Capítulo 136 - Os Estranhos.
OSe eu ficasse mais meio segundo parado naquele lugar esperando alguma coisa acontecer, desistiria de subir morro a cima. Era um caminho muito longo, íngreme e difícil de percorrer. Eu sabia que ia levar uns mil capotes até chegar na estrada de terra, porque tava bêbado, cansado, machucado e só tinha a luz (fraca) da lua iluminando o lugar. Então não pensamos muito e começamos a subir.
Em cada passo que eu dava, eu sentia uma parte do meu corpo doer. Às vezes era o joelho, às vezes era a costela, ou mesmo meus dedos dos pés. Uma hora até minha gengiva sentiu uma pontada aguda de dor. Aquilo só me deu ainda mais raiva do Fred, ele tinha me batido pra valer. E eu nem sei se consegui bater tanto nele de volta. Olhei pro lado pra saber se ele tava mancando ou coisa parecida, e fiquei feliz quando vi um pingo de sangue seco no canto da boca dele.
Nada, palhaço. Só não falei isso alto porque não tava em condições de apanhar de novo.
Quando já estávamos na metade da ladeira, o Matt pisou em falso com o pé que tava descalço, escorregou alguns metros pra baixo e apoiou as mãos no chão pra não cair de cara. Levei um susto com a cena.
Ele tirou as mãos sujas de terra do chão devagar e esfregou na calça contra sua vontade. O Matt sempre foi muito cuidadoso com as roupas dele. Ele tem as mesmas há anos.
Fred: Liga a lanterna do celular pra ir iluminando o caminho.
Matt: Que bom que tu teve essa ideia agora.
Quando até o Matt começa a dar respostas atravessadas, é porque a parada tá realmente tensa. E tava. Eu não aguentava mais subir aquela porra. Nunca fui um cara muito ativo, sou fraco e ainda sou fumante. Minha energia é usada exclusivamente pra sobreviver: respirar, manter meus órgãos funcionando, andar alguns passos por dia e me recuperar de ressacas de vez em quando. Não tenho reserva suficiente pra subir uma porra de uma montanha de terra no escuro. Senti uma gota de suor escorrer pelo canto do meu rosto enquanto segurava num tronco de árvore pra não cair, seguindo a lanterna do celular do Matt apontada pro chão.
A gente tava tão cansado e se esforçando tanto que mal conversava. Toda a nossa atenção estava voltada a não rolar muro a baixo até o Fred puxar um assunto.
Fred: Pensem assim: esse não foi um rolê perdido.
Lá vem ele com as divagações otimistas em momentos totalmente errados. Eu sou muito contra tu ser otimista o tempo todo e ver o lado bom de todas as merdas que acontecem. De vez em quando tu precisa passar um pouco de raiva e amargurar uma parada. É assim que se aprende.
Vendo que ninguém respondeu nada, o Fred continuou.
Fred: O motivo principal desse rolê era o Matt pegar a Larissa. E ele pegou. No fim deu tudo certo, se tu parar pra pensar.
Eu: Eu prefiro não parar pra pensar.
Fred: E se tu ainda considerar que a gente conseguiu fugir de uma treta homérica sem morrer, o rolê deu certo pra caralho.
Matt: É, não morrer conta como um ponto positivo considerando as coisas que acontecem com a gente.
Fred: Não é? Muito positivo.
Matt: Não existe "muito positivo".
Fred: Como é? - o Fred otimista mudou de humor de uma hora pra outra.
Matt: Digo... Não tem como ser muito positivo. Ou é positivo ou é negativo. Não dá pra ser muito positivo. Se é positivo, então...
Fred: Cala a boca, Matheus. Antes que eu enfie a mão na tua cara igual fiz com o Thommo.
Eu: Não sou eu que to com a boca sangrando.
Fred: Tá sim.
Passei a língua pelos meus lábios e senti aquele gosto esquisito de sangue. Merda.
Matt: Ah. Dá pra ser neutro também.
Fred: O quê?
Matt: Dá pra ser positivo, negativo ou neutro. Eu não tinha falado.
Fred: Cara... É bom a gente chegar logo nessa estrada de terra. Sério.
