Daniele me olhou com o mesmo olhar irônico habitual, mas dessa vez, parecia sem maldade.
—O que você tá fazendo aqui? —perguntei, com um frio chato na barriga.
Ela sorriu, seus dentes brancos impecáveis se mostraram.
—Não me faça repetir isso de novo ok? Me desculpa. Eu acho que eu, hm, exagerei. Costumo ser um pouco competitiva em relação à garotos — ela riu.
Eu não conseguia acreditar, aquilo era mesmo sério?
—O que você fez foi muito maldoso.
—Tá, eu sei, foi mal. Então? Estamos desculpadas? Eu não guardo mágoa nenhuma. Aliás, eu preciso que você me desculpe, porquê meu pai e o Lucas não vão me deixar em paz se eu não fizer isso, e eu não quero morar em outra cidade por causa disso.
—Tá. —foi tudo o que disse.
—Ah, e avisa ao Breno que eu superei, tá?
—Ué. Vocês não estão juntos? Foi tanto drama. Será que ele enjoou? — ela riu.
—Não sou. E eu não quero mais brigar com você, diz ao Breno que to namorando um modelo e que não vou mais procurar ele. É passado! — ela deu um longo sorriso.
Apenas fiquei olhando tentando me controlar pra não batê-la. Eu às vezes não queria ter tanto autocontrole.
Fiquei mais tranqüila ao ver apenas um borrão quando seu corpo se dirigiu para fora do estabelecimento.
Respirei fundo e agradeci. Poderia ter sido muito pior.
Acordei mais cedo que eu esperava. Eu não gostaria de estar acordada. Principalmente hoje. É meu aniversário. Não gosto muito de dias como hoje, sou estranha, detesto quando as pessoas me deixam no centro da atenção. Recebi mensagens no celular. Elas foram mandadas à meia noite, à qual não presenciei devido ao cansaço do meu último dia de trabalho. André sabia que faria 18 anos e aumentou a quantia do meu último salário. Não quis aceitar. Mas ele insistiu muito. Por fim, agradeci. Hoje as coisas estavam muito calmas e silenciosas. Possivelmente minha mãe teria saído, já que ela quase nunca para em casa. Cheguei na sala e confirmei minha suspeita. Tudo vazio. Ótimo. Ainda de pijamas peguei um pote de sorvete e uma colher grande e comi sentada no sofá enquanto passava um filme da Hilary Duff com a irmã dela.
Melissa tinha me ligado várias vezes de madrugada e eu não atendi, porquê meu celular estava no silencioso. Eu sempre esqueço de tirar. Espero que ela não me mate. Fiquei pensando se retornaria ou não à ligação. Seria muito: Oi, eu acordei, pode me parabenizar agora?
Eu não queria que soasse como isso. Então resolvi não ligar. Mandei uma mensagem, que talvez ela não veria agora já que provavelmente estaria dormindo.
A mensagem que Lucas me mandou acabou passando despercebida. Confesso que fiquei surpresa, ele parecia mesmo que tinha se arrependido das coisas que fez. “Oi, velha haha. Quero te desejar as coisas mais maravilhosas desse mundo, quero te pedir desculpas porquê sei que vacilei feio. Não quero sair da sua vida, te quero por perto porque você me faz bem. Somos amigos agora, e agradeço por ter me dado uma segunda chance. Obrigado. Esse dia é seu, aproveite-o muito. Você merece.” Lucas era um cara legal, de verdade. Cometeu alguns erros, mas quem nunca? Não posso julgá-lo assim. Respondi sua mensagem e fui para o banho.
Já passava das 9:30 quando alguém toca minha campainha desesperadamente. Como se o mundo estivesse prestes à acabar! Desço as escadas correndo, quase tropeçando no tapete e caindo no chão. Ao abrir a porta me deparei com o sorriso largo de Melissa que me deu um abraço de urso e ficou repetindo “você é uma velha Jéssica” , eu ri, um pouco desconfortável com a idéia de que eu estava mesmo envelhecendo.
—Pra quê? —perguntei confusa. Não lembrava de nada que tinha pra fazer hoje.
—Hoje vamos para uma festa! Uma boate. Vaaaai, não faz essa cara. Nós vamos. Eu nunca fui em uma.
—Boate? Tá falando sério?
—Sim. Nós vamos!— ela deu palminhas, animada demais.
Eu ri, mas realmente não queria sair. Geralmente nos meus aniversários sempre tem algo que me deixa triste, e eu já estava começando a ficar, acho que o Breno esqueceu... sei que não deveria me importar, mas me importo, mesmo não deixando ninguém saber disso.
—Você vai, decidido. Não tem desculpa. E sabe o que eu fiz?
Ela dançou balançando os dedos.
Rindo perguntei —Não. O que?
—Consegui uma coisa fantásti-c-a... Na verdade não eu. Mas minha mãe. Ela ganhou dois cupons daqueles que ela sempre ganha sabe? Do salão? E advinha? Ela não vai mais. E isso significa que você vai, e vamos ter um dia de princess e vamos estar lindas gatas perigosas arrasadoras pra ir pra festa.
—Melissa, meu Deus, onde você arruma tanta animação??? Eu não queria nem sair hoje.
—Ah, fala sério. Você já é de maior. Já pode ser presa. Isso merece uma comemoração, não espera, não o fato de você já poder ser presa merece uma comemoração, mas o fato da maioridade, se bem que dá na mesma coisa, mas enfim. VOCÊ VAI NESSE LUGAR E VAI SAIR HOJE.
Ficamos conversando algumas coisas e eu queria muito perguntar sobre o Breno, mas estava com vergonha, sei lá porquê, como se Melissa não soubesse praticamente toda a minha vida, mas eu não queria admitir que ele me deixava frágil e que ele era capaz de mudar todo o meu humor.
Um tempo depois ela disse que estava na hora de irmos, e eu tentei ligar pra minha mãe, pra avisar mas ela não atendia. Será que até minha mãe tinha esquecido do meu aniversário?
Ignorei o sentimento ruim de insignificância e peguei minha bolsa, com meu celular e um livro pra ler.
Chegamos no salão. Um rapaz alto com a voz muito fina, me atendeu, ele seria responsável por arrumar meu cabelo e disse que tudo o que faria seria surpresa, então me virou de costas para o espelho e pegou a tesoura. Gelei na hora. O que ele iria fazer? E porquê Melissa me trouxe aqui? Vou matá-la.
Tentei um contato visual de socorro com ela mas ela só ria olhando pro moço. Na tentativa de me acalmar, peguei meu livro e comecei a ler, ignorando as mãos rápidas por meu cabelo.
Pelos meus cálculos isso tudo teria durado umas três horas. Eu não conseguia ouvir a voz de Melissa em lugar nenhum daquele lugar, eu queria vê-la e mais do que isso, queria ver como eu estava, porquê esse suspense todo? Parecia até aqueles programas de transformação. Isso tava me assustando.Depois de uma moça fazer minhas unhas e maquiagem o rapaz finalmente me avisou que tinha chegado ao fim. Um alívio me inundou, e ao mesmo tempo, fiquei tensa. Eu nunca me liguei muito na minha aparência, mas toda essa espera me deixou nervosa. Eu queria me ver.
Ouvi finalmente a voz de Melissa e quando me virei pra ver, lá estava ela, pronta. Cabelo impecável, sombra preta com dourado. Absolutamente linda!