficar marcando as horas no relógio e tweetar a cada uma delas que ainda não morreu de verdade, como ele fez da última vez. - Comentei um pouco sem graça, esperando amenizar a situação e parecer que eu não estava afetada com aquela notícia no geral, mas a culpa era inevitável e eu também não queria que o TY estivesse lá quando a Anne não estivesse mais aqui.
Senhora Bryce… Eu… Eu sinto muito.
Queria ter um discurso melhor pra uma situação daquelas, mesmo que eu nunca tivesse realmente passado por aquilo antes; as crianças costumavam aceitar o coração novo e todas as mudanças, então elas voltavam pros quartos e se recuperavam e depois voltavam pra casa, eu era entupida de e-mails com fotos delas fazendo coisas simples como andar de bicicleta e ir pra escola com “fazendo tudo de novo” como legenda e eles sempre voltavam pra agradecer. Eu estava acostumada a sempre acertar quando o assunto era salvar a vida de alguém, mas eu não tinha conseguido salvar a Carol e não receberia aqueles e-mails e nunca mais veria ela sorrir.
Acenei a cabeça negativamente, considerando que ela nem tinha sentido qualquer coisa, quanto mais dor, mas ainda não conseguia encarar a mãe dela porque era tão difícil; não sei se pra mim ou pra ela, mas a parte que ela tinha atravessado o país pra confiar a vida da filha na garota jovem prodígio de um hospital respeitado me matava. Eu não era tão boa quanto eu e ela pensávamos e tinha falhado dessa vez, e justo com a filha dela. Eram tantas coisas que começavam a cair sobre as minhas costas e boas o suficiente pra fazerem eu me sentir péssima.
Foi rápido, nós tentamos reverter o que tinha acontecido, mas era tarde demais e ela não conseguiria sobreviver por muito tempo mesmo se tivesse funcionado da primeira ou da segunda vez. Eu sinto muito, senhora Bryce. Eu sinto muito mesmo. - Disse antes de me voltar a ela, agora olhando de verdade em seus olhos e engolindo o meu choro, porque não era bem o certo a se fazer, mas então ela envolveu os braços dela em volta de mim, dando alguns tapinhas nas minhas costas e me balançando de um lado pro outro como se eu fosse uma criança que precisava ser consolada.
Você fez bem, tem feito bem e certo nos últimos quatro anos e não precisa ser assim agora. Obrigada.
Você precisa parar de chorar e ir pra casa, como todos nós fazemos.
Eu não sabia se era o pai da Alexandra ou o chefe dela naquela frase, mas não me movi um centímetro do meu lugar sentada no chão contra os armários e não pretendia sair dali enquanto não achasse que devia ou que estava segura o suficiente pra levantar sem cair e correr pra outro esconderijo melhor do que aquele.
Todos nós cometemos erros, Alexandra. Todos nós perdemos alguém naquela mesa e isso não é incomum e nem exclusivo de ninguém. Ela não ia suportar. Poderia acontecer com qualquer pessoa.
Mas aconteceu comigo e isso não é justo! Ela morreu e isso não é justo! Sobre o que significa preparar alguém pra algo parecido com isso por anos e ela acabar não terminando o processo depois? Ela lutou tanto e se esforçou tanto pra merda de um empecilho levar ela pra longe e ela não voltar mais! A culpa é toda minha! Ela não vai mais voltar pra casa e a mãe dela não vai mais ver ela e agora eu tenho a morte de uma garotinha de oito anos no meu currículo porque falhei em fazer a única coisa que me mandaram fazer quando tudo isso começou. Eu deveria salvar pessoas e sem espaço pra erros. Eu deveria ser perfeita.
E quando ele sentou ao meu lado e tomou uma das minhas mãos na dele, soube que era o meu pai e não o meu chefe, por mais que todas as leis e os regulamentos obrigassem ele a fazer o contrário.
Eu vi o quadro dela antes de você entrar naquela sala, Alex, e a primeira coisa que fiz foi avisar os pais dela. Você também sabia e a culpa não é sua e nem de ninguém, mas precisa parar de se culpar por uma vida quando você salvou um monte delas antes dessa menininha. Todos nós sabíamos o que ia acontecer, mas você precisava tentar, e você fez isso da maneira mais corajosa e profissional possível, e tentou. Ela não morreu em vão e isso não pode te levar pra um buraco junto com ela. - Senti ele inclinar a cabeça pra mim, e me obriguei a olhar na direção dele, eu tinha certeza que tinha a mesma cara de choro que costumava ter quando era pequena e não aguentava mais guardar sentimentos pra mim mesma e acabava explodindo em lágrimas e gemidos de decepção por ser fraca; ele me olhava do mesmo jeito que olhava em todas aquelas raras vezes, como se eu fosse um passarinho que tinha caído do ninho ou um cachorrinho esquecido na mudança, e ela começava a rir, mas tudo o que ele me deu foi um breve sorriso e um aperto na minha mão, antes de tirar a touca da minha cabeça e se levantar. - Você tem mais um monte de crianças que dependem de você do outro lado do hospital e eu juro que elas não estão com medo de você.
Mas não importa quantas vezes eu repetisse aquele discurso na minha cabeça e a última frase dele ecoasse nos meus pensamentos; eu ainda me sentia culpada, eu ainda me odiava e ainda sentia medo de mim mesma com o menor pensamento de falhar outra vez. De repente eu não era mais capaz de fazer tudo como eu sentia que eu era e não me sentia mais responsável o suficiente pra cuidar de alguém, não quando eu sabia que eu podia acabar não conseguindo fazer isso direito no final. Eu tinha a Carol como um aviso, afinal de contas.