E por sorte, a gente tava quase chegando mesmo. O Matt apontou a lanterna do celular pra cima e conseguimos ver o monte de árvores terminando um pouco mais à frente, bem onde começava a estrada.
Fred: Ou eu não posso falar "chegar logo"? Tem que ser só "chegar"?
Matt: Não, pode falar.
O Matt devia estar muito bêbado pra não perceber que o Fred tava zuando da cara dele.
Depois de dar mais alguns passos a cima, finalmente chegamos à civilização. Ou melhor, quase isso. Ou melhor, nada a ver com isso. Porque não tinha nenhum vestígio de seres humanos naquele lugar. Era só mato e um caminho estreito de terra por onde passavam os carros, e que por isso poderia ser chamado de "estrada". Parecia mais uma cena de filme de terror.
Fred: Caralho, to quebrado. - ele apoiou as mãos nos joelhos pra respirar. - Liga pra alguém aí, Matt.
Matt: Eu não vou ligar pra Raíssa.
Fred: Liga pra qualquer porra de pessoa, velho. Qualquer uma. Eu só quero vazar daqui.
Eu tava tão cansado que sentei no chão enquanto esperava o Matt ligar pra alguém. Nem liguei que ia me sujar ainda mais fazendo aquilo, até porque as roupas nem eram minhas. O Fred também não falou nada.
O Matt desligou a lanterna do celular e começou a apertar alguns botões na tela enquanto o Fred olhava pra ele atentamente. Ele era o mais ansioso de nós três.
Quando o Matt começou a demorar demais pra terminar o que quer que ele estivesse fazendo, o Fred o apressou.
Fred: E aí? Ligou?
Matt: Olha...
O Matt suspirou antes de continuar. E até eu olhei pra ele pra saber o que tava pegando.
Fred: Que foi? Tá sem sinal?
Matt: Não...
Fred: Não o quê? Não tá sem sinal? Ou tá? - a cada pergunta os olhos dele se arregalavam mais.
Matt: É...
Fred: Cara, se tu estiver enrolando porque não quer ligar pra porra da mina eu vou ficar puto pra caralh...
Matt: Acabou a bateria.
Um silêncio sepulcral tomou conta de nós três. Até o Fred ficou sem falar por um tempo, com o olhar estático no Matt. Eu nem consegui fechar a boca.
O Matt virou a tela apagada do celular pro Fred ver.
Fred: Assim...
Matt: É.
Fred: Acabou... A PORRA... DA BATERIA?!?!
Ele berrou tão alto que a voz ecoou pela estrada vazia. E aí sim tivemos certeza de que não tinha ninguém por perto pra nos buscar.
Matt: A gente ficou usando a lanterna.
Fred: A GENTE? TU QUE FICOU COM ESSA LUZ DO DEMÔNIO LIGADA PARECENDO O CARALHO DE UM FAROL DE MILHA NESSA PORRA!!!
Matt: Tu que me mandou ligar, velho! Eu não achei que fosse acabar tão rápido!
Fred: Ah, é. Agora tu e o Thommo combinaram essa MERDA de colocar a culpa em mim!
Eu sempre fico puto quando alguém briga com o Matt, porque ele dificilmente tá errado, então defendi ele sem nem pensar muito.
Eu: Mas é sempre culpa tua mesmo!
Fred: CULPA MINHA? O cara tinha UMA missão, velho! Ligar pra alguém buscar a gente, E SÓ! E NÃO CONSEGUIU! - ele apontou pro Matt.
Eu: Mano, fica na sua porque nem celular tu tem pra reclamar dos outros!
Fred: Se eu tivesse ele estaria ligado! COM CERTEZA!
Matt: É fácil falar quando teu celular não tá aqui.
Fred: E AGORA AS DUAS COMADRES SE JUNTARAM CONTRA MIM, É ISSO?
Eu: Não, velho. A gente só tá te botando no teu lugar. Não viaja.
Fred: E por que TU não faz alguma coisa que preste? Cadê teu celular?
Eu tinha me esquecido completamente de que também tinha um celular com sinal. Mas o problema com os números na agenda ainda persistia. Eu só tinha um nome salvo, e era o do Gunz.
