Eu tinha bons e maus momentos, pensamentos aterrorizados e confiantes.
Cidade dos Etéreos.
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Eu tinha bons e maus momentos, pensamentos aterrorizados e confiantes.
Cidade dos Etéreos.
Tudo acontece por uma razão.
Cidade dos Etéreos.
Capitulo dois.
Era tarde e toda vez que eu tinha que voltar para casa entre às quatro e meia, cinco horas da manha eu tinha um medo incontrolável. Da minha casa até o clube tinha um beco e nesse beco tinha vários drogados, que sempre que podiam assaltavam qualquer um que passava ali e eu sempre passava ali. Eles sabiam que eu sempre tinha algum dinheiro, eles sabiam onde eu trabalhava, eles viviam incomodando todo mundo ali do bairro.
Hoje não era diferente, porem estava mais perigoso, a algumas semanas os guardas do bairro tinham feito a limpa naquele beco e queimado todas as drogas que encontraram, o que resultou em uma onda de assaltos, tudo o que varia alguma coisa era roubado e com o dinheiro da venda dos objetos, eles compravam drogas. Era a primeira vez na semana que eu precisava passar por ali, pedi para que Carlos me acompanhasse até em casa, mas ele não fez questão nem de escutar o motivo. Haviam poucos clientes no clube e a maioria já estava indo embora.
Coloquei todo o dinheiro que eu havia recebido de gorjeta aquela noite no sutiã, coloquei o vestido que eu tinha ido pro clube uma jaqueta por cima para me proteger melhor, estava frio e por mais que a caminhada para casa não fosse tão longa, ainda assim era o suficiente para me resfriar.
O sapato cortava meu pé e me impedia de andar mais rápido, escutei a voz de dois caras no beco, não sabia se eles dois eram os únicos ali hoje ou se haviam mais deles. Prendi a respiração e fingi não saber por onde passava.
— Olha que delicia hein? - gritou um deles
— Ela é uma prostituta, será que nos serviria sem irmos ao clube? - zombou o outro e então os dois caíram na gargalhada
— Qual foi gatinha? Vai ignorar dois clientes famintos?
Ouvi o passo deles e tentei aumentar o passo, o que foi em vão.
— A gente sabe que você tem dinheiro, não somos estupidos... Mas hoje só queremos ver o que você esconde por baixo das roupas!
O maior deles me empurrou na parede e começou a me encarar, o outro ia abaixando a calça. Eu não conseguia me mexer, o que me segurava era muito forte e apertava meu braço com tamanha brutalidade que eu já podia sentir meus dedos começarem a formigar.
— Você com cara de medo me deixa com mais vontade de foder você todinha.
— Um de cada ou os dois juntos? - perguntou o que me segurava
— Solta ela! - gritou um cara correndo em nossa direção
— Fica de fora disso cara, se não você tá ferrado!
— Larga a garota se...
— Se não o que? - perguntou o que me segurava
O cara deu um murro tão forte em um deles que ele caiu e bateu a cabeça no chão, esse não teve reação, então o cara que me segurava me jogou no chão e foi para cima do outro.
— Você mexeu com as pessoas erradas.
— Eu mandei vocês largarem a menina! - ele mal terminou a frase e já deu um soco no rosto do grandalhão
— O almofadinha acha que pode comigo? - enquanto ele e o cara trocavam socos, eu sentia minha cabeça sangrar por ter batido no chão e provavelmente em uma pedra, ao lado do cara desmaiado havia uma garrafa, não consegui pensar em outra coisa a não ser quebra-la na cabeça do grandalhão, o que só fez ele se desequilibrar e cair, mas foi o suficiente para que o cara pudesse dar uns socos na cara dele e ele desmaiar.
— Vamos sair daqui! - disse o moço pegando sua carteira do chão
— Você tá sangrando. - falei assustada com a quantidade de sangue que escorria do nariz e do supercilio dele
— É, você também. - respondeu ele
— Eu moro logo ali, posso fazer algum curativo em você...
Ele sorriu e pediu para que eu indicasse o caminho.
Assim que entrei em casa e acendi a luz, pude finalmente ver o rosto do rapaz: era ele, o cara da lanchonete, o cara do balcão mais cedo.
— Pode sentar aqui. - falei tirando o travesseiro da beira da cama
— Você mora aqui? - perguntou ele
— Eu vou pegar uma toalha e uma gaze para tentar parar o sangramento. - falei e sorri gentilmente
— Então... Parece que nos encontramos bastante hoje.
Voltei com a toalha e tudo o que eu tinha para fazer um curativo descente nele. Limpei o sangue em seu rosto e tentei parar o sangramento em seu supercilio.
