Liguili
Houve mesas onde o vinho amadureceu mais do que qualquer destino.
Cinzeiros repletos de pequenas desistências,
copos devolvendo à luz o cansaço das madrugadas,
garçons caminhando entre filosofias embriagadas
como sacerdotes de uma religião sem templos.
Em alguma esquina,
talvez entre o último bonde e o primeiro pássaro,
existia uma possibilidade.
Não um rosto.
Nem um nome.
Uma inclinação do universo.
Como certas janelas acesas
que bastam para convencer a noite
da existência de alguma felicidade.
Os dias passaram com a elegância indiferente
das fumaças que sobem dos cigarros antigos.
Nada faltou.
Nada sobrou.
Apenas permaneceu,
sobre todas as mesas,
uma cadeira ocupada pelo invisível.
Curiosa companhia.
Capaz de brindar sem erguer o copo,
de atravessar ruas sem produzir sombra,
de envelhecer ao lado das garrafas
sem jamais conhecer calendário.
Talvez o amor pertença exatamente
às coisas que dispensam acontecimento.
Certas melodias vivem melhor
antes da primeira nota.
Certos encontros respiram
com mais plenitude
na delicada impossibilidade.
E há beleza nisso.
A lua continua aceitando telhados.
Os bares continuam acendendo letreiros.
O vento continua espalhando guardanapos
como cartas nunca enviadas.
Basta contemplar.
Porque nem toda ausência deseja transformar-se em presença.
Algumas nasceram
para perfumar o ar
como vinho servido a ninguém,
permanecendo intactas,
inteiras,
infinitamente possíveis.
Franceline Fogaça

















