O nó da gravata estrangula o pescoço, mas a corda já deu o nó na mente.
Eu vi você mudando de calçada. Não precisei adivinhar nada. A arquitetura da tua ausência já estava rabiscada no pó dos móveis dessa casa há meses.
Duas vidas arrastadas pelo hábito. O truque barato da alma gêmea.
Que palavra escrota.
Rima exata para algema.
A decisão de deitar com outro não começa na porra da carne. Começa no teto do quarto, encarando o gesso na madrugada, pesando o tamanho exato de uma mentira que dê para engolir de manhã.
Eu manjava o ritmo do teu fôlego antes de você abrir a boca para mentir.
Saiba que você já tinha sumido muito antes de bater a porta.
O susto quando a tela do celular acende.
O suor colando na maçaneta.
O silêncio esticado feito chiclete entre uma frase e outra.
O amor não termina na cama alheia.
Termina quando você se dá permissão.
Eu estava no canto do quarto quando você escolheu o desvio, ciente de que cada passo rasgava o que a gente passou anos tentando colar.
O crime não foi o gilete na pele.
Foi a tua lucidez na hora de quebrar o espelho.
Agora, o silêncio dessa casa range feito ferro-velho.
Você deita de lado e só sobra o bagaço da pessoa que você costumava ser.
Porque certas traições não matam o amor.
O amor é um bicho duro de morrer.
Elas matam primeiro, e sem anestesia,
o otário que acreditava nele.