— Você fez um corte feio aqui, vai precisar de pontos, vou fazer um curativo e você vai ter que ir a um hospital...
— Você também precisa ir ao hospital, sua testa ainda esta sangrando.
— Foi só um corte, está tudo bem comigo.
Terminei de fazer o curativo e limpei o resto de seu rosto. Ele tinha traços únicos e era muito bonito. Sua camisa branca agora tinha sangue por toda parte, ele cheirava a whisky mas não parecia bêbado.
— Você não gosta muito de falar né?!
— Tudo o que eu tenho para falar é muito obrigada, sério, eu não sabia o que seria de mim hoje se não fosse por você. Não faz mais isso, eles poderiam estar armados...
— Mas eles não estavam e eu jamais deixaria isso acontecer com qualquer um! Você não precisa me agradecer, faria isso de novo.
— Obrigada mesmo assim. - sorri e ele sorriu de volta - Você aceita um pouco d'água?
— Não, na verdade eu preciso ir. Obrigado pelo curativo, prometo ir ao hospital e se cuida.
— Obrigada você, mais um vez... Obrigada.
Ele abriu a porta e deu um passo, porem parou.
— Meu nome é Luan, espero nos encontrarmos por ai...
— Meu nome é Fernanda. - sorri
— Boa noite Fernanda, se cuida.
Ele abriu um sorriso e saiu porta afora.
Capítulo 2
“Você não me conhece, e todo dia quero ouvir sua voz...”(Carta de Fã – Fly) Eu acordei com a lembrança do dia anterior na cabeça. Me veio a tona o Sr. Perfeição. Depois me lembrei da menina do exorcista. E então a lembrança da promessa da Carol me atingiu com força. E depois me lembrei da noite anterior.Para melhorar bem o meu emocional, eu ainda havia tido uma apresentação de ginástica rítmica. Eu havia ganho uma blusa que , embora rosa, era muito fofa.Eu estava chegando no corredor para a aula, e a Carol, simplesmente parou na porta da 101, e ELE, que usava uma blusa azul de mangas compridas, estava parado bem no marco da porta, e olhou para ela. E eu só fingindo que estava lendo minha blusa de ginástica, parei em um lugar onde ele não podia me ver, mas eu podia escutar a conversa direitinho.Eu iria matar a Carol assim que ela saísse dali. Ela abriu a boca, e começou a falar com o Sr. Perfeição.- Oi menino, qual o teu nome?Qual era o problema dela? Ela achava que era assim, chegar e perguntar o nome da pessoa que ela respondia?- Pedro, por que a pergunta?Ele havia mesmo falado o nome para uma completa estranha? Ele era doido? Mas... o Sr. Perfeição havia dito o nome... Pedro... quando eu pensei que a Carol havia acabado, e a gente ia poder finalmente ir para a aula, ela abre a boca novamente e faz uma pergunta pior ainda...- E o resto?Dava pra ver por a cara da Carol que ela estava ficando impaciente por estar ficando nervosa.Eu achava que ele não iria responder essa, afinal ela poderia ser uma louca que estava perseguindo ele. Mas mais uma vez eu estava enganada...- Pedro João..., Mas porque você quer saber?Foi aí que eu me toquei de como a voz dele era linda... Era bem grossa, mas aveludada também.Eu pensava que a voz dele seria feia, já que o garoto até agora não tinha defeitos. Mas eu sempre me engano...- A nada não, é que uma amiga da minha irmã queria saber.Graças a Deus ela não falou que era eu!- Tá, mas...Antes que ele pudesse concluir a frase, a Carol simplesmente falou:- Tchau!E veio para o meu lado, me pegou pelo braço e saiu me puxando para sala! Ela não percebeu, que enquanto eles falavam apenas isso, eu quase morri ali mesmo?!?- Carol, você enlouqueceu?!?- Calma Alice, seu príncipe se chama Pedro João não sei das quantas, porque ele fala muito rápido.Ela falava aquilo com a maior cara de pau do mundo! Mas da minha boca saiu um pensamento.- A voz dele é tão linda... Esse garoto não tem defeitos???- Eu sei lá! Eu só tenho certeza que o Thiago não tem defeitos...O Thiago, era o menino mais famosinho da escola, era loirinho, usava só roupas de marca, estava sempre de óculos escuros, baixinho para o terceiro ano do ensino médio, e a Carol gostava dele.Alias eu preciso falar quem é a Carol. O nome dela é Carol Melo. Ela tem catorze anos, é loira com um tom bem escuro, tem olho castanho esverdeado, faz ginástica artística, por isso é bem baixinha, e principalmente magrinha. Ela é minha melhor amiga mesmo, a BFF1, e eu considero ela minha irmã. Nós nos conhecemos no sétimo ano, e desde então todos no colégio nos conhecem como dupla dinâmica. Ela era meio nerd, assim como eu.