A cozinha era pequena, teto baixo. Na janela sem cortina, o reflexo vermelho e azul de um luminoso de bar do outro lado do quintal dividido cortava a penumbra em frestas. O gelo derretia no fundo do copo de uísque, estalando baixinho a cada cinco minutos, enquanto o som do pagode ao vivo do vizinho funcionava como o isolamento acústico perfeito para o nosso silêncio.
Ela estava sentada no topo da mesa de fórmica, com as pernas cruzadas. O tecido escuro do vestido subia um palmo acima do joelho, mas ela não se importava. Segurava o copo dele entre os dedos longos, girando o líquido sem pressa. Ela não tinha pressa nenhuma. Nunca tinha.
— Você demorou para abrir o trinco — ela disse.
A voz era mansa, perigosamente calma, um quase sussurro que cortava o barulho do compressor da geladeira velha.
— Eu estava pensando em fingir que não tinha ninguém.
Ela soltou um riso curto, de canto de boca, sem desviar os olhos do copo.
— Mas abriu. Você sempre abre.
Ela deu um gole pequeno. Seus lábios deixaram uma marca invisível no vidro que o reflexo do neon denunciava. Havia uma provocação contida na forma como ela ocupava o espaço, uma inteligência corporal que sabia exatamente o tamanho do estrago que causava.
Aproximei-me o suficiente para ser nocauteado pelo cheiro dela. O rastro do perfume da Yves Saint Laurent — aquele doce denso, quente, perigoso — impregnando o ar úmido da casinha simples. Era o cheiro da pele dela, o cheiro de mulher que me desarma o prumo, misturado com o tabaco que ela tinha fumado no portão. Um aroma que incendeia a mente e vira vício em segundos.
Apoiei as mãos na fórmica, encurtando a distância, mas sem tocá-la. Ego contra ego. O jogo ali exigia precisão.
— O que você quer aqui uma hora dessas? — perguntei, sustentando o olhar.
— O mesmo que você — ela respondeu, os olhos escuros brilhando no neon azul. — Só que eu tenho a coragem de vir buscar.
Ela estendeu a mão livre e tocou a minha gola, ajeitando o tecido com os dedos frios. O toque foi leve, mas a pressão psicológica foi violenta. Minha respiração travou por um segundo. Ela percebeu, e a sugestão de um sorriso voltou aos seus lábios. Ela sabia ler as minhas entrelinhas porque tinha sido ela quem ajudou a escrevê-las.
Ficamos ali, suspensos no ar quente daquela cozinha. Dois satélites orbitando o mesmo erro. A tensão não era nova; era acumulada, refinada ao longo de meses de mensagens apagadas, encontros desfeitos e aquela teimosia mútua de não ceder o controle. Ela queria que eu implorasse; eu queria que ela quebrasse a pose.
O silêncio se estendeu, denso, quase sólido. Dava para ouvir o compressor da geladeira estalar. Dava para ouvir o compasso curto da respiração dela. Ela inclinou a cabeça ligeiramente para trás, expondo a linha do pescoço, um convite mudo, cru, desenhado na escuridão.
Eu sabia o que vinha a seguir. Ela também sabia.
O copo dela bateu na fórmica com um estalo seco, deixando um círculo molhado na mesa. A mão dela subiu para a minha nuca, os dedos se enterrando no meu cabelo com uma força que ela tinha escondido o tempo todo atrás daquela calma ensaiada. O meu braço envolveu a cintura dela, puxando o corpo para a frente, colando a pele quente no frio do tecido. O impacto arrancou o ar que restava. Não houve introdução, não houve desculpa. A boca dela achou a minha com a urgência de quem resgata um vício antigo, mordendo a mentira que sustentávamos até ali, um beijo com gosto de álcool, saliva e o absoluto caos que a gente sempre foi capaz de provocar.
O celular dela vibrou duas vezes em cima da mesa, acendendo a tela no escuro. Ninguém olhou.
Ela afastou os lábios apenas alguns milímetros, a respiração batendo quente contra o meu rosto, os olhos ainda fixos nos meus, imensos na madrugada.
Vinho nenhum amacia o que a carne compele:
esse compasso insano de pele na pele.
— A gente nunca aprende — ela sussurrou.
— A gente nunca quis aprender.