Debrah já saiu esfregando o diário na cara do Armin . . . Aberto.
"Quando você . . . "
"Eu passei na sua casa enquanto estava fora e peguei."
Armin assustado puxou o diário.
"Como você quebrou a trava ??"
"Ela abriu pra mim" Boreal então apontou pra trás enquanto minha outra eu se aproximava.
Ela estava com aquela mesma roupa de sempre e tentava esconder o rosto, mas eu já sabia que era ela, e o Armin também sabia.
"Olha quem deu as caras." Armin ria pra outra Boreal.
"Definitivamente você não mudou nada . . . " Boreal retrucou com um leve sorriso.
. . . Sei que não devia me sentir incomodada com isso, até porque teoricamente ela está com o Nathaniel e bem, temos assuntos muito mais urgentes pra se importar mas . . . Não pude evitar de me sentir enciumada com a "relação" deles dois.
Eu não consigo evitar de enxergar ela "roubando" tudo que é meu.
Nathaniel, linha, Armin . . . É paranoia minha ? Talvez . . . Mas . . . Tá ai o pensamento . . .
"Chamei ela aqui pra que ela possa explicar a versão dela. Além do mais, tenho coisas a revelar para ela que o Armin não revelou antes de manda-la pra cá." Debrah falou séria.
"Então revele logo ué. Vamos pra casa da Boreal e--"
"Não. Vamos pro meu apartamento. Até porque Nathaniel já está nos esperando." Quando a Debrah disse isso eu e Armin ficamos espantados.
"Nathaniel ?" perguntei.
"Sim. Ele faz parte dessa confusão toda. Foi o primeiro com quem entrei em contato e ele já está nos aguardando no meu apartamento." Debrah então mostrou o caminho até o carro dela.
"E. . . O evento esportivo ? Os professores vão sentir nossa falta. o Boris tá na nossa cola e--"
"Mandei mensagem pro Dakota. Ele vai encobrir a gente. Vamos." Armin me interrompeu já entrando no carro e me puxando.
Debrah, Armin, Boreal e eu fomos em direção ao apartamento dela.
Eu estava em silêncio súbito e Debrah parecia perdida.
"Debrah , você voltou unicamente pra isso ?" Armin questionou.
"Sim. Eu não posso deixar tudo isso acontecer. Se bem que acredito que estamos seguros . . . " ela falava sem tirar sua atenção do volante.
"Onde esteve esse tempo todo ?" perguntei.
"Vivendo minha vida como sempre fiz. Shows, sessões de fotos . . . Mas eu larguei tudo." quando a Debrah falou isso me chocou um pouco. Lembro bem que ela queria soberania sobre todos e que estava tentando conseguir influencia e destaque na mídia pra isso. Ela pretendia evoluir a humanidade . . . O que levou ela a voltar atrás com seus planos ?
"P-Porque fez isso ?? Você sonhava com isso e--"
"Tenta conciliar uma vida supostamente comum com mais milhares de vidas aos mesmo tempo.
Eu não tenho cabeça nem pra falar com vocês direito, imagine shows e coisas do tipo.
Decidi que largaria tudo quando durante um show eu tive uma crise no palco ao ver uma das minhas milhares consciências sendo assassinadas.
Eu não posso mais tentar lidar com publico . . . " Após ouvir isso eu e Armin ficamos em silêncio o caminho todo.
A Boreal ? Sequer falava ou expressava algo.
Era como se tudo aquilo já fosse algo que ela soubesse, não gerava espanto nela.
Então chegamos no apartamento da Debrah.
Era um apartamento bem bonito, e ela parecia ter uma vida boa. . . Pena pensar que ela não pode aproveitar isso por conta de seu estado mental.
Ela vivia em um dos últimos andares.
"Desculpe a demora." Debrah falou assim que entrou no apartamento.
Do fundo de sua sala veio o Nathaniel em nossa direção.
"Tudo bem. Eu esperava que fosse demorar."
Boreal se sentou no sofá e Nathaniel se posicionou próximo ao sofá, assim formando um circulo fechado só sobrando acentos para Armin e eu .
Nathaniel olhava pra mim e pro Armin de forma gentil. Ele não parecia irritado, triste, nada, só um capaz gentil.
"Nathaniel esteve aqui em casa nos últimos dias. Por isso ele não compareceu ao colégio." Debrah dizia enquanto tirava o casaco e levava para uma pequena mesinha no canto.
Armin olhou pra ela espantado.
"Eu por uns segundos me esqueci completamente que você lê mentes." ele completou.
A sensação que eu tive ali era que Debrah, Boreal e Nathaniel eram todos cúmplices e só eu e Armin estávamos por fora de tudo.
"Antes de mais nada quero que leiam a entrada do Diário que eu fiz." Debrah dizia se sentando.
"Coloquei ai pois acho que tendo a informação anotada poderão assimilar ela melhor. Sempre opto por anotações do que informações meramente faladas." ela apontava pro diário na mão do Armin.
Aparentemente Nathaniel e a outra Boreal já sabiam sobre a entrada . . . Só faltava eu e o Armin lermos.
Eu e Armin nos focamos nas paginas e lemos cada palavra com atenção.
Era um texto contando toda a visão da Debrah sobre outra linha.
Aparentemente Debrah tem a habilidade desconhecida de acessar as memórias dela de qualquer linha temporal existente.
Ela absorve todas as informações a partir da visão de suas outras "eus".
Ler isso me deixou um tanto quanto desesperada por ela . . . Eu mal consigo lidar com meus pensamentos a chuva de informações que decoro por dia.
Imagine a Debrah acessando pensamento de milhares de linhas diferentes ao mesmo tempo.
Após a leitura eu estava perplexa.
Um silêncio tomou conta do local, e antes que eu pudesse dizer algo a Debrah começou a gritar.
"COMO VOCÊ PODE ESTAR FELIZ E ACHAR INCRÍVEL TUDO QUE FOI FEITO ??" Ela gritava já em pé em direção ao Armin
"Obrigado pela falta de privacidade mental." Armin se escorou no sofá com um sorriso de canto.
Claramente ele pensou algo que desagradou a Debrah.
"Você não pode simplesmente tratar a vida das pessoas como um jogo de video game !
Aqui não tem continue caso você perca." Debrah batia na mesa de centro irritada.
Eu, Nathaniel e Boreal estávamos um tanto quanto confusos sobre o que eles conversavam.
"Existe continue sim. E eu provei isso com a maquina do tempo. Quantas vezes eu repeti a mesma ação só pra tentar zerar o jogo ? A linhas temporais foram meus continues."
A Debrah então deu um tapa no Armin, mas um bendito tapa servido mesmo. Todos que estavam presentes na sala ficaram chocados.
Armin se manteve quieto como se nada tivesse acontecido, seu rosto estava vermelho, MUITO vermelho MESMO.
Ele continuou a brincar com o fecho do meu diário com toda a naturalidade do munto.
"Isso significa que mesmo com todo o aviso você vai insistir nessa historia toda né ? VOCê REALMENTE É O ARMIN DO FUTURO ! NOSSAS VIDAS ESTÃO EM PERIGO !" Debrah falava ofegante.
Armin só respondeu um "vou" simples e sem mudar sua expressão séria ou sequer se queixar da vermelhidão em seu rosto.
"Você está disposto a sacrificar milhares de pessoas, milhares de linhas por uma unica causa ?? Uma promessa ??" Debrah estava com um olhar de ódio direcionado unicamente ao Armin.
"Debrah, entenda uma coisa. . . Você desconfia que o meu eu mais velho sou eu, o Armin que está na sua frente agora, o Armin dessa linha certo ? Então entenda uma coisa simples . . .
Quem melhor do que eu mesmo pra prever meus próprios movimentos ? Eu sei exatamente o que eu estou pensando com isso tudo e não vou mudar de ideia. Provavelmente um conjunto de causas me levou a decisão que tomei no futuro.
Com certeza eu estou pesquisando muito bem antes de mover as peças e pode ter certeza que eu não vou deixar esse jogo ser completado sem que eu faça 100% dele.
A historia central do jogo é cumprir minhas promessas pra Boreal, quando eu concluir a historia central com certeza irei fazer o resto do jogo 100%." Armin falava sem expressar sentimento nenhum. Raiva, rancor, nada.
". . . Isso não é um jogo, eu já falei. Você está desfazendo linhas no futuro e--"
"E se não for eu ? Você tem uma suposição de que seja, mas qual sua garantia de que foi eu ? De qualquer forma, já pensou como funciona um game over em um jogo ? Eu acredito que a mecânica seja similar a nossa vida real.
Cada vez que resetamos o jogo e tentamos novamente deixamos aquela linha pra trás ou destruímos ela.
Quando criarmos um save por cima estamos apagando por completo aquela linha, aquele caminho todo que foi seguido.
Se levar em conta sua conspiração toda contra mim, eu estou tentando fazer um "good ending" nessa historia toda enquanto vocês ficam reclamando."
Debrah tremia, ela estava muito nervosa.
"Armin eu não quero ser obrigada a--"
"Nada. Você não vai fazer nada. Porque você sabe muito bem que eu sou muito importante pra essa historia toda ir pra frente. E se fizer algo comigo vai destruir provavelmente mais linhas . . . Talvez todas, porque não ? Não sabemos o nível de importância que eu tive no futuro. O nível de bagunça que eu gerei. Então ou confia em mim ou destrói tudo. Fica ai sua escolha."
Foi a discussão mais intensa que presenciei nos últimos tempos . . . Falando pelo clima que estava emanando.
Os dois estavam muito ofensivos.
Debrah então finalmente se sentou.
"Eu . . . Não sei o que fazer. . ." ela dizia frustrada.
"Primeiro de tudo vamos manter contato. Você vai me dizer tudo que sabe e assim chegaremos a uma conclusão. Pelo que falou, caso esteja certa e a linha do meu eu do futuro de fato for a nossa atual, dificilmente vou tomar alguma atitude pra destruir ela. A Boreal que eu quero proteger está aqui." Armin falava pra Debrah.
". . . É . . . Tudo que me resta é concordar com você . . . Que decadente.
Eu estou temendo um Terráqueo." Debrah parecia frustrada com seus últimos pensamentos.
"Quem diria. Sua raça parece que não é tão dominante quanto você diz. Pelo menos não perante a mim." Armin por sua vez ria vitorioso.
"Pra começo de conversa, Boreal o que eu falei pra você ? Como você está viva ?" Nessa hora eu e a Boreal olhamos pro Armin ao mesmo tempo.
Eu ia perguntar do que ele falava quando minha outra eu começou a falar.
"Eu fui salva. . .
Castiel não me usou pro ritual pra retirar a maldição dele, na verdade ele usou outra pessoa.
Ele estava muito irritado com Priya e ela sempre controlou ele impedindo que ele matasse as meninas do colégio, principalmente eu, justamente por eu ser amiga da Priya.
Ele chegou a "me matar"
Mas fui resgatada por você do futuro e mantida em sei lá onde enquanto era regenerada. Era uma maquina de tecnologia estranha que agia meio que como um repositor de células mortas por células vivas e ativava pra que todo o corpo trabalhasse em uma velocidade enorme a favor da regeneração, tudo movido por uma pequena bactéria.
Tudo que ele fez foi me pedir pra vir até aqui e tentar manter tudo sob controle. E uma das coisas que ele . . . Você . . . Não sei bem . . ."
"Ele. Apesar de ser eu ainda não sou eu." Armin interrompeu.
"Ele pediu foi justamente para que eu separasse meu eu dessa linha do Nathaniel."
Eu por impulso então acabei soltando uma farpa pra Boreal.
"Claro . . . Separar o Nathaniel de mim significa ficar com ele . . . " soltei 100% por impulso.
Eu ainda não engolia bem a situação mesmo estando com o Armin.
Boreal então olhou pra mim irritada.
"Está com raiva de mim ?" ela perguntou sem cerimonia nenhuma.
"Imagine se eu teria raiva . . . Você só fez uns discursos bonitinho de quem queria salvar o mundo e por fim ficou com o Nathaniel. Mas, sem ressentimentos, é passado agora." Armin e Nathaniel olhavam apreensivos pra nós duas.
"Que bom que não tem ressentimentos. Eu também não tenho ressentimentos quanto a você." a Boreal falou.