- Ah, nem vem com teu Thiago famosinho, Carol!-Tá, ta, eu vou lá falar com as meninas...Cinco minutos depois todas as meninas da minha sala sabia que a Carol tinha tido coragem de perguntar o nome do menino que eu gostava! E eu nem gosto dele! Não ainda...Aquelas três primeiras aulas simplesmente se arrastaram e por mais que eu procurasse ver ele no recreio, eu não achava. Eu não voltei a ver o Pedro na escola aquele dia.Quando cheguei em casa, fui correndo para procurar o nome dele no Facebook, com a impressão que não ia achar...Liguei o computador, coloquei meu leite para o cappuccino a esquentar e brinquei um pouco com meu cachorro. Quando o computador finalmente ligou, e a internet se conectou, eu abri o Facebook para pesquisar.Em minha mente só passava uma coisa: Eu preciso achar ele. Eu estava realmente determinada.Eu cliquei naquela barrinha “procura-se pessoas, coisas e locais” , e digitei: Pedro João.Apareceu uma lista de Pedro’s na tela do computador.Eu estava quase desistindo, pois tinha aberto todos e nada. Cheguei a grunir de frustração. Mas depois de ver Pedro Costa e Pedro Henrique eu acabei clicando em um Pedro João... E uma coisa mágica aconteceu: era ele!Havia uma foto dele com uma camiseta vermelha e casaco preto, com a boca fechada e o braço na frente do corpo, com sua mão segurando o celular para tirar a foto. Ele estava lindo. Sua capa era alguma coisa em alemão, que parecia ser uma banda... e eu acabei stalkeando o garoto, que afinal de contas se chamava Pedro João Almeida Rios. Mas não me julgue, eu havia achado aquele deus no Facebook!Eu fui naquela pastinha ‘Sobre’ para ler o que tinha láData de nascimento: 08/07/1998Interesse: MulheresStatus de relacionamento: SolteiroCom aquilo eu sai pulando pela casa, e já que estava sozinha em casa dei um grito de felicidade. Foi aí que eu notei os dois amigos em comum. A Isadora e a...Livia?Mas por que a Livia é amiga dele?...Do nada eu senti um cheiro muito, muito ruim. O que... Meu leite!Como eu havia esquecido o leite assim?!?!Eu saí correndo que nem uma doida pela casa, e quando cheguei na cozinha, me deparei com uma leiteira toda preta de queimado. Eu joguei a leiteira na pia e liguei a água, isso enquanto desligava o fogo e abri bem as duas portas para sair aquele cheiro todo.Eu tive que ficar lá 30 minutos, para tirar aquele leite queimado da leiteira. E agora eu tinha todas as fotos de Pedro João Almeida Rios no celular.
Elliot's POV.
Eu ainda estava impressionado com o quanto os dois se isolavam do mundo exterior. Era como se eles tivessem seu próprio mundo e não ligassem para o resto, era fascinante, e me lembro da primeira vez que ouvi a voz de Agnes, a irmã, lembro de sua voz ecoar na minha cabeça pelo resto do dia, como uma daquelas músicas que você escuta no radio, mas sente vergonha de ter decorado toda a letra. Você sabe muito bem do que eu estou falando.
- Maddox, me devolva isto agora! - Ela esticava seus braços tentando alcançar o pequeno diário que havia nas mãos do garoto, porém sem sucesso.
- O que eu ganho com isso?
- Dane-se, eu cretino! - Ela bufou e foi embora, deixando o garoto rindo sozinho ali em pé, em frente da casa dos dois.
Me chamo Elliot Campano, tenho 29 anos e nenhum rumo na vida. Que belo protagonista, não é mesmo? Já faz meses e meses que tento fazer que meu livro seja publicado e nada. Talvez eu esteja destinado ao fracasso mesmo. Talvez eu deva voltar para a fábrica do meu pai. Mas essa não é a questão... Vocês devem estar querendo que eu conte toda a minha história com os dois irmãos, não é mesmo? Não é uma história feliz, bom... não totalmente. Ainda sim vocês querem que eu a conte? Está bem.
Me aproximei primeiro do irmão. Lembro de uma vez que estava saindo de casa e fui abordado por ele, me perguntando de lugares bons para ir de noite. Confesso que fiquei surpreso, afinal, quem pediria conselhos para um velho como eu? Mas o respondi de qualquer forma, indicando alguns lugares que eu ia quando estava para baixo. E ele me fez prometer que o levaria nesses lugares no próximo final de semana, mas não botei fé. Eu achei que no dia seguinte ele já esqueceria, mas isso não aconteceu. Ele me cobrou e pediu para que eu o levasse para o clube.