Eu: Ele tá aqui. Mas tá sem sinal.
Fred: Como tu sabe? Tu nem viu.
Eu: Vi sim.
Fred: Que horas?
Eu: Mano... Não interessa. Ué.
O Fred sacudiu a cabeça, inconformado com a nossa situação. Mas eu não poderia correr o risco de eles verem meu celular. Não com aquele único nome pala salvo.
Fred: Bom, foda-se. Alguém tem alguma outra ideia?
Ficamos quietos por alguns segundos pensando no que fazer.
Me pareceu algo bem sensato na hora.
Fred: Mano, tu pegaria carona com alguém nessa estrada de locação de filme de serial killer?
Eu: O que pode acontecer de pior? A gente não tem nem dinheiro pra ser roubado.
Fred: Pô, sei lá. Podem arrancar nossa cabeça fora com um machado, talvez. Tipo, nada de mais. - ele sacudiu a cabeça com ironia.
Eu: Ah, Fred, fala sério...
Fred: Depois podem guardar nossos restos mortais num buraco da parede de casa. Assim, normal.
Matt: É, Thommo. É meio arriscado.
Fred: Congelar nossos cérebros em potes no freezer pra comer por meses.
Matt: Não to dizendo que a gente vai morrer, mas é arriscado.
Eu: Nada é mais arriscado do que ficar aqui parado no meio do nada.
Fred: Esfolar nossa pele pra fazer estofado de banquetas de bar.
Eu: Caralho, Fred! Chega!
Fred: São coisas que acontecem, cara.
Eu: Mas não é assim também. Estamos em três caras, não somos idiotas...
Matt: Nem tenta argumentar, Thommo. - o Matt revirou os olhos pras brisas do Fred.
Fred: Mano, tu acha que aquele maluco que foi jantar na casa do Hannibal sabia que ia comer o próprio cérebro minutos mais tarde?
Matt: Pra começar, esse filme é ruim pra caralho.
Eu: E é um FILME!
Fred: O AUTOR NÃO TIROU AQUILO DO NADA!
Eu: Fred, presta atenção, ninguém vai assassinar a gente.
Fred: É verdade. Podem só nos sequestrar e nos deixar presos num porão pro resto da vida.
Eu: Mano, vamo andando.
Perdi a paciência com aquela conversa bizarra e me levantei. Isso sempre acontecia com a gente. Do nada começamos a divagar sobre um assunto nada a ver quando nem é hora de conversar. Precisamos agir. E se não vamos ligar pra ninguém e nem pegar carona, é melhor irmos andando.
Fred: Onde tu tá indo?
Eu: Não sei. To andando. Uma hora a gente vai sair dessa estrada.
Demorou um pouco, mas logo comecei a ouvir os passos dos dois vindo atrás de mim. Depois de alguns minutos caminhando, o Fred voltou a brisar.
Fred: Agora é sério. Vocês já viram aquele filme Os Estranhos?
Eu: Não, Fred. - respondi com impaciência.
Fred: Tu nunca mais vai confiar em ninguém num lugar deserto depois de ver esse filme.
Já reparei que o Fred tem esse medo irracional de assassinos seriais há um tempo. Ele usa todas as drogas que oferecem sem medo de morrer ou viciar, escala muros altos sem medo de cair, dá em cima de gurias sem medo de levar fora, mas entra em choque só de pensar em encontrar um doidão sanguinário por aí.
Fred: A história é a seguinte, tem um casal que vai passar uns dias num chalé.
Ninguém perguntou, mas ele começou a contar. E ninguém interrompeu também, porque era melhor ele falando sobre filmes do que xingando a gente por alguma merda que ele mesmo fez.
Fred: Na real eles passaram só um dia, porque depois eles morreram.
Matt: Po, legal saber o final do filme.
Fred: Ah. Hahahahaha. Foi mal.
Confesso que depois de um tempo eu tava começando a me arrepender daquela ideia de sair andando sem rumo, porque tava ficando cansativo.
Fred: Na real eles não morrem, eu falei errado.