Aquilo me deixou MUITO irritada e eu não pude evitar de explodir.
"Pera . . . Você não tem que guardar ressentimentos sobre mim. Eu não fiz nada ! Pelo contrario ! Sabe quanta coisa eu passei ?? E você simplesmente veio aqui tirar minha felicidade !"
Foi quando Boreal deu um sorriso de como quem fazia pouco caso do que eu dizia e em seguida ela me fez ficar quieta com suas palavras . . .
"Eu levei uma facada e "morri", fiquei seculos me regenerando sei lá em que época, não pude NEM POSSO voltar pra casa porque todos acham que estou morta, vim pra outra linha a mando do meu salvador, chego aqui MEU namorado esta namorando outra pessoa , mesmo que supostamente seja eu, e você quem fica com raiva ?? Eu passei por tudo isso e saiba que sequer senti raiva de você em momento algum quando o Nathaniel falava pra mim o quanto te amava e queria te proteger.
Se não quer que esse sentimento mude, pare com esses chiliques.
Se somos a mesma pessoa, no minimo você pensa em alguns pontos iguais a mim, logo, sabe que não tem um porque de estarmos uma contra a outra.
Sua vida foi complicada mas não trate como se a minha tivesse sido fácil. Nossos problemas são diferentes mas em níveis iguais."
Eu realmente não tinha o que argumentar. Ela tinha razão . . . Eu era a "outra".
Eu não consigo imaginar qual seria minha reação no lugar dela ao ver meu namorado com outra eu . . . Eu acho que eu não teria a mesma postura que ela de ficar quieta e tentar manter a calma.
Mesmo nós duas sendo a mesma pessoa tecnicamente, ela claramente era mais madura e MUITO mais sábia do que eu . . . E isso me deixava com raiva de mim mesma. . . E vergonha até certo ponto de estar ali perto dela.
Ela fazia eu me sentir uma criança . . . Mesmo nós duas tendo a mesma idade.
Acho que se eu fosse o Nathaniel também iria preferir ela . . .
"Acho que prefiro a outra Boreal." Armin dizia.
Só olhei pra ele com carão.
"Nathaniel . . . Você sabe algo sobe o Jade ?" eu tomei coragem de perguntar finalmente.
"Jade ? Porque o assunto veio a tona do nada ?" Nathaniel parecia confuso.
"Verdade . . . Jade tem rondado a Boreal. Ela e meu irmão sismaram que vocês dois são idênticos. . . Confesso que é intrigante o fato de Jade só aparecer quando você falta." Armin completou enquanto brincava com o fecho do meu diário.
"A voz do Jade mesmo não tendo nada a ver com a do Nathaniel poderia . . . Sei lá, ser modificada de alguma forma ? Com o próprio timbre talvez." cogitei.
"Pera . . . Vocês estão insinuando que eu e o Jade somos a mesma pessoa ?" Nathaniel falou um pouco chocado.
"Eu acho que possa ser seu eu desaparecido dessa linha, até porque já confirmei por vairas vezes que você de fato não anda." Armin completou.
"O estranho é que o Jade me trata com carinho . . . Porque ?
Tipo . . . Eu namorei o Nathaniel da outra linha, no caso, o que está aqui na sala com a gente . . .Certo ?" falei confusa.
"Errado. O Nathaniel que você namorou foi o dessa linha." Quando a Debrah falou isso todos olhamos espantados pra ela.
"O que quer dizer Debrah ?" Nathaniel parecia chocado enquanto perguntava isso.
"Boreal . . . Você vai ter que voltar pra sua linha. Já temos muita embolação nessa linha. Acho melhor não misturarmos as coisas." Debrah falou olhando pra minha outra eu.
"Pera. E o Nathaniel ? Como assim ele é dessa linha ? Ele é da minha linha certo ? Na sua logica ele deve voltar comigo . . . Certo ?" Boreal se levantou enquanto questionava.
"Não . . . Porque ele não pertence aquela linha, e sim a essa linha aqui." Eu fiquei muito confusa.
Eu só ? Todos na sala.
"O-O que ? Do que está falando Debrah . . . Eu sou da outra linha e quando viajei pra salvar a Boreal troquei por engano." Nathaniel falou nervoso.
"Não . . . Eu ainda não sei bem, é uma informação cortada que recebi do Armin em nosso único encontro. Mas aparentemente Nathaniel, você pertence a essa linha aqui.
Eu não sei bem quando você foi parar na outra linha, mas essa é sua linha original.
E na lógica, o outro Nathaniel é da linha de onde você veio.
Mas pelo que a Boreal falou e pelo que vi da outra linha, você foi dado como desaparecido na outra linha, assim descobrimos que seu eu de lá não retornou pra lá.
Logo, essa ideia do Jade ser você é uma boa hipótese. . . " a Boreal começou a tremer muito.
"I-Isso significa . . . Que eu sou de uma linha totalmente diferente do Nathaniel . . . ?" ela estava perplexa.
"Exato. O namoro de vocês é uma coisa um tanto quanto proibida pelo grau de envolvimento que cada um tem com sua determinada linha. Pelo menos é o que deduzo."
"E onde entra o aviso do Armin sobre eu não poder ficar com a Boreal dessa linha também ?!" Nathaniel gritava batendo na mesa de centro.
Ele não estava aceitando bem.
"GENTE ! EU NÃO SEI ! EU NUNCA FALEI COM O ARMIN A FUNDO !! ELE PEGOU INFORMAÇÕES COMIGO E NÃO ME PASSOU INFORMAÇÕES O SUFICIENTE !!" Debrah estava muito nervosa.
O clima estava tenso.
Todos olhavam perplexos pro estado da Debrah, ela estava muito alterada.
"M-Me desculpem . . . Eu sei que é repentino mas . . . Poderiam me deixar sozinha ? Eu manterei contato, prometo mas . . . Minha cabeça não está bem agora."
Debrah falou se retirando repentinamente pro quarto.
Ela nem fez cerimonia antes de sair da sala. Simplesmente saiu.
"Acho melhor deixarmos ela sozinha . . . Amanhã será um longo dia." Nathaniel disse.
Nós então nos retiramos e descemos
O caminho todo os 4 se mantiveram em silêncio até chegarmos na entrada no apartamento.
O carro do Nathaniel estava parado próximo com seu motorista.
"Depois dos seus encontros você volta pra onde Boreal ?" Armin perguntou pra minha outra eu.
"Volto pra data que o Armin mais velho deixou programada pra que eu vá sempre. Tem uma base dele onde fico escondida lá na outra linha. . . Na minha linha.
Lá que recebo instruções. Inclusive devo ir agora."
"Eu te acompanharei até um local calmo pra que ninguém veja sua saída"
Armin tomou frente sem permitir que eu e Nathaniel falássemos algo e já saiu com Boreal, assim deixando eu e Nathaniel sozinhos.
Eu estava sem jeito . . .
Não é como se todo o sentimento que eu guardei esse tempo todo tivesse sumido simplesmente só por eu estar namorando com o Armin . . .
E ainda guardo um certo rancor mesmo sabendo da historia toda a fundo.
O clima estava tenso entre nós dois e nenhum dos dois falavam.
"V-Você . . . Vai pra casa agora ?" Nathaniel perguntou sem jeito, parecia querer puxar assunto.
"Não sei . . . Talvez eu vá pra casa do Armin." falei sem jeito.
"A-Ah sim ! Eu estou feliz de ver vocês juntos. . . Er . . . " Estava a conversa mais estranha possível. Acho que a ideia do Armin de que é fácil estabelecer assunto com ex é invalida pra mim.
". . . Desculpa por não ter te explicado as coisas Boreal. . . " Nathaniel falou sem mais nem menos.
". . . Tudo bem . . . Já passou . . . " por mais que eu dissesse isso, era mentira. Eu estava muito feliz de ouvir as desculpas do Nathaniel. Era como se eu sentisse que precisava ouvir desculpas dele.
Eu sei, ele esta me protegendo mas . . . Eu precisava disso.
"Eu . . . Não queria que parássemos de nos falar . . . Eu sei que é difícil . . . Pra mim também está sendo difícil essa conversa mas . . . Não podemos ser amigos ?" Nathaniel falou com um olhar tristonho.
". . . Difícil mesmo . . . Sabe . . . O que mais me frustra ? Você toma atitudes sobre a minha vida por mim sempre. Não me pergunta nada. Só age como se estivesse me protegendo sempre. E se eu não quiser ser protegida ?" eu tentei manter uma postura calma por mais difícil que fosse.
"Eu não conseguiria não te proteger mesmo se não quisesse . . . Desculpe.
Não consigo evitar de ser egoísta quanto a sua vida.
Eu voltei no tempo por sua causa, foi uma atitude egoísta.
. . . Por mais que seja difícil isso tudo . . . Acho que foi melhor assim . . .
Armin parece te dar um suporte melhor do que o que eu conseguiria te dar . . . " Nathaniel apesar de tudo sorria.
"Sim . . . Ele dá mesmo. E inclusive ele cumpre as promessas dele até o fim pelo visto." era difícil pra mim não dar alfinetadas . . . Eu definitivamente me tornei uma ex rancorosa.
Eu quero ter um bom relacionamento amigável com ele, mas . . . Ainda não dá.
"Novamente . . . Me perdoe. Vamos só tentar seguir em frente . . . Tudo bem ?" Nathaniel estendeu a mão como se quisesse apertar a minha mão . . .
Eu estou com o Armin agora, e era duro ainda assim pensar que o Nath estava estabelecendo um relacionamento unicamente de amizade.
É estranho regredir quando sei que fomos tão longe . . . Mas eu prometi pra mim mesma que me esforçaria.
E se Armin está certo quanto a eu ser uma esponja, acho que seria bom eu sugar esse habito dele de cumprir suas promessas sempre.
Eu então apertei a mão dele de volta.
Pensar que aquele seria nosso contato físico a partir de agora me agoniava sinceramente . . .
Mas me fez aceitar melhor ao mesmo tempo meu estado atual.
Pra descontrair eu decidi brincar com a situação.
"É . . . Você saiu empurrando o Armin pra cima de mim e nem me consultou se eu queria um nerd punheteiro na minha vida né ?" falei rindo.
"Oh ! Mas eu não errei ! Basta olhar pra vocês dois. Eu acho que escolhi um bom partido pra você, aceite os fatos."
"Nah . . . Não vou discordar nem concordar." no fim acabamos rindo e . . . O clima se tornou até agradável.
Doía ainda no peito mas, era mais confortável.
Armin então retornou.
"Ela já foi. E vocês dois, se resolveram ?" Armin dizia.
"Eu sabia que você tinha feito isso de proposito. Você não tem jeito." Nathaniel falou rindo.
"Claro. Ou vocês voltavam a se falar por bem ou por mal. Ficar falando com vocês dois separadamente estava me irritando já. Na situação atual não podemos ter esses luxos." Armin disse.
"Fica tranquilo tá ? Voltamos a nos falar." respondi rindo.
"Acho bom mesmo. E que isso não se repita." Armin falou enquanto puxava o celular pra ver a hora.
"Bem . . . Vocês querem uma carona seja lá pra onde estão indo ?" Nathaniel perguntou.
"Na verdade não. Estávamos indo pra minha casa. Como a estação é próxima decidimos ir de trem, até porque deixa perto da minha casa. Você tem que descansar, o dia foi longo." Armin completou dando tapinhas leves nas costas do Nathaniel.
"Perai . . . Decidimos ? Quando eu dei certeiza que ia pra sua casa ?" perguntei espantada.
"Boreal, eu e Nathaniel estamos cansados de saber que você dificilmente decide algo sozinha, então falei por nós dois porque obviamente você ia ficar empacada no "não sei" de sempre."
Nathaniel ria de nós dois enquanto se despedia.
"Ok. Vão lá. Eu irei refletir um pouco sobre a situação atual." Nathaniel se despediu do Armin e eu dei um abraço nele como despedida . . . É meio duro isso e confesso que prolonguei um pouco mas . . . Não, isso não significa que vamos voltar. Até porque ele não voltaria nunca e bem . . . Eu quero realmente tentar o que comecei com o Armin . . . Eu acho.
Eu e Armin entramos na estação que era realmente próxima.
Ao sentar no trem o Armin se pôs a falar.