Apesar do nome sugestivo, "Hell" é um dos melhores clubes aqui da região e de inferno não tem nada. E como havia sido combinado, às oito horas da noite eu estava em frente à casa dele, tocando a campainha e esperando que ele já estivesse pronto. E foi nesse dia que eu conheci a irmã. Ou melhor, conversei com ela.
- Por que você tem de ir? Fique em casa! - Ela esperneava enquanto segurava o irmão pela manga do casaco.
- Hm... Cara, você pode aguentar alguns minutinhos até eu resolver isto? Não demoro.
E eu fiquei ali, do lado de fora, com a porta aberta. Maddox arrastou a irmã, cujo nome eu ainda não havia descoberto até as escadas e disse algo em um tom raivoso, isso era claro pela sua expressão facial.
- Pronto, já podemos ir. - E ele então me arrastou pelo braço, ainda bravo com a irmã, que gritava seu nome do lado de dentro da casa.
Sair com alguém mais novo do que eu já era uma cena estranha, e o fato da irmã ser uma completa lunática (ou ao menos aparentar) só me deixava mais receoso em sair com aquele moleque.
De qualquer forma, acabei saindo. Fomos para o Hell, e por uma noite esqueci de todos os meus problemas. Mas mal sabia eu que a partir daquele dia, estava ganhando novos. Deixei o moleque em casa, a irmã estava dormindo no sofá, provavelmente esperando ele voltar. Cheguei até a ser convidado a dormir na casa dos dois, mas achei melhor não, vai que ela me acordasse com uma faca em meu pescoço?
- Então a gente se fala depois? Peguei teu celular, qualquer coisa, eu te ligo, então?
- É, pode ser. - Eu disse da forma mais sem graça o possível. Será que esse guri não percebia o quão estranho isso soava?
- A gente se fala depois então... Boa noite! - E então ele fechou a porta, e eu acendi um cigarro, já voltando para casa.
É, festejando com adolescentes.
Você já teve dias melhores, Elliot Campano.
02.
Os irmãos Rickman caminhavam pelas ruas tentando chegar o quanto antes ao prédio do seu novo colégio. Matthew mantinha os fios loiros em total desordem para cima da cabeça, enquanto Radiohead tocava alto em seu fone de ouvido e Stella tentava acompanhar os passos do irmão mais novo enquanto dobravam a esquina que levaria até a entrada da CHS. A proximidade fez com que uma figura familiar surgisse encostada em um dos muros perto do colégio.
Theodore havia saído mais cedo de sua casa na tentativa de não encontrar com o pai e com a irmã mais nova que havia perturbado toda sua tarde livre com inúmeras ligações e mensagens graças à chegada de seu genitor. Enquanto o moreno aproveitava seu cigarro de cravo um pouco longe do colégio, mantinha a mochila perto de sua perna enquanto que com a mão esquerda tentava dar um jeito na gravata ao redor do seu pescoço quando notou duas pessoas se aproximando de onde ele estava, e uma delas era extremamente familiar.
Capitulo Dois
Algumas Pequenas Discussões
A manhã seguinte começou com o mesmo ritmo, só um vento daqueles tinha chegado para bagunçar os cabelos de Bea que estava no ponto esperando o ônibus para a mesma rotina. Ainda bem que ela estava de jeans, aliás, ela quase nunca usava vestidos ou sais. O ônibus parou e ela logo foi ao encontro de Lily que estava sentada no mesmo assento de sempre.
– Acorda dorminhoca.
– Nossa, nem vi o ônibus parar.
– Você e seus cochilos no ônibus.
Lily deu de ombros e voltou para a posição de antes.
Assim que chegaram na escola encontraram as lideres de torcidas entregando planfetos para todos, até para os “desconhecidos”. Abby veio desfilando em direção a elas e disse:
– Aqui está, compareçam e vote em mim como rainha do baile.
Como Lily tinha ignorado o papel estendido na mão de Abby, Bea o pegou e tentou soar legal com “nós iremos votar em você”.
– Fala sério? Já tinha se esquecido dessa baboseira de baile. Vote em mim, blá, blá. – Lily imitou Abby.
– Alunos do Lost Hill High School, estamos esperando ansiosos por vocês no baile anual da escola. Essa a chance para convidar aquela paquera/namoro ou alguém que está a fim, ouse e conquiste uma parceria para um baile perfeito. E não se esqueçam para votar em rainha Abby Hale e para Rei Evan Philips. Arrume sua mascara e um parceiro e seja feliz. –Bea leu em voz alta, para que Lily escutasse.