Matt: Não adianta tentar consertar. Já fodeu.
Fred: Não, é sério. Eu não lembro.
Ele ficou quieto finalmente. Mas não durou muito.
Fred: Na real eu lembro. Mas eu não falei QUEM morre.
Matt: O casal.
Fred: Tem mais de um casal.
Matt: Tá...
Fred: Enfim, eles vão passar um dia na casa de campo de um amigo e...
Matt: Não era um chalé?
Fred: Não.
Meu cérebro tava começando a fritar com aqueles dois falando. Eu já tava puto por ter que andar quilômetros no meio do nada e ainda tinha que ficar ouvindo merda de conversa sem sentido.
Matt: Tu falou que era um chalé.
Fred: Não era.
Que ideia imbecil essa de vir nesse caralho de festa.
Fred: Aí um maluco mascarado bateu na porta do meio da noite.
Matt: Hm.
Fred: Não, mentira. Primeiro o cara sai de casa. Daí a mina fica lá. Daí um cara mascarado bate na porta.
Matt: Certo.
Fred: Mas nessa hora ela ainda não vê que ele tá de máscara. Tipo, ela só ouve alguém batendo na porta.
O Fred conta histórias tão bem quanto uma criança de três anos.
Fred: Na real ela só vê que ele tá de máscara lá pelo meio do filme...
Matt: Ahn.
Fred: Aí uma mina bate na porta. De máscara também. E ela fala que alguém morreu.
Matt: Tipo, do nada uma mina bate na sua porta avisando que alguém morreu?
Fred: Não, ela bate na porta perguntando de uma mina aí depois tu descobre que ela morr...
Eu: FOOOOOOODA-SE, FRED!!! CALA A BOCA!!!
Fred: Nossa, mano. O Matt tava ouvindo, ô, seu ESTÚPIDO!
Eu: EU NÃO CONSIGO PENSAR! FICA QUIETO PRA EU PENSAR!
Fred: PENSAR O QUE, SEU IDIOTA?! PRA TER MAIS ALGUMA IDEIA BRILHANTE TIPO PEGAR CARONA COM UM ESTRANGULADOR?
Eu: Noss... - cerrei os punhos com força pra não enfiar um soco na boca dele.
Fred: Mano, chega! Me dá teu celular!
Eu: Por que tu quer meu celular?
Fred: Pra ligar pra alguém! A gente tá andando faz meia hora e não chegou em lugar nenhum! Liga pra alguém!!!
Eu: Eu já falei que eu não tenho nenhum número salvo na minha agenda. Ele é novo.
Fred: Foda-se! Tu nunca recebeu ligação nenhuma?! Liga pro último número que te ligou e foda-se.
Eu: O último número que me ligou foi o teu.
Fred: Então o penúltimo, o antepenúltimo, não sei, liga pra uma porra de alguém!
Eu: Eu não...
Fred: ME DÁ ESSE CELULAR!
Eu: NÃO! ESPERA! Eu vou ligar.
Eu poderia ligar pra um dos números que aparecia nas minhas últimas chamadas, mas o meu medo era acabar ligando sem querer pra algum cliente ou coisa parecida. Se eu ligasse, percebesse que era um cliente e desligasse na cara dele, o Matt e o Fred iriam estranhar. Caralho, o que eu faço? Tirei o celular do bolso e comecei a mexer enquanto a gente andava.
Fred: Se tu ligar pra alguém que não puder buscar a gente, não tem problema, tu diz pra pessoa ligar pro Luc, pra polícia, pra um táxi, qualquer coisa.
Assenti com a cabeça enquanto mexia no meu celular. Já sei. Vou deletar o nome do Gunz da agenda. Posso até correr o risco de ligar pra algum cliente sem querer, é só inventar alguma história e pronto. Sou bom de enrolação. Só não posso ligar pro Gunz e nem deixar eles verem o nome dele na minha agenda, nunca, nem fodendo.
O Fred me apressando me deixou ainda mais nervoso. Abri a agenda correndo e apertei no nome do Gunz pra editar. Mas como eu não sabia mexer naquele celular direito, acabei ligando pra ele sem querer. PUTA MERDA! Quando vi que tinha feito aquilo, desliguei o mais rápido que pude, mas deu tempo de tocar pelo menos uma vez. Minhas mãos tremeram segurando o aparelho.