"Você ainda gosta quanto do Nathaniel ?" quando ele falou isso foi uma surpresa pra mim e eu sinceramente tomei um susto.
"C-como assim ? Para Armin."
"Não sou idiota Boreal. Eu sei que você ficou comigo ainda sentindo algo por ele. Eu só quero saber a porcentagem. Sem ressentimentos. Só seja sincera. Fale um número que defina seus sentimentos." Armin não parecia ter raiva ou rancor, parecia realmente perguntar de forma sincera.
". . . Em porcentagem acho que 35% talvez . . . Não sei ! Que pergunta esquisita !" eu podia sentir minha bochecha queimar, respondi mesmo que aleatoriamente.
É estranho porque atualmente ele é meu namorado e está perguntando sobre meu ex, um assunto que sempre falei facilmente com ele, mas agora que ele é meu namorado se tornou um assunto complexo demais pra mim.
Ai como estou tonta com tudo isso.
"ótimo. Então sei que tenho que investir só mais 35% em você pra faze-la esquecer o Nathaniel. Saiu um numero mais baixo do que eu esperava." ali eu chutei o Armin enquanto ele ria e seguimos nosso caminho soltando piadas quanto a outras coisas até chegarmos na casa dele.
Assim que chegamos o Alexy estava na sala com um pote de sorvete vendo TV.
"Apareceram os pombinhos ?" Alexy dizia.
"Não enche." Armin bagunçou o cabelo do Alexy enquanto caminhava e em seguida roubou uma colher do sorvete do Alexy.
"Sabe que estão mais fodidos que eu quando saio com meus boys amanhã no colégio né ?" Alexy falou.
"Nossa, precisava desse exemplo repulsivo ?" Armin puxou vomito.
"P-Porque Alexy ?" eu estava com medo da frase do Alexy porque sei que saímos em "aula", e dentro de mim eu sabia que ele iria falar sobre isso.
"O amiguinho de vocês contou TU-DI-NHO pro professor Boris. Sobre terem fugido e tudo mais. Ele veio revoltado em cima de mim reclamar da sua conduta e perguntou sobre eu saber algo, mas como eu realmente não sabia falei que não fazia ideia." Alexy dizia.
"PERAI, O DAKOTA FALOU PRO BORIS ?? EU VOU COMER O CU DAQUELE DESGRAÇADO !" Armin gritou por impulso da forma mais agressiva possível.
"Ain maninho ! Sempre soube que você tinha essas tendencias de cair pro meu lado. Só não sabia que ia ser o ativo. Boreal cuidado viu ? Até porque o Dakota é bonitinho."
Armin então socou o Alexy e em poucos segundos os dois estavam se espancando na sala . . .
Eu ? Aquilo já se tornou tão rotineiro na minha vida que eu simplesmente pedi licença e fui pro quarto do Armin por livre e espontânea vontade.
Fiquei lá deitada na cama do Armin mexendo no DS dele enquanto ele não vinha.
Armin então após minutos chegou.
Ele estava com o cabelo todo bagunçado e um pouco de sangue no canto da boca.
Nada de anormal pra mim.
Só fui pro lado dando espaço pro Armin cair na cama e ficar bufando com o rosto virado pro lençol como ele sempre fazia.
"AHHH QUE ÓDIO !" eu gritei por conta do jogo estar crashando.
Armin sem tirar a cara do colchão só moveu o braço, puxou o DS da minha mão, limpou o cartucho, colocou novamente e me devolveu.
E ali ficamos em silêncio.
Eu deitada jogando e o Armin irritado com o irmão e o Dake jogado de cara pro próprio colchão. Emocionante.
Armin então finalmente se levantou, tirou os sapatos e puxou o note dele.
"Debrah me passou um contato especifico dela por conta do nível de segurança. Vou mandar uma mensagem teste." Armin dizia enquanto usava o Note.
Armin então se deitou com a barriga pra baixo enquanto mexia no note.
E eu enquanto me espreguiçava acabei dando de cara com ele, o que me deixou muito constrangida.
É como falo, as coisas que sempre fizemos juntos agora me constrangem
Antes eu podia ficar 2 dedos de distancia do rosto dele que não sentia constrangimento, agora com um palmo eu sinto vontade de morrer de tanta vergonha.
"E-Eu ainda to muito sem jeito com essa ideia de namoro . . . " eu dizia afastando meu rosto do dele.
"Não sei porque. Não mudou nada entre a gente. É só agir normalmente. Sabe, isso é só um titulo. Se quiser voltamos a nos chamar de amigos se isso te deixar mais confortável." Armin continuou com os olhos no notebook.
"Ah ! Mas é por isso mesmo !! Você é meu melhor amigo ! Você sabe todos os meu podres e eu não consigo te tratar com aquele carinho meloso de namorado e tudo mais . . . Ahhh é muito estranho."
"Graças a Deus você não consegue. Eu ia te achar irritante de fosse toda melosa comigo.
De qualquer forma, a graça é essa. Eu já sei todos os seus podres, manias e conheço você de verdade, não aquela casca que se forma quando tá interessada em uma pessoa. O mesmo vale pra você referente a mim, logo, eu gosto de você sabendo tudo que tem de errado.
Diferente de você arrumar um namorado genérico por ai que vai gostar da sua "postura de boa namorada."
Como falei, se quiser, me chama de amigo mesmo, não muda em nada. É só um titulo." Armin falou com aquele olhar apático de sempre dele.
"Ahh esse seu olhar me irrita TANTO ! E outra, se é só um titulo sem importância pra que faz questão dele ? É só continuarmos amigos certo ?" Falei nervosa.
"Mais ou menos. . .
Por exemplo, tendo esse titulo eu garanto que você não vai tentar nada com o Kentin." Armin falou olhando pra mim.
"E isso seria ciumes . . . ?" Eu ria provocado ele, mas como sempre ele é inabalável.
"Também. Você disse que ia tentar ficar com o Kentin pra esquecer completamente o Nathaniel, mas como já conversamos, sabemos que ele é sensível e reagiria MUITO mal caso você decidisse largar ele ou soubesse que "foi usado". Eu não possuo esse tipo de sensibilidade.
Então eu junto o útil ao agradável.
Tento ter algo contigo e de quebra você tenta esquecer o Nathaniel.
Além do mais ter esse titulo me da vantagens." Armin falou rindo.
"Ah, que tipo de vantagem ? Ter o titulo de namorado de uma ciclope ?"
"Eu posso andar livremente do seu lado sem medo que apaguem minha memória. Ou esqueceu que companheiros de alienígenas tem esse voto de confiança da organização ?" Armin estava rindo muito empolgado.
E de repente, tudo fez sentido.
Como sempre o Armin arquitetou um plano todo.
Confesso que naquele momento eu fiquei um pouco chateada . . . Eu queria saber que ele estava tentando algo comigo mas sem ter nenhum plano meticulosamente feito por trás envolvendo toda essa treta em que me meti.
Mas em alguns segundos depois de ter dito isso ele fez eu achar que valeu a pena . . .
Soltei um "ah" desanimado. Porque de fato ouvir um plano inteiro envolvendo namorar comigo me deixou meio desanimada. Infelizmente não posso negar que era de se esperar do Armin . . .
Então eu puxei meu celular e comecei a mexer jogada na cama pra ignorar o Armin após ter me estressado com o que ele disse.
"Eu não terminei de falar. Você quando se mete no celular não da atenção pra ninguém diferente de mim que consigo falar enquanto faço minhas coisas." Armin dizia tomando o celular de mim.
"Mentira ! Você cansa de ignorar quem tá ao redor quando tá jogando ou mexendo em algo." gritei tentando pegar o celular de volta.
"Eu faço isso de proposito, é diferente. Não quer dizer que não estou prestando atenção, só acho que aquele assunto é chato e finjo que não to ouvindo pra ver se a pessoa para de falar." Armin ria.
"Pera . . . Você faz isso quase o tempo todo comigo ! " Armin então ficou em silêncio segurando um riso.
O silêncio se instalou no lugar antes que eu começasse a dar uma crise de raiva pra cima dele e bater nele sem parar.
Ele então jogou o meu celular no meio de umas almofadas que tinham no chão, eram um pouco distantes da cama e eu seria obrigada a levantar caso quisesse o celular de volta.
"Agora voltando a falar as vantagens de ter esse titulo de namorado . . . " ele dizia enquanto eu me levantava pra ir no celular.
Ele então me puxou pela cintura e me prendeu não me permitindo sair do lugar enquanto me imobilizava.
"PORQUE VOCÊ PODE MEXER EM ALGO E EU NÃO ?!" eu gritei esperneando.
"Já falei ! Você não presta atenção no que eu falo." Armin mal fazia esforço pra me manter presa.
Eu desisti e fiquei emburrada no meu canto.
"Eu faço questão que ouça todos os pontos pra depois não dizer que não avisei nenhum deles." Armin completou ainda me segurando . . . Ele me conhecia e sabia que provavelmente eu ia sair de lá, já que sou teimosa.
"Como eu falei, além de ser minha garantia de poder te manter longe de fazer burrada com o Kentin e ser minha passagem pra não perder minha memória, eu ainda posso usar isso ao meu favor pra me infiltrar na organização, afinal, eu soube que dependendo da situação o companheiro do alienígena em questão pode ir de acompanhante em casos médicos até a organização. A Boreal me contou alguns detalhes que acredito que nem você saiba a respeito da organização que cuida de você.
Acho importante conhecer o campo inimigo." Armin completava sua lista de porquês, que me irritava ainda mais.
"Tá, já acabou ? Não me importa só quero meu celular."
Ele então finalmente me soltou e foi pegar o celular no meio das almofadas pra me devolver. Eu fiz que não me importava o tempo todo com o que ele dizia por mais que me interessasse em partes.
"É, pelo visto acabou os porques mesmo" foi o que pensei e falei na hora demonstrando total indignação. Eu realmente fiquei irritada de ele não ter me tratado de forma carinhosa ou demonstrado minimamente interesse sequer em ficar comigo por gostar de mim em si.
"Tem mais um item importante da lista de vantagens em ter o titulo de namorado da Boreal." Armin falou sentando e me dando o celular.
Assim que ele me deu o celular eu já me joguei pra trás deitada na cama e fiquei focada no aparelho usando pra ignorar o que o Armin dizia.
Foi quando o Armin veio por cima de mim, e após jogar minha mão com o celular pro lado, deixando meu rosto livre, ele me beijou.
Eu fiquei um tanto quanto tonta e sem reação. Minha mente deu tela azul. É a unica definição que tenho.
Armin sem um pingo de vergonha parou e ficou olhando pra mim com um sorriso vitorioso.
"Essa é a ultima vantagem. Poder fazer esse tipo de coisa sem apanhar. Como eu precisava desse privilegio."
Eu confesso que dentro de mim eu fiquei muito feliz do Armin ter dado um motivo "Fofo" e . . . É estranho demais essa sensação com ele.
Ali comecei a bater nele pra mostrar que ele estava errado.
É engraçado como o clima de descontração se manteve e ainda assim eu me sinto tão a vontade pra "namorar" ele. Ao mesmo tempo que me sinto muito constrangida . . . Muito mais do que com os demais rapazes . . .
Sempre vou pensar no quanto é bizarro ver que sou namorada dele e que isso me constrange mais do que todos os meninos que já fiquei . . .
"TE BATI E AE ?!"
"Esse seu "bater" é o de sempre. É diferente de bater por ser assédiada." Armin voltou a atenção pro note dele.
Armin então levantou repentinamente como quem lembrava de algo.
"Tem uma coisa que quero te dar." Ele dizia pegando uma pequena caixa rosa.
Ele então entregou a caixa pra mim.
Era uma caixa muito bonita ao abrir tinha um frasco rosa muito lindinho, era um perfume.
"PERFUME DE TUTTI FRUTTI ?? Porque isso do nada ?" perguntei.
"Eu sempre prometi pra mim mesmo que daria um perfume de Tutti Frutti pra minha namorada. E agora, estou te dando." quando ele falou isso eu me toquei do que ele se referia.
"Armin . . . Eu não vou usar isso pra você imaginar que está namorando a Princesa Bubblegum. Não adianta." Armin então falou um "droga" baixo mas o suficiente pra ser audível.
Armin e eu ficamos a noite toda conversando sobre o que tinha acontecido no dia.
Ficamos realmente até tarde só conversando.