– Ei eu estava lendo. – Bea reclamou.
– Fala sério isso é história para cinderela, ela nem liga para nós se entregou isso para a gente votar nela como rainha e o Evan como rei, como se ninguém soubesse que eles sempre ganham.
– E se eu quisesse ir? – Bea perguntou séria.
– Não está falando a sério né?
– Estou sim, nunca vou a lugar algum. Os adolescentes da nossa idade sempre vão a festa se divertem e tudo o mais.
– Não somos como os outros Bea.
– E se eu quisesse ser pelo menos em uma noite? E se eu quisesse parar de me importar com as coisas certas e infringir as regras? E se eu quisesse dançar uma noite só até cansar? E se eu quisesse desligar dos problemas do mundo e for feliz? Acha que seria errado? Nós nunca fomos a lugar algum a não ser o café da sua mãe, ninguém chama a gente para festas, ninguém se importa. Essa talvez seja uma chance de nós livrarmos dessa rotina.
– Você não sabe o que está falando Bea.
– Na verdade eu sei sim. Eu cansei de ser a garota que nunca faz nada.
– Você não é feliz assim?
– Eu sou sim, mas um dia as regras cansam. E ouvir suas lições revoltadas também, aliás, você já me perguntou o que eu acho sobre alguma coisa? Você nunca pergunta só sua opinião que serve, nunca liga ou se importa com as minhas.
Bea saiu a passos largos e deixou Lily sozinha no pátio, ela não tinha entendido nada que tinha acontecido ali. Talvez fosse melhor deixar ela sozinha um pouco, a conversa todo tinha deixado ela zonza e com fome.
Bea tinha exagerado ela sabia, mas não ia pedir desculpas a final ela não estava totalmente errada. Foi para a parte do gramado o sinal já tinha batido, mas ela não estava a fim de escutar a professora de história contar sobre sua vida pessoal “aquilo era um saco”. Sentou debaixo de uma árvore mais distante e começou a ler um livro de romance policial.
Ian conseguiu chegar mais atrasado que o normal desceu da moto e caminhou lentamente pelo pátio. Não queria chamar atenção de ninguém muito menos da diretora, se ele conseguisse chegar até o gramado estava a salvo. Ouviu batidas de um salto logo atrás dele, resolveu apressar os passos já estava ficando sem tempo, quase que foi pego se não tivesse escondido entre as paredes já era, seria mais uma semana de suspensão. Esperou até que o barulho dos saltos acabasse e correu até o gramado, a árvore que ele acostumava ficar quando matava aula era a ultima. Correu tanto que mal esperou e caiu em cima da grama.
– Ah. – Alguém tinha gritado.
Ele levantou assustado e deu de cara com uma garota, na verdade a garota que estava o encarando no café. Ele a conhecia, Beatrice Mayer colegas de sala de química e história, mas nunca tinha falado com ela.
– Desculpa, não a vi aqui. – Falou sem jeito.
– Você precisa ter mais cuidado moço. – Ela falou voltando para um livro que lia.
– É que ninguém costuma ficar aqui, aliás, você está matando aula?
– Estou. Porque algum problema? Vai me denunciar?
– Ei, calma ai. Não há problema algum só que nunca imaginei você matando aula. E não vou denunciar você já que estou no mesmo barco. – Ele falou se sentando do lado de Bea.
– Tudo bem, é minha primeira vez como matadora de aula. – Bea suspirou fechando o livro e voltando para ele.
– Sou Beatrice Mayer. – Ela estendeu a mão.
– Eu sei quem você é, temos algumas aulas juntos. – Disse, apertando a mão dela com calma. – Caso não saiba quem sou, Ian Davis.
– Eu sei quem você é, temos algumas aulas juntos. – Ela o imitou, fazendo o sorrir. Um riso de tirar o fôlego.
– Bem, o que te trás aqui? – Ele perguntou casualmente.
– Fala sério, não suportaria uma aula de história hoje.
– Nesse caso eu tenho que concordar com você as aulas da Srta. Nedy me dão sono.
– E o que você faz aqui?
– Cheguei atrasado.
– Hum, dormiu demais?
– É, desde pequeno dou trabalho para acordar de manhã. É mais forte que eu. –Ele sorriu de novo.
Bea o olhou, ele tinha olhos verdes profundos, cabelos claros bagunçados e um sorriso lindo. Nunca o tinha reparado, mas agora o vendo de perto ele era bem bonito.
– Você vai ao baile? – Bea perguntou desviando o olhar para longe.
– Isso foi um convite? – Ian perguntou erguendo uma das sobrancelhas e a encarou.
– O que? Não claro que não, foi só uma pergunta. – Bea disse assustada.