Foi o que eu consegui pensar no menor espaço de tempo. O Fred parou no meio do caminho e me olhou com desânimo.
Ele parecia realmente desapontado. Fiz que "sim" com a cabeça e ele relaxou os ombros, sem esperanças. Congelei esperando a reação dele e do Matt sobre aquilo.
Disse isso e continuou andando, e eu respirei aliviado. Ainda bem eles acreditaram em mim. To ligado que eu tava sendo um belo de um cuzão, mas o motivo era maior do que andar por algumas horas numa estrada abandonada. Eu não sei o que faria se eles soubessem que eu voltei a falar com o Gunz.
Fred: Enfim, sobre o filme...
E aí ele voltou a contar sobre aquele filme aparentemente sem sentido pro Matt. Senti meus músculos relaxarem pouco a pouco depois daquele período de tensão. Como não tava a fim de ficar ouvindo a conversa, caminhei um pouco mais rápido pra passar eles e fiquei andando na frente. Guardei o celular no bolso de trás da calça agradecendo aos céus por ter me livrado daquela situação.
Depois de um tempo, eu já tava começando a me acostumar com a ideia de andar por horas. Tava até curtindo a paisagem, ou o pouco que conseguia enxergar dela. Acho que isso se chama se confomar.
Fred: Thommo, Thommo! Teu celular tá tocando!!!
Eu demorei pra perceber porque ele tava configurado pra vibrar, então as luzes se acenderam no meu bolso sem que eu visse. Meu coração parou de bater de tanto nervosismo. Peguei o celular na mão o mais rápido que pude e vi o nome de quem tava ligando na tela: Gunz.
O Fred correu na minha direção, mas tive tempo de cancelar a ligação e não atender.
Fred: Que foi? Quem era?!
Eu: Nada, não tava tocando, foi impressão.
Fred: Não foi impressão, eu vi teu celular acendendo no teu bolso!
Eu: Ele acende quando tá acabando a bateria. Foi só um aviso.
Fred: Thommo, eu VI o teu celular tocando!
Ele me puxou pelo ombro e me impediu de continuar andando.
Fred: O que que tá pegando?
Eu: Nada, meu celular tá sem sinal...
Fred: Me dá essa merda.
O Matt ficou alguns passos longe de nós assistindo com receio. Ele também tinha percebido que tinha alguma coisa de errado comigo.
Eu: Não, velho. O celular é meu.
Fred: Me dá essa porra agora.
Eu: Não vou dar nada!
Fred: ME DÁ ISSO AQUI!
Ele veio pra cima de mim com tanto ódio que eu nem consegui desviar. Segurou meus dois pulsos com força até que eu desistisse de tanta dor e jogasse o aparelho longe, que ele correu pra pegar. Eu nem conseguia acreditar que aquilo tava acontecendo. Quando ele pegou o celular no chão, minhas pernas amoleceram de nervoso. E o celular começou a tocar de novo. O Fred olhava pra tela como se estivesse assistindo uma cena de horror desses filmes que nutrem a imaginação sinistra dele.
Eu não sabia o que falar. Eu não tinha o que falar.
Fred: Isso é sério? - ele virou a tela do celular na minha direção e apontou. - GUNZ?
O Matt estremeceu e eu fechei os olhos pra pensar no que responder.
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Eu poderia ficar o resto da vida de olhos fechados que não conseguiria pensar numa resposta que me livrasse daquela situação. Não dava pra eu fingir que eu não sabia que o Gunz tava me ligando. Não depois de eu fazer toda aquela cena e mentir que meu celular não tava tocando. Ele não só tinha tocado aquela hora como ainda tava tocando. O zunido do celular vibrando fazia meu cérebro doer. Doía, parava, doía, parava.
Fred: Responde, Thomaz! Que PORRA é essa?