Assuntos variados na verdade.
Por fim eu nem senti o momento que peguei no sono, só na manhã seguinte quando o despertador dele tocou.
Eu estava na mesma posição a noite toda aparentemente.
Adormeci em uma ponta da cama e ele na outra ambos virados de cara um pro outro.
Ter o rosto dele como primeira visão do dia me deixou um tanto quanto nervosa.
Eu fiquei ali encarando ele depois que acordei . . .
Ainda tenho dificuldade de assimilar essa ideia de namoro, inclusive, normalmente eu não ficaria nervosa de acordar e ver o rosto do Armin a um palmo de distancia do meu.
Nós já adormecemos abraçados no passado e eu não fiquei assim.
Mas agora . . . Tudo parece que está mais difícil.
Aos poucos sinto que estou me acostumando. E olhar ele dormindo enquanto seu despertador irritante tocava era relaxante.
Até que ele acordou.
Confesso que me assustei inicialmente mas logo relaxei e ficamos nos encarando por longos minutos em silêncio.
"Bom dia" ele finalmente falou enquanto desligava o despertador.
Me levantei de uma vez nervosa e respondendo ele.
Armin ficou olhando fixamente pra mim com uma cara de quem não compreendia a situação.
"Tá . . . Porque tá nervosa ?" ele perguntou com um olhar sonolento.
"N-Nada ue !" Tudo que fiz foi me levantar e ir no armário dele procurar um casaco que eu gostava. Pra ignorar a situação ao todo.
Armin não é idiota, ele com certeza entendeu tudo mas quando ele tá com sono mal fala.
Estranhei ele dar bom dia inclusive.
Armin só se retirou do quarto e quando voltou eu já havia colocado o casaco que eu gostava.
Era meio que pra disfarçar a roupa repetida inclusive.
"Quer esse casaco pra você ? Você sempre fica de olho nele . . . "Ele falou.
"Não ! Uma das graças é pegar ele de você . . . "
"Bem, de qualquer forma temos que ir pro colégio, vem tomar café da manhã" No que eu estava saindo do quarto ele borrifou aquele perfume de tutti frutti em mim.
"EU NÃO ACREDITO !" gritei.
"Que foi ? O cheiro é bom vamos, confesse." meu impulso foi de bater nele na mesma hora e em seguida fui pra mesa da cozinha.
Minha raiva era que eu não queria fazer o agrado de por um perfume de tutti frutti.
Inclusive, não curto perfume doce desse jeito.
O pai do Armin sentiu o cheiro do perfume que o Armin jogou em mim e se aproximando ele disse.
"Meu Deus. É sério que você tá usando o perfume de tutti frutti do Armin ?? Armin tentou dar isso pra Lety e ela arremessou isso longe."
"Tá explicado porque vocês dois não deram certo." eu falei pro Armin que a essa altura já estava sentado na mesa.
"Eu tinha esquecido totalmente da Lety. Aquela lá até eu sendo gay se fosse virgem ia desvirginar só de falar bom dia pra ela." Confesso que eu ri e concordei.
Porém . . . Armin fechou a cara pro Alexy.
"A situação não é muito diferente pra você não Alexy. Inclusive tenho pena da Boreal por ter perdido a virgindade falando bom dia pra você." Armin foi áspero com o Alexy.
"Tá defendendo a ex maninho ?? Tá querendo voltar com a Lety ??" Alexy dizia rindo.
"Não. Só que você não tem credibilidade pra falar dela quando é igual ou talvez até pior." Armin estava fechando a cara pro Alexy.
"Pior ??? OLHA SÓ ! NÃO ME COMPARA COM AQUELA COISINHA QUE VOCÊ NAMOROU NÃO TÁ ?! BOREAL FICA DE OLHO QUE ELE VAI PULAR CERCA COM AQUELA VADIAZINHA LÁ !" Alexy gritou.
Armin então chutou ele embaixo da mesa e em poucos segundos os dois estavam se chutando compulsivamente.
Até que a Vitoria chegou.
"O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI ?!"
"Eu e meu irmão querido estávamos indo pro colégio né Alexy ?" Armin falou levantando e abraçando o Armin.
"ISSO MESMO ! BOM DIA PRA VOCÊS QUE FICAM !" Alexy puxou meu braço da cadeira sem nem me deixar me despedir e fomos os 3 direto pro carro.
Lá dentro eles dois já se soltaram e voltaram a ficar emburrados um pro outro.
"É impressionante como são fingidos . . . " expressei.
"Não enche." Armin falou antes que Arnaud entrasse e levasse nós todos pro colégio.
No colégio, Alexy seguiu seu caminho como sempre e eu fiquei com o Armin.
Logo de cara Dake veio até nós, ele estava com um roxo enorme no olho.
"Dake que roxo feio !" falei.
"Pois é ! Briguei na rua com uns fedelhos nojentos !" Dake expressou.
Armin fechou a cara e saiu de perto sem falar nada.
Dake pareceu chateado e eu corri atrás do Armin.
Eu sabia porque o Armin havia saído apesar de tudo . . .
"Armin ! Tá chateado com o Dake ?" perguntei.
"Tá na cara. E nem pergunte o porque pois sabe muito bem." Armin se sentou no patio enquanto reclamava.
"Mas . . . Acho que devíamos conversar com ele . . ." eu fiquei muito pensativa quanto a isso.
"Quando eu me sentir calmo com certeza conversarei com ele ! Ele definitivamente não é de confiança ! Ainda bem que nunca confiei nele . . ." Algo me incomodava muito . . . O Dake agiu muito naturalmente pra alguém que fez algo errado . . .
Eu definitivamente iria falar com ele aquele dia . . .
Alexy então se aproximou de nós dois.
"Maninhooo" Alexy dizia abraçando o Armin.
"Não." Armin sem sequer ouvir o que o Alexy tinha a dizer foi respondendo esse não seco.
"Então vai tomar nesse seu cu" Alexy chutou o Armin e saiu de cena . . .
O que foi isso ?
"ALEXY !" Gritei antes que ele não me ouvisse e Alexy retornou aos poucos.
"Só voltei porque foi você que chamou e não esse insensível.
"Quando você falou que o Dake falou tudo pro Boris . . . Você tem certeza ?" eu não conseguia acreditar porque . . . realmente estava considerando o Dake demais já.
Quem diria . . .
"Olha, foi o que o Boris falou. Ele falou bem assim: "Meu sobrinho disse que seu irmão e a Boreal fugiram" Acho que o Dakota é o único sobrinho né ?" Armin claramente ficou ainda mais irritado com a situação . . . Eu não conseguia acreditar . . . Alexy a essa altura começou a lixar as unhas.
Definitivamente precisava falar com o Dake.
Ao me apoiar no banco pensativa eu vi que tinha um caderno do meu lado.
No caderno tinha uma letra bem feia e escrituras em algo que parecia ser japonês.
"Armin. O que tá escrito aqui ?" Eu perguntava enquanto mostrava o caderno pra ele.
Armin pegou, olhou por uns segundos e gritou o Alexy enquanto jogava o caderno pra ele.
Alexy então olhou rápido e traduziu.
"É o endereço da Li. Esse caderno provavelmente é dela. Tá o nome todo dela aqui." Alexy falou jogando de volta pro Armin e voltando a lixar as unhas.
"P-Perai . . . Alexy sabe japonês ?" eu fiquei MUITO intrigada.
"Sim, eu sei, e daí ?" Alexy falou.
"Mas . . . Quem gosta dessas coisas é o Armin !" apontei pro Armin desesperada.
"É mais eu ainda tenho somente 24 horas por dia para aprender coisas. E sinceramente entre aprender japonês ou ciência da computação eu prefiro muito mais a segunda opção."
"E outra coisa fofa. É Chinês que tá escrito, não japonês." Alexy disse sorridente.
"Nossa . . . Perdi as contas." Alexy parecia pensativo.
"Ela perguntou língua falada e não quantas línguas você botou na boca seu animal." e como era de se esperar os dois começaram a se bater . . . Só me retirei . . . Não to com paciência.
Eu estava indo em direção a quadra procurando o Dake, precisava falar com ele.
Então na quadra vi o Lysandre, ele estava trocando de blusa no canto da quadra por conta do vestiário estar interditado. Colocaram um pequeno lugar com espelho pros meninos colocarem uma blusa de educação física por conta da pintura da quadra . . . Sim, estavam colocando eles pra pintar a quadra.
É engraçado ver ele todo vitoriano tirando a blusa no meio da quadra.
Decidi perguntar o paradeiro do Dake pra ele. . . Mas ao me aproximar reparei algo estranho.
"Lysandre . . . Porque você tem "Castiel" tatuado na lateral do peito . . . ?" eu perguntei olhando aquilo.
Lysandre pareceu espantado e parou na frente do espelho pra se olhar.
Ele só mandou um "Ah . . . "desanimado e ali eu entendi tudo . . .
"Eu também descobri que tenho uma . . . Você não está sozinho." falei rindo.
"Eu acho que todos que passaram pela vida do Castiel tem o nome dele tatuado" Lysandre apesar de tudo ria.
"De qualquer forma . . . Você viu o Dakota por aí Lys ?"
"Não vi ele o dia todo, desculpe não poder ajudar." Lysandre falou educadamente.
Antes que eu pudesse iniciar um novo assunto um professor veio até mim.
"Boreal ! Pode fazer um favor ? Precisamos de uns objetos no mercado mas estamos todos ocupados. Poderia ir lá comprar para nós ?" o professor então me passou todas as instruções e a lista antes que eu fosse.
Eu não tinha como dizer não afinal.
Eu então fui no mercado e fiz tudo que foi pedido.
Sequer me esforcei pra chamar o Armin, até porque ele estava discutindo com o Alexy ainda . . . Pois é.
Na volta para o colégio Dakota me puxou pra um beco perto do mercado.
"D-Dake ?! Que isso ??" Eu perguntei.
"Eu preciso falar com você antes que meu tio me encontre. Por favor, não conte pra ninguém. Sei que vai contar pro Armin, mas que só fique entre vocês dois. . . Vocês são as únicas pessoas em quem eu confio." Dake parecia sério. Ele realmente olhava pros lados.
"Meu tio sabe de tudo. Não sei o quanto ele sabe, mas ele me mandou vigiar você . . ." Quando o Dake falou isso eu fiquei meio chocada.
"C-Como assim . . . ? Você estava sendo falso comigo ?"
"Mais ou menos . . . Eu não sabia bem o que ele queria que eu descobrisse.
Ele só dizia que eu tinha que te vigiar e dizer tudo que você fazia.
Isso aconteceu depois que ele soube que eu tava interessando em você.
Eu evitava falar pra ele por medo . . . Sei lá, não queria que você sofresse algo nas mãos dele.
Então decidi vigiar você pra descobrir sozinho o que tinha por trás.
Armin me colocou nessa treta toda e eu meio que comecei a descobrir as coisas pra vocês.
Meu tio me forçava a passar todos os detalhes de nossas conversas e não aceitava que eu não tivesse informações novas.
Confesso que no inicio eu passei informações sobre vocês.
Inclusive . . . Eles colocaram escutas novas depois que souberam que o Armin tinha destruído as antigas. E inclusive ele chegou a falar que ia me fazer andar com uma escuta também . . . Por isso afastei vocês . . . " eu estava chocada em ouvir aquilo.
E pior que a postura do Dake estava totalmente diferente. Ele parecia maduro e assustado.
"Porque você não contou pra gente antes ??" eu estava histérica com o que o Dake estava falando.
"Eu não sei ! Eu . . . Eu acho que era medo.
Eu ainda tinha medo do que o Armin poderia fazer com meus segredos . . .
Mas eu realmente acabei considerando vocês meus amigos . . . E acho que é injusto eu esconder isso. Desculpa por ter escondido isso, desculpa por ter sido trairá e contado coisas pro meu tio ao seu respeito. Desculpa por considerar vocês meus amigos quando eu nem merecia isso . . . Quando você contar pro Armin ele provavelmente vai querer afastar você e ele de mim né ?
Olha . . .Só toma cuidado com todo mundo daquele colégio. Nenhum superior de lá presta.
Nenhum deles é de confiança.
Meu tio, a diretora, os faxineiros, TODO MUNDO.