– Estava brincando. Não gosto de bailes é muito “mimi” para mim.
– Parece até a Lily falando. – Bea murmurou.
– O que disse?
– Nunca fui a bailes. – Ela desconversou.
– Não perdeu nada, é uma chatice só. Tirando as garotas e as bebida é claro.
– Tem bebidas?
– Sim, a maioria trás escondido.
– Você vai?
– Não. – Bea sacudiu a cabeça.
– Não gosta de festas? Ou não vai porque os pais não deixam?
– Não gosto. – Bea respondeu seca e se levantou. – Bem, tenho que ir, já vai vencer o horário e eu preciso voltar para a minha vida de estudante. A gente se ver por ai moço.
Quando ela estava a uma boa distância ele gritou:
– Tem mania de chamar todo mundo de moço?
Ela sorriu, mas não virou para trás, não eram nem próximos nem nada. Foi só um esbarrão ali, fora que ele tinha os mesmos pensamentos de Lily, ela tinha achado uma alma gêmea para Lily. Fala sério o cara só falava de como tudo era chato.
Capítulo dois - Garoto Simpático
Voltamos para o quarto em silêncio, e Jazper não parecia nada feliz com o fato de ter que dividir o quarto comigo. Pois bem, eu não dou a mínima. Tenho que limpar minha fixa com meus pais e ser expulsa de outra escola por deixar o parceiro de quarto paraplégico não vai me ajudar, com certeza.
Me sentei na cama e peguei meu celular, que estava vibrando. Era uma mensagem de Mia. Ela pedia para que eu entrasse no Skype imediatamente, que se ela não conseguisse falar comigo nos próximos quinze minutos iria arrancar o meu coração; eu a conhecia bem o bastante para saber que se não fizesse isso, ela não hesitaria em fazer o que ameaçava.
Peguei meu notebook rezando que aquela escola gigante tivesse pelo menos uma rede de wireless, o que, graças ao meu querido Deus, tinha. Em poucos minutos eu havia tirado meus coturnos e estava meio deitada, meio sentada na cama, esperando o Skype conectar. E então, de repente, eu pude ver os cabelos castanho escuros de Mia pela a imagem trêmula da webcam.
— O QUE VOCÊ FEZ? — Sua voz doce dizia pausadamente, de forma rouca, os cabelos meio bagunçados e sua expressão era completamente desvairada. Ela acha que eu matei alguém ou algo do gênero?
— O que você acha que eu fiz? — Perguntei com a sobrancelha esquerda arqueada, com medo de fazer a pergunta de outra forma e ela enlouquecer de vez. Imagina se eu digo para ela “Quem você acha que eu matei, dessa vez?”?
— Seu pai me disse que tinha mandado você pra uma escola em uma cidade perto de Jersey City, e que não era tão ruim porque era só atravessar o rio para estar em New York, mas não me disse por que você foi expulsa da escola e porque ele tirou você de Newark. Eu presumi que você fez algo muito, muito, muito ruim. ENTÃO O QUE CARALHOS VOCÊS FEZ? — Ela falou palavrão. Meu Deus, ainda bem que a gente tá bem longe uma da outra. Acho que se ela estivesse do meu lado, Mia já teria me esganado.
— Eu soquei a cara daquela garota que era a vice-líder das líderes de torcida, e que depois que você saiu virou a líder, até quebrar o nariz dela. Fui expulsa por isso. Foi num meio de um surto e meu pai achou que seria melhor se eu ficasse longe, perto de novas pessoas, ‘respirando novos ares’, como ele disse. Foi isso, se acalme porque eu não matei ninguém. Ainda —, finalizei olhando por cima do computador, para meu novo parceiro de quarto que estava deitado de bruços em sua cama, fingindo que não ouvia o que eu falava. Mas eu sei que ele ouvia.
— Você bateu na Paisley? A PAISLEY? — Mia dizia e eu via que suas mãos se balançavam no ar, mostrando toda sua agitação. — E te expulsaram por isso? Sinceramente, deviam ter te dado um prêmio! Quando eu for te visitar, em um mês, eu mesma levarei alguma coisa para te presentear por ter feito o que aquela escola inteira queria fazer há anos.
— Traga-me chocolates. E o nome dela é Paisley? Eu achei que fosse Tiffany — dei de ombros de forma teatral, mas eu realmente achava que o nome dela era outro.
— Vou ver se arranjo chocolate norueguês com o meu primo para você. — Ela sorriu, e sua perfeição me ofuscou mais um pouco. Começamos a conversar sobre coisas triviais.