E o celular continuava tocando. Parecia que o Fred também não tinha coragem de atender. Por mais clara que fosse a situação, ele não queria atender pra não confirmar que era o Gunz do outro lado da linha. Ele insistia pra que eu falasse alguma coisa porque, no fundo, ele achava que eu ia ter uma boa desculpa pra aquilo. Mas eu não tinha.
Cansei de tentar forçar meu cérebro encharcado de álcool a pensar em algo, e abri o jogo. Não totalmente, mas abri. Além da minha dificuldade em tentar achar alguma resposta, eu não queria mentir - ainda mais - pra eles. Eu sabia que já tava sendo escroto o suficiente por esconder toda uma história, e agora não tinha coragem de me afundar ainda mais na mentira. Abri os braços e fiquei encarando o Fred, que era o que parecia mais puto com tudo. Ou pelo menos era o que mais demonstrava.
O celular finalmente parou de tocar, deixando aquele silêncio perturbador, até o Fred voltar a insistir no assunto.
Fred: "É isso" o que, velho? Como tu explica esse maluco te ligando 4h da manhã?
Eu: Foi porque eu liguei pra ele antes sem querer.
Fred: Teu celular não tava sem sinal? - ele falava rápido, parecendo mais ansioso do que o de costume.
Eu: Não.
Fred: NÃO? - a voz de bêbado dele saiu trêmula e um pouco falhada.
Eu sacudi a cabeça em negativo, e o silêncio voltou.
Matt: O que tá rolando, Thom? - o Matt perguntou com a voz calma, mas firme, parecendo nitidamente preocupado.
Fred: Tu tá de rolê com esse cara? SÉRIO? SÉRIO MESMO?
Matt: Calma, Fred. Deixa ele explicar.
O Matt ainda tinha esperanças de que eu tivesse um bom motivo pra tudo aquilo.
Eu: A gente... - pensa, Thom. - Tem se falado.
Fred: DEU PRA VER, NÉ, VELHO? - ele apontou pro celular. - Mas por que, mano? Por que isso? Como aconteceu? Por onde esse cara andou? Ele tá preso? O que ACONTECE NESSE MUNDO LOUCO QUE EU NÃO TO SABENDO, CARA? O QUÊ?
Matt: FRED, RELAXA!
Eu: Eu não sei, te juro que eu não sei de nada.
E isso eu realmente não sabia. Fazia poucos dias que o Gunz tinha aparecido do nada no Z Club e ele não me deu muitos detalhes desde então. Na primeira vez em que a gente se encontrou eu tava tão em choque que nem consegui raciocinar direito pra perguntar. E no fundo acho que eu também não queria saber. Ninguém que tu viu pela última vez armado numa briga de rua desaparece e volta sem nenhuma história bizarra pra contar depois. Nem sei se quero saber por onde ele andou.
Fred: E por que tu não contou nada pra gente?!
Eu: Por isso! - apontei pra cara dos dois. - Porque vocês iam ficar desse jeito!
Fred: COM RAZÃO, NÉ, BROTHER?
Matt: Como tudo aconteceu, Thom? Ele que veio atrás de ti?
Eu: É.
Senti meu corpo tremer de nervosismo. Eu tava chegando num ponto em que seria inevitável não falar do Z Club. Sorte que o Fred voltou a falar e eu não tive que elaborar muito a resposta que dei pro Matt.
Fred: Caralho, Thommo. Eu to, tipo... Sei lá. - ele relaxou os ombros com desânimo. - To chateado pra caralho contigo.
Eu sabia que, no fundo, o Fred tava mais na bad por ele do que por mim. Algo naquilo de eu fazer coisas "escondido" feria o orgulho de amigo dele. Ele tava mais preocupado com o fato de eu esconder o bagulho dele do que por eu estar em contato com um cara tenso tipo o Gunz.
Eu: Eu to ligado, mas eu não tive escolha. Eu queria conversar melhor com ele antes de contar pra vocês.
Fred: Conversar? CONVERSAR? O cara ameaçou te MATAR há um ano atrás e tu quer conversar?! Sobre o quê? O que teria acontecido se tu não tivesse fugido pelo vitrô do banheiro? Fala sério, Thommo!
Matt: É, Thom. Como assim?