Depois que conheci vocês e o Armin revelou seu segredo a as coisas do Castiel tudo ficou mais claro pra mim. Tem muita coisa paranormal rolando lá. Eu não aceitava isso, mas a essa altura é inevitável.
Mas fica tranquila, não falei que você é um alien apesar de achar que ele sabe . . . Ele me bateu bastante pra me fazer abrir a boca mas eu não contei."
Dake estava realmente contando tudo.
"Dake . . . Você parece nervoso . . . Esses roxos . . . Seu tio ?" Eu então toquei o rosto dele. Ele estava gelado e parecia em panico.
"É melhor eu ir . . . Antes que meu tio dê falta.
Se eu puder eu vou tentar falar mais depois, caso eu descubra . . . "
Eu e Dake ficamos em silêncio . . . Ele estava muito dedicado a me ajudar.
"Boa sorte . . . " eu falei antes dele ir.
Quando Dake estava saindo ele parou pra fazer uma pergunta um tanto estranha.
"Armin . . . Contou pra você meus segredos ?" seu olhar era melancólico.
"Se seus segredos são que vocês estão de forma ilegal no país, que sua mãe morreu no seu aniversario de 15 anos e seu pai foi preso . . . Sim ele contou." respondi.
". . . Foi tudo que ele falou . . . ?"
"S-Sim . . . Tem mais alguma coisa . . . ?" perguntei receosa.
". . . Pode perguntar pra ele . . . Pode falar pro Armin que eu permito que ele te conte tudo. Inclusive ele pode fazer o que quiser já que sou um traíra . . . " Dake sorriu e se retirou.
Mas era um sorriso triste . . . Muito melancólico . . .
Dake não estava nada bem . . . E parece que cada dia que passa ele está pior.
Eu voltei correndo pro colégio, precisava contar o que houve, minha conversa com o Dake pro Armin.
Assim que cheguei na porta . . . Tinha homens esguios engravatados com terno preto olhando em minha direção. Um era careca e o outro tinha um cabelo com corte baixo.
"C-Com licença . . ." tentei passar entre eles.
"Poderia nos acompanhar ?" um deles veio até mim tocando meu ombro.
"E-Eu . . . Tenho que entregar os materiais no ginásio com licença . . . " eu tentava passar por eles.
"Não é um pedido, é uma ordem Boreal." Eu não fazia ideia de quem eram esses homens, mas estava assustada.
Armin me viu de longe e ele e Alexy vieram correndo até mim.
"Boreal você demorou." Armin dizia naturalmente se aproximando, mas claramente desconfiado dos homens.
"E-Eu tive um imprevisto."
"E quem são esses homens ?" Alexy perguntou sério.
"O assunto não diz respeito a vocês." um dos homens respondeu.
"ESCUTA AQUI ! VOCÊ APARECE NA ESCOLA DO NADA E FICA RONDANDO A MINHA CUNHADA COMO SE FOSSE A ULTIMA BOLACHA DO PACOTE E AGORA VEM FALAR QUE NÃO ME DIZ RESPEITO ?? SEU CU ! VOCÊ PODE ABAIXANDO A CABEÇA PRA FALAR COMIGO SEU SLEENDERMAN DO PARAGUAI !" Alexy estava muito alterado já.
"Posso saber o que está acontecendo aqui ?" a diretora apareceu DO NADA.
"Bom dia. Gostaríamos de falar com a Boreal em particular." um dos homens mostrou uma identificação que deixava claro que eram de uma organização governamental . . . Eu já sabia o que aquilo significava e por impulso apertei o braço do Armin.
A diretora ajustou os óculos enquanto olhava a identificação.
"O que querem com a aluna do meu colégio ?" a diretora falou.
"É assunto governamental." a diretora e o homem ficaram se encarando um tempo antes que a diretora falasse algo.
"Você não tem nada pra resolver com ela. Parem de importunar meus alunos." a diretora então deu um pequeno tapinha colocando eu, Armin e Alexy pra dentro.
"Senhora, não queremos ser obrigados a usar força."
"Eu também não quero ser obrigada a usar força. Vou ter que falar com o superior de vocês de novo pra que parem de rondar MEU COLÉGIO ??" a diretora encarou eles e eles a encararam de volta.
"Crianças entrem. E senhores, me acompanhem ao meu escritório." a diretora deixou nós 3 pra trás enquanto entrava com os 2 homens que não paravam de me encarar.
A diretora me defendeu da organização . . . ?
Ela . . . Sabia da organização ???
O que está acontecendo . . . ?
Dake falou pra eu não confiar neles mas . . . Ela me defendeu . . .
Eu estava estática.
"OK . . . O que foi isso ?" Alexy perguntou abismado.
Armin encarava eles com raiva, e passamos o resto do dia cada um pensativo em seu canto. . . Em silêncio.
Ao fim do dia Armin dispensou o Alexy e disse que iria pra minha casa.
"Armin . . . Você está pensativo com a mesma coisa que eu não é ?" perguntei
"Provavelmente . . . " Armin continuou concentrado em seus próprios pensamentos.
Chegando em casa Charlie veio nos receber.
Armin brincava com o Charlie enquanto se sentava no sofá ainda pensativo.
"Armin querido veio visitar hoje é ?" minha mãe dizia ao reparar que o Armin estava na sala.
"Poderia me responder uma pergunta ?" ele não cumprimentou minha mãe, só perguntou direto isso.
"Claro . . . Nossa você parece sério. Aconteceu algo ?" minha mãe então se sentou na nossa frente.
"Porque colocou a Boreal em Sweet Amoris ?" Armin perguntou sem rodeios.
"Eu coloquei na Sweet Amoris porque ela recebeu um convite. A própria diretora convidou a Boreal pro colégio. Porque a pergunta ?"
Armin então me olhou com uma mistura de conflito e choque no olhar.
Aos poucos eu confesso que senti um arrepio na espinha . . . Era . . . Muito estranho.
Na ideia original de Opostos, durante a primeira gravidez de Daisy, Harry na verdade estaria servindo em outro país e perderia praticamente toda a gestação da esposa, inclusive o nascimento e o primeiro mês da filha. Abaixo, se encontra o que eu escrevi sobre como seria esse reencontro e a primeira vez que Harry viu sua menina dos olhos.
Enquanto ele estava no Afeganistão, Harry imaginou, sonhou, almejou aquele reencontro uma porção de vezes. E honestamente, ele nunca, nunca poderia imaginar que seria tão maravilhoso, que seria tão gratificante e emocionante.
Nem em seus mais profundos sonhos, ele imaginou que sentiria aquele sentimento inexplicável. Aquela avalanche sobre seus ombros – saudade, desespero, culpa, amor, alegria, agonia, e então mais amor, amor, amor.
Ele a escutou chorar, seus olhos a captaram descendo as escadas o mais rápido que podia e segurando um embrulho rosa nos braços... O embrulho que era sua filha. Sua filhinha. A bebê que ele perdera o nascimento.
- Ah eu não acredito que você está aqui... – Daisy, o amor de sua vida, disse em meio as lágrimas, diminuindo a velocidade de sua caminhada.
Harry aproveitou aquilo para ir até ela e abraça-la. Foi sentir o calor de seu corpo, o perfume de rosas brancas e morangos, a textura macia de seus fios cor de chocolate, que ele debulhou-se em lágrimas junto com ela.
Ele a deixou esconder o rosto em seu peito, porque ele escondeu-se no pescoço dela. Chorando, implorando-a perdão por ter a deixado passar por aquilo sozinha, por não ter voltado mais cedo, por não ter segurado a mão dela no nascimento do primeiro bebê deles...
- Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. – Ele dizia beijando o topo da cabeça dela. – Eu te amo demais... E eu sinto muito, eu sinto muito que tenha que ter sido dessa forma, me perdoe.
- Você está aqui, é o que importa. – Daisy disse com a voz trêmula e embargada pelo choro. – Meu Deus, você está aqui... Eu não acredito que você está aqui.
- Eu estou amor, eu estou.
Eles sabiam que havia plateia, sabiam que estavam sendo filmados, assistidos e também sabiam que haviam emocionado seus amigos, familiares que estavam assistindo tudo, contudo, não importava.
Ele se afastou dela pela primeira vez para beijá-la nos lábios e só então percebeu como sentira falta daquele simples ato. Ele amaldiçoou a si mesmo todas as vezes que não a beijou quando podia, que não disse que a amava, porque aquele longos seis meses longe dela, da coisa mais importante da sua vida, haviam sido a prova de que o mundo dele não seria mundo, se ela não estivesse presente.
Aliás, o mundo dele não seria mundo, se elas não estivessem presentes.
- Ei amor... Eu sou seu pai. – Disse sorrindo para a bebê de poucos fios ruivos na cabeça e olhos azuis. – Sim, é o papai...
- Olha Rose, é o papai... – Murmurou Daisy e sorriu para Harry. – Ele está de volta. Ele veio pra cuidar de você, pra te conhecer... – Ela então, voltou-se para ele novamente. – Você quer segurá-la?
- Você ainda pergunta? – Harry replicou causando uma risada nas pessoas que estavam assistindo tudo. Enquanto Daisy ajeitava Rose numa posição adequada, Harry olhou sobre o ombro e disse. – Ah vocês ainda estão aí!
Novamente risadas e uma exclamação de seu irmão ‘Onde mais deveríamos estar?’, mas Harry não os deu atenção. Deus que lhe perdoasse, ele sabia que se não fosse seus amigos e sua família, ele não seria o homem que era, mas justamente por ser aquele homem, ele era devoto naquele momento, apenas a duas garotas.
Segurar um filho nos braços, por mais clichê que pareça, é segurar seu mundo inteiro. É sentir seus órgãos chacoalharem, seu coração acelerar e seus olhos encherem de lágrimas porque nunca imaginou que pudesse ser tão feliz e pudesse fazer algo tão bonito como aquilo... Ou ao menos, era o que Harry sentia no momento.
Sua Rose... Sua princesa, sua amada, sua filhinha. Metade Daisy e metade ele.
- Ela é ruiva... – Comentou enquanto voltou a soluçar, em lágrimas.
- Sim, ela é! – Daisy riu com os olhos também cheios de lágrimas. – Ela é você em tudo, tudo mesmo...
- Se me permite... – Seu pai pronunciou-se pela primeira vez e Harry, virou-se, ainda com sua bebê nos braços para escutar e ver seu pai. – Ela é tão parecida com você Harry, mas tanto, que você devia se preocupar.
Outra onda de gargalhadas e Harry acompanhou-os, embora, honestamente, ele não estivesse preocupado. Sorrindo, ele aproximou seu rosto da cabecinha da bebê que o olhava meio acanhada, e beijou-a um monte de vezes.
- Rose Alexandra Francis. – Harry murmurou com um sorriso, olhando-a e pensando em como aquele nome era perfeito para sua princesinha, sua Rose, sua Rose. – Ela vai nos odiar quando for uma adolescente...
- Podemos nos preocupar com isso até lá. – Murmurou Daisy de volta e então ofegou. – Harry, ela está sorrindo pra você.
Ele percebeu que realmente, Rose estava sorrindo para ele, sua mãozinha se fechara em seu dedo indicador e Harry nem vira. Ela soltou um guincho gostoso e ele novamente a beijou, apertando-a contra seu peito.
Harry nunca foi um religioso de primeira e se fosse pra ser honesto, era um daqueles cristãos que só recorrem a Deus quando a coisa ficava difícil, mas naquele momento ele se sentiu tão abençoado e tão feliz que ele achou justo agradecer. Ele agradeceu por ter a oportunidade de voltar pra casa, por ter uma esposa maravilhosa, por ter uma filha, por ter família e amigos...
Se havia um Deus mesmo, então obrigado, obrigado, foi o que Harry disse mentalmente.
-x-
Durante aqueles seis meses ela até se esquecera do que era aquilo, Daisy refletiu, estar deitada nua, embaixo dos lençóis, sentindo os braços de Harry ao redor de seu corpo, depositando-a beijos, as mãos dele sentindo cada milímetro de seu corpo e ouvindo-o sussurrar coisas doces ou sujas no pé de sua orelha.
- Eu te amo tanto, tanto... – Ele dizia mordendo o lóbulo de sua orelha. – Meu Deus, parecia que ia ser pra sempre.
Daisy sorriu e não disse nada, apenas alisou-o no peito e o olhou nos olhos. Parecia difícil de acreditar ainda que ele estivesse ali.