Deixem-me explicar uma coisa: Mia é perfeita. Sério mesmo. Ela é baixinha — eu também não sou tão alta, mas isso não vem ao caso —, tem olhos verdes escuros, que às vezes parecem castanhos, cabelos naturalmente ondulados e na cor castanho escuro, como eu já mencionei antes. Diferentemente de mim, os traços dela são americanos, e os meus ingleses. Quando nós tínhamos cinco anos entramos na escola de balé e na aula de ginástica. E na escola que estudávamos em Newark ela era a capitã das líderes de torcida, e me obrigava a treinar as novas coreografias com ela, em casa, antes de mostrar tudo ao time.
— Então, como é a sua nova escola? Aliás, qual o nome dessa escola?
— Knot High School. É enorme, e eu só sei onde fica o meu quarto e a secretaria. E ah, imagine que coisa inovadora, eu tenho um colega de quarto! — Comentei de forma falsamente animada, batendo até palminhas. Há-há-há. Sinta minha alegria.
— Sério? Você, com um colega de quarto? Dou uma semana no máximo pro seu pai ir te buscar aí.
— Hey! — Na verdade, eu dava três dias, apenas, mas não vou dizer pra Mia que a única pessoa que eu suporto dividir um espaço pequeno além dos meus pais é ela. Ela iria ficar ainda mais convencida, então, não!
— Qual é, Gabe! Você tem que admitir que é mimada e que não vai aguentar dividir um quarto! — Ela disse enquanto balançava a cabeça negativamente, o que me fez rir.
— Eu sou mimada mesmo, não tenho porque esconder isso. Mas talvez eu aguente dividir o quarto, ué. Vou focar nos estudos e na leitura, e talvez não mate ninguém. — Esse era o plano. Sério. E eu sou mimada. Eu tenho tudo o que eu quero, na hora que eu quero. Quer dizer, quase. Só as coisas que passam pela aprovação dos meus pais, ok? Então, é, sou uma adolescente moderadamente mimada, que tem surtos psicológicos, mas não é depressiva e nem tem problemas com os pais. Que clichê menos clichê, né?
— Ou ninguém te mate. — Ela completou, rindo. Vadia. Que eu amo.
Eu ia dizer à ela que, se ela falasse com Patrick, era pra ele devolver logo a minha guitarra quando três elefantes invadiram o quarto. Bem, não os animais mesmo, mas três pessoas que eram piores e mais barulhentos que eles.
— Você tá num desfile de mamutes, por um acaso, Gabs? — Mia me perguntou franzindo o cenho, com um olhar estranho.
— Não, mas pelo que percebo estou em um zoológico. Na verdade, minto, no zoo os animais tem mais educação. — Respondi alto e da forma mais irônica que pude, fazendo com que os três lindos e enormes garotos se virassem na minha direção.
— Quem é você? — o loiro de olhos azuis me perguntou, uma expressão confusa estampada no rosto.
— O que você está fazendo aqui? — O de cabelos e olhos castanhos praticamente sorria para mim, aquele sorriso de flerte, sabe?
— Sou Gabe McNiven. Nova parceira de quarto do Jasper — respondi ao mesmo tempo em que o morto-vivo deitado na cama se sentava, me corrigindo.
— É Jazzzzzzper.
— Jaz, porque eu não tenho a sua sorte? — O garoto de cabelos castanhos claros e olhos verdes se pronunciou pela primeira vez. — Primeiro você não tem parceiro de quarto, e depois tem uma garota gostosa!
— O que você disse? — Jazper e eu perguntamos ao mesmo tempo.
— O que eu disse demais? — O garoto dos olhos verdes, lindo, maravilhoso, formoso, gostoso e etc., indagou.
— Você acha ela gostosa, Dave, sério? — Jazper perguntou e eu lancei meu pior olhar pra ele.
— Olha Dave, não responda a essa pergunta se você não quiser entrar na minha lista negra junto do seu amiguinho ali. — Apontei Jazper com a cabeça, voltando meus olhos para Mia e revirando-os, a fazendo rir.
— Não quero entrar pra sua lista negra depois de ouvir o que você fez com a garota na outra escola — Dave resmungou com um sorriso de canto.
— O que estão dizendo que eu fiz com ela?
— O que estão dizendo que ela fez com a Paisley? — Mia e eu perguntamos ao mesmo tempo, então eu baixei meu olhar para o notebook.
— Com licença, mas você está há quilômetros de distancia. O que isso te interessa? — Perguntei para ela com o cenho franzido e as pontas dos meus dedos indicadores unidas para ele ver que eu estava sendo irônica.
— Shiu, Gabe. Responde aí, Dave — ela disse com um sorriso de escárnio nos lábios, fazendo-me revirar os olhos novamente.