Eu: Ele veio falar comigo numa boa, a gente...
Fred: Tu não devia nem dar moral pra esse cara, mano. Logo que ele apareceu tu devia ter mandado um salve e avisado a gente, avisado o Luc, o Sick Boy. Eles tão sabendo disso?
Eu: Não.
Fred: Caralho, Thommo...
Matt: Não é só bad tu não ter contado pra gente. É bad tu não ter contado pra ninguém. É perigoso, to falando sério. Ele é um cara... Bom, tu sabe como ele é.
Eu: Eu sei, por isso não achei que precisava contar logo pra vocês. Não queria preocupar ninguém.
E isso era verdade. Eu não queria contar por causa do Z Club, mas principalmente porque não queria deixar os dois preocupados com tudo. Queria ter o Gunz mais sob controle antes de liberar a notícia pra eles e deixar o Gunz voltar a circular nas nossas rodas. Até o Gunz sabia disso.
Eu: Mas já que esse assunto veio antes do esperado, eu já vou falar pra vocês ficarem de boa: vocês não precisam se preocupar.
Fred: É, não mesmo. Tu que precisava se preocupar, procurar um médico pra ver se tá batendo bem da cabeça.
Eu: É sério. Eu não sei bem o que aconteceu com ele nesse meio tempo, mas ele veio falar comigo numa boa, a gente conversou, se acertou.
Fred: SE ACERTOU?
Eu: Caralho, Fred, não vai dar pra falar se tu ficar repetindo todas as últimas palavras das minhas frases.
Matt: Deixa o Thom falar.
Eu: Eu sei de todas as merdas que ele fez, sei mais do que vocês. Mas eu to acreditando que sei lidar com ele agora. É só a gente saber lidar.
Fred: Não, mano. É só a gente ignorar a existência desse cara e mandar ele de volta pro buraco de onde ele saiu. Ninguém precisa voltar a trocar ideia com ele.
Na verdade preciso agora que ele trabalha comigo e eu dependo dessa grana pra viver.
Eu: Ele tá de volta no rolê e tu vai precisar aceitar isso.
Fred: Desde quando?
Desde que ele virou meu parceiro no crime organizado, Fred, caralho. Como é difícil não poder falar.
Eu: Só confia em mim, Fred.
Fred: Eu confio em ti. Eu não confio nesse cara.
Eu: Então confia que eu sei lidar com ele.
Fred: Na real, nem sei se eu confio em ti depois dessa. Tu ia largar a gente aqui se fodendo nessa estrada só pra manter esse teu segredo ridículo. Puta egoísta do caralho tu é. Ficar mentindo que o celular tá sem sinal numa situação dessas... Isso não se faz.
É, meu momento compreensivo e cooperativo durou pouco. Eu tava disposto a responder todas as perguntas e ouvir todas as ofensas com humildade, até o Fred começar com aquela ideia de ser egoísta e o caralho. Olha só quem fala.
Eu: Ah, falou então. Como se tu nunca tivesse feito nada parecido.
Fred: O quê? EU? - ele apontou pra si mesmo.
Eu: Tu largaria a gente se fodendo numa estrada abandonada por menos!
Fred: Ahhh, vá, Thommo!
Eu: Por causa de mina com certeza!
Fred: SIM, PELA TUA MÃE!
Matt: Meu, para... Chega de tretar, vocês dois!
Eu: Fica dando discursinho moralista aí! Vai tomar no seu cu!
Fred: Melhor dar discurso do que dar MANCADA! SEU BOSTA!
Vrummmm. Vrummmm.
O celular voltou a vibrar na mão do Fred, e ele olhou pro aparelho. A luz branca iluminou o rosto dele.
Fred: É o Gunz. É ele de novo.
Fiquei em choque como na primeira vez. Não acredito que ele tava ligando de novo. Eu não sabia o que fazer. Na real, nenhum de nós três sabia. E ficávamos nos olhando esperando uma resposta cair do céu. Até que o Fred fez a última coisa que eu queria que ele fizesse.