- Eu sonhei com isso tantas vezes... Eu tive alucinações. – Ela murmurou. – Que tenho até medo de acordar com o choro da Rose.
- Não amor... Eu estou aqui. Estou aqui. – Disse ele com um sorriso e beijou-a nos lábios. – E eu não vou sair de perto de você tão logo.
- Ótimo. – Daisy disse com seriedade. – Eu... Eu não consigo fazer isso de novo, Haz. Eu não consigo.
Harry acenou com a cabeça compreensivamente e Daisy desviou o olhar, porque ela não queria dizer aquilo a ele, mas precisava. Se ela o olhasse não teria coragem e não podia simplesmente fracassar naquele momento, e até porque não se tratava apenas dela agora, se tratava de sua bebê!
- Foi um inferno Harry. – Disse num soluço. – E eu não posso fazer isso de novo... Eu não tenho estrutura emocional pra passar por isso, infelizmente. Eu posso aguentar muita coisa, mas não isso. Eu não posso aguentar a ideia de estar longe de você por seis meses, grávida e sabendo que você está correndo risco de vida...
- Eu estou bem. Eu estou aqui amor, por favor, não chore... Deus, eu nunca imaginei que te machucaria tanto dessa forma. – Harry disse coma voz abafada, pois sua boca estava ocupada em beijá-la e falar. – Houveram momentos que eu só queria sair correndo de lá e voltar pra você e pra Rose...
- Você tem que me prometer Harry, aqui e agora, que você nunca mais vai voltar pra lá. – Daisy fungou e balançou a cabeça negativamente. – Eu sou uma vadia por te pedir uma coisa dessas, eu sei que sou, mas...
- Não, de jeito nenhum. – Harry obrigou-a a encará-lo e então ele pronunciou as palavras que ela queria ouvir. – Eu nunca mais volto pra lá amor, nunca mais. Eu vou sair da ativa, vou treinar sargentos, vou fazer qualquer coisa, mas nada que vá me tirar de perto de você. Ouviu bem?
Daisy acenou com a cabeça e sentindo um peso fora de seus ombros, escondeu o rosto no peito nu, beijando as marcas que antigamente não costumavam estar lá. Ela ainda não havia comentado com ele, porque não sabia se Harry estaria pronto, mas ela notou as marcas, as cicatrizes.
Ele havia se machucado, havia acontecido algo com ele. Seu coração apertou só de imaginar alguém tentando machuca-lo e instintivamente, abraçou-o mais forte, dedilhando as marcas.
- Eu nunca corri tanto na minha vida, como corri nesse dia... – Murmurou Harry e ela franziu o cenho. Ele suspirou e colocou a mão sobre a dela, no lugar que havia uma das cicatrizes. – Fomos pegos de surpresa e... Não havia o que fazer. Estávamos despreparados, tivemos que correr.
Ela entendeu então e permaneceu olhando-o, esperando que Harry prosseguisse. Respirando profundamente, Harry arrastou a mão dela para seu ombro esquerdo e Daisy franziu o cenho ao sentir uma textura estranha e viu o que era a cicatriz de uma queimadura.
- Eu... Eu prefiro não te contar isso. – Ele franziu o cenho, evitando encará-la.
Levando a mão a boca, Daisy fechou os olhos fortemente, sabendo que se permanecessem abertos, ela iria chorar e se ela chorasse, Harry não iria mais contá-la. E ele precisava, por tudo o que era mais sagrado, se abrir com ela. Daisy havia perdido muitos de seus dias, apenas lendo sobre soldados que não eram os mesmos ao voltarem pra casa. Voltavam com eles sequelas e não só físicas, mas como também emocionais.
Depressão, agressividade, delírios, pesadelos... Daisy lera de tudo e sabia que era difícil e que o único remédio era oferecer um porto seguro e um ombro para desabafarem sempre que precisassem. E se Harry não desabafasse com ela, que era sua esposa, muito provavelmente não desabafaria com mais ninguém.
- Nesse dia eu fui pego de raspão... Foi só raspão de um tiro. – Ele disse, levando a mão dela as costelas. – E eu também fui pego de raspão por uma faca, está na minha coxa.
- Você... Você cuidou de tudo direitinho né? – Murmurou olhando-o pela primeira vez, quando finalmente tinha certeza que não voltaria a chorar.
- Sim. – Ele disse acenando com a cabeça. – Não teve nada sério, você não tem que se preocupar.
Daisy não tinha tanta certeza disso. Ela se sentou e passou as pernas, uma de cada lado da cintura de Harry e ficou ali, sabendo que ele estava na verdade olhando direto para ela e ela não retribuía, porque seus olhos vagavam pelas marcas deixadas. Em especial pela marca feita a fogo, que ele não queria lhe contar.
- Me conta dessa marca aqui... – Pediu tocando o ombro.
- Eu não quero. – Disse Harry acariciando sua coxa. – Não era nem para estarmos falando disso agora... Nós finalmente estamos juntos, estamos aqui. Não era pra eu estar falando disso com você...
- Você precisa falar disso comigo. – Corrigiu-o. – Você precisa. Porque eu não posso te perder apenas em campo de batalha, eu posso te perder aqui também e você sabe! Sabe que precisa se abrir comigo e está teimando.
- Eu não estou... Eu estava te contando.
- Não me poupe Harry. – Pediu num suspiro cansado.
- Você merece ser poupada... – Ele insistiu rindo sem humor. – Eu fiz sua vida um inferno... Nossa filha nasceu prematura por minha causa, eu não estava aqui no nascimento, você passou dias louca porque achou que algo ruim tivesse acontecido. Você merece ser poupada.
- Eu mereço saber o que fizeram com meu marido. – Tornou a corrigi-lo. – E é melhor você desembuchar...
Com um suspiro, ela viu Harry fechar os olhos e tocar suas coxas. Ele estava refletindo, Daisy sabia, provavelmente pensando na forma mais verdadeira – porém mais branda – para conta-la sobre o que levara àquela marca que ficaria nele para sempre.
- Meu helicóptero foi atingido. – Explicou. – Eu consegui fazer um pouso de emergência, mas foi por pouco...
Engolindo em seco, acenou com a cabeça e então deitou-se, sentindo os braços enlaçarem sua cintura e ela beijou a cicatriz uma porção de vezes, antes de então direcionar a boca para seus lábios.
E eles ficaram naquilo, até que então Harry deitou-a na cama, subindo sobre ela. Ele iria amá-la novamente.
-x-
Click!
Harry sorriu ao ver que o barulho da câmera de seu iPhone não tirou a atenção de sua esposa, daquele momento mais doce e incrível do mundo. Ele nunca imaginou que fosse tão bonito ver Daisy amamentando sua filha.
A primeira coisa incrível era como Daisy simplesmente batera o pé e dissera ‘eu vou amamentar minha filha’ ao invés de ir direto para os convencionais leites em pó para bebês. A maior parte das mulheres, nos últimos tempos, optou por livrar daquele “problema” que era amamentar – uma mera questão de estética – e sua esposa não, ela quis amamentar Rose.
Era um momento de conexão profunda, Harry percebeu, porque tanto quanto ele não tinha a atenção de Daisy, também não tinha a atenção de sua filha. Elas olhavam diretamente para a outra; a mãozinha de Rose apertando o dedo de sua mamãe e sua boquinha ágil sugando gulosamente o bico do seio.
Ainda deitado na cama, suspirou, tirando outra foto. Ele provavelmente apagaria mais tarde, porque sua esposa estava nua, com o cabelo bagunçado e amamentando sua filha, mas ele queria congelar aquele momento por alguns instantes, para olhar fixamente quando tivesse vontade.
Ela fazia aquilo tão bem, percebeu, ser mãe era natural para Daisy. Ela era perfeita naquilo! Tão carinhosa, tão prática... Ele era suspeito pra falar porque era tão cegamente apaixonado por aquela mulher que até se ela estivesse virando Rose de cabeça pra baixo naquele momento, dizendo que fazia bem para a circulação sanguínea, Harry confiaria nela de olhos fechados, mas não era coisa de sua cabeça... Não, não era. Ele havia acertado na mãe de seus filhos! Porque depois de Rose viriam outros é claro...
- Que horas são amor? – Perguntou Daisy num murmúrio baixo.
- Quase quatro, 3h55min p.m.
Acenando com a cabeça, ela pegou a fraldinha de boca que tinha escrito em bordados ‘Rose’ e limpou a boquinha da filha. Harry deu-se conta de que Rose terminara de mamar e logo sentou-se.
- Será que eu posso coloca-la pra arrotar? – Pediu ansioso.
- Por que não? – Daisy sorriu e então aproximou-se com dificuldade e passou a bebê para seus braços, extremamente cuidadosa e murmurando coisas doces. – Olha amor, é o papai. Vai te colocar pra arrotar...
Harry sorriu e ficou apenas ali com Rose nos braços e ainda a olhando. Ele nunca se cansaria de olhar para ela, supôs. Era lindamente parecida com ele, aquilo era incontestável!
- Eu estou meio perdido. – Disse honestamente. – Eu nunca fiz isso.
- Ah querido. – Sorriu Daisy carinhosa. – Apoie as costas dela em sua mão direita e segure-a pelo bumbum com a esquerda, é só ir dando tapinhas bem leves. Ela arrota rápido.
Ele perdeu a gravidez, ele perdeu as consultas, ele perdeu o primeiro chute, perdeu o nascimento. Perdeu também os primeiros dias, ou melhor, o primeiro mês, mas ele estava disposto a recompensá-las – Daisy e Rose – sendo o melhor pai do mundo – ou o melhor pai que podia ser.
Eles então se deitaram com Rose, colocando no meio da cama, entre eles. Rose, em todo momento olhou para ele, para sua grande satisfação. Ela olhava para ele, curiosa, com aqueles olhos lindos que ele sabia que não seriam iguais aos dele por muito tempo e sim iguais aos de sua mamãe, Daisy.
Harry deixou que ela apertasse seu dedo indicador e ele ainda estava a namorando com os olhos e um sorriso bobo, quando ela guinchou e chorou um pouquinho. Procurou Daisy com os olhos e a viu suspirar e levar a mão até a barriguinha de Rose.
- Qual o problema? – Replicou pateticamente nervoso e preocupado.
- Ela está com cólica. – Sorriu Daisy. – Por isso perguntei as horas, sua filha é um reloginho Coronel Sussex.
- Ótimo. – Murmurou e a beijou na testa. – Assim como sua mãe... Seu papai sempre se atrapalha com horários. Shhh shhh já vai passar...
Ela chorou mais alto e Harry viu seu pequeno e frágil corpo se contorcer. Rose segurava seu indicador fortemente, enquanto seu rosto ficava cada vez mais avermelhado. Daisy o tempo todo, manteve-se fazendo massagem em sua região intestino e estomacal.
Era uma merda! Não o choro, mas o fato de não poder tirar a dor dela, o fato de saber que não podia dá-la um remédio, que ela simplesmente teria que aguentar e pronto. Beijou a mãozinha delicada e pequena, aproximando-se mais, tentando fazê-la se sentir melhor, tentando de alguma forma se fazer útil num momento em que ele não podia ser mais inválido.
- Coloque-a em seu peito. – Daisy disse enquanto sorria. – Coloque-a de barriga pra baixo sobre seu peito, sempre a ajuda.
Ele assim o fez. Colocou-a sobre seu peito e tocou suas costas, ainda sussurrando para Rose, numa tentativa de acalmá-la. O choro dela não era desesperado e doloroso, mas ainda assim, era um lembrete de que ela estava sentindo dor.
Ele apertou-a contra si, beijou sua testa e inalou o cheiro de bebê que vinha dela. Ele perguntou a si mesmo se no futuro ela também cheiraria a rosas brancas e morangos como Daisy... Ele supunha que não.
Ele imaginou que ela seria única e não apenas por causa de seu nome nem um pouco usual, mas porque também previa com um futuro maravilhoso para Rose. Previa-a todas as maravilhas que a vida podia oferecer, toda a prosperidade! Ela seria uma grande Princesa, Harry tinha certeza.
Eu e o Matt ficamos em silêncio um tempão, só olhando o mar ir e vir, ir e vir, ir e vir, ir e vir, ir e vir, ir e v...