— Estão dizendo muitas coisas, uma delas é que você deixou essa tal de Paisley em coma.
— O QUE? Mas eu só quebrei o nariz dela! — Eu resmunguei/gritei indignada, sei lá porque me importando com o que os outros estavam pensando sobre mim. Nunca fiz isso, porque agora?
— Ah, cara, vamos embora, vai — Jazper disse abrindo a porta do quarto para os amigos dele saírem. Dave passou por mim e sorriu, e ele era tão fofo que eu acabei retribuindo.
— Sou Markus, à propósito — o garoto de olhos e cabelos castanhos disse, acenando antes de sair.
— E eu sou Peter — o loirinho, que tinha cara de ser o mais novo, terminou a comitiva, deixando só o meu querido parceiro de quarto para revirar os olhos para mim e bater a porta.
— Nossa, acho que alguém está de TPM hoje — Mia cantarolou assim que pode, fazendo-me rir.
— Também acho, esse garoto nem me conhece e já tem um problema comigo!
— Você também não conhece ele, e pelo que sei de você já deve ter pensando em mata-lo ao menos quinze vezes. — Ela disse com suavidade, fechando os olhos lentamente logo depois. — Gabe, tenho que ir ajudar a minha mãe. Hoje de noite eu te ligo, ok? E vê se me atende rápido! — Ela ralhou antes de desligar a chamada de vídeo.
Respirei fundo, fechando o notebook e colocando-o em cima da mesa de estudos que tinha ao lado da minha cama. Deitei-me lentamente e tentei raciocinar um pouco.
Eu estava sozinha. Bem, agora, literalmente, mas mesmo conversando com Mia e com aqueles quatro garotos dentro do quarto eu estava me sentindo sozinha. E eu odiava isso. Sabe quando você pode estar cercada de gente, mas ainda sim não faz diferença, porque dentro de você há algo como um buraco negro, sugando toda sua vontade de viver, de sonhar... É terrível, não é? Você começa a pensar se faria alguma diferença no mundo, se as pessoas sentiriam a sua falta e o porquê de estar viva, sendo que parece que ninguém liga ou gosta de você. É uma sensação aterrorizante.
É exatamente a mesma sensação que se tem quando você percebe que, de repente, já se passou um ano, e você não conseguiu fazer nada do que queria, e por mais que você seja jovem, a cada minuto que passa e você não faz nada, você está também mais próxima da sua morte.
São pensamentos nada agradáveis, esses meus. Mas fazer o que? Se eu não quisesse me sentir sozinha, teria que me enturmar, e isso não é algo que eu sei fazer. Normalmente as pessoas se mantem longe de mim porque eu sou uma McNiven. Sou rica e mimada, e ninguém quer realmente me conhecer, só quer bajular meu pai para conseguir uma parceria ou promoção de cargo. Eu não ligo para isso, sou antissocial o bastante para ser feliz com o isolamento. Mas pelo menos lá em Newark eu conhecia quem me isolava, né? Aqui nem isso.
As pessoas vão falar, vão me olhar, e com a minha paciência gigante eu vou acabar socando a cara de alguém.
E meu pai pensando que isso ia me ajudar. Errou feio, hein, meu velho.
Em casa pelo menos eu tinha o Spunk, meu cachorro. Eu tinha o canil no qual eu era voluntária, onde eu costumava passar todas as tardes, eu tinha as raras visitas de Patrick e o violão do meu pai, quando não queria tocar guitarra.
Aqui... Bem, eu tenho meus livros, comida e Jazper. Esse último provavelmente vai morrer em breve. Mas talvez eu possa me divertir com ele, não sei. Posso começar a provocá-lo, pequenas armações, da mesma forma que Mia e eu fazíamos com Patrick como éramos mais jovens.
É. Talvez isso torne minha sobrevivência nesse lugar mais feliz. Jogar com as outras pessoas, fazê-las pensar. Isso exige exercício cerebral, o que eu amo. E vai me render muitas risadas... Ah, to até imaginando.
Senti um sorriso se formar em meus lábios, mas mantive meus olhos fechados, pensando em quantas armadilhas seriam possíveis de serem montadas nesse quarto, onde eu provavelmente vou passar muito tempo sozinha, dado o fato de que Jazper tem uma vida social e eu não.
— Não abra os olhos — ouvi uma voz sussurrar perto do meu ouvido e uni as sobrancelhas, obedecendo. — Você é linda quando sorri — isso só me fez unir as sobrancelhas ainda mais. — Sou eu, Dave. Espero que concorde com uma coisa.
— O que? — perguntei para ele sem abrir os olhos, com medo dele ter se drogado ou algo assim. Eu hein, garoto simpático.
— Em sair comigo hoje de noite.