Meu coração praticamente parou de bater naquela hora, e eu nem conseguia mais respirar de nervoso. Nem parecia aquele Thom calmo argumentando há minutos atrás. Como eu ia explicar aquilo pro Gunz? O Fred tava atendendo meu celular do Z Club. E se fosse outra pessoa do Z Club ligando pelo número do Gunz? Como eu ia explicar que um amigo meu tava atendendo meu celular? E se fosse um cliente? E se o Gunz começasse a contar tudo pro Fred? Puta merda.
Eu costumava deixar meu celular com volume bem baixo justamente pra ninguém ouvir quando eu estivesse falando na rua, então era impossível ouvir qualquer coisa que o Gunz estivesse respondendo. Só conseguia me guiar na conversa pelas frases do Fred.
Alguns segundos de silêncio.
Fred: É, cara. Quanto tempo.
De repente ele começou a falar com o Gunz como se fosse um brother qualquer.
Fred: Se liga, o que tu tá fazendo? É que a gente tá no meio de uma... Estrada. Tipo, umas paradas deram errado e a gente veio parar aqui, e agora não tem como voltar.
Mais silêncio. E eu quase infartando de nervosismo. O que o retardado do Fred tava fazendo?!
Fred: Tu tá de carro agora? Ah, pode crer. Não, o Thom não contou isso.
Puta que pariu. O que o Gunz tava falando pra ele?
Fred: Tá. Vou te passar mais ou menos o caminho.
E aí o Fred começou a explicar como fazia pra chegar na chácara da Isabela, depois pediu pra que o Gunz desse umas voltas quando chegasse, porque a gente tinha perdido o senso de direção depois de cair do barranco e não sabia muito bem onde tava.
Depois de tudo explicado, o Fred agradeceu, desligou o celular e me estendeu o aparelho. Eu tava branco como um fantasma, e ele parecia mais tranquilo do que nunca.
Eu: Que porra tu acabou de fazer?
Eu tinha falado aquele monte de groselha sobre confiar em mim, confiar no Gunz e o caralho, mas a real era que o Gunz era a última pessoa em quem eu confiava no mundo. O que acontecia era que eu tinha aprendido a lidar com ele: eu sabia que ele precisava ganhar algo em troca de tudo que ele fizesse. Tudo. Ele seria capaz de ir pra Etiópia ajudar crianças famintas, desde que ganhasse algo muito palpável em troca daquilo. E o que ele ganharia vindo buscar três panacas numa estrada abandonada? NADA.
Aquilo me deixou em choque. Mais do que em choque. Me deixou em choque pra porra.
Fred: Tu não falou que a gente precisava aceitar ele de volta no rolê? Então. Vou dar uma missão pra ele.
Eu: Missão? Que missão?
Fred: Tu vai ver assim que ele chegar.
Eu nem sabia dizer se ele ia chegar. Muito menos se ele ia chegar e levar a gente pra casa. Eu não tinha histórico suficiente pra ter certeza disso. Minhas últimas memórias dele tem a ver com estar preso dentro de casa rezando pra ele não ter sequestrado meu pai e a Alícia. Agora a gente vai encontrar esse maluco num lugar desses. Presas fáceis pra caralho. Isso vai dar merda. Vai dar muita merda. Me sentei no chão pra respirar.
O Matt percebeu meu desespero e também me pareceu um tanto desesperado quando se sentou do meu lado.
Tirando que tá vindo um psicopata que ninguém sabe por onde andou no último ano encontrar a gente nesse lugar deserto.
O Fred acendeu um cigarro e foi fumar longe da gente. Cheguei a pensar que a tal missão que ele supostamente ia propor pro Gunz na verdade era pra mim. Ele devia ter chamado o Gunz pra buscar a gente pra saber se eu botava minha mão no fogo por ele. Eu não tinha certeza sobre nada. De qualquer forma, o Fred já tinha passado nossa localização pra ele, a gente não tinha muito pra onde correr. Agora era só esperar.
Próximo capítulo: 04/05! LEMBRANDO QUE DIA 09 DE MAIO TEM ENCONTRO PQOGSPN EM SP!!! CONFIRMEM PRESENÇA NO EVENTOooOOOooIIIIuuuUUUUuuuuUUUAEEAEA