Matt: To ficando zonzo.
Eu: Como sempre, tu lendo meus pensamentos.
Dei um gole na cerveja. A gente parecia dois fazendeiros caipiras admirando a plantação, sem porra nenhuma pra fazer. Aqueles minutos tediosos, em que eu não tinha absolutamente nada pra pensar ou me preocupar, eram como tesouro um tempo atrás. Eu daria a bunda (do Fred) por um pouco de sossego. E, agora que eu to mais do que sossegado, to querendo me matar de tanto tédio. Por que a gente nunca tá feliz o bastante? Eu, pelo menos, nunca to.
Eu: Velho, me dá um tapa na cara, faz uma piada, confessa que tu é gay, sei lá. Isso aqui tá um tédio.
Matt: Pior que todo mundo parece tão feliz. - ele olhou em volta. - Acho que a gente é que não sabe aproveitar a praia.
Eu: Não é muito a nossa cara. Acho. - abri minha mão branca em frente ao meu rosto. Com certeza não é muito a minha cara pálida.
Matt: Acho que é questão de costume.
Eu: Acho que é questão de tá um saco isso aqui.
Matt: Acho que a gente tá cansado da viagem.
Eu: Aqui é bonito, tem umas gurias bonitas, cerveja gelada, mas pff. Isso me animou, mas não durou muito tempo.
Matt: É.
Sem nada pra fazer. E agora, sem assunto.
Fiquei brincando de enfiar o pé na areia, olhei umas gurias passando, até comecei a me incomodar menos com o sol. Mas a agonia entediante continuava. Acho que eu não sirvo pra ficar quieto. Tive a sensação de que ouvi a risada alta do Fred lá no fundo, mas acho que foi uma brisa. Ouço tanto a risada dele que aquilo fica na minha cabeça mesmo quando ele tá longe. Ouvi de novo. De novo. Ouvi tantas vezes que fui obrigado a olhar pra trás.
Matt: É o Fred naquela camionete?
Eu: Aquela cheia de guria em cima?
Se era o Fred ainda não dava pra saber, mas já era de se imaginar pelo jeito como o cara tava dirigindo a Hilux. Manobrou até sair da rua, atravessar a calçada e vir na direção da praia. Até um macaco bêbado dirige melhor que isso. As gurias sentadas atrás gritavam e riam a cada curva.
Matt: O que ele tá fazendo?
Eu: Merda.
Dava pra ver que a intenção dele era vir até a areia. Tive certeza de que era o Fred quando ele colocou a cabeça pra fora e gritou:
Fred: THOM, MATT, SUAS BICHAS!
Escondi minha cara atrás da latinha de cerveja tentando imaginar que droga esse imbecil tomou que nem ofereceu pra gente. Parei de olhar o que ele tava fazendo pra não ter um surto, mas continuei ouvindo os gritos das gurias na camionete e de algumas pessoas reclamando.
!: QUE ISSO?!
!: EI, GAROTO! Tu não pode vir aqui com o carro!
!: POLÍCIA, POLÍCIA!!!
Pelo menos a gente não pode mais dizer que a praia tá um tédio...
Depois que ouvi os caras chamando a polícia, percebi que era hora de fazer alguma coisa. O Matt costuma ser o mais sensato, mas agora tava mais pra lesado, então sobrou pra mim. Me levantei da cadeira já gritando com o Fred:
Eu: PERDEU A CABEÇA, SEU IMBEC...
Calei a boca quando vi aquele monte de cerveja na caçamba da camionete. Sou tão alcoólatra que, mesmo depois de ter visto um monte de gurias penduradas no carro, só achei realmente legal quando me toquei das cervejas.
Fred: Trouxe umas cervejinhas. HAHAHA!
Ele parou a camionete bem na nossa frente, na parte da areia mais próxima do mar, e desceu com um beck na mão, morrendo de rir. Eu só consegui rir de volta. Até o Matt cedeu.
Matt: Pff... Hahahahahahaha!
Eu: Hahaha! Seu LOUCO! Onde tu arranjou isso?
Fred: É do dono do bar. - ele me deu a chave do carro e soltou a fumaça do beck. - Perguntei se ele me emprestava se eu comprasse cerveja pra caralho.
Eu: E essas meninas?
Fred: PFFF!
Nem sei por que eu perguntei. É óbvio que tem menina que vem praticamente de brinde quando tu paga de rico nos lugares. É só reparar nessas festas, quando o cara paga pra ficar no camarote, por mais escroto que ele seja, brota guria do chão querendo ser melhor amiga dele. Ou mais que isso.
O pessoal da praia continuou reclamando e achando um absurdo o Fred parar com o carro na areia. Ele pegou uma cerveja, jogou no colo do Matt e gritou:
Fred: CERVEJA LIBERADA PRA TODO MUNDO AEEEEE!!!
Do nada, todo mundo parou de reclamar, se entreolhou e começou a rir. Aham, "do nada." Depois que o primeiro cara apareceu pra pegar uma latinha, surgiram mais milhares. O Fred ligou a música BEM alto no som da Hilux. Agora sim isso aqui vai começar a ficar animado.
Eu: Caralho, Fred. Tá de parabéns. Valeu por animar isso aqui.
Fred: Eu que agradeço! Paguei com teu cartão.
Disse isso e saiu andando. Ele tá com essa mania ultimamente.
Olhei pro Matt, que continuava sentado na cadeira, agora tomando uma cervejinha. Dei um chute na cadeira dele pelos velhos tempos.
Eu: Levanta daí, quatro olhos!
Ele ficou me encarando, quieto. Depois riu e brincou de volta:
Matt: Falou aí, Vinão. Hahaha!
Ri de volta e nos lembramos do quanto o Vinão era idiota e não acreditaria no quanto a gente tava se divertindo nesse momento. Na moral, se há dois anos atrás alguém me dissesse que hoje eu estaria na praia numa situação dessas, eu também não acreditaria. Enquanto a gente conversava, o Matt bolou um beck dos bons.
Depois de umas cervejinhas e umas bolinhas de beck, eu já tava dançando aquele som frenético. E o Matt, tava até cantando. O Fred que era mais esperto que a gente tava conversando com umas cinco gurias ao mesmo tempo próximo da camionete.
Eu: Turn up the music oOOOooOOooOOhhh...
Matt: OOOOOOOOOH!
O Carlão apareceu atrás do Matt com a roupa toda molhada de água do mar. Nem se explicou nem nada, só começou a dançar junto com a gente.
Eu: Aê, Carlããão! Seu loucããão! HAHAHAH!
Matt: HAHAHAHAHAHA!
Carlão: Caralho, Thom. Tu tá passadão.
Matt: Aê, Thããão. Tu tá passadão.
Eu: HAAAAAHAHAHAHA!
Deitei na areia quente pra dar risada. Beleza, to muito louco. Quando abri os olhos, vi os peitos de uma guria morena. Não porque eu sou um tarado, mas porque ela tava em pé bem perto de mim e foi a primeira coisa que eu vi, deitado. Me levantei e percebi que ela tava conversando com o Matt.
Guria: Posso dar um pega?
Ela perguntou se podia dar um pega no beck, e não no Matt, claro. Era uma menina típica caiçara. Bem morena de pele, magrinha, cabelo escuro com as pontas mais claras preso de um jeito desleixado, usando um vestido largo que dava pra ver todo o biquíni. Nem sei porque ela tava usando.
Quando me levantei, o Matt já tinha dado o beck pra ela dar um "pega". Percebi os olhos bem verdes quando ela puxou. Acho que é uma das gurias mais bonitas que eu já vi na vida. Sei lá, ela é exótica, parece uma Barbie da praia. Eu gosto. Ela soltou a fumaça, sorriu pro Matt e saiu andando.
Eu: Minha noss...
Fred: Quem era essa aí?
O Fred brota da terra nessas horas. No caso, brota da areia.
Eu: Eu não s...
Fred: Vocês são lentos demais, puta merda. UMA CAIPIRINHA, POR FAVOR!
Fiquei olhando pra cara do Matt enquanto o Fred saía pra falar com um cara do quiosque que tinha vendido as cervejas pra gente.
Olhei em volta e, pelo visto, a gente tinha acabado de começar uma festa na praia. E open bar ainda por cima, financiado pelo Z Club. Falando nisso, preciso dar um jeito de vender essas caralhas pra essa ser só a primeira de muitas festas. Só não sei como.
O Matt e o Carlão ficaram filosofando, mas depois de um tempo e algumas cervejas, nada mais fazia sentido. Fiquei pensando no que fazer pra me livrar daquele monte de Crystal que me mandaram e voltar como um herói, mas meus pensamentos foram interrompidos pelo meu celular tocando. Quando vi "número desconhecido", só queria que não fosse o Digo.
Eu: Alô?
Gab: Thom? É o Gabriel.
Eu: Fala, garoto.
Gab: Onde tu tá? Que barulheira!
Eu: To na praia. Numa festa na praia, eu acho. - olhei em volta de novo.
Gab: Orra! Tu volta semana que vem?
Eu: Volto domingo já. Por quê?
Gab: Vou fazer aniversário na semana que vem, e queria te convidar.
Parece idiota, mas aquilo me deu uma felicidade momentânea tão grande que eu nem sabia o que dizer.
Gab: Thom?
Eu: Oi! Valeu por convidar...
Gab: Mas tu vem?
Eu: Claro.
Gab: Aê! Chama o Fred, o Matt, o Luc e todo mundo também. Já falei com o Luc mas ele tava meio esquisito então acho que ele pode esquecer.
Esquisito = fumado até os últimos fios da sua cabeça careca.
Eu: Pode deixar.
Gab: Ei, Thom, posso te contar uma coisa muito estranha?
Eu: Pode, eu acho.
Gab: Lembra daqueles caras da minha escola? O Fabrício e o Heth.
Ô, se me lembro. E eles devem se lembrar mais ainda de mim e dos caras depois do susto que a gente deu neles.
Eu: Ahn...
Gab: Eles que me deram a ideia de fazer a festa, tu acredita? De repente os caras me adoram, até pagam meu lanche e me chamam pra sair. Queria saber o que eu fiz.
Eu: É que tu é muito gente boa. Eles só demoraram um pouco pra descobrir.
Gab: É, acho que sim. Te vejo na semana que vem então. Ah! Tu me ajuda com a festa?
Eu: Eu não sou muito bom, mas o Fred é o melhor cara que conheço pra isso. Ele ajuda.
Gab: Valeu mesmo! Até! Falou!
Eu: Falou.
O jeito afobado do Gabriel me dá vontade de rir. Mas o mais engraçado de toda aquela conversa com certeza foi o fato de os dois idiotas estarem puxando o saco dele agora. E pior que acho que, no fim, eles realmente viram como o Gab é gente fina. Não tem como tu não gostar de um garoto sem maldade tipo ele. Ele é legal com toda a sinceridade possível. Já entrou pra minha lista de melhores pessoas do mundo junto com o Luc e o Matt. Fiquei feliz de verdade por ele ter me chamado pro aniversário dele.
Carlão: Que cara de paisagem é essa?
Eu: Meu irmão me ligou.
Começou a tocar uma música muito louca e eu olhei na direção do carro pra ver quem tava comandando o som. Pra minha surpresa, era o Matt. O surpreendente não era o Matt mudando de música, mas o Matt em pé na caçamba da camionete chacoalhando os braços pra todos os lados, sozinho.
Eu: Que foi que tu deu pra ele?
Carlão: Maconha com ketamina. - ele sorriu com os dentes amarelos de cigarro no meio do bigode loiro.
Eu: Caralho, Carlão. Tu não brinca em serviço.
Carlão: Tava achando o Matt meio caído. Tá afim?
Ele me ofereceu o beck adulterado. Encarei aquele charuto, dei de ombros. Por que não? Dei um pega dos fortes, daqueles que tu até fecha o olho pra sentir o efeito passando pelas tuas veias. É hoje.
Eu ainda não tava louco o bastante, mas tava achando muito engraçado o Matt dançando na caçamba. Dei mais um pega, devolvei o beck pro Carlão e corri pra camionete. Foi meio difícil subir na caçamba com toda a minha leseira, mas uma mão me empurrou lá pra dentro. Agradeci, fosse lá quem fosse.
Eu: AEEE, MATT!
Matt: Uuuuuuuuuhh!
Antes a caçamba tava cheia de cerveja, mas depois de tanta gente ter aparecido pra pegar uma latinha, só restavam algumas no chão sujo de gelo. Eu e o Matt ficamos pulando de um lado pro outro pensando que estivesse no ritmo da música, tão lesados que a gente nem sentia a dor da água gelada nos pés. Fiquei cantando uma música que nunca ouvi na vida como se todo mundo da tal festa improvisada fosse platéia do meu show ridículo.
Numa dessas, vi o Fred ao fundo conversando com a caiçara bonita. Ela tava segurando a caipirinha que ele tinha pedido pro cara do quiosque tempos atrás. Quem perde tempo sou eu, o Fred já tá lá longe quando tu tá pensando em agir.
Eu acenava e jogava cerveja nas pessoas, e o pior era que a maioria curtia ou achava engraçado. Eu disse "maioria", nem todo mundo. Mas quem não gosta, que se foda.
Eu: Não curtiu? Vaaaazaaaa da minha festa!
!: Eeeei, é tua essa festa? - uma menina perguntou da areia.
Eu: Éééééé!
Era uma guria loira de cabelo enrolado, bem bonitinha por sinal. Não tem menina feia por aqui? Acho que as menos perfeitas se escondem em casa pra não morrerem de desgosto do lado de tanta guria bonita de biquíni.
!: E quem é tu? Nunca te vi aqui. - ela se apoiou na caçamba.
Eu: Sou o Thom, traficante do Z Cl...
Carlão: POR QUE TU NÃO SOBE TAMBÉM, GRACINHA?
O Carlão surgiu do nada, empurrando a guria loira pra cima da caçamba. Depois me olhou feio e jogou mais uma latinha pra mim. Acho que era pra eu manter a boca ocupada. Só depois de um tempo percebi a merda que quase fiz. Ainda bem que o Matt não ouviu. A guria provavelmente ouviu, mas ela não parecia estar ligando muito. Depois que ela subiu, outras quatro meninas vieram atrás.
Não sei por quanto tempo fiquei pulando ali em cima. Tempo suficiente pra Alícia voltar de onde ela quer que fosse. Fiquei moscando uns cinco segundos, parado, olhando pra ela. Parecia mentira que a gente tava tão perto. Parecia um sonho. Virei minha cabeça pra olhar pro Matt, e o mundo me acompanhou, lento... Eu to bêbado pra caralho. Pulei da caçamba, larguei o Matt lá e fui andando na direção da Alícia, que tava embaixo do nosso guarda sol, conversando com umas meninas. Quando ela me viu, cruzou os braços e fingiu estar brava, de brincadeira. Percebi isso porque ela riu depois.
!: Tu que é o Fred?
Uma guria que eu não enxerguei falou comigo no meio do caminho.
Eu: Quê? - entortei toda a cara.
Continuei andando, mas ela me obrigou a parar quando pulou na minha frente.
!: Pergunta pro Thomaz se a gente pode chamar mais gente!
Eu: Chamar mais... O quê? Eu sou o Thomaz.
!: Tu é o Thomaz?! - ela arregalou os olhos, e gritou pra praia toda. - GENTE, O THOMAZ É ELE!
Minha paciência pra menina desconhecida é bêbada é tipo zero. Ainda mais quando eu mal consigo enxergar pra ver se é bonitinha. Deixei-a falando sozinha e continuei na direção da Alícia, que parecia meio curiosa pra saber o que a guria tinha falado comigo. Ela parecia mais interessada do que eu.
Quando eu tava chegando perto da Alícia, outras duas meninas apareceram na minha frente falando nada com nada. Até um maluco surgiu do além querendo apertar minha mão. Eu já sou antipático normalmente, e tudo só fica pior quando eu mal consigo ver as pessoas com quem eu to conversando. Ou que tão querendo conversar comigo.
!: Thomaz! Posso chamar uns amigos pra colar aqui?
!: Ei, Thomaz! Eu sou DJ. Vamo colocar um dubstep pra tocar?
!: Festa muito louca, velho!
Eu: Velho...
!: Tu conhece as gêmeas?
!: Em que hotel vocês vão ficar?
Eu: Mano, dá licença!
Tinha tanto idiota tentando fazer social comigo que eu perdi a Alícia de vista. E, quando finalmente consegui espantar todo mundo, ela tinha sumido. Respirei fundo e cheguei até o guarda sol. Olhei em volta, e nada dela. A única conhecida por ali era a Mari. Ela tava sentada numa canga na areia, tomando caipirinha.
Eu: Cadê a Alícia?
Ela deu de ombros. Era mais fácil perguntar pra qualquer idiota. A Mari nunca vai me ajudar. Voltei pra parte da areia onde as pessoas vinham falar comigo e, antes que alguém me fizesse qualquer pergunta idiota tipo aquelas, perguntei:
Eu: Alguém sabe onde tá a Alícia?
!: Tu conhece a Alícia?!
!: Tu vai ficar na república da Alícia e da Mari?
!: Pergunta pra Mari.
Todo mundo é louco assim mesmo nessas cidades com praia? Ou o Fred comprou cerveja com anfetamina? Que caralho.
Mari: EI, THOMAZ!
Quando me virei pra olhá-la, ela apontou com a cabeça pro quiosque onde o Fred tinha comprado as cervejas da caçamba. Será que ela tá me odiando um pouco menos? Não tive tempo de agradecer, porque queria encontrar a Alícia logo. Vim aqui pra vê-la e, até agora, a gente não aproveitou nada.
Assim que subi no deck, que tava fervendo meus pés, pude vê-la sentada em um dos bancos do bar do quiosque. Cheguei devagar e me sentei no banco vazio do lado dela. Quando me viu, ela abriu um sorriso tímido.
Alícia: Gostou da praia?
Eu: É. - revirei os olhos. - As pessoas são meio loucas.
Com a minha sensibilidade negativa, demorou um pouco pra eu perceber que aquele sorriso não era de timidez. Ela não me parecia muito feliz.
Eu: O que foi?
Alícia: Nada.
Eu: Vai ter que se esforçar mais pra te esquivar. O Fred já me falou do dicionário das meninas.
Alícia: Como assim?
Eu: Tu sabe. Quando vocês dizem que não é "nada", estão mentindo.
Ela ficou me encarando. Olhou cada parte do meu rosto antes de responder.
Alícia: Vai usar as táticas dele com as meninas daqui também?
Eu: Meninas?
Alícia: Tu sabe. Quando vocês usam essas táticas.
Dessa vez fui eu que demorei pra responder. Não porque eu tava pensando no que falar, mas porque tava tentando entender o que ela tinha falado.
Alícia: Que foi?
Eu: Nada.
Ela sorriu. Isso é uma armadilha ou o quê? Ela tá esperando eu morder a isca pra me mandar pro inferno? O que eu tenho que falar? Será que eu falo alguma coisa ou fico quieto? Posso ficar encarando ela desse jeito? Qualquer mínimo detalhe pode ser um insulto ou um elogio pra uma menina. Eu nunca sei o que fazer nessas horas. O jeito é ser sincero.
Eu: O que é pra eu falar?
Ela fechou a cara. Pena que nem sempre funciona.
Eu: Eu queria te pedir desculpas, ou ficar chateado tipo tu, mas eu não to entendendo nada.
Alícia: Aquela menina. Da caçamba.
Menina da caçamba? Demorei pra responder de novo, até me lembrar de qualquer uma das gurias que subiu na caçamba depois de mim e do Matt.
Eu: O que tem?
Alícia: Nada aconteceu? - ela me olhou nos olhos, meio preocupada.
QUÊ? Eu nunca sei se as meninas são complicadas demais ou se sou eu que não entendo nada. Ela tava pensando que eu fiquei com a menina, por menos sentido que isso faça.
Eu: Sério que tu tá me perguntando isso?
Alícia: Desculpa, mas eu...
Eu: Tipo, SÉRIO? Eu fico umas 12 horas trancado no carro cheirando o vômito do Matt e ouvindo as asneiras do Fred pra te ver, e tu me pergunta se eu peguei a primeira menina que apareceu na minha frente?
Alícia: Thom, eu não sei, a gente não combinou nada. Eu não sabia que tu vinha, não sei se tu veio pra ficar comigo, se tá a fim de curtir... Eu não posso te proibir de nada, a gente não namora mais.
Eu: Não é porque a gente terminou que eu virei um idiota, cara. Eu nunca viria pra cá pra ficar na tua casa e beijar outra guria na tua frente. Pra começar, eu não viria pra cá!
Alícia: Eu sei. Deixa eu explicar o meu lado. Tu apareceu sem me avisar, me deu um beijo, pareceu feliz em me ver, mas não ficamos muito juntos. Aí saí pra dar uma volta com a Mari e falar de ti pra ela, explicar que...
Eu: Ela me odeia, né?
Alícia: Um pouco. Eu queria conversar com pra dizer que, apesar de tudo, eu gosto muito de ti e tu me faz muito bem. E mesmo que eu vá ficar arrasada quando tu for embora, eu quero aproveitar esse tempo contigo.
Eu: Eu também quero.
Alícia: E quando eu volto, pensando em ficar contigo, o guarda sol onde vocês tavam sentados já virou uma festa pra praia inteira, o Fred tá sendo o Fred, e tu e o Matt tão dançando com dez gurias em cima de uma caçamba cheia de cerveja. Eu não sei o que pensar.
Eu: Não pensa em nada. Não aconteceu nada. Tu conhece o Matt e o Fred, principalmente o Fred. Demorou até demais pra começarem uma festa...
Alícia: Quando vi aquilo, imaginei que tu veio pra curtir e pronto. Conseguiu o carro do teu chefe e veio passar o fim de semana na praia. Como eu tenho casa aqui, tu veio me ver.
Claro, o carro simplesmente caiu no meu colo. Não precisei quase morrer umas dez vezes na mão do Rod, nem conseguir a confiança do Doctor, nem sair em pé de guerra com o cara mais popular da faculdade, nem fazer o impossível pra vender um monte de Crystal, nem desmentir o puto do Felipe, nem nada.
Eu: Se tu soubesse de metade da história... - comecei a rir.
Alícia: Eu não sei, Thom.
Eu: Eu poderia ter ido pra Europa, se quisesse, conhecer todos os parentes esquisitos do Fred. Poderia ter ido pra Marte, acredite. E o primeiro lugar que eu pensei em vir foi pra cá. Pra curtir a praia? Eu nem sabia que tinha praia aqui. Nem de praia eu gosto! Vim aqui pra ficar contigo.
Ela olhou pra baixo e colocou o cabelo atrás da orelha.
Eu: Na moral, essa Mari me odeia por um motivo que eu nem sei qual é e fica enchendo tua cabeça de merda. Não ouve o que ela diz.
Alícia: Hahaha.
Ela riu. Não fodi tudo por pouco.
Alícia: Eu não tiro a razão dela. Ela já me viu ficar deprimida por dias, chorar em todos os travesseiros da casa e não querer papo com garoto nenhum por tua causa. E me deu todos os conselhos possíveis pra me deixar melhor.
É. Acho que, se o Matt ficasse malzasso por causa de qualquer guria que fosse, eu iria detestá-la até os últimos dias.
Alícia: Ela não te conhece. Pensa nisso.
A gente tá aqui discutindo tempo suficiente pra eu ficar com fome e eu ainda não dei um beijo nela sequer. Me inclinei no balcão e larguei de ser idiota. Roubei um beijo dela.
Eu: Nunca que eu iria te trocar por qualquer guria daqui.
Fiz carinho no rosto dela, que sorriu e me abraçou. Enquanto nos abraçávamos, vi as costas lisinhas e bronzeadas dela, por onde passava só um fio do biquíni.
Eu: Tu é minha caiçarinha preferida.
Alícia: Hahahahaha! Vai pro inferno! - ela me deu um tapa no ombro.
Eu: Tá até morena, cara. Tu mudou pra cá pra ficar o tempo todo na praia, não mente.
Alícia: Tu que é branquelo demais! Hahaha!
Depois de ficar zoando que ela já tava até com sardas de tanto tomar sol, mordi o nariz dela e levei um tapa no outro braço. Tem gente que pode até achar estranho, mas é assim que a gente se diverte. Acho que, acima de tudo, namorados devem ser amigos. Namorados?